05/07/2007
Wieland Wagner
Até o final da Segunda Guerra Mundial, o xintoísmo
era a religião estatal no Japão. Até mesmo nos
dias de hoje, os peregrinos ainda freqüentam os 80 mil templos,
orando pela realização dos seus sonhos pessoais. A religião,
que não conta com textos sagrados, também venera as árvores,
as montanhas e as pedras.
No princípio era o arco-íris. Segundo
a narrativa xintoísta da criação, o casal divino
- Izanagi e Izanami - sentou-se sobre o arco-íris e mexeu o oceano
abaixo deles com uma lança ornada com pérolas. Quando
eles retiraram a lança desta mistura primordial, gotas de água
caíram sobre a Terra e criaram as ilhas do Japão.
O casal teve filhos, entre eles a deusa solar Amaterasu.
De acordo com a lenda, a linhagem da família imperial japonesa
pode ser traçada até essa deusa, fazendo do atual imperador
do Japão, Akihito, um descendente direto da divindade. O seu
pai, Hirohito (1901-1089), foi reverenciado como deus-imperador até
o final da Segunda Guerra Mundial.
A gênese mítica do povo japonês vem
sendo transmitida através das gerações em antigas
narrativas, tendo sido preservada em papel pelos governantes do Japão
do século oito quando o sistema chinês de escrita foi introduzido
no país. Não obstante, o xintoísmo - que significa
literalmente "o caminho dos deuses" - não conta com
escrituras sagradas ou ensinamentos formais. Não existem os conceitos
de pecado original ou salvação. O foco do xintoísmo
é a vida na terra e a singularidade do povo japonês.
O Japão tem cerca de 80 mil templos xintoístas,
incluindo o templo Hiraoka Hachimangu na antiga cidade imperial de Kyoto.
A cada outono os seguidores comemoram o festival matsuri, em homenagem
aos deuses. O nome é uma indicação do caráter
oficial dos primeiros desses festivais - o termo japonês matsurigoto
também denota assuntos governamentais. No passado, a classe política
e o culto xintoísta japoneses estavam estreitamente entrelaçados,
sendo que os anciões que chefiavam os clãs eram ao mesmo
tempo sumo-sacerdotes a serviço das divindades.
O sacerdote Shusuke Sasaki (50) entra sozinho nos recônditos
mais profundos do santuário. Na estrutura de madeira de cumeeira
pontuda, os fiéis escutam o cântico monótono em
japonês antigo, uma língua que atualmente pouquíssima
gente entende. As entonações variam de um templo para
outro. Mas, como as orações foram passadas de geração
a geração, os monges falam exatamente como os seus ancestrais.
A compreensão dessas palavras não é
algo crucial. No Japão os sacerdotes não pregam punições
com fogo ou enxofre, e tampouco exigem que as congregações
se arrependam por suas vidas de pecado. Os monges são simplesmente
um meio para que se rogue benevolência aos deuses. Entre os deuses
reverenciados - cada templo presta homenagem à sua própria
divindade -, o monge Sasaki naturalmente inclui o tenno, o imperador.
Mas ele também invoca os elementos naturais, tais como a camélia,
que traz boa sorte. Assim como as religiões primitivas baseadas
na natureza, o xintoísmo venera as árvores, os animais,
as pedras e as montanhas - incluindo o Monte Fuji, o pico mais alto
do Japão. O "caminho dos deuses" não conduz
os japoneses para um mundo após a morte; em vez disso guia-os
no decorrer das suas vidas na Terra. O objetivo é viver em harmonia
com a natureza e limpar a alma com o auxílio da natureza. Por
esse motivo, o ritual no templo Hiraoka Hachimangu lembra uma festa.
O vinho sagrado de arroz flui e gargalhadas estrondosas ressoam. E ninguém
se importa se o monge fumar entre uma cerimônia e outra.
O principal festival tem início depois que o
sacerdote deixa o santuário. Se o tempo estiver bom, uma liteira
ornamentada com ouro, a residência da divindade, é carregada
para fora do templo. Em termos simbólicos, a divindade está
se misturando com o povo. Neste ano, choveu. Mas isso não foi
por si uma tragédia. Foi apenas o que a natureza sempre teve
em mente. Os percussionistas simplesmente fizeram ressoar os seus tambores
taiko com mais entusiasmo, lançando um ruidoso convite aos espíritos
do bem.
A seguir foi a vez dos torneios de sumô, um evento
que sempre agrada as multidões. As origens xintoístas
do sumô ainda são visíveis em Tóquio, onde
a principal arena possui um telhado como o de um templo. No templo Hiraoka
Hachimangu, em Kyoto, jovens semi-nus lutam no ringue; um círculo
de areia consagrado. Mas estas justas não são de fato
competitivas. Os lutadores estão executando uma dança
para os deuses.
Os festivais como o de Hiraoka Hachimangu ocorrem em
todo o Japão. Os japoneses têm matsuris para todas as estações
e ocasiões. Os festivais modelam as suas rotinas e estados de
espírito. Durante essas comemorações, o país
altamente urbanizado e repleto de sofisticada tecnologia redescobre
as suas raízes antigas. A segunda maior nação industrial
do mundo de repente volta a ser um conjunto vasto de comunidades de
vilas ancoradas nos templos xintoístas.
O xintoísmo também é único
de outras formas. Quando lhes perguntam que religião professam,
poucos japoneses se arriscam a afirmar que são exclusivamente
xintoístas. Para a maioria deles, "o caminho dos deuses"
é uma tradição, e não uma fé. Eles
mantém essa tradição apaixonadamente, mas não
sentem necessidade de transformá-la em uma religião. Os
pais xintoístas levam os filhos a um templo e oram pela boa saúde
das crianças: os filhos aos cinco anos, e as filhas aos três
e aos sete.
E os mesmos japoneses que mantêm as tradições
xintoístas tão fervorosamente são capazes de se
casar em uma cerimônia cristã ou de enterrar os seus mortos
de acordo com os rituais budistas. Como os japoneses professam várias
religiões ao mesmo tempo, o número de fiéis supera
a população total em termos estatísticos.
Esse pragmatismo histórico possui raízes
históricas. Assim que o budismo migrou para o Japão, vindo
da China e da Coréia no século seis, ambas as tradições
coexistiam lado a lado. Pequenos santuários xintoístas
ainda podem ser encontrados hoje em dia ao lado dos templos budistas.
Durante certos períodos os governantes japoneses fizeram do budismo
a religião estatal, especialmente no século seis, quando
o Japão reorganizou o seu governo e a sua administração
segundo o modelo chinês.
Além do budismo, a nação foi influenciada
por uma outra religião chinesa, o confucionismo. Os xoguns, os
líderes militares do Japão, baseavam o seu poder nos tradicionais
valores confucianos da lealdade e da obediência. Eles chegaram
ao poder em Edo, a atual Tóquio, no século 17. O imperador
morava na remota cidade de Kyoto. O se papel se limitava a confirmar
o novo líder.
Em meados do século 19, o Japão abriu-se
para o Ocidente, e o xintoísmo foi transformado em um culto nacional.
Durante a Restauração Meiji, de 1868, guerreiros defensores
de reformas derrubaram o xogun e colocaram no poder o deus-imperador
Meiji (1852-1912) na sua posição legal de soberano. Eles
introduziram métodos ocidentais que modernizaram o país.
Mas esses indivíduos utilizaram os mitos xintoístas para
consolidar o regime imperial.
Durante um curto período, o budismo foi considerado
um "produto importado", sendo, conseqüentemente, reprimido.
O novo governo colocou os templos xintoístas sob a supervisão
do Estado e transformou os sacerdotes em funcionários públicos.
Os japoneses tinham que prestar homenagem ao imperador divino, e não
a conjuntos de divindades locais, Na escola, as crianças oravam
para o retrato do tenno. E nas guerras subseqüentes, os heróicos
soldados imperiais encararam a morte gritando "Tenno banzai"
- "10 mil vidas para o tenno".
Em 1869, o exército e a marinha japoneses construíram
o templo Yasukuni, em Tóquio. Nesse santuário os guerreiros
são reverenciados como divindades xintoístas que sacrificaram
as suas vidas pelo tenno. Um portão imponente, construído
em aço, em vez de em madeira tradicional, domina a entrada -
simbolizando a perversão do suave "caminho dos deus",
que tornou-se uma ideologia marcial durante o período Meiji.
Depois da derrota do Japão na Segunda Guerra
Mundial, o templo Yasukuni foi transformado em uma instituição
religiosa privada. Mas ele preservou o seu caráter militar: apesar
de terem sido executados em 1948, os criminosos de guerra do Japão
são reverenciados como deuses xintoístas. Os políticos,
incluindo até mesmo o primeiro-ministro Junichiro Koizumi, fazem
peregrinações até o templo, gerando protestos dos
vizinhos do Japão.
A capitulação após a Segunda Guerra
Mundial também marcou o fim de uma era para a monarquia japonesa.
Sob pressão do vitorioso Estados Unidos, o imperador Hirohito
renunciou explicitamente à sua divindade em 1946. A constituição
de pós-guerra - que foi de fato ditada pelos ocupantes norte-americanos
- mantém a separação entre religião e Estado.
Oficialmente o imperador é visto como um símbolo tanto
do Estado quando da unidade do povo japonês.
No seu palácio em Tóquio, o tenno ainda
atua como o mais graduado sacerdote xintoísta do Japão.
De acordo com a tradição, ele planta arroz no jardim do
seu palácio e manda regularmente enviados para os maiores templos
do país.
Como parte da insígnia imperial - composta do
espelho, da espada e das jóias sagrados -, o espelho fica no
templo Ise, na municipalidade de Mie. O templo é dedicado à
deusa solar. Um membro da família imperial atua como sumo-sacerdote.
Os primeiros-ministros japoneses tradicionalmente visitam esse santuário
xintoísta no início do ano.
O tenno reafirmou a sua linhagem a partir da deusa solar
na sua coroação em 1990, embora o papel que desempenhou
no ritual não tenha sido exibido publicamente. O imperador passou
várias horas sozinho dentro de dois salões de madeira
especialmente construídos, oferecendo vinho de arroz e pratos
santificados ao seu ancestral primordial. Cada salão é
dotado de uma cama, na qual - segundo a tradição - o tenno
se relaciona com a divindade solar, e renasce nesse processo.
Se os patriotas que lideram o governista Partido Liberal-Democrata
tiverem a supremacia, o xintoísmo será ainda mais fortemente
privilegiado a fim de conter o declínio da moralidade tradicional
na moderna sociedade japonesa.
"O Japão é um país de
deuses, que tem o tenno no seu centro", declarou em 2000
o primeiro-ministro Yoshiro Mori.
À época, o seu comentário gerou
protestos. Mas, hoje em dia, os pedidos para que se incluam os mitos
xintoístas nos textos escolares, promovendo dessa forma a lealdade
nacional, têm obtido cada vez mais aprovação.
Apesar desse caráter nacionalista, para muitos
japoneses o xintoísmo pouco tem a ver com política. Esses
japoneses estão mais interessados em preservar as suas tradições.
Durante os feriados do Ano Novo, milhões de pessoas de todas
as idades visitam os templos xintoístas para pedir a proteção
dos deuses. Os visitantes oram por por si próprios, por suas
famílias e até mesmo pelas companhias para as quais trabalham.
Um grupo inteiro de trabalhadores pode comparecer junto para orar por
bons negócios e altos lucros. Em um ritual simples, eles balançam
uma corda dotada de pequenos sinos e jogam as suas esmolas em uma caixa
de madeira para oferendas.
Existem espíritos xintoístas para todos
os desejos e males. Muito próximo da Bolsa de Valores de Tóquio,
o tempo Kabuto atrai investidores e acionistas que oram pelos bons preços
das ações. O templo Kitano Tenmangu, em Kyoto, é
o preferido dos estudantes e seus parentes, que desejam boas notas e
ingresso nas melhores universidades.
O templo Togo, em Tóquio, também é
muito popular. O santuário, que atrai japoneses que buscam alívio
para todos os tipos de problemas, fica no meio do distrito da moda,
o Harakaju, freqüentado pela juventude da cidade.
Muitos jovens pintam o cabelo de amarelo brilhante ou
de vermelho radiante, e usam roupas bizarras, como se fossem pessoas
que vão a uma festa de Halloween. Poucos parecem dar a mínima
para a tradição. O patrono do templo é Heihachiro
Togo (1847-1934), um almirante lendário que comandou a marinha
imperial no Estreito de Tsushima, em 1905, onde destruiu a frota russa
do báltico e acabou de fato com o império tzarista.
Os jovens japoneses em Harajuku pouco sabem sobre a
História, e tampouco se preocupam com ela. Mas eles ainda freqüentam
o templo em multidões. Para eles, Togo é um ancestral
que virou deus e que fará com que os seus sonhos mais seculares,
na verdade até carnais, se tornem realidade. Assim sendo eles
compram pequenas tábuas de oração que trazem a
imagem do almirante barbudo, entalham os seus desejos nelas, e as penduram.
Depois disso, postam-se de pé defronte ao templo, fazem duas
mesuras, batem palmas duas vezes e fazem mais uma mesura. Eles estão
seguindo o chamado da tradição, da mesma forma que gerações
de japoneses fizeram antes deles.
Fonte : Der Spiegel
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