Nem sempre o que deixa de existir
deixa de estar
Nem sempre o que deixa de existir deixa de estar.
Às vezes, deixar de existir é apenas outra forma de estar.
É como a chuva. Ao parar de chover, a chuva deixa de existir
como chuva, mas a sua água infiltrou-se nos campos e regou as
flores e juntou-se ao leito dos rios como memória da chuva que
um dia será novamente.
Nem sempre o que deixa de existir deixa de estar. O corpo das coisas
que habitam o mundo pode morrer e pode desaparecer da nossa vista, mas
nunca morrerá aquilo que nos habita e o coração
não precisa de ver para crer.
Deixar de existir não é deixar de estar presente. Há
coisas e pessoas que foram e que nunca deixarão de ser. Mesmo
que os seus passos deixem de se ouvir e que o seu olhar deixe de cair
sobre o nosso como a chuva quando chega o tempo de parar de cair, já
o som desses passos e a luz desse olhar se infiltraram em nós
e somos nós esse leito de que o nosso amor é feito.
Não faz mal que a chuva deixe de ser chuva quando permanece naquilo
que regou.
* * *