Resumo: A presente pesquisa teve como campo empírico
o espaço de sociabilidade constituído pelas interações
e diálogos de um grupo juvenil em um Centro Espírita situado
na cidade de Fortaleza.O estudo identificou sob égide da perspectiva
espírita o sentido das falas e do processo de escuta dos jovens,
movimentos que os colocaram como sujeitos espirituais no âmbito
de um percurso pedagógico do qual os mesmos eram partícipes.Foi
possível perscrutar mediações morais numa vertente
espiritista protagonizadas pelos jovens através das leituras
comentadas, dos exercícios teatrais e das composições
e práticas de conjunto (práticas musicais coletivas);
vivências morais (visita a hospitais com apresentação
musical ); vivências de ofícios e artes viso-manuais, entre
outras experiências, que se fazem junto às rodas de conversa
no grupo situando-os como sujeitos.Percebeu-se que parece sublinhar
com vigor o que nos parece fundamental em educação: a
visão de si, vivida mediante a reflexão-ação
grupal, no caso, em um Centro Espírita – nucleadora de
uma experiência espiritual, formadora, e que situa educando e
educador como ser espiritual - essa a conceituação do
sujeito da educação proposta.Conclui-se que o aspecto
dialógico das experiências vividas pelos jovens com a referência
do pensamento espírita é um núcleo ensinante fecundo,
capaz de fornecer vínculos fundamentais entre as várias
dimensões do sujeito em interação e que compõem,
em última instância, as constelações que
envolvem o aspecto-chave do que temos nomeado como o trabalho
do sentido.
DIÁLOGOS E RITMOS: EM BUSCA
DE UMA IDÉIA DE SUJEITO (NA PERSPECTIVA ESPÍRITA) NO TRABALHO
COM JUVENTUDES.
Um bom começo: a problematização do futuro
Na roda dos jovens, que fazíamos a cada encontro no Centro Espírita,
como parte da educação de juventudes que ali se fazia,
era comum escutar, em seus inícios, falas dessa natureza:
O Antares(nome fictício) entrou numa turma
da pesada pra se defender. Não há outro jeito, lá
onde ele mora. Ou você se defende pertencendo a uma gangue ou
o pessoal te apaga. Agora, tia, eu quero ver como ele pode fazer parte
da gangue sem fazer o que a gangue faz.
Os jovens da periferia, que tínhamos ali na
roda de jovens, deveriam pensar em se defender, realmente – mas
o que seria isso? – perguntamos. Como uma ética espírita
poderia se erguer ante estas supostas defesas, sem que vivêssemos
fora do mundo? Como pensar a real defesa – os processos de amorização,
em uma perspectiva de transformação pessoal e social –
dentro de vivências tão duras como as que eram verbalizadas
continuamente aos nossos olhos?
A primeira perspectiva que colocamos em prática foi problematizar
o que parecia fatalidade em um ambiente açodado pelo narcotráfico
e outras solicitações dessa natureza: havia-se de seguir
obrigatoriamente essa vida que parecia fatal? – perguntamos, nas
rodas de discussão que se fazia, dentro dos estudos do O Livro
dos Espíritos e das outras obras básicas da Doutrina dos
Espíritos em rodas de conversa intergeracionais e, depois, em
grupos menores. Como poderíamos negar esse fatalismo dos jovens
da periferia, quando se referiam aos seus projetos de futuro, nesta
reencarnação?
A desproblematização do futuro havia sido percebida, pelo
educador Paulo Freire, como uma espécie de negação
da possibilidade de transformação do mundo. Mudar o mundo
seria se pôr como sujeito ante uma história humana, concreta
e, em uma palavra – transformável:
O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com
os outros me põe numa posição em face do mundo
que não é a de quem nada tem a ver com ele, afinal,
minha presença no mundo não é a de quem nele
se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição
de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também
da história. (FREIRE; 2000, p.60)
O educador Paulo Freire, pois, situa como importante,
em educação, a criação do novo na história.
Ensaio da esperança. Ainda, Paulo Freire vincula a nossa necessidade
de reflexão como sujeitos à nossa ação concreta
no mundo social. Uma ação que deve nos situar, nesta transformação
das realidades sociais, do ponto de vista de quem quer transformar o
mundo na direção da justiça social.
Quando ouvimos a orientação do Espírito de Verdade
"espíritas, amai-vos e instruí- vos" –
percebemos o sentido de responsabilidade diante das tarefas que nos
cabem, individual e coletivamente; na verdade percebemos um chamamento
profundo à fraternidade e à transformação
radical das estruturas de consciência que geram o desamor em suas
variadas formas. Como viver essa transformação? Veremos,
neste estudo, como é preciso que o amor seja de fato uma virtude
ativa e, como tal, capaz desalojar no espaço interno de cada
um as formas de violência e em seu lugar colocarmos referências
fundadoras do novo em nós e nas novas práticas sociais.
É que as transformações sociais são feitas
por sujeitos humanos e, neles, é preciso que aconteçam
mudanças nas estruturas psíquicas que os fazem alimentar
as conformações societárias do modo como se conhece.
Debruçamos-nos, então, com o grupo de jovens, sobre esse
fatalismo, essa aparente inexorabilidade do futuro. As contradições
e a esperança de ultrapassagens dessa visão fatalista
começaram a aparecer, aos poucos, nas rodas de debates:
- Eu sempre acho que a gente pode mudar. Vendo agora
isso da reencarnação... Mas não sei como. Não
vejo como – disse Via Láctea(nome fictício).
Antares(nome fictício): - Eu vejo que a gente vai escapando.
Se a gente não apaga eles, eles vão apagar a gente...Eu
vejo ser assim. Não sei como vai ser...
Netuno(nome fictício): - A minha turma vai pegar mulher; pelo
menos não é matar, o lance. Achei melhor... Mas será
que é só isso? Vejo que tem uns caras policiais, umas
coisas que parecem me colocar como laranja... Não sei se é
tão simples... E vendo a gente aqui, no grupo, as meninas e
os meninos... Eu penso: será que eu quero menina pegada assim?
Acho que não...
Júpiter(nome fictício): - Não vejo discutir isso
que a gente fala aqui, em canto nenhum; a gente vai engulindo por
lá tudo. Na escola... Na rua... Essa guerra. É uma guerra.
Mas aqui, quando a gente vai estudando, se encontrando, a coisa muda...
Pode ser... Não sei dizer.
Uma primeira coisa que saltava aos olhos era o costume
de “olhar com os olhos dos outros sem pensar por si próprio“
– a quem interessava esse olhar que aviltava o melhor da juventude,
e seus sonhos? – perguntávamos, sempre problematizando.
Em segundo lugar, víamos o que se chamava o “esforço
de salvamento” que o grupo fazia, quando dizia “eu acho
que a gente sempre pode mudar” e que foi posto pela fala (que
se repetiu inúmeras vezes, nesse dia) de Via Láctea. Como
“acolher” cada jovem em sua individualidade, recebendo a
dor de cada um, despatologizando-a e devolvendo-a reflexionada
e pensada sob a ótica espírita? Como viver isso em um
processo de grupalização, que se fazia em um tecido de
amorosidade que deveria ser mais e mais a própria base da experiência
educadora espírita? Ainda: como olharmos os outros ambientes
da vida, problematizando-os e a suas formas de funcionamento?
Por outro lado, não deixávamos de ver com que facilidade
os jovens usavam as “palavras do outro” – as palavras
de guerra. Um pouco como se pedissem licença a nós; mas
usavam por não terem construído sua fala com seus possíveis
– na verdade, essa fala e esses possíveis estavam em construção.
Percebiam, contudo – e isso foi ficando cada vez mais forte -
que havia uma grande diferença entre nossa vivência no
Centro Espírita e as outras vivências que traziam e que
a eles pareciam, quase sempre, muito violentas. Sabíamos que
havia uma rica experiência de solidariedade nos contextos da periferia
urbana mas, de início, os jovens queriam dizer do que lhes incomodava.
A construção de um novo olhar para valorar os possíveis
de sua ambiência comunitária, só aos poucos ia sendo
desvelada. Para isso tivemos de construir, pedagogicamente, a experiência
espiritual do Centro Espírita como uma experiência educativa
e formativa e tivemos também de nos situar como educadores em
construção.
A experiência espiritual como experiência
educativa e de formação: as riquezas da perspectiva espírita
Os nossos olhares sobre juventude, de algum modo, desde
seus primeiros momentos, resultavam por colocar como problema a idéia
de futuro. Em um momento de muita apatia, da parte dos jovens, tinha
sido o caminho por onde começamos: refletir sobre como estávamos
tomando posse (tomando as rédeas) de nossa própria formação.
- abaixo outros trechos da dissertação -
(...)
(...)
(...)
Como se vivêssemos um ateliê de biografias
– ou de narrativas de vida -, semana a semana íamos reflexionando
sobre as experiências vividas, tentando buscar também –
além de outros - um sentido espiritual para elas, à medida
em que íamos nos apropriando do saber espírita: ciência,
filosofia e religião. Por meio das narrativas de experiência
– essa forma de laborar a consciência de si e a auto-percepção
–, poderíamos chegar ao auto-conhecimento de que falava
Joanna de Angelis (2000-a; 2000-b; 1990; 1995). É como se nesse
desvelar do vivido, fizéssemos o que nomeamos como o trabalho
do sentido, que oportunizava fazer dialogar as experiências
de si com o pensamento espírita.
(...)
(...)
(...)
Com o desenvolver de nossos trabalhos, vimos que a
construção da não-violência necessariamente
exigia a vivência da amorização, com a conseqüente
construção de relações afetivas que implicava
nos situarmos como sujeito e não como objeto das relações.
Vimos que violência envolve um construto estrutural – como
a fome, o desemprego, a miséria econômica – mas envolve
também um construto relacional. Os dois se relacionam e se alimentam
mutuamente, como plantas parasitas. E o espiritismo nos ensinava que
o amor é uma virtude ativa: a desconstrução da
violência, então, implicaria necessariamente construções
de amor.
(...)
(...)
(...)
A construção
da moralidade e os ensaios de autonomia
Piaget (1994) nos informava que desenvolvimento moral se constrói;
e que autonomia requer o aprendizado da cooperação, essa
vivência concreta intra-grupo e inter- grupos.
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(...)
(...)
Para Piaget, a responsabilidade interior, pois, só
poderia ser aprendida por meio de contextos de cooperação.
Por ser uma construção derivada do respeito mútuo
e da cooperação, o desenvolvimento moral, pois, acarretaria
de modo mais ostensivo a responsabilidade subjetiva, considerando intenções,
contextos, aspectos internos também, ao mostrar a necessidade
de pensarmos que moralidade se desenvolve e se educa. Estávamos
a oportunizar vivências de cooperação, capazes de
estimular a compreensão do bem moral, no Centro Espírita?
– Ora, a vivência espírita nutre-se desse amor ao
Outro que Cristo ensina e que se deve viver de modo concreto. Estava
posto o desafio.
Por sua vez, Pestallozi (apud INCONTRI, 1997) nos informava que com
a aquisição gradual da autonomia, a pessoa - que possui
uma divindade essencial – tomaria aos poucos as rédeas
de seus atos; desenvolver-se-ia, então, como sujeito multidimensional,
com a diretriz afetivo-moral assumindo os impulsos do devir que o ser
ia tecendo.
(...)
(...)
(...)
Joanna de Angelis (2002, p.179)), através do
médium Divaldo Franco, acolhe a idéia junguiana de individuação
como esse devir do self, em direção a “ser ele mesmo”.
Segundo Joanna, apesar das injunções e imperfeições
que temos, nossa sombra pessoal e coletiva - vista como o que
de inferior necessita ser transformado em nós (os traços
da barbárie que tanto vivemos de variados modos) – necessita
crescer na direção crística.
Para Pestalozzi, por seu lado, é importante em
educação laborarmos a autonomia, que se moveria em nós,
pois, não só como dimensão cognitiva, mas por meio
do desenvolvimento da diretriz afetivo-moral, que conduz as construções
do sujeito na vida, ao longo do conflito dialético entre a camada
social do ser e a camada natural (biológica ou animalizada).
Quer dizer, a prática da cooperação não
seria nunca um exercício intelectual somente; implicaria fundamentalmente
o desenvolvimento afetivo-moral que, por sua vez, deve fazer deslanchar
nossa espiritualidade, vista como uma destinação do humano.
(...)
(...)
(...)
Desse modo, em tempos e espaços que se ia aprendendo
a organizar, visava-se dar ênfase a esse exercício reflexivo
que nomeávamos de trabalho do sentido e que tomava seu alimento
com a perspectiva espírita, em diálogo com o mundo vivido.
Nestes espaços, ia-se construindo caminhos pedagógicos
de diversa natureza, para que se pudesse, então, oportunizar
a “fala” do jovem e a produção de
sentidos espirituais para as suas experiências.
(...)
(...)
(...)
Algumas conclusões
Luminuras que apontamos: no grupo juvenil se vai ensaiando criar mecanismos
dessa fala e escuta aos jovens - movimento que nos coloca como sujeitos
também, nós, educadores, de um percurso pedagógico
do qual somos partícipes. Quanto às outras mediações,
envolvem leituras comentadas, exercícios teatrais, composições
e prática de conjunto (práticas musicais coletivas); vivências
morais (visita a hospitais com nossa música, por exemplo); vivências
de ofícios e artes viso-manuais, entre outras experiências,
que se fazem junto às rodas de conversa no grupo. Além
disso, partilha-se o estímulo à participação
dos jovens em outros projetos e outras ambiências parceiras. Isso
nos parece sublinhar com vigor o que nos parece fundamental em educação:
a visão de si, vivida mediante a reflexão-ação
grupal, no caso, em um Centro Espírita – nucleadora de
uma experiência espiritual, formadora, e que situa educando e
educador como ser espiritual - essa a conceituação do
sujeito da educação proposta.
(...)
(...)
(...)
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