Ângela Linhares, Aldenora Guedes, Francisco
Antonio Barbosa Vidal, Benedito Dagno Moreira
As Narrativas de vida nas rodas de conversas
com mulheres na educação na educação de
adultos: um lugar privilegiado de produção de saber na
perspectiva espírita
6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados
Autor(es): Ângela
Linhares
Aldenora Guedes
Francisco Antonio Barbosa Vidal
Benedito Dagno Moreira
Título: AS NARRATIVAS DE VIDA NAS RODAS DE CONVERSAS COM
MULHERES NA EDUCAÇÃO DE ADULTOS: UM LUGAR PRIVILEGIADO
DE PRODUÇÃO DE SABER NA PERSPECTIVA ESPÍRITA.
Resumo: Este estudo, em seus primeiros apontamentos,
registra reflexões em torno das aprendizagens vividas em grupos
de educação espírita. Evidencia também como
as mulheres lutam para transformar as opressões superpostas vividas
no mundo feminino e como vão realizando o diálogo com
o pensamento espírita. Dos diálogos circulares emergem
narrativas que delineiam o constructo de uma visão moral mais
humanista produzindo sentido e novos saberes no âmbito da perspectiva
espírita. A pesquisa teórica-empírica propiciou
a dialogia entre educação com base em valores e espiritismo.O
lócus da pesquisa se deu em um Centro Espírita, situado
na periferia da cidade de Fortaleza que atua sob égide da Educação
Espírita através de movimentos artísticos e culturais.
Observou-se através do estudo das narrativas evidenciadas pelo
grupo de mães, a importância de uma leitura perscrutadora
do novo, a partir do que os sujeitos espirituais trazem como história
de vida, examinada em suas dobras, seus silêncios e interditos,
nas narrativas grupais. O apropriar-se do em que nos estamos transformando
é fundamental em processos de transformação que
revelam nossa identidade como espírito em evolução.
Por outro lado, a coragem de manter contato com a dimensão do
sentir, constituidora do caráter, é uma proposta sempre
exposta nas reflexões da educação espírita
evidenciadas pelos diários de campo dos Educadores do Centro
Espírita investigado.
As narrativas de vida nas rodas de conversas
com mulheres na educação de adultos: um lugar privilegiado
de produção de saber na perspectiva espírita.
Introdução
No último dia da semana passada, conversáramos sobre como
a gente vivia nossa mansidão, nosso desejo de ser pacífico.
Sempre, nessas horas, o mundo popular colocava as contradições:
como o marido seria bom sem emprego? Como ser pacífico em uma
relação que traz fortes marcas da opressão do homem
sobre a mulher? A fome real apaga outras fomes – a da delicadeza,
por exemplo? A da necessidade do amor?
Clarice Pínkola Estés, ao estudar o simbolismo que se
expressa na forma de narrativas em diversas culturas, lembrava que toda
cultura parece possuir suas espécies de predadores, que simbolizam
o que há de mais devastador no mundo social e na psique. Este
predador se instalaria de tal modo nos pensamentos, nas ações
e nos sonhos dos atores e atrizes do mundo social, que se passava a
naturalizar estas figuras, como se a gente as mitologizasse, tornando-as
atemporais.
Assim é que nós dizíamos que devíamos ter
cuidado para que estas ameaças à nossa humanização
não fossem se naturalizando, a tal ponto, que passassem a funcionar
como uma perspectiva de percepção que se vai impondo a
nós como óbvia e a-histórica. Dizíamos,
mais, que são processos de pensamento que se impõem
e, como uma casca, passam a querer ser uma pele nossa – e sabe-se
que os processos de pensamento e de percepção do que é
desejável afetivamente e no mundo social se transformam historicamente.
E também nós, como espíritos em evolução,
vamos tendo necessidades evolutivas diversas, segundo os aprendizados
fundamentais que se vão erguendo ao longo da vida.
E por que nós acolhemos determinados processos de pensamento
e não outros? O que em nós faz com que cultivemos os processos
de pensamento que funcionam como predadores de nosso modo mais pacífico
de ser? Que processos de pensamento falam da pessoa que fomos desde
muitas reencarnações e que necessitamos transformar, na
direção que Cristo aponta para todos nós seguirmos?
Como esses processos de pensamento alimentam situações
sociais de desamor?
A idéia inicial que tínhamos, nas rodas de educação
espírita que no Centro Espírita se fazia, era a de que
para falar sobre a construção da paz, que começaria
entre nós próprios, seria preciso acordar dimensões
do ser, como a espiritual. Pensávamos que seria importante acordar
a dimensão espiritual do ser e trabalhar no sentido de torná-la
visível para, assim, fazê-la dialogar com nossos processos
de pensamento – este era um dos objetivos da Comunidade Ampliada
de Pesquisa (metodologia em pesquisa), que se debruçava para
pesquisar educação (evangelização em suas
variadas formas) no Centro Espírita.
O entendimento que tínhamos era o de que deveríamos auscultar
o modo como são construídos os saberes da experiência
social nos lugares onde viceja o diálogo com a dimensão
espiritual. Assim, seria necessário vê-los emergir como
um conhecimento situado que, como se via, dialogava permanentemente
com o pensamento espírita (ciência, religião e filosofia)
e a educação.
O conceito de conhecimento situado vem com Freire, desde a
Pedagogia do Oprimido. Segundo Freire (1980), sendo os homens seres
em situação, isso implica pensarmos o que seja situado
e o que significa ação. Situado porque
estamos a fazer parte de um tempo e um espaço, e ação
porque estamos em um mundo em movimento e mudança e, nele, produzimos
nosso agir e saber em co-laboração dialógica. Dessa
maneira é que nos posicionávamos, no Centro Espírita,
buscando a cultura que se acumula como memória social, no caso
em estudo, por meio da reflexão sobre o vivido nos grupos de
educação espírita. Ora, muitas vezes nos dizíamos
que estávamos a lidar com extratos de vida onde se via uma espécie
de feminino ferido.
Sabemos que o Centro Espírita é lugar
fundamental onde as pessoas podem construir sua evolução
nos quadros de realidade reencarnatórios. Percebemos, também,
que as mudanças vividas pelas pessoas possuem uma instância
pessoal e outra coletiva e que o aprendizado da doutrina dos espíritos
parece requerer nossa ação ativa e consciente na transformação
do
que há de penúria intelecto-moral e social.Podemos tomar,
contudo, a realidade do Centro Espírita como um exercício
de atuação na totalidade social onde os aspectos subjetivos
vicejam estimulando e ocasionando transformações nos
universos de atuação em que nos situamos. Nesse contexto,
não resta dúvida que o fim da educação,
como afirma Kerchensteiner, seria “a criação de
um ser espiritual.”
Como diz Herculano Pires (PIRES, 1985, p.36):
Herculano Pires(1985) já propunha que nosso tempo
está a exigir uma educação de dimensões
cósmicas e espirituais. O pensamento espírita portanto,
vai adentrando os possíveis do tempo de agora, debruçado
em formulações pedagógicas para atender essa formação
de um “homem novo”, como diz Herculano Pires. É preciso
pois, para alcançar uma idéia de humanidade cósmica,
que se transcenda os exíguos limites da unicidade da existência
e da localidade terrena como única possibilidade de vida humana.
Continua o autor:
Com isso não queremos dizer que toda a humanidade
se converta ao espiritismo, mas tão somente que os princípios
fundamentais do Espiritismo serão as coordenadas do futuro,
marcando o âmbito conceptual e ético da nova formação
educacional. (...) A função da Educação
Espírita é, portanto, a de abrir perspectivas novas
ao processo educacional, adaptando-o às necessidades novas
que surgiram com o desenvolvimento cultural e espiritual do homem.
(PIRES,1985.p. 62)
- abaixo outros trechos da dissertação -
Diálogos Circulares e Narrativas de Vida
Na roda de mulheres a gente se conhece mais e conhece o outro; a
doutrina espírita ilumina o que fica escuro em nós.
Assim falavam as mulheres: na roda temática a gente fala e pensa
em nós como ser espiritual – e alumia os escuros, se poderia
acrescentar. Aquilo que ficava na penumbra, sem uma luz que lhe desse
sentido. Essa produção de sentido feita em grupos parece
levar as pessoas a considerar-se de outra perspectiva, uma vez que a
doutrina espírita vai assegurando caminhos largos para essa escuta
de si e do outro.
O pensamento espírita, então, servia de matriz para refletirmos
sobre nossas histórias de vida. Por meio dele se tocava dimensões
intra-psíquicas e, também, se propiciava socializações
de aprendizagens, fazendo uma espécie de ninho afetivo entre
nós, adultos. A roda, pois, que proporcionava diálogos
circulares e produção de saberes, mostrava o desejo das
mulheres de falar do seu feminino ferido: as opressões
vividas no cotidiano, em especial na relação com seu parceiro
de afeto.
(...)
(...)
(...)
Já observava o canadense Peter MacLaren, em seu estudo sobre
as utopias provisórias, que a resistência à violência
exige os atos de re-significação permanentes, para construir
o que se pode vislumbrar como transformação. Acresentaríamos:
a re-significação deveria, também, implicar os
mundos pessoais, subjetivos, junto aos processos mais coletivos. Jasmim
parecia estar a fazer esse movimento, quando dizia “Eu vim.
A vida vai tendo um novo significado com o que eu aprendo aqui. É
uma coisa que me muda por dentro. Saber da reencarnação,
saber que sou Espírito imortal... E eu sou a mesma. Luto até
mais na vida.”
(...)
(...)
(...)
Produção de Saberes na Perspectiva
Espírita
O pensamento espírita propõe que se vivencie desde já
uma cultura de paz; isso parece nos dizer que não podemos ficar
só na observação dos fatos que devemos modificar,
mas que há que se engajar por completo na construção
do novo em nós e nos contextos sociais em que vivemos. Vejamos
como se amplia a relação de si com o mundo, ao pensarmos
em nossa subjetividade nos termos que a perspectiva espírita
conduz. Passemos a ver alguns aspectos outros da questão, a partir
do diálogo com o pensamento espírita.
(...)
(...)
(...)
Na verdade, suscitar o amor, em todos os âmbitos da vida, confere
a força de superação necessária para o trabalho
com as dificuldades – esse o imperativo da evolução.
É dessa forma que para reconhecermos o amor em nós, como
também a necessidade de sua construção permanente,
também o grupo onde se convive e fala sobre estas transformações
deve ser um ninho construído, onde o afeto acolhe a diferença
e burila a dificuldade nas interações. Isso significa
que os grupos não são espaços de dizer onde se
remete sempre o dito a um lá fora – mas são espaços
também de prática crística, lugar de dizer, de
ser e fazer a transformação que se quer no presente. A
experiência do conviver, no centro espírita, nesse sentido,
deve se erguer conscientemente como um colo precioso em que os sentidos
espirituais ficam a ser produzidos como prática social concreta
e comum entre nós, também ali no centro espírita:
Aos poucos, na prática, se vai escolhendo a
direção que se quer, no conviver dos dias no centro
espírita - e se vai juntando novas elaborações
e tentando constituir-se um somatório de experiências,
que nos situam como ser reencarnante também, até que
se perceba que se está a caminhar na direção
de alcançar novos patamares evolutivos.
(...)
(...)
(...)
Considerações
Finais
Aos poucos se podia ver como as mulheres passavam a construir algo na
direção do que elas chamavam tranqüilidade interna,
e que não as deixava a reboque dos contextos sofridos em que
viviam e que elas passavam a transformar. A educação espírita,
pois, além de seus campos intersubjetivos, tem também
esse aspecto intra-psíquico de auto-educação, de
elaboração pessoal do nosso mundo no ser com os outros;
implica, pois, um conjunto de conquistas e de problemáticas a
resolver em nós mesmos.
(...)
(...)
(...)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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______________ . Três estudos sobre pedagogia espírita.
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PIRES, J. Herculano. Pedagogia Espírita. São Paulo: Edicel,
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PIRES, J. Herculano. Pedagogia espírita. São Paulo: Paidéia,
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____________ . Parapsicologia hoje e amanhã. São Paulo:
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