Sandra Jacqueline Stoll é professora do Departamento de Antropologia
da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com doutorado em
Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP). É
membro do NAU (Núcleo de Antropologia Urbana da USP) e coordenadora
do Nuarp (Núcleo de Arte, Ritual e Performance da UFPR). É
autora de Espiritismo à brasileira (Edusp/Orion, 2003).
RESUMO
O estudo etnográfico aqui realizado
envolve um caso peculiar de experiência mediúnica: trata-se
do "teatro de auto-ajuda", uma espécie de teatro-ritual,
criado pelo médium de origem kardecista Luiz Antonio Gasparetto.
Promovendo relações inusitadas entre o exercício
da mediunidade e a produção cênica, de sua prática
emergem inovações na performance ritual da mediunidade,
questão que apenas começa a ser aquilatada no que se
refere ao "campo religioso espírita".
Dentre os temas abordados se destaca
a reinterpretação do modelo de virtudes cristãs
associado à matriz espírita/católica, principal
alvo do ideário e práticas de "auto-ajuda",
mais afeitas aos valores da sociedade de consumo. Nessa perspectiva,
discute-se a noção de pessoa, cuja construção
é apreendida tal como elaborada no contexto do tipo de performance
analisado.
Na sociedade brasileira, o sagrado é um campo
privilegiado de figuração e produção de
experiências de identidade e alteridade. A idéia de "cidades
em transe", proposta por Reginaldo Prandi (1991), traduz a centralidade
de um modo cultural de produção dessas experiências:
o transe, a mediunidade e a possessão são fenômenos
correntes em várias modalidades religiosas brasileiras como
o candomblé, a umbanda, o pentecostalismo, o espiritismo e
outros grupos, onde os "guias", "entidades", o
Espírito Santo, orixás e espíritos se comunicam,
se manifestam, "sobem ou descem" diariamente, "assumindo
as rédeas" ou "tomando posse" de sujeitos empíricos.
Apreender a noção de pessoa nesse contexto,
tendo como referencial e contraste a noção de indivíduo
ocidental, tem sido um desafio enfrentado por vários antropólogos
(Goldman 1987; Cavalcanti 1983; Velho 1994; Augras 1995, dentre outros).
Neste artigo, o tema é abordado a partir da análise
de um estudo de caso em que se consorciam de uma forma particular
o exercício da mediunidade e a performance cênica teatral
no sentido estrito. Refiro-me ao "teatro de auto-ajuda",
uma espécie de teatro-ritual criado pelo médium
de origem kardecista, Luiz Antonio Gasparetto. Trata-se de um caso
atípico que suscita a comparação entre o transe
e o teatro como formas de produção de experiências
de identidade e alteridade.
Como ponto de partida e referência para a abordagem
do tema, retomo a seguir análises de outros autores sobre a
prática do transe, mais especificamente a discussão
sobre como, em determinados contextos mediúnicos, estrutura-se
a relação entre ator e personagem.