Este trabalho tem por objetivo analisar o processo
de consulta espiritual, realizado por aqueles que procuram os serviços
terapêuticos religiosos do Vale do Amanhecer.
Buscamos compreender a consulta como um momento em
que o sujeito passa a reelaborar suas aflições –
que possuem diversas gêneses – bem como sua própria
biografia, de modo que tanto suas experiências anteriores o
fazem ressignificar os elementos manipulados no momento ritualístico,
como também, a nova experiência religiosa atribuí
novos significados a sua aflição. Destacamos ainda como
os sujeitos, na medida em que imergem na doutrina religiosa, passam
a incorporar novos sistemas classificatórios, que produzem
uma reelaboração das aflições vivenciadas
pelos sujeitos, ainda que a partir, muitas vezes, de explicações
formuladas a posteriori.
(trecho inicial)
O Vale do Amanhecer –VDA –constitui o
que alguns pesquisadores acreditam ser o universo religioso mais complexo
de que já se teve notícias (Carvalho, 1999), sendo um
verdadeiro caldeirão de sincretismo (Cavalcante, 2000), imerso
dentro do movimento caleidoscópico da Nova Era – NE.
Trata-se de um movimento místico esotérico, fundado
nos arredores de Brasília, na cidade satélite de Planaltina,
no final dos anos de 1960, por uma ex-caminhoneira chamada Neiva Chaves
Zelaya, mais conhecida pelos adeptos como Tia Neiva, que teria sido
guiada por uma entidade de luz denominada Pai Seta Branca, cuja imagem,
por vezes, se confunde com o próprio Jesus Cristo).
VDA caracteriza-se por ser milenarista, porém não apocalíptico,
o que o aproxima da perspectiva presente da Nova Era –NE (Medeiros,
1998), uma vez que na NE há uma perspectiva utópica,
centrada no auto aperfeiçoamento e na melhoria da humanidade
como um todo (Silva, 2000), marcada pela crença da reencarnação,
e na ideia de carma, como está presente em vários movimentos
religiosos do Distrito Federal (Siqueira, 2003), possuindo um forte
sincretismo que agrega elementos presentes no catolicismo, no espiritismo
kardecista, na umbanda, e na NE, além da presença de
diversos elementos culturais retirados de seus contextos originários
e ressignificados.
Em termos doutrinários acredita-se na múltipla intervenção
entre o plano espiritual e material, tendo em vista que tanto os “desencarnados”
podem atuar no plano dos vivos, beneficiando-os ou prejudicando, quanto
estes podem, por meio da atividade mediúnica, auxiliar na evolução
espiritual dos espíritos.
A ideia básica do VDA é que sua existência volta-se
para a oferta de bens espirituais por meio do que é denominado
de “cura desobssessiva”, ou seja, aquela que atua no plano
espiritual, visando combater males provocados por espíritos
pouco evoluídos. Tendo em vista que há diferentes tipos
de espíritos, que podem causar males diversos, deve-se considerar
que há sempre uma afinidade entre o tipo de espírito
e o sujeito que sofre com sua ação, que remete a questões
tão diversas quanto estilode vida, e relação
dessa pessoa com o espírito em outra vida.
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Amurabi Oliveira, Universidad Federal de Santa Catarina
Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Professor da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC).
OLIVEIRA, A. Aflição, conforto e cobrança:
uma etnografia das consultas mediúnicas no vale do amanhecer.
Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião,
Campinas, SP, v. 16, n. 21, p. 88–110, 2020. DOI: 10.22456/1982-2650.49040.
Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/csr/article/view/12692.