10/03/2007
KÁTIA BRASIL
da Agência Folha, em Manaus
Uma amostra dos obstáculos que a Igreja Católica
terá para "lançar um chamado à conversão"
aos "povos" da Amazônia - um dos objetivos da Campanha
da Fraternidade deste ano - é encontrada na região de
Autazes (112 km de Manaus).
Nessa cidade cinco vezes maior do que São Paulo,
margeada por afluentes do rio Madeira, aldeias indígenas da etnia
mura visitadas pela Folha recebem mais apoio religioso de outras denominações
do que da Igreja Católica.
O avanço do catolicismo ali esbarra na falta
de recursos materiais e humanos -- a Funai (Fundação Nacional
do Índio) estima que haja de 6.000 a 13 mil índios na
região. Para alcançar as 78 comunidades ribeirinhas da
área, por exemplo, o único representante da Igreja Católica
na região, o padre diocesano Jésus Lopes, 33, depende
da boa vontade de índios e moradores, que cedem barcos para seu
deslocamento.
"Dependemos de barcos de linha [transporte coletivo]
ou que a comunidade se mobilize e nos busque. Quando isso não
ocorre, eles [índios] ficam à mercê de falsas
promessas. Infelizmente, assim é o rosto do Amazonas",
disse o pároco.
Apoio financeiro
Na última sexta-feira, a Folha visitou três
aldeias da região, em um percurso de 90 km por estradas de terra
batida. Na aldeia Sampaio, a 36 km da sede de Autazes, encontrou seis
templos religiosos --um a cada 200 metros. São duas capelas católicas
e dois templos de outras denominações --Batista, Adventista
e as pentecostais Assembléia de Deus e Evangelho Quadrangular.
Na aldeia de 130 famílias, que vivem, principalmente,
da mandioca, os grupos não-católicos têm trabalhos
de evangelização de jovens e dão apoio financeiro
para formar pastores.
A Igreja Católica foi a primeira a chegar na
aldeia, em 1967. Perdeu terreno a partir de 1980, com a entrada da Igreja
Adventista do Sétimo Dia, que converteu a maior parte dos índios
e diz ter 44 membros efetivos na aldeia.
Um deles é o tuxaua (chefe político) geral
da povoação, Antônio de Matos, 64. "No tempo
em que era católico eu me aborrecia, nada era bom. Depois que
passei a ser adventista, conheci muitas coisas que eu fazia errado,
como beber, fumar e andar armado. A Bíblia é o caminho
para endireitar a vida da gente."
Na aldeia Josefa, de 60 famílias, predominam
a Assembléia de Deus e a Adventista do Sétimo Dia. Minoria,
os índios católicos não praticam a religião.
O tuxaua geral, Salatiel de Souza, 20, é da Assembléia
de Deus. Disse que vai organizar um plebiscito se a Igreja Católica
resolver abrir um templo na aldeia. "Os católicos daqui
são poucos e não praticam. Se a Igreja Católica
quiser abrir um templo aqui, é a população que
vai decidir."
Na aldeia Ferro Quente, não há igrejas.
As 12 famílias são quase todas católicas, mas têm
que percorrer 45 km até Autazes se quiserem ir à missa.
Campanha
O padre Jésus disse esperar que a Campanha da
Fraternidade ajude o catolicismo a recuperar terreno na Amazônia.
"Precisamos de pessoas que venham para o Amazonas com verdadeiro
espírito missionário, porque aqui tem muito o que fazer",
afirmou.
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