Expoentes do Cenário Espírita
- JOSÉ HERCULANO PIRES
O nosso sempre lembrado Prof. José
Herculano Pires chegou a este mundo em sua mais recente reencarnação
na madrugada do dia 25 de setembro de 1914, na Província do
Rio Novo - hoje a próspera e bela cidade de Avaré, no
Estado de São Paulo. O parto não foi tranqüilo
e o nosso reencarnante logo se viu ameaçado pelo próprio
cordão umbilical que, tendo enrolado o seu pescocinho, quase
o enforcou. Filho primogênito de José Pires Correa (um
farmacêutico que, mais tarde, se tomaria um dos mais brilhantes
jornalistas do interior paulista) e de Bonina Amaral Simonetti Pires,
descendente de tradicional família de Rio Novo e exímia
pianista. Depois do filho Herculano, o casal recebeu outros seis:
Heraldo, René, Lourdes, Marília, Diógenes e Nancy,
sendo que os dois últimos desencarnaram em tenra idade.
A origem do nome de Herculano
A família Pires, como a maioria das famílias da época,
era católica. Pois bem, o dia 25 de setembro, conforme registrava
o calendário, era dedicado a São Herculano. O casal,
então, deu ao filho recém-nascido esse nome. Logo depois,
o tio Franco chegou para conhecer o pimpolho e, quando soube que lhe
tinham dado o nome de Herculano, comentou: "Mas São
Herculano não é muito conhecido; para reforçar
a proteção do menino, sugiro que juntem ao nome já
escolhido o nome popular de São José". E foi
assim que Herculano tornou-se José Herculano Pires.
Herculaninho, como o chamavam carinhosamente
na infância, passou os primeiros anos de vida com problemas
de saúde, aliás, esses problemas o acompanharam pela
vida toda. Contudo, foi uma criança feliz, pois o clima e as
águas do Rio Novo lhe deram robustez, tanto que em 1918 veio
a chamada gripe espanhola e logo depois a endemia de tifo, enfermidades
terríveis, mormente naquela época em que os recursos
farmacêuticos eram escassos, que ceifaram milhares de vidas.
Herculaninho, felizmente, não foi molestado por essas
duas endemias. Como dissemos, ele foi feliz porque sua infância,
apesar dos problemas de saúde, foi embalada pelas coisas simples
do interior daquele tempo que não volta mais na roda da história.
A paisagem bucólica de Avaré: ruas de areia; a igreja
matriz; o jardim São Paulo com seu coreto, onde, aos domingos,
a banda executava emocionantes dobrados; o poético coaxar dos
sapos; as águas cristalinas do Rio Novo, onde adultos e crianças
pescavam e tomavam banho; o ranger dos carros de bois que transitavam
pelas ruas da cidade chorosos; as boiadas que de quando em quando
atravessavam a cidade em busca de invernadas e despertavam a curiosidade
infantil; e ainda o trem-de-ferro da Sorocabana, que corria sobre
os trilhos fazendo um barulho engraçado, "fuque, fuque,
fuque", e soltando rolos de fumaças e muitas fagulhas
quando atingia sua velocidade máxima de 40 quilômetros
por hora.
A sua paranormalidade
Embora Herculano Pires tenha passado pela vida sem ser médium
propriamente identificado, sua paranormalidade aflorou bem cedo, pois
desde menino tinha visões espirituais bem definidas. Além
de vidente, era também médium audiente, como veremos
adiante. Herculano dizia para amigos que quando ainda dormia no berço
muitas vezes se levantava e ficava em pé agarrado à
grade da caminha observando os espíritos passeando no interior
de sua casa. Não via somente criaturas desencarnadas, mas também
espíritos de pessoas encarnadas.
Dizia ter visto o espírito de sua mãe inúmeras
vezes passeando pela casa enquanto o seu corpo físico descansava
em outro ambiente da mesma. Fatos estes que algumas vezes assustavam
a família, pois, por vezes, ele via espíritos assustadores
e gritava. Os pais, querendo saber o que acontecera corriam para junto
dele. O pai, entretanto, procurava acalmar o ambiente dizendo: "Ele
está delirando, mas precisamos saber o que esse menino tem
para gritar tanto à noite". Quando Herculano já
sabia falar e essa cena se repetia, ele contava aos pais sobre as
figuras que via.
Uma vidência confirmada
Herculano contava com seus sete ou oito anos, e foi, como fazia normalmente,
brincar na casa do avô materno, um italiano casado com uma brasileira,
em Avaré. O quintal da casa era enorme e possuía várias
mangueiras. Cenário ideal para a garotada. Herculano brincava,
então, com alguns amiguinhos naquele espaço aprazível.
De repente, ele ouviu um estranho estrondo. Olhou para o lado de onde
veio o som esquisito e notou que uma velhinha vinha em sua direção
apressadamente. Ele ficou ali parado olhando aquela criatura que trajava
um vestido que lembrava os vestidos de mulheres idosas estrangeiras.
Olhou para baixo e viu que ela calçava meias com listras circulares
vermelhas e azuis. Os seus sapatos também eram muito estranhos.
O espectro entrou no depósito que havia no quintal e uma vez
estando dentro daquele ambiente a velhinha cerrou a porta um tanto
bruscamente e o barulho da batida da porta fez com que Herculano saísse
do transe. Ele, imediatamente, correu para dentro de casa gritando
de medo. O seu avô foi o primeiro a vir ao seu encontro, em
seguida veio a avó. Quiseram saber a razão do seu desespero
e ele relatou o que tinha visto e seu avô se virou para a esposa
e disse: "É minha mãe! É minha mãe!".
Um menino poeta
Não há dúvida de que o nosso biografado trouxera
de outras vidas um vastíssimo lastro cultural que permeou toda
a sua história como jornalista, escritor, conferencista e lúcido
filósofo, entre outras qualidades.
Em 1920, José Pires Correa, à caça de melhorias
para a sua família, transferiu sua residência para a
cidade de Itaí. Herculano estava, então, com seis anos
de idade. Pois bem, aos nove anos, ele, que de fato era um reencarnante
prodigioso, revelou-se poeta (pasme, caro leitor). Ele escreveu um
soneto decassílabo que, ao contrário do que os leigos
pensam, é a forma poética mais difícil de ser
dominada, demonstrando, assim, conhecer as leis rígidas da
Arte Poética. O tema escolhido pelo menino Herculano foi "O
Largo São João de Avaré", um tema adulto
e árido.
Herculano permaneceu em Itaí até os dez anos de idade
e teve a oportunidade de participar ali do Escotismo, onde aperfeiçoou
sua disciplina.
Seu pai, quatro anos depois, buscando mais uma vez melhoria financeira,
fixou residência na cidade de Cerqueira César, mas foi
por pouco tempo, voltando, então, para Avaré, onde matriculou
Herculano na Escola de Comércio, curso que ele, infelizmente,
não pôde concluir. A vida profissional do Sr. José
Pires Correa não fora fácil e logo tiveram que voltar
a residir em Cerqueira César. Desta vez, as coisas para a família
Pires melhoraram. Herculano agora estava com doze anos de idade e
continuava elaborando seus poemas. O seu genitor foi nomeado coletor
estadual e tudo para eles se tornou mais ameno. Algum tempo depois,
o Sr. José Pires e seu irmão Ananias montaram uma pequena
gráfica na Rua do Comércio a que deram o nome de "Casa
Ipiranga". Vemos aí o dedo da Espiritualidade que,
pouco a pouco, preparava a trajetória brilhante de Herculano
Pires.
Não demorou muito, o Sr. José Pires lançava um
jornal chamado "Porvir", de cunho
político, um tablóide com circulação aos
domingos. Ao "Porvir" se deve
a primazia de ser o primeiro jornal de Cerqueira César. Ele
nasceu com uma clara vocação: defender os "Cartolas"
do Partido Republicano Paulista (PRP) contra os ataques do Partido
Democrático. Washington Luís era o então Presidente
da República e Júlio Prestes era o Governador do Estado
de São Paulo.
Herculano Pires estava com apenas 12 anos e já trabalhava como
aprendiz de tipógrafo na Tipografia Central (Se fosse hoje,
isso seria logo bombardeado por certos defensores dos menores: "Onde
já se viu uma coisa dessa! Um menino de 12 anos trabalhando!...".)
Esquecem-se, hoje, talvez por miopia, que o trabalho é salutar
e educativo.
Ele sentiu que poderia, agora, trabalhar com o pai, pois família
unida trabalha unida, e demitiu-se do emprego indo para a "Casa
Ipiranga", onde foi admitido como tipógrafo auxiliar.
A composição do primeiro número do "Porvir"
saiu de suas mãos e das mãos de seu tio Ananias, que
exercia a função de Chefe da Oficina.
Alguns meses depois, o menino Herculano alcançou os seus treze
anos de idade e já se encontrava no caminho que iria trilhar
pelo resto da vida: o jornalismo.
O seu primeiro livro
Todas as noites, após o expediente da tipografia, Herculano
se debruçava sobre a caixa de tipos e, pouco a pouco, ia compondo
alguns dos seus contos, que eram, depois, impressos numa máquina
de origem alemã, uma Bünhaëdsia.
Eram composições simples, românticas,
próprias da ingenuidade de adolescente - diria Herculano mais
tarde -, mas cujo aparecimento jornais e revistas famosos na época,
do Rio e São Paulo, não deixaram de registrar.
Em 1930, Herculano estava com 16 anos de idade e lança o seu
primeiro livro:
"Sonhos Azuis", título
esse muito próprio da juventude, e dava, então, o seu
primeiro passo na Alameda da Literatura. O livrinho se constituía
de cinco pequenos contos. O Prefácio foi escrito pelo farmacêutico
Otávio Araújo Ribeiro, de Avaré. Essa obra fez
muito sucesso entre amigos e parentes, mas também não
passou despercebida de jornais e revistas do Rio e São Paulo,
que noticiaram o seu aparecimento, para alegria do autor. Um fato,
porém, merece destaque.
Dois anos depois do lançamento de "Sonhos
Azuis", uma professora rural foi ao encontro de
Herculano Pires, desejando comprar uns livrinhos para distribuir como
presente aos alunos de sua escolinha. E arrematou os trinta e poucos
exemplares que estavam na prateleira. Herculano pulou de alegria,
pois a maior parte da pequenina edição havia sido distribuída
a amigos, parentes, jornais e revistas, e agora lhe aparece uma professora
dizendo que seu livrinho serviria para alegrar as crianças
numa festinha escolar. - "Que maior glória poderia
desejar um escritor incipiente?" - perguntaria, mais tarde,
o nosso Herculano.
Com a publicação de "Sonhos Azuis",
Herculano tornou-se conhecido na região Sorocabana como o "menino
escritor". E esse menino prodígio - prova inegável
da reencarnação - tinha na gaveta boa quantidade de
crônicas, contos e noveletas. Parte desse material foi publicado
no jornal "O Porvir" e, depois,
na forma de opúsculo que oferecia aos amigos e conhecidos.
Nessa forma, ele produziu: "O Sonho das Vagas",
poema em prosa; "Cidades Vivas";
"Cabo Velho e Cia"; "Nhô
Chico Bananeiro" e "O Serenista".
O segundo livro da lavra de Herculano, "Coração",
apareceu em 1932. Trazia uma série de sonetos e poemas cujo
prefácio encerrava uma dedicação misteriosa:
"A Lola de Oliveira e aos Meus". Os curiosos ficaram
intrigados com essa Lola. Seria uma namorada ou um amor secreto? Quarenta
anos depois, Herculano revelaria. Era uma escritora e poetisa pobre,
autora do livro "Rubis", que passara
duas vezes por Cerqueira César vendendo os seus livros de porta
em porta. Já velhusca, percorria assim o interior para ganhar
a vida com a sua produção literária. "Emocionara-me
a sua pobreza" - diria Herculano anos depois - "a
sua simplicidade, a sua dedicação às letras".
"Guardo até hoje os seus livros, com carinho".
Num deles, há uma referencia ao rapazinho poeta de Cerqueira
César.
A imprensa de São Paulo e do Rio registraram o lançamento
de "Coração". O
conhecido crítico santista, Álvaro Augusto Lopes, no
jornal "A Tribuna de Santos", escreveu que o verso
de Herculano Pires era "ágil e correntio".
A revista "A Cigarra", de São Paulo, registrou
que os versos de "Coração"
eram bons, que o poeta "é moço e tem talento".
A revista "O Malho", do Rio, observou
que os versos de Herculano Pires "são de rara simplicidade
e harmonia" e o jornal "O Estado de São
Paulo" viu no livro "uma linda promessa
literária". "O Correio Paulistano"
afirmou: "Há uma maestria particular na feitura do
verso, que o ouro da imaginação polvilha agradavelmente".
A União Artística do Interior
Herculano Pires aproveitou sua popularidade em benefício da
literatura. Reuniu vários escritores jovens: Oríchio,
Luís Aguiar, Américo de Carvalho, Elias Salomão
Farah - o mais velho do grupo e que tivera um conto premiado pela
"Revista da Semana", do Rio -,
Benedito Almeida, Júnior, Duílio Gambini, Djalma Noronha,
Antônio Roxo Garcia, Raul Osuna Delgado e outros, e constituíram
juntos a "União Artística do Interior",
uma instituição cultural. Era, sem dúvida, um
projeto arrojado para a época e que punha em destaque, mais
uma vez, a força idealística de Herculano Pires, não
obstante sua pouca idade: 18 anos. O jornal "O Porvir"
foi o elo que permitiu a aproximação desses intelectuais
e, depois, também facilitou a integração das
várias associações de intelectuais do interior.
O pai de Herculano foi ser gerente de uma máquina de beneficiar
algodão e entregou o comando da "Casa Ipiranga"
ao jovem Herculano, que transformou logo "O Porvir"
em jornal literário.
A União Artística do Interior (UAI) tinha por objetivo
defender os interesses dos escritores brasileiros, a difusão
da cultura artística em geral, amparo e incentivo ao desenvolvimento
das artes e letras, formar núcleos semelhantes em outras cidades
e lutar contra o analfabetismo.
Herculano Pires foi eleito presidente da UAI. Sua primeira atitude
na presidência foi a implantação de movimentos
literários em várias cidades do interior e esse trabalho
prosseguiu apesar dos parcos recursos da sociedade. Escolheu-se
para patrono da UAI Rodrigues Abreu, poeta de versos fortes e sofridos,
autor de "Casa Destelhada". Diria
mais tarde, Herculano Pires, que a escolha desse poeta para ser o
Patrono da UAI tinha um sentido simbólico, pois era um rapaz
do interior, pobre e obscuro, que apesar de esmagado pela miséria
e pela doença conseguira triunfar pela força da inteligência
e a grandeza do estro.
Primeiros passos na juventude
Herculano Pires era amante do jornalismo e da literatura, mas no fundo
de sua alma agitava um sonho: a cátedra. Transferiu-se, então,
para Botucatu com o intuito de cursar a Escola Normal. Mas o seu salário
de repórter do "Correio de Botucatu"
e o horário da Escola impediram-no de realizar o seu sonho.
Mesmo assim, fez um curso preparatório. Seguiu para a cidade
de Sorocaba, mas ali também não deu certo. A vida sempre
lhe fora difícil, o que o levaria a dizer um dia: "Tenho
certeza de que fiz mau uso do dinheiro em outras vidas. Devo ter sido
um perdulário!". Mas nem tudo foi ruim em Sorocaba,
pois se fez lá repórter de dois jornais: "Correio
de Sorocaba" e o "Cruzeiro do
Sul". Nesse ínterim, Herculano viveu algum
tempo em São Paulo, onde não conseguiu nada definitivo.
Ei-lo de novo dirigindo a gráfica do pai e "O
Porvir", em Cerqueira César. Continuou trabalhando,
escrevendo seus livros e lendo muitos autores. Herculano sempre fora
um devorador de livros. Em março de 1936, ele relançou
"O Porvir" em forma de revista
literária, crítica e noticiosa, com o nome "A
Semana".
A Conversão
Herculano Pires não saiu direto do catolicismo para a Doutrina
Espírita. Antes leu muita filosofia e chegou à Teosofia.
Um dia lhe veio às mãos "O Livro dos
Espíritos", a fonte que respondeu suas indagações.
Tornou-se espírita convicto. E, da teoria, Herculano Pires
foi à prática. Escreveu uma infinidade de artigos sobre
o Espiritismo, participou de trabalhos mediúnicos, escreveu
mais de 80 livros versando sobre essa temática, exímio
e convincente. Tornou-se, em terras brasileiras, um brilhante representante
de Allan Kardec, a ponto de Chico Xavier ter dito: "Herculano
foi o metro que melhor aferiu Kardec".
O Casamento
Em suas andanças doutrinárias, Herculano Pires conheceu,
na cidade de Ipaiçu, a jovem que se tornaria, dois anos depois,
sua esposa, a também espírita, Maria Virginia de Anhaia
Ferraz, que seria o seu anjo da guarda até o fim da encarnação.
Casaram somente no Civil no dia 11 de dezembro de 1938.
Passagem por Marília
Em 1940, Herculano, sua esposa e seus parentes agregados e filhos
respiravam os ares de Marília. Foi ali que nasceram seus filhos
Heloísa e Herculano.
Nessa época, Herculano Pires trabalhava no jornal "Diário
Paulista", que circulava na Alta Paulista. Não
demorou muito e esse jornal tornou-se deficitário e havia o
risco dos funcionários, inclusive o Herculano, perderem o emprego.
Era uma situação difícil para todos. Confiando
no seu taco, Herculano Pires fez um empréstimo no Banco Comércio
& Indústria e assumiu o "Diário
Paulista".
As polêmicas
Herculano Pires era um homem pacato e até dócil; todavia,
quando sentia que a Doutrina Espírita estava sendo ameaçada
por maus espíritas ou por inimigos tradicionais, sua reação
era imediata. Ah! que falta nos faz esse líder.
A mudança para São Paulo
Em 1946, Herculano Pires transferiu sua residência para a capital
paulista, onde passou a trabalhar na "Folha da Manhã"
e no "Jornal de São Paulo"
e, depois, nos "Diários Associados",
onde marcou época com uma coluna espírita sob o pseudônimo
de Irmão Saulo. Suas admiráveis crônicas dessa
época foram enfeixadas em livros, parte pela Editora Edicel
e parte pelas Edições Correio Fraterno sob os títulos
"O Homem Novo", "O
Infinito e o Finito", "Visão
Espírita da Bíblia" e "O
Mistério do Bem e do Mal". Além de
jornalista, escritor, ele foi excelente tradutor, tendo, inclusive,
traduzido e comentado obras de Allan Kardec.
A "Cabocla"
Em São Paulo, Herculano Pires, antes de se ligar a uma empresa,
tentou um empreendimento editorial. Ele editou uma revista em formato
grande, mensal, dirigida ao público do interior, com 32 páginas,
capa colorida, que nasceu em fevereiro de 1947, com o nome "Cabocla".
Participações importantes
Na sua época, Herculano Pires participou dos mais importantes
eventos espíritas do Estado de São Paulo e de outras
localidades: "1º Congresso Espírita da
Alta Paulista", realizado no período de
30 de março a 4 de abril de 1946, em Marília; a Fundação
da USE, que ocorreu em junho de 1947; o
"1º Congresso Espírita do Estado de São
Paulo", realizado no período de 1 a 5 de
junho de 1947, na capital paulista; o "2º Congresso
Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas",
dentre outros.
Na capital paulista, Herculano Pires criou o Clube dos Jornalistas
Espíritas, que, além de divulgar a Doutrina Espírita,
se preocupava com questões sociais. Foi dessa tribuna que Herculano
Pires combateu, principalmente, o indesejável roustainguismo
da FEB.
O sindicalista Herculano Pires
Em 1957, Herculano Pires foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do Estado de São Paulo. Sua primeira providência
na direção do sindicato foi elevar o nível cultural
dos profissionais de imprensa em São Paulo, instituindo um
Curso de Jornalismo; entre os professores, além de Herculano,
que lecionava sociologia, destacavam-se Silveira Peixoto, J.
Pontes de Morais e Victor de Azevedo Pinheiro.
Herculano na USP
Em 14 de janeiro de 1958, Herculano recebeu o seu Diploma do curso
de Filosofia da USP. Agora, ele iria realizar aquele velho sonho:
a cátedra.
Recorda-se, leitor, que citamos isso linhas atrás? Ele, agora,
ocupava a cátedra de História da Educação
e Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia de
Araraquara.
Herculano e a FEESP
O nosso biografado foi, sem dúvida, exímio esgrimista
intelectual. Quantas vezes o vimos na arena enfrentando os inimigos
do Espiritismo. Isso aconteceu no rádio, na imprensa e à
frente das câmaras de televisão. Em todos os embates
ele vencia pela sua supremacia intelectual e doutrinária.
Muitas coisas ainda teríamos a acrescentar sobre a vida e a
obra desse missionário, mas o espaço aqui obriga-nos
a contentarmo-nos com o que aí ficou registrado. Há
algo, entretanto, que não pode passar em brancas nuvens. Talvez
sua maior luta tenha sido contra a FEESP, quando esta publicou uma
tradução adulterada de O Evangelho Segundo
o Espiritismo. Em São Paulo, Herculano Pires
criou também a Editora Paidéia, que seus herdeiros acharam
por bem transformar em Fundação Maria Virginia e José
Herculano Pires, a qual passou a cuidar de todo o patrimônio
cultural do nosso inesquecível Prof. José Herculano
Pires.
Regresso à Pátria Espiritual
Nos últimos anos da vida física, a produção
literária de Herculano Pires cresceu de maneira espantosamente
fecunda. Nas estantes de seu escritório, montado no quarto
de dormir, ficaram romances, crônicas, poesias, ensaios,
para serem publicadas posteriormente. Entre os originais estava o
livro "Educação para a Morte",
que tem o selo das Edições Correio Fraterno.
Temática difícil de ser desenvolvida a contento do leitor.
Mas Herculano soube colocar esse tema como ninguém o fez antes
dele. Ele fala-nos da Morte como se estivesse falando da Vida.
O seu desencarne deu-se na noite de nove de março de 1979,
em virtude de um enfarto. Ele tinha 65 anos de idade, incompletos.
A mensagem póstuma
No dia do seu desencarne, como de costume, estava sendo realizada
uma reunião espírita na garagem de sua residência.
Ele chegou da rua, entrou em casa e se dirigiu ao banheiro. Ao fechar
a porta desse ambiente doméstico, sentiu-se mal e foi levado
ao hospital. Os que estavam na garagem não tomaram conhecimento
e a sessão continuou. No hospital ninguém esperava que
Herculano fosse falecer na Unidade de Terapia Intensiva, esperava-se
que ele ficasse bom. Mas, infelizmente, ele desencarnou. Eis que,
na garagem, nessa hora, um médium (um médium, segundo
Heloísa Pires, sua filha, até necessitado, que nunca
mais trouxe mensagem tão boa) recebeu duas mensagens e deu-as
à cunhada de Herculano, Maria de Lourdes Anhaia Ferraz. Em
uma delas, um espírito, que Jorge Rizzini afirma ser Cairbar
Schutel (é mesmo provável, porque o relacionamento de
Herculano com Cairbar foi intenso), se dizia feliz por Herculano ter
cumprido a tarefa e chegara a hora da libertação. E,
na outra, o próprio Herculano se dirigia à esposa de
forma poética (ele gostava muito de escrever poesia para aqueles
que amava). Eis, na íntegra, sua mensagem:
Vivendo contigo
Dias felizes e amenos
Na experiência do lar prossegue a vida
Coragem e otimismo
Não quero "pompas nem velas"
Apenas a simplicidade do professor do interior em metrópole
de céus e estrelas!...
Sustente em apoio vibratório a casa!
Ampare o livro da codificação.
E eu, em espírito ou memória, ao lado dos amigos espirituais,
convosco sempre estarei, no apostolado de pregar e servir a Doutrina
dos Espíritos com o mestre de Lion.
Virginia querida, mais esposa do que esposo que fui. Já não
tem falar nem riso, nem seu poeta, mas que semblante triste o seu...
Volte ao que era, como o tempo na casa velha, tudo é vida,
das noites de rima, doutrina e cozinha, lar: amigos, não é
confusão, é nova sensação de viver, sentir
que já não sou corpo, mas alma!
Até que enfim, desculpe, Espírito de Verdade, amparado
em novas luzes, a minha, a nossa luzinha, que ajudaste a construir,
no momento adeus, menos choro e mais café!
Se há dificuldade de captar a escrita, imagine a de despertar
aqui, para dizer aos daí:
Sobrevivência d'alma!
Muita paz em Jesus".
O corpo de Herculano Pires foi enterrado
no dia seguinte, às quatro horas da tarde, no Cemitério
São Paulo, com grande acompanhamento. Instituições
espíritas e culturais fizeram-se presentes. A União
Brasileira de Escritores e a Academia Paulista de Letras enviaram
flores. Falara à beira do túmulo o deputado e jornalista
Freitas Nobre, em nome do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Estado de São Paulo (a bandeira do sindicato cobria o caixão),
o deputado e escritor Israel Dias Novaes, o qual frisou que naquele
instante fazia-se o enterro de um grande brasileiro. E, entre outros,
fez uso da palavra o escritor e jornalista Jorge Rizzini, em nome
dos espíritas dos demais Estados. Herculano (Herculaninho)
Ferraz Pires agradeceu as homenagens ao seu nobre pai.
Semanas depois, os filhos colocaram no túmulo desprovido de
ornamento uma lápide de mármore, onde pode ser lida
a primeira estrofe do soneto "Vida e Morte',
escrito por Herculano Pires e oferecido à esposa Virginia no
dia do aniversário de casamento. Ei-lo:
"Vida e Morte
Não procures no túmulo vazio
a alma querida que deixou a Terra.
A morte encerra a vida e a vida
encerra a morte — como eterno desafio.
Ninguém fica no túmulo sombrio
onde somente o corpo é que se enterra.
A alma se eleva além da vida e erra
em mares de bonança e de amavio.
Busca no céu, nos ares, no infinito,
na quinta dimensão, no firmamento,
o ser querido que te deixa aflito.
Hás de encontrá-lo quando, num momento,
rompendo as ilusões do teu conflito,
possas falar-lhe pelo pensamento".
* * *