Feministas muçulmanas
reivindicam o direito de dispor livremente do seu corpo.
Elas rejeitam a interpretação exclusivamente masculina
do Alcorão, que serve de pretexto para as piores práticas
machistas e patriarcais
Para Siham Drissi, 28 anos, uma francesa de origem marroquina, o combate
feminista representa o futuro do Islã. As feministas muçulmanas
não vão "descer nas ruas para queimar os seus sutiãs",
diz ela, mas é mesmo o direito de dispor livremente do seu corpo
que elas reivindicaram durante o congresso que reuniu em Barcelona,
de 3 a 5 de novembro, 400 membros de diversas associações.
Um "feminismo islâmico"? É difícil
acreditar, mas é a pura verdade. Algumas manifestações
nesse sentido há muito tempo já eram ouvidas nos campi
americanos - nas vozes de mulheres tais como Amina Wadud, Asma Barlas
ou Riffat Hassan -, mas elas permaneciam isoladas. Diante do número
crescente das associações e dos sites feministas, na Malásia,
na Nigéria, no Paquistão, Abdennur Prado e Ndeye Andujar,
dois espanhóis convertidos, respectivamente o presidente e a
vice-presidente da principal associação islâmica
da Catalunha, quiseram reuni-las num congresso de modo a dar-lhes uma
"visibilidade".
Esta aposta deu certo em Barcelona, onde um movimento
de liberação da mulher muçulmana acaba de nascer.
Este rejeita a interpretação exclusivamente masculina
do Alcorão, que serve de pretexto para as piores práticas
machistas e patriarcais. "Este não constitui um problema
exclusivo da sociedade islâmica", acrescenta Ndeye Andujar.
"Nas minorias muçulmanas da Europa e da América,
a questão das mulheres também é explosiva".
O que se viu neste congresso foi uma dolorosa romaria
de militantes vindas do Senegal, do Paquistão, da Indonésia,
do Irã para expressar o desespero das mulheres, cuja condição
está codificada na "charia" (lei islâmica) e
nos códigos locais da família: mal-tratos, casamento forçado,
poligamia, discriminação em relação ao acesso
ao divórcio e à herança, etc.
Uma delas, Codou Bop, explica que 12% apenas das mulheres
do seu país, o Senegal (onde 95% da população são
muçulmanos), praticam a contracepção:
"Essas mulheres passam por imorais, enquanto
todas as outras estão convencidas de que o Islã é
contra o controle dos nascimentos. Os próprios membros do corpo
médico pedem a opinião do homem antes de prescreverem
a pílula".
Acabar com os tabus
A religião, que não tolera relações
sexuais fora do casamento, acrescenta a sua parte na culpabilidade que
elas podem vir a sentir. Todas as batalhas em favor do direito ao aborto
esbarram na resistência dos oulemas (sacerdotes) locais e dos
chefes de família. Com isso, os abortos clandestinos matam todo
ano na África 200.000 mulheres.
Lily Munir, que é indonésia, denuncia
a poligamia que impera em grande escala no seu país. Para ela,
trata-se de um crime contra o espírito do Alcorão. No
contexto tribal da época do Profeta, a limitação
a quatro do número das esposas representava um progresso. Hoje,
a poligamia não passa de uma regressão:
"Nenhum homem é capaz de tratar quatro
esposas com a justiça igual, tal como recomenda o Alcorão".
Por sua vez, a iraniana Nayereh Tohidi toma a palavra
para deplorar os impasses nos quais se encontram as lutas feministas
em seu país. No caso, as suas tentativas são reprimidas
pelo clã clerical e pelo governo islâmico que está
no poder, cuja "retórica militar e anti-ocidental"
tem por efeito de confinar as mulheres na sua marginalidade.
Em contextos tão variados, o feminismo muçulmano
não segue uma estratégia única. Algumas dessas
mulheres são moderadas, enquanto outras se revelam mais provocadoras.
Asra Nomani, uma americana de origem indiana, quer acabar com todos
os tabus. Ela exige o direito à livre escolha de um parceiro
sexual e de um marido, o direito a ter relações sexuais
fora do casamento, o direito à homossexualidade, etc.
O traço comum a todas elas é o convite
feito às mulheres a se apoderarem do Alcorão e imporem
uma leitura "não sexista" dos textos. Elas lutam contra
o versículo 34 da quarta sourate (capítulo) que afirma
que o homem tem o direito de "bater" na sua mulher. Elas exigem
o direito a promover uma interpretação reformadora dos
textos.
"O Alcorão não constitui um bloco.
Existem tantas leituras quanto leitores", argumenta Ndeye Andujar.
Foi agendado um outro congresso que deverá ser
realizado em Nova York, sobre o tema da "liderança espiritual"
das mulheres. Este próximo encontro deverá promover a
atribuição de bolsas, as quais permitirão que algumas
delas se formem para tornar-se "muftis" (magistradas eclesiásticas)
e "poder emitir fatwas [leis religiosas]".
Essas feministas sabem que o caminho será longo.
Elas são vítimas de dois discursos opostos e incompatíveis
- o Islã tradicional e o islamismo - que, contra os direitos
das mulheres, se revelam objetivamente aliados. Eles precisam contar
também com os riscos de recuperação política
da sua luta e se defenderem contra o "paternalismo" das feministas
ocidentais. Mas as principais resistências virão do interior
do Islã: dos homens, é claro, mas também das mulheres
conformadas, depois de tantos séculos, com a dominação
machista e a submissão.
Henri Tincq
enviado especial a Barcelona, Espanha
Fonte:
Le Monde
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