07/04/2007
Erich Wiedemann
De cima, Lalibela parece uma aldeia como outra qualquer.
Um oceano de barracos de ferro corrugado, cobertos por finas colunas
de fumaça que condensam em uma névoa azulada no platô
pedregoso. É uma cena comum na Etiópia.
Lalibela, entretanto, não é apenas uma
aldeia. É a capital dos cristãos da Etiópia, seu
"lugar sagrado", sua "maravilha do mundo". E em
nenhuma outra parte isso fica mais claro do que em Bet Gyiorgis, Igreja
de São Jorge. A estrutura monumental - escavada nas rochas no
limite ocidental da cidade - tem cerca de 800 anos de idade. Construída
na forma de cruz, é cercada por um fosso seco que ajuda a separá-la
das 10 outras igrejas nas pedras, todas interconectadas por túneis
subterrâneos.
O interior é uma penumbra iluminada por lamparinas
de gordura de boi. Um pouco de luz do dia penetra pelas janelas estreitas.
O cheiro de incenso perfuma o ar. Homens idosos e barbados, de túnicas
brancas, sentam-se ao longo das paredes, lendo bíblias escritas
à mão.
Um murmúrio religioso ressoa pela igreja, suavemente
pontuado por música de harpa tocada por um menino em uma "bagana"
- instrumento de cordas e madeira, decorado com placas de bronze brilhantes.
Cerca de 40% dos 68 milhões de etíopes
são cristãos ortodoxos. Sua fé e tradições
remontam a 1.600 anos atrás. De acordo com a lenda, sua Igreja
foi estabelecida como conseqüência não intencional
de um seqüestro. Dois cristãos chamados Frumentios e Aidesios
- ambos moradores do Tiro - foram acostados no Mar Vermelho e levados
para Aksum, capital da Etiópia na época. Cultos, logo
se estabeleceram como tutores privados da família real. Eles
não só ensinaram matemática e grego aos filhos
do rei, mas também passaram os fundamentos de sua fé cristã.
Contemporâneo de Gêngis Khan
Obviamente, os cristãos foram persuasivos. Em
meados do século 4, o rei Ezana decidiu se batizar. Poucos anos
depois, o cristianismo foi proclamado religião nacional. Apesar
disso, a Igreja Ortodoxa Etíope foi comandada durante séculos
por um metropolitano nomeado pelo patriarca cóptico da Alexandria.
Foi apenas no meio do século passado que a igreja etíope
tornou-se autônoma e nomeou seu próprio patriarca em Addis
Ababa. Agora estão sob sua égide as 17 eparquias na Etiópia
e bispados em Núbia e Jerusalém.
As igrejas em Lalibela foram construídas por
um rei do mesmo nome - contemporâneo de Gêngis Khan e Barbarossa.
Ele queria criar uma nova Jerusalém, que Saladim reclamara dos
cruzados em 1187. Com acesso negado à Terra Santa, peregrinos
da Etiópia e dos pequenos Estados cristãos junto ao Nilo
poderiam fazer suas adorações ali. O riacho que atravessa
a cidade foi chamado de Jordão, e o morro acima de Monte Tabor.
Por séculos, as conquistas islâmicas em
regiões vizinhas isolaram a Etiópia do mundo cristão.
Ainda assim, sua herança cristã -as preces, hinos e linguagem
litúrgica Ge'ez - foi preservada pelos séculos.
A glória da Eucaristia Ortodoxa é tangível
nas igrejas de Lalibela, acima de tudo durante o festival de Timkat,
que comemora o batismo de Cristo no Jordão. Nas vésperas
do evento, procissões subterrâneas passam pelas igrejas,
acompanhadas pelo soar de sinos e cornetas. Padres e diáconos
vestidos de veludo escuro decorados lideram o caminho. Sobre suas cabeças,
levam os "tabots", tabletes de madeira simbolizando a Arca
da Aliança.
As peças são colocadas em uma grande tenda,
fora da qual os fiéis congregam, esperando a noite toda para
compartilhar os poderes sagrados que acreditam estar investidos nos
"tabots".
O ritual não é menos solene ou impressionante
do que a unção de um cardeal no Vaticano. O padre estabelece
uma cadência com seu bastão poderoso e canta: "Kyrie
eleison". Os fiéis descem ao chão 30, 40 ou até
50 vezes.
Entretanto, essas tradições antigas e
seu cumprimento forçado pela igreja são parcialmente culpados
pelo mergulho da Etiópia em terrível pobreza nos últimos
50 anos. Como pode um país se sustentar se o povo só pode
arar os campos uma vez a cada dois dias?
Costumes judeus adotados
O calendário ortodoxo lista mais de 150 feriados
e 180 dias de jejum, nos quais os cristãos não podem trabalhar
e só podem comer uma refeição. Os feriados muçulmanos
- cerca de 45% da população- comem ainda mais a semana
de trabalho. E o sabá ainda é celebrado em zonas rurais
- uma relíquia da dinastia salomônica que dominou a Etiópia
no século 13 e adotou inúmeros costumes judeus.
O clero em Addis Ababa, capital do país desde
o fim do século 19, talvez esteja perdendo lentamente sua autoridade,
mas os padres nas terras altas celebram os feriados com punho de ferro.
A punição segue inexoravelmente quem não os cumpre.
Sem mencionar a perspectiva de acabar no inferno.
Além disso, a igreja ainda define o calendário.
O ano etíope tem 12 meses de 30 dias, com cinco ou seis dias
adicionais. O patriarcado recusa-se a permitir mudanças. O governo
procurou adotar o calendário ocidental moderno em diversas ocasiões,
sempre frustrado pelo clero. Na prática, a separação
entre a igreja e o Estado ainda tem que ser implementada.
O cristianismo também é responsável
por outro fenômeno na Etiópia: arrogância racial.
Vendo sua fé como superior às religiões naturais
da África, cristãos ortodoxos consideram-se o povo escolhido.
Em suas mentes, o retrato -as ilustrações dos livros sagrados-
de pessoas de pele mais clara como governantes da Terra Prometida e
os negros como seus serviçais é evidência da vontade
de Deus.
Civilização de estilo mediterrâneo
Apesar da sede da Organização pela União
Africana ter sido em Addis Ababa por décadas e a União
Africana estar baseada ali, os etíopes não se vêem
como africanos. De acordo com o etnólogo do Munique Walter Raunig,
a Etiópia é um dos "últimos postos ao Sul
da civilização de estilo mediterrâneo".
Os rastafáris de Shashemene, pequena cidade a
240 km ao Sul da capital escaparam dessa discriminação;
apesar de sua cor, eles têm todo respeito dos cristãos.
Os rastafáris estabeleceram sua colônia nos anos 60, e
depois alguns membros entraram para a comunidade cristã ortodoxa
da Etiópia. Seu nome deriva-se do nome de nascença do
imperador etíope Haile Selassie: Ras Tafari Makonnen. Eles o
reverenciavam como reencarnação de Jesus Cristo.
No início de 2005, Rita Marley, viúva
do lendário astro do reggae Bob Marley, anunciou que ia transferir
o corpo de seu marido da Jamaica para Shashemene no 60º aniversário
de seu nascimento. Mas ela foi forçada a abandonar seus planos:
a Jamaica recusou-se a liberar os restos mortais de seu herói
nacional.
Ainda assim, o espírito do cantor esteve
entre eles em seu 60º aniversário, de acordo com os rastafáris
etíopes. No dia 6 de fevereiro de 2005, "Buffalo Soldier"
de Marley era ouvido nas ruas de Shashemene: "Roubado da África,
trazido para a América, lutando ao chegar, lutando para sobreviver
- Woy yoy yoy!"
Fonte : Der Spiegel
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