O atendimento da noite agora encerrava naquela terreiro de Umbanda.
Alguns dos pretos velhos que haviam trabalhado, desligavam-se de seus
aparelhos, não sem antes equilibrá-los com energias edificantes
e benfazejas.
Um dos médiuns, após, praticamente "despachar"
seu protetor, apressou-se em ajoelhar-se aos pés da preta velha
que ainda permanecia incorporada, para solicitar aconselhamento.
O bondoso espírito acolheu amorosamente suas
lamentações como o fez com todos os outros que haviam
passado por ela naquela noite. Ouviu a tudo fumegando seu cachimbo,
porém nada falou. Saravou aquele filho, agradecendo-o pela caridade
que havia prestado e assim se despediu, largando seu aparelho.
O médium por sua vez, desajeitadamente se retirou
sem conseguir entender o silêncio da Preta Velha. Um misto de
rejeição e indignação passou a povoar seus
sentimentos.- "Então é assim! Eu fico fazendo caridade
por horas a fio e quando solicito ajuda o que recebo?"
Enquanto a corrente mediúnica realizava as preces
de encerramento da sessão, ele sentiu uma inexplicável
sonolência que o obrigou a dirigir-se diretamente para casa, ignorando
o programa prévio de sair com os amigos para mais uma noitada
de lazer em bares da cidade.
Mal adormeceu, em corpo astral, através do desdobramento,
percebeu estar ajoelhado sobre folhas verdes e cheirosas num ambiente
simples, cujas paredes eram feitas de bambu, o teto de folhas de coqueiro
e o chão de terra batida. Algumas tochas iluminavam o local e
havia uma cantiga no ar que ele bem conhecia. Sentindo a presença
de alguém, virou-se e o viu sentado em seu tosco banco com aquele
sorriso matreiro e cachimbo no canto da boca. Sua roupa, bem como seus
cabelos brancos contrastavam com a pele negra. Os pés descalços
e calejados. No pescoço um rosário cujas contas eram pura
luz. Sim, era ele, Pai Benedito, seu protetor.
- Saravá zin fio!
- Saravá meu Pai!
- Pai Benedito chamou o filho até sua tenda
para poder explicar tudo aquilo que você não conseguiu
entender com a orientação da mana lá no terreiro
da terra.
- Meu Pai, ela nada falou...
- E suncê se magoou, não foi?
- -É... não compreendi...
- Por isso Pai Benedito o trouxe até aqui e
vai explicar. Os filhos da terra ainda não conseguem compreender
a mensagem do silêncio devido as suas mentes aceleradas pelo imediatismo,
pela falta de concentração e pelo vício de "receitas
prontas". A mana que nada disse ao filho, agiu assim justamente
para incentivar a sua busca das respostas. Queria que o filho, instigado
pela falta do aconselhamento a que vinha se acostumando, pudesse parar
e pensar. Pensar em todos os conselhos que seu protetor, através
de seu aparelho, havia passado para as pessoas que atendera lá
no terreiro há momentos atrás.
O silêncio da preta velha, quis dizer ao filho
que o primeiro e maior beneficiado da abençoada tarefa mediúnica
é o próprio mediador. A sua característica de médium
consciente permite que receba e transmita os nossos pensamentos e os
bons fluídos dos quais se torna canal. Para que o intercâmbio
"médium-espírito" aconteça, pela bondade
divina , o corpo astral do mediador é previamente preparado antes
de reencarnar através da "sensibilização fluido-
mediúnico" de seus centros de forças para que assim
se dê a afinização com seus protetores
Durante toda a vida encarnada, é ainda alertado
e amparado para que possa exercer o mandato dentro do programado. No
entanto, existe um carma envolvendo tudo isso e o fato dos filhos prestarem
a caridade não os isenta dos entrechoques a que estão
sujeitos na matéria, que nada mais são do que ensinamentos
necessários do certo e do errado. Respeitando as escolhas feitas,
esses protetores tantas vezes, mesmo e apesar de todo esforço,
perdem seus pupilos para os descaminhos da vida, e então resta-lhes
aguardar que o relógio do tempo os traga de volta pela mão
da dor.
Pai Benedito não se entristece se o filho por
vezes o dispensa ou não entende suas mensagens. Nem mesmo quando
o filho desfaz as energias recebidas após o trabalho de caridade
através da busca de prazeres ilusórios e momentâneos.
Apenas ajoelha diante do congá, que no plano astral fica sempre
iluminado pelas velas da caridade prestada nas poucas horas em que a
corrente de médiuns se reúne na terra, e implora ao Pai
Oxalá a sua compreensão para todos os espíritos
que ainda teimam em permanecer colados às suas mazelas no plano
terreno.
Por isso filho, estando aqui em frente a este espírito
que tanto o ama e cuja ligação perde-se no tempo, peço
que desabafe suas dores, que tire as dúvidas que angustiam seu
coração.
Agora o silêncio era todo seu. Apenas as grossas
lágrimas que desciam de sua face falavam de sua pouca fé,
de seu descrédito até então, pela própria
mediunidade. De seus momentos de incertezas quanto a estar servindo
realmente de canal para Pai Benedito, de seus medos em relação
ao animismo e da confusão que fazia dele com a mistificação.
Mas principalmente de sua vontade de largar tudo pelos prazeres do mundo,
afinal era muito jovem ainda para levar uma vida regrada em função
da mediunidade.
- Pai Benedito compreende a angústia do filho,
mas pede que revise os tantos avisos que recebeu em seus sonhos, nas
palestras instrutivas que ouviu lá no terreiro, nos livros que
chegaram até suas mãos e nas tantas vezes que a Preta
Velha o instruiu, o aconselhou. Onde estão estas informações?
Para quem eram dirigidas nossas palavras nos atendimentos, senão
para você que as ouvia antes de repassá-las? Nada é
proibido aos filhos no estágio da matéria, mas em tudo
deverá existir o equilíbrio.
O silêncio da Preta Velha havia sido traduzido
e agora ele conseguia compreender que fora o melhor, dos tantos conselhos
que ouvira dela. Fechando seus olhos, a ela agradeceu mentalmente e
quando os abriu, além do cheiro de incenso e da claridade que
se instalara naquele ambiente, percebeu que tudo modificara. A humilde
tenda agora era um templo iluminado por vitrais coloridos que formavam
filetes de luz que se entrecruzavam num quadro de beleza estonteante.
No chão, ao centro, em esplendoroso piso vitrificado havia o
desenho de uma mandala, que de seu centro irradiava luz dourada. Já
não estava mais diante daquele Pai Velho em humildes trajes,
pois ele havia se transfigurado num ser de características orientais,
de olhar penetrante.
Nada pode pronunciar, sua voz embargou. Havia que se
fazer o silêncio para que só ele traduzisse a mensagem
agora recebida.
Naquela manhã acordou muito cedo, tendo plena
lembrança de seu "sonho". No ar, ainda o cheiro do
incenso. Não fosse a exigência da vida física, ficaria
o dia todo calado, saudando o silêncio da Preta Velha.
"Que nos ouça, quem tem ouvidos de
ouvir". Saravá aos filhos da Terra!
Vovó Benta
* obs. : quando
recebemos este interessante texto tentamos localizar o nome do médium,
mas não foi possível. Segundo informações
que levantamos, o local de onde saiu este texto tem como política
não indicar o nome do médium que recebe cada mensagem.
Fonte: Terreiro Caboclo
Ventania e Ogum de Pedra
topo