Patricia Fachin entrevista Frank Usarski
Frank Usarski analisa as peculiaridades e contestações
existentes entre budismo, hinduísmo e a relação
de ambos com os monoteísmos
Na opinião do professor Frank Usarski,
em época de globalização, “a questão
da origem das religiões e, com isso, a dicotomização
entre ‘religiões ocidentais’ e ‘religiões
orientais’ é cada vez menos relevante”. Na
entrevista que segue, concedida à IHU On-Line, por e-mail,
o pesquisador aborda as diferenças e semelhanças
entre os monoteísmos e as religiões orientais. Entre
elas, cita o grau do potencial salvífico ao ser humano.
Ele explica: “O contraste maior nesse sentido existe entre
o protestantismo e sua ênfase na graça divina como
elemento soteriológico central, por um lado; e o Budismo
Teravada parte do pressuposto que o alcance de nirvana cabe a
cada seguidor do caminho óctuplo ensinado por Buda, cujo
nirvana era resultado dos seus autônomos esforços
espirituais”.
Frank Usarski é doutor, com tese sobre
os mecanismos e motivos da estigmatização pública
de novos movimentos religiosos na Alemanha Ocidental e possui
pós-doutorado na área de Ciência da Religião
pela Universidade de Hannover, na Alemanha, sobre o papel das
religiões nas Exposições Mundiais entre
1851 e 1900. Desde sua chegada ao Brasil em 1998, faz parte
do Programa de Pós-Graduação em Ciências
da Religião da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo – PUC-SP. Em 2009, obteve o título
de Livre Docente na área de Ciências da Religião
pela PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas, destacam-se
a pesquisa, o ensino e diversas publicações sobre
as religiões orientais, bem como sobre a história
e o perfil atual da ciência da religião. Além
disso, é fundador e coordenador da Revista de Estudos
da Religião – REVER – e líder do grupo
de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas
de Origem Oriental no Brasil – CERAL. De suas obras, além
de O Budismo e as outras. Encontros e desencontros entre
as grandes religiões mundiais (Aparecida: Ideias
& Letras, 2009), citamos Constituintes da ciência
da religião. Cinco ensaios em prol de uma disciplina
autônoma (São Paulo: Paulinas, 2006).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual é a especificidade
das religiões orientais? O que as diferenciam de outras religiões
como as monoteístas, por exemplo? Existe também alguma
semelhança?
Frank Usarski - Em primeiro lugar,
temos que lembrar que todas as chamadas “grandes religiões”,
inclusive a religião “ocidental” par excellence,
o Cristianismo, surgiram no Oriente. Ao mesmo tempo, sabemos que,
na época da globalização e devido a processos
de difusão intensificada das religiões para qualquer
parte do mundo, a questão da origem das religiões e,
com isso, a dicotomização entre “religiões
ocidentais” e “religiões orientais” é
cada vez menos relevante. Mas isso não significa que de princípio
sua pergunta não implica categorias heuristicamente funcionais,
ou seja, na sua pergunta, repercute uma classificação
que tem uma boa tradição nos estudos da religião,
como a seguinte citação do ensaio A Psicologia Social
das Religiões Mundiais de Max Weber demonstra. Conforme o famoso
autor, no mundo religioso, “encontra-se a diferenciação
entre o conceito de um Senhor da Criação supramundano,
pessoal, irado, misericordioso, amante, exigente, punitivo. Ele contrasta
com o ser supremo [...] impessoal.” Segundo Weber, o primeiro
conceito encontra-se nas “religiões iraniana e do Oriente
Médio”, dos quais derivaram as religiões ocidentais.
O conceito oposto “dominou a religiosidade indiana e chinesa”.
Nesse parágrafo, Weber associa as religiões atualmente
chamadas “ocidentais” com a religiosidade monoteísta,
enquanto delimita as religiões orientais e as tradições
do Sudeste e do extremo leste da Ásia, evitando confusões
potenciais da categoria “oriental” devido à localização
da Palestina e da Península Arábica, duas regiões
de alta importância para a história das religiões.
Visto nessa perspectiva, podemos identificar três tendências
principais que distinguem as “religiões ocidentais”
das “orientais”. O primeiro aspecto já consta na
citação de Max Weber: diferente das religiões
monoteístas, Budismo, Taoísmo e – abstraindo de
determinadas correntes hindus como o bhakti – Hinduísmo
caracterizam-se por um conceito impessoal da “última
realidade”, simbolizado por expressões como sunyata,
tao ou brahman. O segundo aspecto refere-se ao conceito do tempo.
As religiões monoteístas partem da hipótese de
um tempo linear tanto no nível cosmológico quanto no
nível individual. O mundo foi criado do nada, desenvolve-se
e vai chegar a seu fim. Analogicamente, nossa existência atual,
marcada pelo nascimento e pela morte, é a única vida
no sentido mundano que nos é dada. Trata-se de ideias em tensão
com o pensamento cíclico típico para o Hinduísmo
e Budismo, mas que encontram-se também no Taoísmo na
medida em que a renovação constante da existência
“macro” é tema das reflexões. A terceira
diferença consta no grau do potencial salvífico ao ser
humano. O contraste maior nesse sentido existe entre o protestantismo
e sua ênfase na graça divina como elemento soteriológico
central, por um lado; e o Budismo Teravada parte do pressuposto que
o alcance de nirvana cabe a cada seguidor do caminho óctuplo
ensinado por Buda, cujo nirvana era resultado dos seus autônomos
esforços espirituais. Além desses elementos opostos,
há inúmeras semelhanças entre elas, alguns que
relativizam consideravelmente a oposição entre as religiões
ocidentais e orientais. Por exemplo, algumas correntes dentro do Budismo
Mahayana, predominante no Extremo Oriente, destacam uma concepção
de graça compatível com o pensamento cristão.
Ao mesmo tempo encontram-se articulações de místicos
cristãos que se aproximam da imagem impessoal da última
realidade, portanto de uma tendência frequentemente encontrada
em tradições orientais.
IHU On-Line – Como o senhor
descreve o Budismo? Que aspectos o caracterizam e o diferenciam de
outras religiões orientais?
Frank Usarski - A pergunta é
extremamente complexa e uma resposta detalhada transbordaria os limites
formais dessa entrevista. Sob essas condições, tenho
que me contentar com um resumo insatisfatório para um leitor
que possui pelo menos um conhecimento razoável sobre o budismo.
De acordo com várias fontes, Siddharta Gautama viveu entre
560 a.C. e 480 a.C. Nos séculos posteriores, o Budismo espalhou-se
pela Ásia, assumindo traços próprios em reação
a padrões culturais estabelecidos nas regiões anfitriãs.
Apesar da sua atual diferenciação interna, todas as
correntes partem de princípios básicos, entre eles os
seguintes: Um elemento-chave é a identificação
do Buda como mestre iluminado dedicado à divulgação
de um conhecimento soteriológico completo que merece confiança
profunda por parte dos seus seguidores. A alta relevância desses
aspectos é indicada pela fórmula clássica “Eu
tomo refúgio no buda; Eu tomo refúgio no dharma; Eu
tomo refúgio na sangha”, mediante a qual o adepto salienta
seu compromisso com a memória do fundador e a aplicação
dos seus ensinamentos (dharma) em um contexto sociológico distinto
(sangha, isto é, a comunidade budista). Todas as correntes
budistas aceitam a visão de que toda a existência é
transitória e, portanto, impermanente. Isso vale também
para a constituição do ser humano que é –
como qualquer outro fenômeno - formado por fatores existenciais
temporários sujeitos de um processo contínuo do devir.
Esse insight repercute nas chamadas quatro nobres verdades, as quais
salientam que 1) a vida é marcada pelo sofrimento; 2) o sofrimento
tem suas raízes em conceitos falsos e atitudes erradas; 3)
o sofrimento pode ser vencido sob a condição de que
suas raízes sejam superadas e 4) que o método de superar
a situação existencialmente precária consta no
caminho óctuplo ensinado pelo Buda para alcançar o nirvana,
objetivo soteriológico do Budismo qualificado pela extinção
das raízes do sofrimento e, portanto, pela ausência do
mesmo.
Distinção entre
Budismo e Hinduísmo
Muitos dos aspectos acima mencionados
aparecem também no âmbito do Hinduísmo o que,
às vezes, dificulta a identificação de diferenças
entre as duas religiões. Menciono aqui apenas três pontos
de distinção. Primeiro, o Budismo nega explicitamente
a ideia de um self no sentido de uma entidade imutável que
caracteriza um indivíduo independentemente das formas nas quais
ele renasce. A rejeição dessa ideia encontra-se, sobretudo,
no conceito budista de “anatta”, termo técnico
que se refere negativamente (prefixo “a”) ao conceito
hindu do atman (self). Segundo, no Budismo, há uma radicalização
da ideia da transitoriedade, também bastante conhecida pelo
Hinduísmo. Essa radicalização faz com que o Budismo
- diferentemente do Hinduísmo, que localiza suas grandes divindades
fora do samsara (esfera da existência marcada pela mudança
continua e do sofrimento), – não reconheça nenhum
ser, inclusive seres “divinos”, que não seriam
submetidos à lei da transitoriedade. Terceiro, há diferenças
no que diz respeito à retórica referente ao objetivo
soteriológico de cada religião. Ambas associam esse
objetivo com a liberdade do sofrimento, mas o Hinduísmo define
o objetivo como moksha, um status da consciência associada com
valores positivos como “eternidade” e “beatitude”.
O Budismo optou por uma abordagem “apofática”,
caracterizando o nirvana em termos “negativos”. Ou seja,
em vez de simplesmente “definir” o nirvana, o último
é circunscrito como algo diferente de tudo que nós conhecemos.
IHU On-Line - Como o budismo pode
nos ajudar a lidar com nossos desejos infindáveis e a encontrar
um estado de equilíbrio?
Frank Usarski - Pelo que entendi a
partir dos meus estudos, o Budismo oferece um instrumentário
rico em prol de um autodesenvolvimento nos níveis das sensações,
do pensamento e das ações. Este autodesenvolvimento
baseia-se em práticas meditativas ou devocionais – dependente
sobre qual subcorrente budista falamos. Ao mesmo tempo, diversos elementos
do caminho óctuplo implicam exigências éticas
profundas que devem nortear a prática e o comportamento cotidiano
de um budista. Tudo isso contribui para o “equilíbrio”
– para repetir a ultima palavra da sua pergunta.
IHU On-Line – Em relação
ao Hinduísmo, o senhor pode nos explicar porque ele tende a
seguir uma linha de ortopraxia ao invés da ortodoxia?
Frank Usarski - O termo Hinduísmo
deriva de uma nomenclatura alheia que se refere ao povo vivendo nas
margens do rio Sindhu. A antiga autodenominação dessa
religião é sanatana dharma. Sanatana significa “eterno”.
Dharma é uma expressão polissêmica. A denotação
mais citada é “ordem”. Trata-se de uma ordem inerente
da vida cuja onipresença pode ser identificada em vários
níveis da existência. Portanto, sanatana dharma articula-se
no sentido cósmico, social e individual, e todas essas “camadas”
são intimamente inter-relacionadas. O sistema de castas, por
exemplo, é expressão da ordem cósmica no nível
social. O mesmo vale para a organização da biografia
ideal de um hindu em quatro estágios. Uma vez que o universo
representa um sistema macro no qual cada parte “comunica-se”
com todas as outras, qualquer desrespeito do dharma por parte de um
ser humano é capaz de perturbar a ordem e prejudicá-la
- com consequências negativas para a própria vida humana.
Por isso, não a fé correta, mas o comportamento correto
é tão enfatizado pelo Hinduísmo.
IHU On-Line – Como percebe
o Budismo em face do Hinduísmo e das três religiões
monoteístas? Há espaço para troca de valores
e negociações?
Frank Usarski - Mais uma pergunta
cuja complexidade impede uma resposta satisfatória. Tentei
elaborar exatamente essa problemática na minha tese de Livre
Docência, o que já aponta para a complexidade da sua
pergunta e da impossibilidade de responder a ela nesse contexto formalmente
restrito. Portanto, tenho que me contentar novamente com algumas alusões
que não satisfarão um leitor que já estudou o
Budismo.
Quanto à relação
entre o Budismo e o Hinduísmo, apenas o seguinte: embora o
Buda tenha incorporado uma série de elementos constitutivos
do Hinduísmo, ele se colocou criticamente em relação
à tradição dos Vedas, à fixação
de um saber revelado e à justificativa suprema do sistema de
castas. Também não aceitou a “certeza” dos
brâmanes de possuir o monopólio dos “bens religiosos”.
Diversos trechos do cânone páli relatam encontros entre
o Buda e representantes da religião védica frequentemente
problematizando a competência religiosa dos brâmanes e
sua posição na antiga sociedade hindu.
Quanto à relação
entre o Budismo e as três religiões monoteístas,
o ponto mais nevrálgico é a negação do
Budismo de qualquer entidade duradoura existencial, uma postura que
implica naturalmente a rejeição da ideia de um ser supremo
estável e eterno. Sobretudo por parte da chamada “escola
de Kyoto”, há tentativas filosóficas de mediar
entre a ontologia budista não-teísta e o pensamento
teológico propriamente dito, mas, afinal de contas, nesses
e outros pontos, permanece a tensão, ou, às vezes, até
mesmo, um abismo “ideológico” entre o Budismo e
as tradições monoteístas.
IHU On-Line – Como as crenças
budistas contribuem para a construção do diálogo
inter-religioso?
Frank Usarski - Isso depende de vários fatores,
inclusive da questão sobre qual corrente budista falamos e
em que contextos culturais budistas foram desafiados pela existência
de outras religiões. Do ponto de vista histórico, é
possível identificar cerca de uma dúzia de posturas
que o Budismo tomou quando foi confrontado com alternativas religiosas.
Cito aqui apenas dois exemplos extremos. Um representa uma postura
tendencialmente inclusivista, o outro uma postura explicitamente exclusivista.
A primeira atitude é conhecida como upaya, termo técnico
frequentemente traduzido como meios habilidosos. Essa figura retórica
tem desempenhado um papel importante, sobretudo para o Budismo do
Extreme Oriente e do Tibet no posicionamento do Grande Veículo.
A lógica de upaya inclui a ideia de que a verdade religiosa,
embora ela se manifeste mais explicitamente em forma do Budismo Mahayana,
pode se articular em várias facetas. Nesse sentido, o Cristianismo,
por exemplo, pode ser a expressão temporariamente adequada
para indivíduos que, devido ao seu carma e progresso no caminho
“eônico” em direção à liberação
última, nascerem em uma família cristã. Com isso
a figura retórica de upaya, uma vez que permite um olhar construtivo
diante de fundadores e protagonistas de sistemas não-budistas,
interpretados como co-participantes do trabalho salvífico universal
do Buda. Em oposição a essa argumentação,
encontram-se, no chamado cânone páli, ou seja, nos textos
mais antigos do Budismo, diversos trechos que apresentam uma atitude
exclusivista, ou seja, mostram a forte tendência de rejeitar
abordagens e ofertas espirituais não-budistas. A moral das
respectivas histórias é a de que não é
possível atingir a salvação fora do sangha, isto
é, da comunidade dos aderentes do Buda. As demarcações
acontecem em diálogo com representantes de outras religiões
indianas. Os últimos são identificados como inferiores
e incapazes de entender a mensagem do Buda na sua profundidade. O
questionamento de autoridades convencionais articula-se de maneira
mais específica no Virecana-Sutra. Nesse texto, o Buda se refere
a líderes de outros movimentos, comparando-os a médicos
incapazes de oferecer ajuda adequada a seus pacientes, uma vez que
possuem apenas remédios direcionados ao tratamento de sintomas
superficiais, sem que a eficácia desses procedimentos limitados
seja garantida. Em comparação com essas abordagens fragmentárias,
a medicina oferecida pelo Siddhartha Gautama é bem-sucedida
e confiável sob quaisquer circunstâncias e, mais importante
ainda, vai diretamente ao ponto, isto é, cura as raízes
de todos os tipos de sofrimento.
IHU On-Line – Hans Küng, teólogo
alemão, propõe uma ética mundial como caminho
para a construção da paz planetária. O senhor
concorda com essa proposta? As religiões podem ajudar nessa
caminhada?
Frank Usarski - Por apelar na responsabilidade das
religiões diante da crise mundial, a abordagem de Küng
abre um caminho para um diálogo entre as religiões que
põe entre parênteses as inegáveis diferenças
ideológicas entre elas, cuja articulação impede
que encontros inter-religiosos acabem em harmonia. Com isso, o modelo
de Küng transcende as tensões entre as religiões
que se desenvolvem tipicamente ao redor da reivindicação
de cada uma de possuir a melhor, ou até mesmo, única
válida oferta religiosa no sentido de filosofia e prática
espiritual. Em outras palavras, em vez de gastar tempo e energia com
disputas religiosas propriamente ditas, Küng quer sensibilizar
os porta-vozes das religiões para a precariedade da situação
atual que está requerendo ações concertadas de
todas as forças sociais que se sentem responsáveis e
estão dispostas a contribuir na medida do possível -
apesar de diferenças fundamentais entre as religiões.
Desse ponto de vista, a proposta de Küng representa
uma contribuição importante para a convivência
das religiões em um mundo cada vez mais globalizado.
IHU On-Line – É possível falar
em sociedade pós-metafísica, pós-religiosa? O
senhor percebe, nesse cenário pós-metafísico,
diferenças na atuação das religiões orientais
e ocidentais?
Frank Usarski - Sendo sociólogo que acompanha
a discussão sobre o status atual e o futuro da religião
no mundo contemporâneo, a fala sobre uma época "pós-metafísica"
(que belo, mas impertinente termo filosófico!) está
em tensão alta com as observações empíricas.
Isso vale tanto para o papel forte da religião nas sociedades
modernas ocidentais, no sentido de um elemento subjetivo, quanto para
países orientais, inclusive aqueles nos quais o islã
continua a ser um fator-chave político.