“A religião
nunca foi tão poderosa ou tão perigosa quanto hoje”,
diz o pesquisador americano Mark C. Taylor
Mark C. Taylor é professor de religião
no Williams College, em Massachusetts (EUA). Ali, ele conquistou o direito
de decidir o que fazer com o seu tempo, de trabalhar em áreas
multidisciplinares do conhecimento e de pesquisar, ensinar e escrever.
Devido a sérios problemas com diabetes, que ele chama de desconstrução
do corpo, teve que ficar de licença médica nesse semestre
e está aproveitando para terminar seu terceiro livro em dois
anos.
Por sete anos, ele aceitou dar aula todos os segundos
semestres na Universidade de Columbia, em Nova York, nos departamentos
de religião e arquitetura. Nem mesmo a possibilidade de dirigir
o departamento de religião dessa universidade o fez pensar em
sair do Williams. Há 30 anos ele se dedica à religião
e foi um dos primeiros pensadores a trabalhar com teologia e o pensamento
de Jacques Derrida. Seu livro “Erring - A Postmodern A/Theology”,
lançado há 20 anos tornou-se um “clássico”
no campo da teologia e da filosofia. Seu campo de ação,
contudo, não é somente a teologia, mas
também a filosofia da cultura e a religião
em geral, especialmente a ocidental.
Segundo ele, a religião se encontra nos lugares
menos óbvios e onde menos se espera, seja nos jogos de futebol
americano, no crescente comércio de unhas postiças das
meninas dos Estados Unidos, no controle remoto das televisões,
nas tatuagens, nos ossos que ficam como reminiscências do corpo,
nos avanços bioinformáticos, na literatura de William
Gaddis, nas pinturas de Mark Tansey, na obra de arte de Michael Barney,
Vito Acconti e Michael Heiser, nos epitáfios dos túmulos
de filósofos e nas conexões da internet.
No ano passado, ele levou seus alunos de “religião
e mundo moderno” para a Times Square, em Nova York, e ali disse
que a noção de Deus passou da religião para a estética
e agora se concentra no mercado financeiro e das grandes corporações,
muitas delas representadas naquela famosa praça. Seus companheiros
de pensamento são os pensadores da filosofia continental européia
e o “novo” cânone de pensadores, especialmente franceses,
do século 20, como Lacan, Blanchot, Baudrillard, Bataille, Merleau-Ponty,
Levinas, Deleuze, Michel de Certeau, Jabes e Kristeva.
Sua relação com as artes é intensa.
Já trabalhou com vários artistas e atualmente serve de
consultor de museus, como o Museu de Artes de Boston, o MoMA (Museu
de Arte Moderna) ou o Guggenheim, de Nova York. Seu interesse pela internet
e por sistemas complexos fez ele criar o Herbert Allen Global Education
Network, um centro de estudos que visa unir salas de aula entre várias
partes do mundo.
Mark C. Taylor seria hoje o que Paul Tillich foi na
primeira metade do século XX, um pensador de fronteiras que,
entre Hegel e Kierkegaard, tenta conectar filosofia, religião,
artes, cultura, internet, sistemas complexos, política e economia.
Taylor tem mais de 20 livros publicados. “A religião
não vai desaparecer e, provavelmente, vai se tornar ainda mais
poderosa nas próximas décadas”, diz, na
entrevista abaixo, este pensador multidisciplinar difícil de
ser definido..
*
O senhor diz que os grandes movimentos filosóficos
que transformaram a maneira como compreendemos o mundo de hoje aconteceram
entre Hegel e Kierkegaard. O senhor pode explicar por quê?
Mark C. Taylor: Hegel e Kierkegaard
são dois filósofos muito influentes, cujo trabalho delineou
caminhos alternativos de estar-no-mundo. Embora ambos insistissem que
suas idéias eram um complemento necessário aos princípios
inicialmente articulados por Lutero, as suas perspectivas
filosóficas e teológicas são bastante diferentes.
Hegel desenvolve um sistema abrangente, no qual tudo
está interconectado e inter-relacionado, enquanto Kierkegaard
vai radicalizar a noção de indivíduo isolado, cujas
raízes podem chegar até o nominalismo medieval.
Depois deles, a história da filosofia e da teologia
nos séculos XIX e XX pode ser descrita como um pêndulo
oscilando entre essas duas posições. Mas a importância
do trabalho de Hegel e Kierkegaard não está limitada apenas
à filosofia e à teologia, mas se estende para outros domínios
culturais e formas diferentes de organização sociopolítica.
No Brasil, as universidades, em geral, exceto as de confissão
religiosa, não são simpáticas à religião
em seus currículos. Acredito que nos Estados Unidos isso não
seja diferente. Por que a religião tem sido tão desprezada
pela academia e com tanta freqüência, e por que essa situação
se mantém?
Taylor: A religião é,
sob muitos aspectos, o tema mais complicado para a universidade trabalhar.
Muitos dos problemas nasceram da incapacidade de se distinguir adequadamente
a prática e o estudo da religião. Esse impasse é
criado pela compreensão limitada da religião por parte
daqueles que a defendem e também dos que a criticam. Vou voltar
a esse tema na próxima questão.
Muitos acadêmicos continuam comprometidos com
as teorias de secularização formuladas na década
de 60. Sob o ponto de vista dessas teorias, modernização
e secularização são inseparáveis: as sociedades
se modernizam e tornam-se mais seculares através de um processo
que é ao mesmo tempo inevitável e inseparável.
Obviamente, as coisas não aconteceram exatamente
assim. A religião nunca foi tão poderosa ou tão
perigosa quanto hoje. É absolutamente essencial que
o ressurgimento recente da religião não seja encarado
como uma volta às formas pré-modernas de crença
e prática. Ao contrário, o surgimento de formas
mais conservadoras da religião é um fenômeno global
caracteristicamente pós-moderno.
A religião não vai desaparecer e, provavelmente,
vai se tornar ainda mais poderosa nas próximas décadas.
Portanto, a criação de análises mais sofisticadas
e capazes de compreender melhor as nuances do que está acontecendo
é de vital importância. E o ponto de partida dessa investigação
deve ser o reconhecimento de que a própria secularização
é um fenômeno religioso produto do judaísmo e do
cristianismo.
O senhor diz com freqüência que a religião
aparece onde ela é menos evidente ou esperada. Poderia definir
o que entende por religião e como abordá-la?
Taylor: A religião não
é só o que acontece nas igrejas, nos templos e mesquitas.
Há uma dimensão religiosa em toda cultura. A arte, a literatura
e a arquitetura modernas, por exemplo, nunca teriam se desenvolvido
da mesma forma sem a profunda influência das várias tradições
religiosas e espirituais.
A noção de indivíduo
presente nos fundamentos da maior parte das teorias políticas
e econômicas modernas foi definida pela primeira vez no protestantismo.
Adam Smith desenvolveu sua análise dos mercados,
que até hoje continua balizando as políticas econômicas,
pela apropriação do conceito da mão invisível
de Calvino. É importante expandir nosso conhecimento
sobre a religião de forma a nos permitir determinar exatamente
a sua influência na chamada cultura secular.
O senhor estudou a religião nos últimos 30 anos.
Quais foram as maiores mudanças que o senhor presenciou durante
esse tempo e qual a situação atual do estudo da religião?
Taylor: O estudo crítico da
religião nunca foi tão importante quanto é hoje,
e nunca foi tão difícil. Por um lado,
o politicamente correto metamorfoseou-se em “religiosamente
correto”. Alguns religiosos atacaram os acadêmicos
- às vezes até ameaçando com violência -,
acusando-os de não respeitarem suas crenças. Em casos
extremos, os críticos do estudo secular da religião insistem
que só os religiosos comprometidos com determinado credo estão
qualificados para ensinar a sua tradição religiosa.
Por outro lado, os críticos também dizem
que a religião é epifenomenal e deve, portanto, ser reduzida
a sistemas e processos mais básicos, como as infra-estruturas
psicológica, sociológica e econômica. O
que realmente precisamos hoje é de uma abordagem do estudo da
religião que seja multidisciplinar e comparativa. É
necessário utilizar a luz de cada uma das diferentes perspectivas
metodológicas nas tradições religiosas que dialogam
entre si.
Quais são os pensadores que o senhor julga importantes
para o estudo da religião hoje?
Taylor: Acredito que os trabalhos mais
interessantes para o estudo da religião estão sendo feitos
fora dessa área de conhecimento. Eu identificaria três
áreas: arte, literatura e ciências biológicas. É
preciso enfatizar, no entanto, que nenhum desses pensadores necessariamente
consideram seu trabalho como religioso ou até mesmo relevante
para a religião.
No campo das artes, artistas que fazem intervenções
paisagísticas, como Michael Heizer e James Turrel, estão
desenvolvendo projetos altamente ambiciosos e importantes. Outros artistas
com trabalhos importantes são Richard Serra, Ann Hamilton, Matthew
Barney, Joseph Beuys e Anselm Kiefer. Na literatura, dois autores merecem
bastante atenção: William Gaddis e Mark Danielewski. Finalmente,
nas ciências biológicas, eu citaria trajetórias
ao invés de indivíduos.
Acredito que nas próximas décadas a bioinformática
será tão importante quanto os computadores e as redes
têm sido no passado recente. À medida que as pesquisas
avançam na biologia digital e vida artificial e se alcançam
novas tecnologias, a fronteira entre homem e máquina será
cada vez mais obscura. Esses avanços têm implicações
enormes para as tradições religiosas.
O senhor disse certa vez que vive em vários mundos e
que o seu trabalho é profundamente marcado por uma abordagem
interdisciplinar abrangente. Dentre outras coisas, o senhor já
trabalhou com teologia, artes e arquitetura, cultura popular, mídia,
tecnologia e cibernética, o corpo e a carne, epitáfios
de túmulos e sistemas complexos, economia e mercado. Por que
o senhor investiu em tantas direções?
Taylor: Acredito que a existência
é algo relacional - ser é estar conectado. Para entender
uma coisa é necessário deslindar a teia de relacionamentos
dentro da qual emerge o objeto de estudo. Por exemplo, não
é possível compreender o neoliberalismo do capitalismo
global sem entender, por exemplo, a doutrina da providência de
Calvino e, por outro lado,
os jogos de representação de papéis on-line para
múltiplos jogadores (MMORPGs).
A centelha criativa aparece quando aproximamos dois
fenômenos aparentemente não relacionados entre si. A maneira
pela qual o conhecimento se estrutura não é imutável,
mas reflete os modos de produção e reprodução
existentes na sociedade. À medida que passamos do capitalismo
industrial para o capitalismo de consumo e finalmente ao capitalismo
financeiro, a estrutura da realidade foi sendo modificada. O problema
é que as universidades não se transformaram junto com
o mundo.
O modelo das universidades atuais foi formulado pela
primeira vez por Kant, num artigo presciente publicado
em 1789. Kant usou como modelo a universidade de produção
em massa. Tente imaginar currículos e universidade estruturados
como se fossem uma rede, ao invés de uma assembléia linear
e você terá uma idéia das mudanças de que
a universidade necessita hoje.
Seus alunos adoram as suas aulas. Eu fui testemunha disso aqui
na Universidade Columbia. Em 1995, o senhor ganhou o prêmio Professor
Universitário do Ano, concedido pela Fundação Carnegie
para o Aperfeiçoamento da Docência. Como o senhor vê
o seu trabalho como professor?
Taylor: Eu levo o ensino muito a sério.
Na verdade, vejo a docência como minha vocação.
Sempre digo aos meus alunos que a
relação professor-estudante é ética:
ambos têm obrigações, e nenhuma das partes consegue
fazer o seu trabalho sem as contribuições da outra. Freqüentemente,
nas universidades onde se faz pesquisa, a atividade docente é
menosprezada. A dicotomia pesquisa/docência é apenas ilusória,
porque a pesquisa informa a atividade docente, que por sua vez alimenta
a pesquisa. Não há nada mais recompensador do que o compromisso
sério com estudantes inteligentes e interessados.
Como o senhor vê a relação pessoal do presidente
George Bush com a religião. Estaria ele tentando criar uma teocracia?
Taylor: Eu tenho dito frequentemente
que me preocupo mais com os que acreditam do que com os que não
acreditam. Em maneiras diversas, as guerras religiosas do século
21 são extensões das guerras culturais dos anos 60.
Para muita gente, que vai de George Bush ao papa Bento 16, os anos 60
nos introduziram em um caminho de relativismo que somente poderá
ser corrigido pelo returno aos absolutos.
Penso que esses absolutos e essas certezas que eles
advogam são altamente perigosos. Eu não creio que Bush
esteja querendo criar uma teocracia, mas penso que o comprometimento
religioso acrítico que ele desenvolve tem afetado profundamente
as políticas internas e externas dos Estados Unidos, o que tem
causado vários desastres.
Como a visão do presidente Bush a respeito da religião
transformou a maneira pela qual os Estados Unidos conduzem a política
e a economia tanto internamente quanto com o resto do mundo?
Taylor: Nos últimos anos, o
cenário político nos Estados Unidos foram transformados
pelo que eu chamo de nova direita religiosa, que surgiu quando os protestantes
e católicos conservadores uniram forças, entre o final
dos anos 60 e o início da década de 70. Os temas mais
importantes eram o aborto, as orações nas escolas, a teoria
da evolução e o Judiciário federal.
Esses temas ainda orientam uma grande parte da agenda
de Bush. É importante entender que os protestantes conservadores
sempre foram capazes de perceber como as novas tecnologias podem ser
usadas para espalhar a sua fé. Isso começou com a imprensa
e se disseminou pelo rádio e a televisão e agora alcança
também a internet. Essa astúcia tecnológica gerou
um enorme poder financeiro e político. Não há nada
que seja páreo para isso na esquerda.
Como devemos entender o mundo depois dos atentados de 11 de
Setembro? Como o senhor entende a idéia de “terrorismo”?
Taylor: Como sugeri anteriormente,
o terrorismo é um fenômeno caracteristicamente pós-moderno,
uma reação ao crescente poder do capitalismo global. O
terrorismo é baseado numa ideologia de oposição,
que joga o bem contra o mal. O que faz essa ideologia tão perigosa
é o fato de o mundo estar cada vez mais interconectado. Quando
se tem uma ideologia de oposição num mundo formado por
teias e redes, os resultados podem ser desastrosos.
Com que olhos o senhor vê o futuro?
Taylor: Para ser bem honesto, é difícil
ser otimista em relação ao futuro. Os problemas que enfrentamos
são grandes e há pouca boa vontade em reconhecê-los
ou empenho para solucioná-los. Acredito que as questões
mais críticas no século XXI serão as ambientais,
e em nenhum outro lugar do mundo isso é tão evidente quanto
no Brasil. A destruição da floresta tropical ameaça
a vida no planeta. As teias nas quais estamos emaranhados não
são só a internet e o capital global, mas são também
as teias naturais, que uma vez danificadas não podem mais ser
reconstruídas. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de
inflexão, que pode também trazer uma grande destruição.
Para encerrar nossa conversa, como o estudo da religião
pode ajudar na resistência ou criar alternativas à situação
política, econômica e religiosa atual?
Taylor: Pensamento e ação, teoria e prática,
estão inseparavelmente relacionadas. Precisamos desesperadamente
de uma compreensão de mundo que nos permita entender que tudo
é co-dependente e co-evoluiu. Se continuarmos como estamos agora,
é difícil imaginar algum futuro.
Tradução de Tiago Chiavegatti
Claudio Carvalhaes
É doutorando na área de teologia, liturgia e artes no
Union Theological Seminary e Universidade Columbia. É autor de
"Transgressões: Religião, Performance e Arte"
(ed. Emblema).
Fonte: Site: www.claudiocarvalhaes.com.br
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