03/04/2007
Um trabalho invisível para muitos, mas vital
para um sem-número de pessoas em regiões marcadas por
tragédias.
O cirurgião plástico
Alexandre Charão é um entre tantos anônimos que
voluntariamente se dispõem a engrossar o contingente de profissionais
que prestam ajuda humanitária em ambientes marcados por guerras,
conflitos ou catástrofes naturais. Dois dos seus 33 anos foram
dedicados ao trabalho desenvolvido pela organização Médicos
Sem Fronteiras (MSF) com esse universo de quase-esquecidos.
Na Libéria pós-guerra civil, no Paquistão sacudido
por um terremoto, na Indonésia afogada pela tsunami. Ao todo,
dez missões em oito países. Repletos de vítimas
também anônimas de tragédias que se repetem.

Charão, em entrevista à equipe da
Rets, no Rio
Mas a vida segue. De volta ao Brasil, Charão
retoma a vida normal e faz planos: o consultório em São
Paulo, o atendimento gratuito num hospital público, um possível
livro sobre essa experiência que deixa marcas profundas. E sonha
dar continuidade, agora em seu país, à medicina humanitária
e filantrópica. "Sempre gostei de trabalho voluntário,
de levar a medicina a quem precisa mais, sem ter de ficar perguntando
se tem convênio ou não", diz.
Foi um pouco dessa história, com reflexões
marcadas pela sobriedade e pelo realismo, que ele contou à Rets
em sua passagem pelo Rio de Janeiro, horas depois de ter recebido, no
dia 21 de março, o prêmio Faz Diferença, oferecido
anualmente pelo jornal O Globo.
Rets – Como é que você chegou
até os Médicos sem Fronteiras?
Alexandre Charão –
Tinha visto uma reportagem, lá por 1994, quando ainda estava
na faculdade, e guardei aquilo na cabeça. Achava que um dia trabalharia
com eles, mas queria me formar, fazer minha especialização
primeiro. E assim que acabei, em 2004, fui bater nas porta deles: “Quero
trabalhar com vocês”.
Rets – O que leva uma pessoa comum a sair
do seu país e ir para uma região de conflito, um lugar
de onde as pessoas normalmente estão saindo?
Alexandre Charão –
Eu gosto de operar, é a minha profissão. E sempre gostei
de viajar, já tinha trabalhado em lugares isolados do Brasil.
Assim que acabei a faculdade, antes de fazer especialização,
fui para o interior do Mato Grosso. Sempre gostei de trabalho voluntário,
de levar a medicina a quem precisa mais, sem ter de ficar perguntando
se tem convênio ou não.
Rets – O seu contato foi com o MSF França...
Alexandre Charão –
Foi, mas o escritório aqui [no Brasil] é MSF Bélgica.
Então os novos brasileiros estão sendo chamados pelo MSF
Bélgica. A França tem muito mais missão cirúrgica.
Hoje em dia são 15, a Bélgica deve ter três ou quatro.
Pra um cirurgião ou pra um anestesista, a França oferece
mais escolhas. Se bem que eu nunca escolhi, não. Eles ofereciam
algum país... “Estamos precisando de gente no Burundi,
você quer ir? Quero!”. Nunca disse "não".
Você tem direito de dizer "não", aí então
eles te oferecem outra missão.
Rets – E como é a mecânica?
Vocês voltam à base na França entre uma missão
e outra, ficavam trabalhando lá?
Alexandre Charão –
Na França eu tinha visto apenas de turista, não poderia
trabalhar lá. Eu trabalhava um pouco dentro na sede em Paris,
mas dentro do MSF, em alguma coisa vinculada à minha missão.
Você traz do terreno alguma coisa do que está acontecendo.
Por exemplo: não estamos conseguindo operar porque tem muita
perna quebrada e falta fixador externo, que a gente não tem,
então precisa melhorar esse atendimento lá. Essa resposta
do terreno é importante pra eles.
Ficava pouco tempo por lá, acho que o máximo
de uma só vez foi de dez dias. E era o tempo de eles fazerem
os briefings [informes] da próxima missão. Não
é pegar a pessoa e dizer: “Você vai ficar um mês
lá e pronto!”. Eles dizem qual é o país,
como é o país, a população, quem governa,
se é uma ditadura, como é o sistema de saúde...
você tem de saber onde você está se metendo. E o
MSF tem pessoas muito sábias na parte de geopolítica.
Nesses dois anos de trabalho, também vim ao Brasil
algumas vezes, até porque cansava, eu era o único cirurgião
nas missões de que participei. Lembro que na Libéria eram
210 cirurgias por mês, trabalhando todos os dias. Eram baleados,
apendicite, queimados, muita infecção de perna, muita
cirurgia em criança... e doenças como a febre tifóide,
que já foram erradicadas na maior parte do planeta, mas existem
lá. Coisa que eu conhecia apenas de livro. Quando atendi o primeiro
caso, no Burundi, não parecia com nada que eu conhecia. Aí
o enfermeiro falou: “Acho que é febre tifóide”.
Eu perguntei: “Isso ainda tem aqui?”. Ele disse: “Tem,
doutor, tem muito”.
Rets – Alguma missão foi mais marcante?
A Libéria, por exemplo, você esteve lá durante a
guerra civil?
Alexandre Charão –
Não, cheguei depois. A guerra acabou em 2003, cheguei lá
em 2005. Mas estava tudo destruído. Monróvia é
uma cidade enorme, com dois milhões de habitantes, e não
tem luz elétrica. Quem pode compra um gerador.
Mas todas as missões foram marcantes. Cada uma
tinha a desgraça daquele país e, por outro lado, um povo
sempre muito hospitaleiro, apesar de tudo. São muito pobres,
muito miseráveis, mas sempre muito alegres. Pessoas que não
têm nada, mas vão compartilhar comida, o chá...
Na Indonésia, por exemplo, a gente ouviu e viu
muitas histórias tristes de pessoas que perderam tudo: bens materiais
e família. Teve o caso de uma criança que morava num vilarejo
que foi arrasado. E ela tinha ido ao médico numa cidade grande,
a avó levou. Quando voltaram, não tinha mais nada, só
sobraram a avó e ela. E o resto da comunidade acabou adotando
a criança. Eles são muito unidos, muito solidários.
O país ainda sofre enormemente, o sal que se depositou nos campos
diminiu a produtividade de arroz e de outras plantações,
mas eles estão lá, batalhando de sol a sol. Colocam aqueles
chapéus enormes e saem cedinho. A gente indo pro hospital e eles
saindo pra trabalhar. É um povo bem perseverante. Não
só no trabalho, mas na dor, na tragédia.
E a religião ajuda muito a população,
tem um papel predominante, tanto para os muçulmanos quanto para
os budistas. O Islã dita algumas regras e condutas de vida. Ser
hospitaleiro também faz parte, pois o Islã foi fundado
em áreas muito secas, desérticas, então todo mundo
que chegava numa caravana deveria ser bem acolhido. E eles continuam
com isso.
Rets – Ao mesmo tempo, existe o problema
das diferenças culturais. As mulheres muçulmanas, por
exemplo, não devem ser vistas sem roupa, mesmo numa sala de cirurgia.
Como é que vocês lidavam com essa situação?
Houve algum caso em que isso inviabilizou o atendimento?
Alexandre Charão –
A gente tem de ser bastante flexível, não deixa de atender.
Colocamos dentro da sala mais duas enfermeiras locais que falem a língua
e expliquem. Com os médicos, elas sabem que têm de fazer
assim. Se tiver um ferimento na perna, o médico vai ter de ver,
então não se importam muito, não. Ou então
algo assim: eu saía, as enfermeiras preparavam o que a gente
chama de campos operatórios, uns panos assim. Aí cobriam
a paciente e deixavam apenas o curativo exposto.
Na Indonésia, a gente estava na parte norte da
ilha de Sumatra, onde a população fala um idioma local.
Então havia a peculiaridade de a gente falar com a tradutora,
que passava do inglês pro indonésio. Daí outra tradutora
passava do indonésio pro dialeto. Então se conseguia uma
anamnese pobre, muitas vezes a resposta não era precisa. Eu perguntava:
“Há quanto tempo a senhora tem isso?”. Ela dizia:
“Ah, desde que meu filho mais velho nasceu”. “Mas
quantos anos tem seu filho mais velho?”. E isso com duas tradutoras,
na pergunta e na resposta.
Rets – E pra montar uma estrutura, manter
a assepsia em um lugar desses, como se faz?
Alexandre Charão –
Geralmente a gente reabilita, reforma ou aumenta hospitais do governo.
Na Indonésia a gente pegou um posto de saúde e transformou
num hospital pequeno. Ou usamos hospitais em barracas, como foi no Paquistão.
Na Jordânia, durante instalação
de hospital para atender os vizinhos iraquianos
Na Jordânia (foto) a gente contou com o apoio
do Crescente Vermelho jordaniano, então tínhamos um hospital
bom. Mas, normalmente, Médicos sem Fronteiras importa tudo que
precisa: bisturi, anestésico, gerador, autoclave para esterilizar...
é muito difícil comprar nos mercados locais, poucos países
têm isso, por isso a gente importa. Tem uma logística enorme,
um centro de logística na França, em Bordeaux. Quando
é urgente, vai de avião; quando não é, vai
de navio. Na Indonésia, 48 horas depois do tsunami, já
havia provisões, mantimentos enviados por MSF.
Rets – Você chegou a estar em algum
lugar durante um conflito?
Alexandre Charão –
Alguns voluntários morreram, mas tive muita sorte, nunca peguei
nenhum conflito aberto. No Chade, onde fiquei durante um mês,
havia uma guerrilha, e do hospital nós ouvíamos os tiros
ao longe. Aí, conforme a situação de segurança,
a gente parava tudo e ia para um ponto central do hospital, pra não
ser atingido por nenhum tiro que atravessasse as paredes.
No Burundi a gente pegava muitos baleados, mas eu não
via os tiros. Quando fui embora, a situação piorou. Teve
tiros e bombas muito próximo da casa dos MSF.
Fui parado algumas vezes na estrada por milícias
ou exércitos. Na Costa do Marfim o governo é muito xenofóbico.
Quando a gente era parado por tropas de governo, era ruim. Era melhor
ser parado pelos rebeldes do que pelo governo. Chegaram a recolher minha
máquina fotográfica e me pediram cem dólares. Eu
falei: “Pra cima de mim, brasileiro?”. Eu disse que não
tinha dinheiro, que tinha acabado de chegar, que vinha pra ajudar...
ele baixou pra 50 dólares. Falei: “Mas acabei de chegar,
estou indo direto pro hospital, sou médico, não tenho
nada...”. E ele: “Então deixa duas cervejas”.
Ele acabou liberando, só que na hora em que a gente ia pro carro
começou a juntar uma população bem hostil.
Rets – Hostil a você?
Alexandre Charão
– Aos brancos. Eles são xenofóbicos, e o governo
estimula isso. Depois você começa a ler nas entrelinhas
e ver na geopolítica o que está por trás disso.
A Costa do Marfim é o maior produtor mundial de cacau. As grandes
propriedades estão nas mãos dos franceses. E o governo
diz que eles não prestam, que precisam sair do país. Óbvio:
eles saem e o governo assume as propriedades.
As pessoas viram o carro com identificação
em francês, com gente branca... acharam que éramos franceses.
Aí começa a falar que é brasileiro, e lá
no fundo da África eles conhecem Ronaldinho, Ronaldo... às
vezes em lugar que não tem nem televisão, mas sabem quem
é. O futebol é o maior produto de exportação
brasileiro.
Rets – O sentimento de impotência
é uma constante nesse tipo de trabalho?
Alexandre Charão –
Não é constante. Quando você pegas alguns casos
muito complicados, em que você sabe que a pessoa vai morrer, e
acontece de esses casos virem juntos, dois, três, aí bate
um sentimento de impotência. Aconteceu várias vezes. Uma
vez, na Costa do Marfim, chegou uma mãe com um filho pequeno,
de um ano ou menos, os dois muito queimados. Não adiantava fazer
nada, fiquei meio paralisado. O anestesista percebeu que a única
coisa a fazer pra dar um pouco de dignidade era dar morfina, pra eles
morrerem sem dor. Passou 40 minutos e os dois morreram. Nesse dia eu
pensei: "caramba, não agüento mais, quero voltar pro
Brasil". Mas horas depois, ou no dia seguinte, você recebe
outro paciente e diz: "vamos lá, vamos operar!"
Rets – Na África acontecem muitos
casos de queimaduras, não é?
Alexandre Charão
– A maioria dos lugares não tem energia elétrica,
então eles usam fogo pra tudo: pra iluminar, cozinhar, aquecer...
e têm um monte de crianças. A média é de
6,6 crianças por mulher. Então fica a criançada
correndo pelos cantos. A mãe trabalha, por isso não dá
conta de todo mundo. E às vezes acontece algum acidente.
De vez em quando aparece esse sentimento de impotência,
sim. Por isso acho que também não dá pra fazer
durante muito tempo esse trabalho. Fiquei dois anos. Bem no começo,
no Burundi, eu pensava: “Que legal! Vou fazer isso a vida toda!”.
Aí depois você pensa: "não dá, é
muito sofrimento". Mas posso voltar lá, uma vez por ano,
tirar um mês pra isso. Agora não dá, porque estou
fazendo mestrado e tenho o consultório em São Paulo. Voltei
para as próteses e a lipoaspiração, essa parte
estética da cirurgia.
Rets – E como você vê o contraste
entre essas duas realidades?
Alexandre Charão –
Acho que se complementam. Gosto das duas coisas. Quem faz muita cirurgia
reparadora acaba melhorando sua habilidade na cirurgia estética.
Foi ótimo esse período todo, não vejo nenhum nonsense.
Se complementam. Minha profissão é essa: cirurgião
plástico. Seja na África ou no consultório. Estou
fazendo aquilo que mais gosto de fazer, que é operar.
Rets – Mas você não teme
que isso te faça esquecer um pouco dessa perspectiva que adquiriu
lá?
Alexandre Charão
– Não. É uma experiência tão forte
que eu nunca vou esquecer e pretendo continuar esse trabalho aqui no
Brasil. Aprendi muita coisa de logística e administração
e tem muitas pessoas que querem fazer alguma coisa no Brasil, mas não
sabem como. Há várias ONGs tentando preencher esse vácuo.
Já estou atendendo em hospital público, aqui em São
Paulo, mas depois pretendo continuar na medicina humanitária
ou filantrópica. Abrir, quem sabe, meu consultório uma
vez por semana para quem precisa.
Então não vou esquecer isso tudo. Pretendo
um dia publicar um livro sobre essa experiência, talvez junto
com um anestesista que trabalhou em algumas missões comigo, o
Otávio Omati.
Rets – A gente sabe que a organização
MSF mantém uma postura neutra. Mas houve algum momento em que
você tenha desejado tomar partido em uma situação?
E como é que você lidou com isso?
Alexandre Charão
– O que a gente faz, além de levar a medicina, é
protestar contra determinadas situações, o que é
diferente de tomar partido ou escolher um lado, isso a gente nunca faz,
embora algumas pessoas tentem manipular a organização.
O MSF foi fundado por médicos e jornalistas, em 1971, após
a guerra em Biafra, que é uma província na Nigéria.
A grande crítica que os fundadores tinham era que a ajuda internacional
era muda, calada, levava mantimentos, mas não fazia nada. Então
esses médicos e jornalistas se uniram para protestar também,
e não apenas levar a medicina. Só que isso não
significa tomar partido. Claro que, pessoalmente, acho horrível
o que os americanos estão fazendo no Iraque. Eu atendia iraquianos
na Jordânia e eles falavam como era. Mas é minha opinião
pessoal, não como membro do MSF.
Minha revolta maior, no caso do Iraque, é que
a mídia acaba, mal ou bem, seguindo essa tendência de associar
muçulmanos a terrorismo. E não é nada disso! O
muçulmano é superbacana, tolerante, mas ninguém
acredita nisso. Há uma minoria que é radical, como houve
os católicos e protestantes na Irlanda, há dez, 20 anos.
A imagem que se criou é ridícula, e dá uma pena
danada ver que a mídia segue essa tendência.
Rets – É possível fazer
um paralelo entre a realidade brasileira e a realidade nesses países
africanos e asiáticos?
Alexandre Charão
– Muito do que se vive lá a gente está vivendo aqui.
Tiroteio, violência contra a mulher, estupro, os baleados que
eu atendia no Miguel Couto [hospital municipal no Rio de Janeiro]. O
médico europeu não está acostumado a ver baleado,
mas infelizmente eu tive uma boa escola.
Rets – Que lembrança foi mais marcante
e que lição você tirou dessa experiência?
Alexandre Charão
– Eu não conseguiria escolher entre um país e outro,
voltaria a todos. Mas a Indonésia me surpreendeu pela presença
de várias religiões em paz. Visitei um templo budista,
o segundo maior do mundo. Havia muitos turistas ocidentais e muitos
muçulmanos da própria Indonésia. As mulheres de
véu andando pelo templo budista em paz, em respeito... ninguém
agredindo ninguém, a pessoa vai lá e vê as esculturas,
vê Shiva, Ganesh... tudo normal, como deveria ser. No entanto,
difunde-se essa imagem falsa de que muçulmano é agressivo,
é terrorista. Mas os outros países também foram
bacanas, eu não conseguiria eleger um só.
Acho que aprendi muito sobre a humanidade, sobre o ser
humano, a ver nas entrelinhas o que acontece, todos os jogos de política
e interesse. Isso me ajudou a compreender melhor o Brasil. Estando fora
você enxerga melhor o que acontece aqui dentro. Até nisso
essa experiência me ajudou.
Mas, enfim, o mundo é o mundo, sempre haverá
guerras e desastres, sempre vai ter gente lutando contra isso e outros
estimulando. Isso sempre vai acontecer, não tenho nenhum sonho
de que vá melhorar, de que a África vai ficar em paz.
Pode até acontecer uma melhora, mas depois volta. É um
realismo, eu vi, é assim. Há 30 anos o mundo protestava
contra o Vietnã; há 60, contra a 2ª Guerra Mundial,
e assim vai. Não há como lutar contra isso, mas a gente
tem como lutar contra os efeitos, as conseqüências para as
populações, que estão sofrendo, morrendo.
O que talvez seja importante guardar é que as
ONGs estão crescendo cada vez mais, as pessoas estão se
organizando nesse vácuo de poder. E esse é um caminho
que ainda vai crescer muito.
Maria Eduarda Mattar e Fausto Rêgo
Fonte : RETS
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