A evolução
tecnológica eleva a importância do papel social da comunicação
e finca um marco na história da Humanidade
Especificamente neste ano, o espiritismo
invade a mídia, provocando uma divulgação em massa
das temáticas espíritas. Curiosos e estudiosos, amigos
ou inimigos do espiritismo, em um caldeirão de termos e opiniões,
passaram a conviver com um cotidiano aparentemente cheio de novidades
sobre mediunidade, reencarnação, vida após a morte,
espíritos. Elas estão em evidência nos jornais,
revistas, programas de TV, internet, livros, filmes, peças de
teatro. Tudo é muito rápido, passageiro, repetitivo às
vezes, e nem sempre nos damos conta de que ainda há muito por
fazer na comunicação social espírita, mesmo porque
é preciso diferenciar informação de formação.
Tal fenômeno acontece não
só para os assuntos de espiritualidade, mas em todos os campos
da atividade humana. O específico deixou de ser privilégio
de poucos. A dificuldade não está mais na busca da informação,
mas na compreensão do seu conteúdo. E aí é
que entra a responsabilidade da comunicação social espírita,
que tem nas mãos o desafio de não se perder das raízes
plantadas pelos espíritos através da terceira revelação
e ao mesmo tempo permitir, sem medo, a chegada da modernidade.
Há poucos dias, o sociólogo
italiano Massimo di Felice, professor da USP, doutor em ciências
da comunicação, afirmava em entrevista ao jornal O Estado
de São Paulo (“Cidadãos 365
dias por ano”, 24/04/2010) que o momento em que vivemos
é tão impactante quanto o que ocorreu no século
15, com o advento da prensa de Gutemberg, destacando o papel da comunicação
pela mídia digital, com a internet e redes sociais online, que
elimina a hierarquia no processo e cria uma nova realidade em torno
dos debates e da formação de opinião. Fala inclusive,
sobre os impactos na vida política de uma nação,
tendo como consequência um marco de uma nova Era.
Na verdade, a importância do papel da comunicação
e seu impacto sociocultural não é de agora. Assim que
lançou O livro dos espíritos, Allan Kardec também
pensou em utilizar a mídia como um dos recursos para auxiliar
na divulgação da nova filosofia que chegava à área
do conhecimento humano. Foi então que lançou a Revista
Espírita, tendo-a como um laboratório que divulgasse as
impressões coletadas, os comentários sobre entendimentos,
dúvidas, o impacto das idéias na sociedade, casos diversos
de manifestações que ilustrassem a literatura recém-lançada.
Quem já leu Viagem espírita em 1862 (FEB), viu descrita
a vontade do codificador em ver in loco as repercussões da divulgação
do espiritismo, apertar a mão dos simpatizantes da doutrina,
retribuir as manifestações de amizade, em uma das viagens
que fez, por cerca de dois meses, pelo interior da França, entendendo
que o processo de comunicação sobre tudo aquilo que era
novo em matéria de conhecimento humano não se resumia
apenas em publicar os livros, mas trocar com o público, ir além,
para posteriormente levar a um fórum maior de entendimento, através
da Revista. Uma postura extremamente pedagógica e arrojada do
educador Allan Kardec, que tinha a construção do conhecimento
como algo em movimento.
Contemporaneidade de Kardec
Além de um bocado de talento,
escrever jornalisticamente é uma ciência e Kardec tinha
orientação para isso. Toda a coleção da
Revista Espírita e também textos de Obras póstumas
revelam sua preocupação e preparo como editor. Uma das
orientações que recebeu da espiritualidade, após
a publicação de O livro dos espíritos,
em 1857, na casa da médium Dufaux, dizia:
“De começo, deves cuidar
de satisfazer à curiosidade; reunir o sério ao agradável:
o sério para atrair os homens de Ciência, o agradável
para deleitar o vulgo (…). É preciso evitar a monotonia
por meio da variedade, congregar a instrução sólida”.
Kardec não só segue as
instruções, totalmente atuais, como deixa um verdadeiro
roteiro que, se aplicado, eleva o patamar de qualquer meio de comunicação
e os resultados que almeja.
Vale lembrar que não havia no século 19 tanta possibilidade
de interação, globalização da mídia,
nem a rapidez quase instantânea para respostas sobre os mais diversos
questionamentos, imagine-se sobre a origem e a destinação
do homem. Hoje, somos bombardeados com tantas informações,
muitos já começamos a sofrer o impacto do excesso delas,
como a falta de tempo invariável dos chats, da síndrome
dos e-mails inúteis e de uma papelada sem fim de conteúdos
diversos. Mas a pergunta que se deve fazer é: essas informações
têm possibilitado que as pessoas se tornem melhores, mais equilibradas
e felizes? Aliás, que felicidade é essa que se tem buscado?
E – também – quais as “receitas” que
a mídia tem oferecido?
Ora, se desejarmos efetivamente fazer parte, contribuir para a melhoria
do cenário social do planeta, precisamos estar bem atentos para
não colocarmos as mãos em massa errada. Lembrar, primeiramente,
que antes de se instruir é preciso aprender a amar, como tão
bem nos ditou o Espírito da Verdade, no Evangelho.
A questão da responsabilidade social da
comunicação espírita é mesmo muito séria
e exige discernimento. Como iremos pautar nossos veículos? Vamos
oferecer o que o público quer ou o que ele precisa?
Pensando assim, no amor, sem deixarmos de lado a técnica
e o conhecimento, é claro, teremos a segurança necessária
para elaborarmos uma comunicação realmente útil,
eficiente e agradável, tão sonhada por Kardec, orientada
pela Espiritualidade, e não apenas para agradar o nosso orgulho,
a nossa vaidade.
A sociedade precisa e espera por isso. Há excesso de comunicação,
mas também fome espiritual no ar.
O que pode melhorar
- adequação da linguagem:
eruditismo, palavras arcaicas, termos específicos, discurso
excludente, conotação pregatória já não
têm espaço no mundo atual.
- identidade visual atual:
o amadorismo emperra a excelência da comunicação
e o avanço da difusão do espiritismo além das
fronteiras. É preciso atentar para os padrões do leitor
globalizado.
- ética jornalística:
em reproduções de trechos de obras, artigos de jornal,
dentre outros, é preciso fazer valer o que recomenda a ética
jornalística: citar a autoria, a fonte primária e não
se render à tentação de alterar o texto original.
“Reconheci que fora uma felicidade não ter tido quem
me fornecesse fundos, pois assim eu me conservara mais livre, ao
passo que outro interessado houvera talvez impor-me suas idéias
e sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não
tinha que prestar contas a ninguém, embora, pelo que respeitava
ao trabalho, me fosse pesada a tarefa.”
– Allan
Kardec, Obras póstumas.
- Ter conexão com a realidade:
O espiritismo interfaceia com todas as áreas do conhecimento
que instigam a Humanidade, o que só por essa razão,
já não seria difícil arregimentar leitores.
“A história da doutrina
espírita, de alguma forma, é a do espírito humano”.
Ela “nos oferece, enfim, a única solução
possível e racional de uma multidão de fenômenos
morais e antropológicos, dos quais, diariamente, somos testemunhas,
e para os quais se procuraria, inutilmente, a explicação
em todas as doutrinas conhecidas”.
– Allan Kardec, RE, 1858.
- Respeitar a crença do outro:
embora o espiritismo não seja adepto à prática
proselitista, existe um comportamento generalizado, quase sempre negado,
de se colocar o espiritismo como o único caminho para o progresso
espiritual, reflexo da indiferença e preconceito em relação
às crenças e religiões.
“O estudo de uma doutrina, qual a doutrina espírita,
só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes,
livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade
de chegar a um resultado. Abstenham-se, portanto, os que entendem
não serem os fatos dignos de sua atenção. Ninguém
pensa em lhes violentar a crença; concordem, pois, em respeitar
a dos outros”.
-
Dar voz ao interlocutor: grande
parte do que é publicado hoje na imprensa espírita
não inclui a experiência do desconhecido que experimenta
o espiritismo em sua vida, como fazia Kardec no tempo da Revista
Espírita, que convidava a todos para escrever sobre as manifestações
que ocorriam, sobre pressentimentos, lendas e crenças populares;
aparições e outros.
-
Proporcionar a instrução
e a reflexão: a coerência dos fundamentos
espíritas deve despertar os sentimentos e fazer emergir a
fé pela razão. Porém ninguém convence
verdadeiramente ninguém a nada. O papel da imprensa espírita
é muito maior que o de agente de conversão ou de pregação
religiosa.
-
Ter em vista o objetivo da divulgação:
A melhor forma de reconhecer o valor do trabalho daqueles que nos
antecederam na tarefa da comunicação é nos
empenharmos para que as idéias espíritas transitem
pela contemporaneidade, de maneira livre e integrada, acompanhada
de nossas ações coerentes, servindo de apoio para
que as pessoas reflitam sobre si, caminhem de forma mais plena consigo
mesmas, entendendo sua relação com a Criação
e com o próximo.
"O espiritismo parte do Alto, e não chegará
às massas senão liberto das idéias falsas, inseparáveis
das coisas novas.”
– Allan Kardec, RE, 1858.
Fonte:
Texto publicado originalmente no jornal Correio Fraterno Maio/Junho
de 2010
Izabel Vitusso é editora do
jornal Correio Fraterno. Co-autora do livro Atos de Amor (Minas Editora)
e autora de Terra Fértil, semente lançada na história
do espiritismo em Uberlândia (AME – Uberlândia-MG).
Vice-presidente do Lar da Criança Emmanuel – São
Bernardo do Campo-SP. Expositora e articulista espírita.
Eliana Ferrer Haddad é jornalista
responsável do jornal Correio Fraterno. Formada em Comunicação
Social, atua na imprensa espírita há vários anos.
Participa do programa Vida Além da Vida, é palestrante
e expositora do IEEF- Instituto Espírita de Estudos Filosóficos.
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