Investigando relações entre
voluntariado e contexto sociocultural numa instituição
espírita - contribuições da fenomenologia
6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados
Autor(es): Yuri Elias Gaspar e Miguel
Mahfoud
Título: INVESTIGANDO
RELAÇÕES ENTRE VOLUNTARIADO E CONTEXTO SOCIOCULTURAL NUMA
INSTITUIÇÃO ESPÍRITA: CONTRIBUIÇÕES
DA FENOMENOLOGIA
Resumo: Inserindo-nos no debate atual sobre o voluntariado
e os movimentos culturais que o propõem, objetivamos comprender
como a estruturação do contexto sociocultural de uma instituição
espírita articula-se ao modo como o trabalho voluntário
é ali desenvolvido e discutir a metodologia que permite captar
essa articulação em seus elementos essenciais. Quanto
à configuração do contexto sociocultural investigado,
apreendemos a íntima relação entre seu caráter
religioso e assistencial; o incentivo a que o voluntário priorize
a pessoa em todas as suas ações; a fundamentação
no Evangelho tomado à luz da Doutrina Espírita; a valorização
da formação adequada e da disciplina na sistematização
das atividades. A preocupação com o rigor alia-se à
abertura para compartilhar a totalidade da vida. Quanto à metodologia
empregada, encontramos na Fenomenologia Clássica a possibilidade
de apreender o dinamismo característico da relação
entre voluntariado e contexto sociocultural preservando sua complexidade
e unidade. Adotamos como estratégia de coleta de dados a observação
participante de cunho etnográfico, para apreender elaborações
pessoais e coletivas do mundo-da-vida; e a realização
de entrevistas semi estruturadas, para colher a vivência de voluntariado
dos sujeitos. Na análise dos dados, buscamos explicitar a dinâmica
de articulação das vivências, de modo a compreender
e comunicar a estruturação da realidade social da intituição
pesquisada. Como conclusão, destacamos a importância de
investigar o voluntariado em seu contexto sociocultural considerando
a experiência de quem trabalha, o que requer um olhar capaz de
colher os elementos essenciais tanto da elaboração da
pessoa quanto do mundo-da-vida por ela compartilhado.
- abaixo outros trechos da
dissertação - * os trabalhos
completos estarão disponíveis em forma de livro *
Investigar o tema voluntariado tem se mostrado
tarefa complexa e árdua. A começar pelo próprio
termo “voluntariado”. Seria essa a expressão ideal?
Ou seria “trabalho voluntário”? Ou “caridade”?
Ou “solidariedade”? Ou “filantropia”? Ou “assistência
social”? Ou “Terceiro Setor”? Cada uma dessas expressões
carrega diferentes conotações e desdobramentos, os quais
não se desvinculam de quem as propõe, de como propõe
e de que pressupostos adota para propor. Dada a atualidade da discussão
em torno da significação do voluntariado situado em um
determinado contexto, vários são os estudos acadêmicos
que se debruçam sobre o tema partindo da realidade brasileira.
Dentre tais estudos, emergem investigações que dão
visibilidade a movimentos culturais que há muito propõem
o voluntariado, em que se destaque o Movimento Espírita (Giumbelli
1998; Sampaio, 2010).
Essa discussão, oriunda de um plano teórico, ganha nova
consistência ao nos aproximarmos da experiência de pessoas
que trabalham voluntariamente numa instituição espírita.
Atuando ao lado delas e estando atentos aos seus gestos e palavras,
as questões que nos provocam levam-nos a problematizar imbricações
entre o contexto e os sujeitos da experiência.
Sob uma perspectiva, é o próprio contexto sociocultural
dessa instituição religiosa que nos interroga, fazendo
emergir em nós o interesse por adentrar a particularidade de
sua dinâmica concreta de forma a colher o modo vivo como é
proposto, o campo de possibilidades por ele aberto para os sujeitos
que o compõem. Visto sob outro ângulo, esse mesmo interesse
tem como foco os sujeitos, os “voluntários” cuja
experiência pessoal nos solicita: como eles se posicionam diante
do que lhes é proposto cotidianamente por esse contexto sócio-cultural?
Às perguntas sobre aquilo que nos interessa conhecer somam-se
questionamentos sobre o modo mesmo como podemos conhecer. Com que mirada
podemos captar essa articulação sem perder sua complexidade
dinâmica? Qual percurso podemos percorrer de modo a poder compreender
e comunicar a vitalidade do que se apresenta a nós?
Provocados por tais desafios, objetivamos (a) compreender como a estruturação
do contexto sociocultural de uma instituição espírita
articula-se ao modo como se desenvolve o trabalho voluntário
nessa instituição e (b) discutir a metodologia que nos
permite captar essa articulação em seus elementos essenciais.
Para alcançar tais objetivos, optamos, primeiramente, por descrever
e analisar o contexto sociocultural desta instituição
a partir das atividades assistenciais por ela oferecidas para, logo
em seguida, evidenciar as diretrizes metodológicas que possibilitaram
o alcance dos resultados apresentados.
Adentrando a Casa Espírita
Amanhece. Nas proximidades de uma das principais vias de trânsito
da cidade de Belo Horizonte, algumas pessoas adentram as portas da instituição
cujo contexto sociocultural pretendemos conhecer. Na fachada, podemos
ler as iniciais e o nome completo da instituição, a que
chamaremos Casa Espírita. São os próprios freqüentadores
que a designam como “casa”, sugerindo-nos a intenção
de expressar acolhimento. A designação “espírita”,
por sua vez, busca expressar a vinculação desta instituição
ao Espiritismo, doutrina codificada por Allan Kardec na França,
em meados do século XIX.
- abaixo outros trechos da dissertação
-
(...)
(...)
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No contato com o departamento de Tarefeiros e com as
orientações ali expressas, apreendemos elementos primordiais
para a compreensão do contexto sociocultural da Casa Espírita.
Vemos evidenciada a importância dada ao que eles denominam ser
“disciplina”, isto é, a organização
e sistematização das atividades, seja na formulação
de um curso específico para os voluntários, seja na delimitação
de um fluxo preciso para que a pessoa se torne tarefeira, seja na formalização
das diretrizes da tarefa. Em tais diretrizes, especialmente na alusão
à frase do mentor da Casa, percebemos a preocupação
em comunicar que todas as atividades ali desenvolvidas têm como
foco primeiro a pessoa. O destaque dado à frase do mentor, a
definição de que o objetivo da tarefa é auxiliar
a atuação de Espíritos e a orientação
de que é preciso sintonizar-se a eles indicam-nos que o trabalho
voluntário é concebido nesse contexto como uma ação
compartilhada entre pessoas encarnadas e desencarnadas, isto é,
como uma ação que sempre inclui a dimensão religiosa
de relacionamento com “presenças
transcendentes”. Além desses aspectos, apreendemos o quanto
é valorizada a formação dos tarefeiros e o quanto
se espera que eles se empenhem para transformarem-se interiormente,
comprometam-se com a tarefa em todos os seus aspectos e se disponham
para relacionarem-se pessoalmente com aqueles com quem convivem nesse
ambiente.
(...)
(...)
(...)
Possibilidades de apreender
o contexto sociocultural em sua vitalidade: provocações
metodológicas
Partindo da provocação de Giussani (2009), que insiste
que o método para se investigar qualquer objeto deve ser imposto
pelo objeto mesmo, voltamo-nos agora para o caminho que nos permitiu
chegar aos resultados apresentados acima.
Tendo como objetivo adentrar, descrever e compreender o contexto sociocultural
desta instituição espírita sem perder a riqueza
característica da experiência, preservando o que há
de mais essencial naquilo que se apresenta, recorremos à observação
participante tal como proposta por Brandão (2005, 2007).
Trata-se de um trabalho de campo de cunho etnográfico que se
estendeu por três meses, em que buscamos partir da realidade concreta
da vida cotidiana dos sujeitos em suas múltiplas facetas e interações
com o intuito de colher as estruturas e as dinâmicas da vida social
em sua historicidade e totalidade. Nessa modalidade de investigação,
a observação participante solicita um envolvimento e uma
convivência pessoal do pesquisador, que compreende e produz conhecimentos
na relação intersubjetiva com os sujeitos que compõem
tal realidade social (Brandão, 2005).
Para fundamentar e sustentar esta atenção à experiência
em sua complexidade, partimos da Fenomenologia Clássica de Husserl
(2006a, 2006b, 2008) e Stein (2003, 2005), proposta teórico-metodológica
que implica um modo de olhar que parte das provocações
daquilo que se manifesta a mim – o fenômeno – tendo
como meta compreendê-lo, deixando-o viver (Ales Bello, 1998, 2004).
Olhar que não repousa nem sobre a coisa em si mesma e nem na
criação subjetiva daquele que lhe dirige sua mirada, mas
sim na relação que se estabelece entre o eu e o mundo,
na realidade enquanto percebida por alguém (van der Leeuw, 1964).
(...)
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(...)
Conclusões
Adentrando o contexto sociocultural de uma instituição
a partir de diretrizes metodológicas que possibilitam compreendê-lo
em sua dinâmica característica, chegamos a algumas certezas
que levamos conosco como solicitações, como experiência
e como proposta.
Vimos, a partir dessa pesquisa realizada na Casa Espírita, como
há uma íntima relação entre seu caráter
religioso e assistencial, bem como se espera que o voluntário
comprometa-se com o ser humano, isto é, que priorize a pessoa
em todas as suas ações. Na formulação de
orientações, valoriza-se a fundamentação
no Evangelho tomado à luz da Doutrina Espírita, a formação
adequada e a disciplina na sistematização das atividades,
pois a conjugação desses três aspectos é
entendida como via privilegiada para o alcance dos objetivos pretendidos.
Por fim, ressaltamos como essa preocupação com o rigor
alia-se à atenção, à experiência e
à abertura para compartilhar a totalidade da vida.
(...)
(...)
(...)
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