Espiritualidade e Sociedade





Mônica Soares


>   Vamos ser felizes?

Artigos, teses e publicações

Mônica Soares
>   Vamos ser felizes?

 

Qual é a verdadeira fórmula da felicidade? Ser feliz é estar com alguém ou sozinho? É ter uma família e dedicar-se a ela ou escolher viver apenas para algum trabalho profissional? É ter somente alegrias materiais no caminho ou optar por uma vida totalmente espiritual? Como espíritas, já sabemos que o objetivo do espírito imortal é o progresso moral, que as alegrias nos chegam ao caminharmos sob a Lei Divina e que as dores surgem quando dela nos afastamos. O nosso problema é a pressa.

O espírito Hammed, no livro Renovando atitudes, reforça que:

Ser feliz não é uma questão de circunstância, ou de estarmos ou não acompanhados pelos outros, porém de uma atitude comportamental em face das tarefas que viemos desempenhar na Terra. Nosso principal objetivo é tomar consciência de que os momentos felizes ou infelizes de nossa vida são o resultado de atitudes distorcidas, ou não, vivenciadas ao longo do caminho.

E conclui que a “felicidade não é simplesmente a realização de todos os nossos desejos; é antes a noção de que podemos nos satisfazer com nossas reais possibilidades”.

Jesus não afirmou que nenhuma de suas ovelhas se perderia? E isto significa que todos somos filhos de Deus e estamos sob a Sua proteção divina. Formamos um único rebanho de seres que se diferenciam por serem uns mais rápidos e outros mais vagarosos; porém, todos vamos chegar ao mesmo lugar no Seu Reino.

“O trabalho interior que produz felicidade não é, obviamente, meta de uma curta etapa, mas um longo processo que levará muitas existências, através da eternidade, nas muitas moradas na Casa do Pai”, afirma o espírito, no livro já mencionado. Ele adotou o pseudônimo Hammed, cuja própria experiência foi adquirida em longa trajetória, tendo vivido os caminhos do bem ainda na França do século XVII, como médico e religioso, assim como acumulado vivências em outras épocas distintas, tendo sido, dentre elas, um mestre indiano.

Hammed diz ainda que a real felicidade é compreender que a felicidade do outro também é a sua. A questão é querermos “moldar” a felicidade do outro pela nossa. E, assim, culpamos cônjuges, amigos e filhos por alguma situação de insatisfação porque eles não se comportam de acordo com os nossos planos e objetivos de vida. E ensina:

O ser psicológico está fadado a uma realização de plena alegria, mas por enquanto a completa satisfação é de poucos, ou seja, somente daqueles que já descobriram que não é necessário compreender como os outros percebem a vida, mas sim como nós a percebemos, conscientizando-nos de que cada criatura tem uma única maneira de ser feliz. E para sentir as primeiras ondas do gosto de viver, basta aceitar que cada ser humano tem um ponto de vista que é válido, conforme sua idade espiritual.

Mas egoístas que naturalmente somos, a cada ano que chega, esperamos que tudo se transforme para melhor em nossas vidas, assim como em um estalar de dedos! Só que, na Lei Divina, toda consequência tem uma causa. Aguardamos que os outros demonstrem mais atenção conosco, esperamos que “Deus faça justiça aos nossos sofrimentos”, sem pensar em mudar nada em nossas atitudes; na forma como agimos com o próximo ou na maneira com a qual falamos com eles. Antonio de Aquino ensina que:

Se ainda sofremos é porque não aprendemos a conduzir os nossos padrões mentais e as nossas palavras pelos padrões de Jesus. Ele veio justamente porque ainda somos inferiores. Não basta que Ele tenha vindo; é preciso que procuremos superar as próprias lutas e dificuldades, fazendo o mínimo que Ele nos pede; que prestemos atenção aos seus ensinamentos, às suas conclusões, à sua maneira de falar.

O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos nos alertam, repetidamente, acerca dos sentimentos e das atitudes que devem estar no pilar de nossas vidas: o não julgar, o perdão das ofensas, a indulgência para com os que erram e a benevolência para com todos. Mas somos naturalmente julgadores implacáveis do outro. Somos bélicos, e trazemos isso no chip de guerreiro milenar. O nosso progresso foi apenas o de passarmos para a posição de vítima. Ah!, adoramos quando o outro comete algo contra nós, não é mesmo? E tratamos de espalhar a notícia, inflados de orgulho: “Olha o que ele fez comigo! Coitadinho de mim!”. Sobre isso, explica Hammed:

Em sua profunda sabedoria, o Mestre sabia das nossas dificuldades de perceber a realidade, dos nossos esconderijos psicológicos, que edificamos como métodos de defesa, e dos inúmeros papéis e jogos que cultivamos inconscientemente para não assumir responsabilidades ou para camuflar nossas diversas predisposições.

Ao codificar o Evangelho, Kardec nos dá o alicerce de que precisamos para não cairmos nas armadilhas do ego, nas ilusões dos sentimentos, nos processos de dependências e inseguranças e nas tendências reais que vieram do passado. O que disse o Cristo? Não julgueis. Observai, antes, aquele que o insultou, embora ele divida contigo o caminho e você tudo faça para a felicidade dele... Mas não, retrucamos o insulto, indignados pela injustiça cometida, sem parar e analisar se aquele que trazia a ofensa nos lábios poderia ter o coração prestes a explodir naquele momento, por estar mergulhado em algum drama pessoal, estar sob forte pressão do mundo material ou porque não sabia como agir e só tinha mesmo aquilo para oferecer a você, porque ele sofria mais que você, e o drama dele era infinitamente maior que o seu. No fundo, era quase um pedido de socorro. O resultado seria o oposto se disséssemos: “O que está acontecendo, filho? Por que está tão nervoso? No que eu posso ajudá-lo?”. Será que não era isso que o Mestre Jesus também queria dizer quando nos pediu que oferecêssemos a outra face? Ou que déssemos também a túnica?

Por isso, para renovar atitudes, é essencial estudar e refletir sobre a profunda sabedoria do Mestre, como explica Hammed:

Emérito conhecedor da psique humana, a qual Jesus sabia ser a fonte das causas reais dos nossos sofrimentos, refletir sobre o que Ele ensina nos torna mais francos e honestos com nós mesmos e com os outros, e nos possibilita a extinção de nossas reações neuróticas nas múltiplas situações da vida. Reações essas que nos impedem o autoconhecimento e anulam toda e qualquer possibilidade de relacionamento sadio e sincero com os outros. (…) E alertemo-nos quanto a tudo aquilo que afirmamos julgando, pois no auditório da vida todos somos atores e escritores, e ao mesmo tempo ouvintes e espectadores dos nossos próprios discursos, feitos e atitudes.

O perdão é outra lição importante que o Evangelho nos traz, para seguirmos mais firmes em direção à felicidade. E que também consideramos difícil por nosso orgulho e egoísmo milenares. Dr. Bezerra de Menezes nos alerta que estamos todos muito mais próximos do ontem que do amanhã:

Compadecei-vos dos que caíram nas valas do desequilíbrio e procurais soerguê-los. A queda de alguém que convosco renteia é ameaça de queda também para vós…Imprescindível, pois, que nos acautelemos contra o desequilíbrio que, num instante de cólera ou de invigilância, poderá vos acometer nas reações patológicas da mente. Habituai-vos a serenidade, através da oração e do exercício no bem, para criamos resistência ao mal que nos espreita na caminhada.

Antonio de Aquino nos lembra que:

A criatura que ama é capaz de desenvolver em todos os que estão à sua volta este mesmo sentimento. Às vezes, elas trazem dentro de si dificuldades em manter tal sentimento. Alegam lutas, ansiedades, sofrimentos variados; entretanto, aqueles que souberem perseverar, mantendo em si o amor, a despeito de todas essas coisas, conseguirão sobreviver, crescerão espiritualmente e se apresentarão um dia, a Deus, com suas conquistas já realizadas, pois, de todas, a conquista maior é a do Amor”.

 

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Para renovar atitudes,
é essencial estudar e refletir sobre a profunda sabedoria do Mestre

 

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Referências bibliográficas

AQUINO, Antonio de. Inspirações do Amor Único de Deus. Vol 1. Rio de Janeiro: Celd, 2011.
AQUINO, Antonio de. Reflexões. Vol 1. Rio de Janeiro: Celd, 2011.
BACCELLI, Carlos A. A coragem da fé. São Paulo: Ed Didier, 2017.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Celd, 2010.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Celd, 2002.
NETO, Francisco do Espírito Santo. Renovando atitudes. 24ª ed. Catanduva/SP: Ed Boa Nova, 2008.


 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas 
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/03-Revista_CELD_Marco-2020.pdf

 

 

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