Espiritualidade e Sociedade





Kevin Schilbrack

>  O conceito de religião

Artigos, teses e publicações

Kevin Schilbrack - Tradução de Eduardo R. Cruz
>  O conceito de religião

 

Texto publicado originalmente em 28 de março de 2022 na The Stanford Encyclopedia of Philosophy <https://plato.stanford.edu/archives/sum2022/entries/concept-religion/>.

A tradução segue a versão nos arquivos do SEP, disponível em:
<https://plato.stanford.edu/archives/sum2022/entries/concept-religion/>.

Esta versão traduzida, portanto, pode diferir da versão final, que pode ter sido atualizada desde o momento desta tradução. A versão atual está disponível em:
<https://plato.stanford.edu/entries/concept-religion/> e
<https://plato.stanford.edu/entries/concept-religion/notes.html>.


Kevin Schilbrack
- Professor do Departamento de Filosofia e Religião da APPState (Estados Unidos).

 

(trecho inicial)

 

O conceito religião, no entanto, não se referia originalmente a um genus social. Suas primeiras referências não foram a tipos sociais e, ao longo do tempo, a extensão do conceito evoluiu em diferentes direções, a ponto de ameaçar a coerência. Como observa Paul Griffiths, que ouvir as discussões sobre o conceito de religião:

[...] rapidamente sugere a conclusão de que quase ninguém tem ideia do que está falando - ou, talvez mais precisamente, que há tantas ideias diferentes em jogo sobre o que é religião que as conversas nas quais o termo figura tornam, de modo significativo, as dificuldades de comunicação na Torre de Babel menores e fáceis de lidar. Essas dificuldades também são aparentes na ciência da religião, e solicitam uma explicação de porque a disciplina não tem uma compreensão coerente ou amplamente compartilhada de seu tópico central (2000: 30).

Este verbete, portanto, fornece uma breve história de como o alcance semântico da religião cresceu e mudou ao longo dos anos e, em seguida, considera duas questões filosóficas que surgem para o conceito contestado, questões que provavelmente surgirão para outros conceitos abstratos usados para classificar tipos (como “literatura”, “democracia” ou “cultura” em si). Em primeiro lugar, a variedade díspar de práticas que, agora, diz-se que se enquadram nessa categoria, e que levanta a questão de saber se podemos entender esse táxon social em termos de propriedades necessárias e suficientes ou se, em vez disso, devemos tratá-lo como um conceito de semelhança familiar. Aqui, a questão é se se pode dizer que o conceito religião tem uma essência. Em segundo lugar, o reconhecimento de que o conceito mudou seus significados, que surgiu em um determinado momento e lugar, mas era desconhecido em outros lugares, e que muitas vezes tem sido usado para denegrir certas culturas, levanta a questão de saber se o conceito corresponde a qualquer tipo de entidade no mundo ou se, em vez disso, é simplesmente um dispositivo retórico que deve ser aposentado. Este verbete, portanto, considera o surgimento de análises críticas e céticas do conceito, incluindo aquelas que argumentam que o termo não se refere a nada.

 

Uma história do conceito

O conceito religião não se referia originalmente a um genus social ou tipo cultural. Foi adaptado do termo latino religio, aproximadamente equivalente a “escrupulosidade”. Religio também se aproxima de “conscienciosidade”, “devoção” ou “obrigação sentida”, pois religio era um efeito de tabus, promessas, maldições ou transgressões, mesmo quando não relacionados aos deuses. Na antiguidade ocidental, e provavelmente em muitas ou na maioria das culturas, havia o reconhecimento de que algumas pessoas adoravam deuses diferentes com compromissos incompatíveis entre si e que estas pessoas constituíam grupos sociais que poderiam ser rivais. Nesse contexto, às vezes se vê o uso de nobis religio para significar “nosso modo de culto”. No entanto, religio tinha uma variedade de sentidos e, portanto, Agostinho poderia considerá-lo, mas rejeitá-lo, como o termo abstrato correto para “como se adora a Deus”, porque o termo latino (como os termos latinos para “culto” e “serviço”) foi usado para a observância dos deveres tanto nos relacionamentos divinos quanto nos humanos (Augustine City of God [1968: Livro X, Capítulo 1, 251-253]). Na Idade Média, à medida que os cristãos desenvolveram ordens monásticas nas quais se fazia votos para viver sob uma regra específica, eles chamavam tal ordem de religio (e religiones para o plural), embora o termo continuasse a ser usado, como era na antiguidade, em forma de adjetivo para descrever aqueles que eram devotos e em forma de substantivo para se referir ao culto (Biller, 1985: 358; Nongbri, 2013: cap. 2).

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Fonte: https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/60079/41114

 

 

 

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