Resumo: As explicações para os conceitos
de alma, reencarnação e mediunidade contidas na obra “A
Física da Alma” do professor Amit Goswami são analisadas
com base no Espiritismo.
Mostramos a existêmcia de uma enorme discordância entre
a teoria de Goswami e o que a Doutrina Espírita ensina. Uma análise
científica do argumento básico de Goswami de que a alma,
a reencarnação e a mediunidade são fenômenos
não-locais, em termos do que a Física considera um fenômeno
não-local, mostra que o modo pelo qual esse argumento foi proposto
é arbitrário e não satisfaz os rigores que a Física
determina para qualquer trabalho de pesquisa na área. Dessa forma,
a obra “A Física da Alma” não tem respaldo
científico da Física. O Espiritismo, por estar baseado
em fatos, tem muito mais valor científico do que a proposta de
Goswami. Alertas de responsabilidade na divulgação de
teorias espiritualistas baseadas na Ciência são feitos
ao movimento espírita de modo a preservar a divulgação
do Espiritismo de críticas desnecessárias.
1. Introdução
O século findo é caracterizado pela consolidação
da Ciência como detentora da verdade em vista do bem estar, saúde
e desenvolvimento que ela trouxe à sociedade. A Ciência
muito contribuiu para separar o que é essencial do que é
acessório ou superstição com relação
aos fenômenos naturais, levando Kardec a dizer, no diálogo
com o cético na obra O Que É O Espiritismo, que “é
precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos
o Espiritismo...” já que “O Espiritismo repudia,
nos limites do que lhe pertence, todo efeito maravilhoso, isto é,
fora das Leis da Natureza; (...) Ele amplia, igualmente, o domínio
da Ciência, e é nisto que ele próprio se torna uma
ciência; (...) e como sua teoria do futuro repousa sobre bases
positivas e racionais, ela agrada ao espírito positivo do nosso
século.”
Porém, quando não se conhece como a Ciência
trabalha e se desenvolve, a crença de que ela é
garantia única da verdade pode gerar confusão
e fanatismo. Um exemplo recente de excesso nesse aspecto foi recentemente
relatado em uma carta publicada no número 328 da prestigiada
revista científica Science. Nela, mais de 240 cientistas,
todos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos,
apresentaram um desabafo contra pressões que muitos colegas tem
sentido por causa de erros e controvérsias nas previsões
associadas ao clima do nosso planeta. A idéia de que a Ciência
garante a verdade absoluta das coisas gerou, com relaçao ao problema
do clima, pensamentos do tipo “devemos esperar até que
os cientistas tenham absoluta certeza antes de tomar quaisquer providências”,
o que é considerado pelos cientistas um equívoco muito
grande já que, pela própria natureza da Ciência,
nunca ela terá certeza absoluta. Por causa disso, alguns cientistas
estão sendo processados na Justiça por terem fornecido
relatórios incompletos ou errados, o que demonstra ignorância
sobre a Ciência. Alguém condenaria Isaac Newton à
prisão porque a sua mecânica não vale para átomos
e partículas subatômicas? No caso do clima, esperar certezas
absolutas para tomar medidas preventivas para a ação do
homem sobre a natureza é que é um “perigoso risco
para nosso planeta” em função do que já se
sabe.
O deslumbramento pela Ciência teve contribuição
forte da Física. Suas teorias modernas tem atraído muito
a atenção das pessoas em função delas tocarem
em assuntos que estão no imaginário das pessoas como se
o Universo tem limites, do que é feita a matéria, como
são os mecanismos da vida, etc. A módia e a imprensa também
tiveram papeis importantes na divulgação da Ciência.
O respeito pela Ciência não só é incentivado
pelo Espiritismo como foi exemplificado por Kardec na codificação.
Porém, em geral, o espírita não conhece muita coisa
a respeito do que realmente a Ciência é, e de como o conhecimento
científico se desenvolve. Uma consequência disso no movimento
espírita é a crença de que se algum conceito não
tiver respaldo nas teorias modernas da Ciência, o mesmo não
tem valor científico [3]. Felizmente, temos no movimento espírita
alguns esforços no esclarecimento sobre o que é Ciência,
Ciência Espírita, e o tríplice aspecto do Espiritismo
[4-6].
No caso da Física, alguns resultados das suas teorias mais modernas
tem exercido uma atração especial sobre os espiritualistas
em geral. Questões como passagem do tempo diferente para diferentes
observadores, impossibilidade de medidas absolutamente precisas de posição
e velocidade de um móvel, a natureza probabilística das
partículas subatômicas da matéria, dentre outras,
tem levado alguns espiritualistas a extrapolarem essas teorias modernas
da Física, na formulação de teorias que dêem
suporte para conceitos como Deus, a alma, os fenômenos ligados
a ela, saúde e doença, etc. Existe uma literatura não-científica
* relativamente vasta e conhecida sobre o uso de conceitos da Física
nessas questões e exemplos de autories conhecidos são
Fritjof Capra, com “O Tao da Física” [7], Jean E.
Charon, com “O Espírito Este Desconhecido” [8], Dr.
Deepak Chopra, com “A Cura Quântica” [9], e Ken Wilber,
com “Quantum Questions” [10], este último tendo exposto
o pensamento místico ou religioso dos grandes físicos
que fizeram as descobertas das teorias modernas da Física do
século passado. Além desses autores, destacamos mais um
que é físico e espiritualista, e que, em particular, se
tornou muito conhecido no meio espírita pelos diversos livros
em que emprega conceitos da Física Quântica nas suas teses
sobre reencarnação, alma e mediunidade: Dr. Amit Goswami,
professor de Física aposentado da Universidade de Óregon.
Goswami é autor da obra “A Física da Alma”
[11] que será aqui analisada por nós com base no Espiritismo.
* aqui o termo “não-científico”
aqui se refere ao fato do conteúdo dessas obras não serem
fruto de trabalho de pesquisa regular dentro da Física, com métodos
e rigores usuais que os físicos empregam em seus trabalhos de
pesquisa na Física. Os autores dessas obras apenas utilizaram
conceitos da Física em suas teses e hipóteses, sem terem
qualquer respaldo ou reconhecimento da comunidade de físicos
ou da Física.
Neste artigo, discutiremos as explicações
de Goswami para os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade,
comparando-os com o que o Espiritismo ensina. Mostraremos que a teoria
do professor Goswami é contrária à Doutrina Espírita
e que o uso que ele faz da Física Quântica não é
rigoroso a ponto de considerarmos ser isso um problema para o Espiritismo.
Nosso propósito é alertar o movimento espírita
para o cuidado e responsabilidade com aquilo que é divulgado
como estando de acordo com o Espiritismo, chamando a atenção
para o seu real valor como ciência que, do ponto de vista filosófico,
é maior do que as teorias modernas da Física.
Gostaríamos de mencionar que esse artigo não se propõe
a denegrir a imagem pessoal do professor Amit Goswami que merece todo
o nosso respeito pelo esforço que teve em propor uma teoria para
alguns conceitos espiritualistas que ele acredita. Mas, como o Espiritismo
deve caminhar “de par com o progresso” (ítem 55,
cap. I da Gênese [12]) é preciso esclarecer o movimento
espírita sobre como o progresso científico de fato ocorre
e que a obra de Goswami não possui o respaldo da Ciência.
E mais: a teoria do Prof. Amit é oposta ao que ensina o Espiritismo
e defendê-la significa indiretamente atacar o Espiritismo.
Este artigo está organizado da seguinte maneira: na Seção
2, exporemos alguns pontos da obra “A Física da Alma”,
de Amit Goswami, em que a explicação apresentada para
os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade estão
claramente em desacordo com o Espiritismo. Na Seção 3,
vamos analisar alguns pontos que formam a base da teoria de Goswami,
mostrando que o uso dos conceitos da Física não satisfez
o rigor dessa Ciência. Na seção 4, por fim, resumiremos
os pontos principais deste trabalho e apresentaremos nossas conclusões.
abaixo outros trechos da dissertação
-
(...)
(...)
(...)
2.2 Reencarnação
Segundo Goswami (cap.4, pag. 83) as “reecarnações
de uma mesma vida (...) estão ligadas pelo fio da não-localidade
quântica ...”. O chamado fenômeno de não-localidade
da Física Quântica é a base para a explicação
de Goswami para a reencarnação. Antes de prosseguir, vamos
brevemente entender o que seria não-localidade. Em matéria
publicada no Jornal Espírita [15,16], descrevemos um fenômeno
de não-localidade entre duas ou mais partículas como aquele
em que são satisfeiras as seguintes condições:
1. Instantaneidade (cuja idéia é diferente
de muito rápido);
2. Não depende da distância entre os objetos;
3. Não se utiliza de nenhum meio físico, como o som se
utiliza do ar para ser transmitido;
4. Não serve, isoladamente, para enviar informação
de um lugar a outro;
5. Somente se verifica em sistemas isolados do resto do mundo.
Um fenômeno de ligação entre dois objetos será
não-local se TODOS esses ítens forem
satisfeitos. Se um só deles não se verificar, o fenômeno
não será não-local.
(...)
(...)
(...)
3. Valor científico
da obra “Física da Alma”
Apesar de se basearem em conceitos da Física Quântica,
as teorias contidas na obra “Física da Alma”, de
Amit Gsowami, não foram obtidas seguindo-se rigores formais da
área da Física. Goswami baseia sua tese em outra obra
de sua autoria, “O Universo Autoconsciente” [18], onde Goswami
propõe um novo tipo de paradigma científico, fora do esquema
tradicional da Ciência, em que a unidade fundamental é
a consciência e não a matéria. Ao propor um novo
modo de pensar, Goswami se afasta da Ciência não podendo
assim validar suas teses através da mesma. Portanto, a obra “Física
da Alma” não é científica no sentido profissional
dessa palavra, isto é, no sentido que se dá para as pesquisas
próprias realizadas na área de Física. Talvez num
ponto de vista filosófico, se possa considerar a proposta de
Goswami como sendo científica, mas isso não confere a
ela nenhum valor equivalente ao que a Física dá para aquilo
que é fruto do seu trabalho. Em outras palavras, o fato de Goswami
utilizar conceitos da Física não torna sua teoria uma
teoria da Física.
(...)
(...)
(...)
4. Conclusões
Neste artigo, revisamos a obra “Física da Alma” identificando
como seu autor, Prof. Amit Goswami, apresenta e explica conceitos como
alma, reencarnação e mediunidade, em comparação
com os ensinamentos do Espiritismo. Verificamos a discrepância
entre a teoria de Goswami e a Doutrina Espírita e em vista da
última ter caráter progressista e dever andar junto com
os progressos da Ciência, analisamos as bases científicas
da primeira concluindo que ela não possui bases verdadeiramente
científicas apesar de citar conceitos da Física Quântica.
(...)
(...)
(...)
Para concluir, deixamos dois alertas. O primeiro alerta
é sobre o cuidado com o modismo atual de utilizar conceitos de
Ciência, mormente os de Física Quântica, muitos deles
bem inacessíveis à compreensão mais profunda do
leigo, para propor teorias espiritualistas. Sempre que não pudermos
analisar com conhecimento de causa, um assunto qualquer que pretenda
adentrar o meio espírita, vale a recomendação de
Erasto (considerada regra de ouro por J. Herculano Pires na sua tradução
do Livro dos Médiuns) contida no Livro dos Médiuns (2ª
parte, cap. XX, ítem 230): “É melhor repelir
dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só
teoria errônea.”
O segundo alerta é sobre a responsabilidade de nós espíritas
com a divulgação do Espiritismo. De tudo que expomos acima
verificamos que divulgar a obra “Física da Alma”,
de Amit Goswami, é fazer propaganda contrária ao Espiritismo,
ou ao que ele ensina. Cuidemos disso, pois lembrando Emanuel [20] “O
Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade –
a caridade de sua própria divulgação.”
[1] A. Kardec, O Que É O Espirtismo, 1ª
edição de bolso, FEB, Rio de Janeiro (2008).
[2] P. H. Gleick et al. “Climate Change and the Integrity of Science”,
Science 328, p. 689 (2010).
[3] A. L. Xavier Jr. “Algumas Considerações Oportunas
Sobre a Relação Espiritismo- Ciência”, Reformador
Agosto, pp. 244-46 (2005).
[4] A. F. Da Fonseca, “Curso de Ciência e Espiritismo: Aulas
1 a 18”, Boletim do GEAE números de 483 a 500 (2004 e 2005)
[5] A. Chagas, Introdução à Ciência Espírita,
Publicações Lachâtre, 1ª edição,
Bragança Paulista (2004).
[6] S. S. Chibeni, “O Espiritismo em seu tríplice aspecto:
científico, filosófico e religioso” Reformador Agosto,
pp. 37-40 (2003); Setembro, pp. 38-40 (2003); Outubro, pp. 39-40 (2003).
[7] F. Capra, O Tao da Física, Editora Cultrix, 16ª edição,
São Paulo (1995).
[8] J. E. Charon, O Espírito Este Desconhecido, Editora Melhoramentos,
10ª edição, São Paulo (1990).
[9] D. Chopra, A Cura Quântica, O Poder da Mente e da Consciência
na Busca da Saúde Integral, Editora Best Seller, 42ª edição,
Rio de Janeiro (2004).
[10] K. Wilber, Quantum Questions, Mystical Writings of the World’s
Greatest Physicists, Editora Shambhala, 2ª edição,
Boston (2001).
[11] A. Goswami, Física da Alma, Editora Aleph, 2ª reimpressão,
São Paulo (2005).
[12] A. Kardec, A Gênese, FEB, 34ª edição,
Rio de Janeiro (1991).
[13] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, FEB, 1ª edição,
Rio de Janeiro (2008).
[14] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 1ª. edição,
Rio de Janeiro (2006).
[15] A. F. Da Fonseca, “O Pensamento é Matéria?
É Quântico? Parte I”, Jornal Espírita 361,
p. 9 (2005).
[16] A. F. Da Fonseca, “O Pensamento é Matéria?
É Quântico? Parte II”, Jornal Espírita 362,
p. 3 (2005).
[17] H. F. Saltmarsh, Evidence of Personal Survival from Cross Correspondences,
Bell and Sons, New York (1938).
[18] A. Goswami, O Universo Autoconsciente, Ed. Rosa dos Tempos, 4ª
edição, Rio de Janeiro (2001).
[19] A. Aspect, J. Dalibard e G. Roger, “Experimental test of
Bell’s inequalities using time- varying analysers”, Physical
Review Letters 49, pp. 1804-06 (1982).
[20] F. C. Xavier e W. Vieira, pelos Espíritos de Emmanuel e
André Luiz, Estude e Viva, 11ª edição, FEB,
Rio de Janeiro (2005).