Todos sabem que o Magnetismo era conhecido
como ciência entre os magnetizadores clássicos. A intenção
desse artigo, porém, é analisar o quanto ainda falta
para fazermos dele, na atualidade, uma verdadeira ciência. Durante
cerca de cento e cinquenta anos após o seu surgimento, o Magnetismo
conseguiu produzir provas e evidências dos seus efeitos. As
doenças eram curadas e os resultados eram visíveis,
o que esclarecia os estudiosos dedicados e confundia os orgulhosos
que, não querendo observar o que não acreditavam, tinham
como fraude ou ilusão tudo que destoava da sua maneira de entender
as coisas.
O verdadeiro pesquisador não procura confirmar os seus pontos
de vista, ele busca a verdade, mesmo que tenha que admitir que estava
em erro. O orgulhoso, por sua vez, anseia em encontrar confirmações
das suas ideias, distorcendo a verdade muitas vezes. Falta-lhe humildade
como sobra o desprezo pelos que não pensam como ele.
Depois de um hiato em que o Magnetismo praticamente desapareceu, agora
ele retorna aliado ao Espiritismo, num crescimento lento, mas vigoroso,
envolvendo as mentes e também os corações das
pessoas sensíveis que vislumbraram naquele um grande potencial
para a cura das diversas doenças físicas, psíquicas
ou espirituais. Esse movimento ainda é tímido, insipiente,
quase completamente restrito aos atendimentos das Casas Espíritas.
Talvez por que seus adeptos não estejam convencidos da grandeza
do recurso que têm nas mãos e do quanto esta ciência
pode fazer pela Humanidade. A visão parece enxergar apenas
o agora, sem vislumbrar as possibilidades vindouras que se abrirão
desde que compreendamos o seu objetivo verdadeiro. Sem esta macrovisão
estaremos fadados a manter o Magnetismo no rol das crenças
particulares sem que ele nunca consiga influir verdadeiramente nos
rumos da Humanidade, o que é o seu destino.

Barão Jules Denis du Potet de Sennevoy.
(1796-1881)
Fundador do Journal de Magnétisme e dirigente da Socieade Mesmeriana.
Em carta enviada a Napoleão
III, Imperador da França, o Barão du Potet ressalta
a importância do Magnetismo.
Uma descoberta brilhante como
o sol, fecunda como a natureza se expande hoje pelo mundo inteiro,
sem o concurso dos sábios e apesar da poderosa liga que organizaram
contra ela. Trata-se do magnetismo, força medicamentosa a
qual nada se compara. Como agente de fenômenos, supera e muito
a eletricidade e o galvanismo, como princípio de ciência
moral, nossos conhecimentos atuais nada tem a lhe opor. Que espera
então, Sua Majestade, para fazer prevalecer a verdade sobre
a mentira? A sanção dos sábios? Nunca a terá
plenamente, pois os fatos novos desarranjam seus cálculos
e contrariam a fé que tem nas afirmações solenemente
procla-madas por eles mesmos. Eles o enganaram sobre o valor real
do magnetismo assim como enganaram seu tio, de gloriosa memória,
a respeito do vapor. (1)
Mais adiante solicita o empenho do
imperador para a criação de uma “cátedra
de ensinamento do Magnetismo”. Seria uma forma dessa ciência
ser melhor estudada e compreendida, estar mais protegida dos ataques
dos inimigos, servir à verdade, triunfar sobre a má
vontade dos homens e ser preservada para o futuro.
O Magnetismo no período clássico tinha os seus dignos
estudiosos, sinceros amantes da verdade, que buscavam o seu desenvolvimento
com inteligência e amor. Utilizavam métodos científicos
que não deixassem dúvidas quanto aos resultados que
ele podia produzir e almejavam a disseminação dessa
arte que tantos benefícios trazia, e continua trazendo.
Apesar de alguns esforços ardentes e sinceros, o Magnetismo
permanece ainda isolado em pequenos círculos sem, contudo,
conseguir ir além dos limites do Centro Espírita. Carece
que compreendamos qual a sua missão na Terra. É um bem
da Humanidade que desconhece limites de crença, raça,
cor, sexo, idade. É a chama da vida que impregna todo ser vivo
e que mantém a vida no nosso planeta. Achá-lo patrimônio
do Espiritismo é acreditar que somente nós espíritas
temos o direito e as condições de utilizar, quando qualquer
pessoa possui essa energia e, em tese, tem condições
de aplicá-la em benefício de outrem.

Sir William Crookes (1832-1919).
Cientista, químico e estudioso do psiquismo, nascido em Londres,
Inglaterra.

Foto do Espírito Katie King (materializado)
de braços com William Crookes.
Numerosos cientistas de renome,
mesmo diante dos fatos mais convincentes, hesitaram em proclamar a
verdade, com receio das consequências que isso poderia acarretar
aos olhos do povo. Crookes, porém, não agiu assim. Ele
penetrou o campo das investigações com o intuito de
desmascarar, de encontrar fraudes, entretanto, quando constatou que
os casos eram verídicos, insofismáveis, ele rendeu-se
à evidência, curvou-se diante da verdade, tornou-se espírita
convicto e afirmou:
- "Não digo
que isto é possível; digo: isto é real!"
(http://www.feparana.com.br/biografia.php?cod_biog=278)
É razoável que hoje
o Espiritismo detenha o melhor conhecimento a respeito do magnetismo,
mas daí há uma diferença em achar que é
o seu proprietário.
Pensando no Magnetismo num sentido universal, podemos entender a nossa
responsabilidade no sentido de fazê-lo extrapolar para além
das instituições espíritas e fincar bandeira
como terapia curativa eficaz. Para isso há um longo caminho
a ser percorrido, das experimentações, das exaustivas
pesquisas, das frias análises, buscando firmar o Magnetismo
em bases sólidas, confiáveis e verificáveis por
todos que desejem estudá-lo de maneira séria.
Citei a frieza das análises não me referindo à
ausência de paixão e amor pelo que se faz, já
que esses são elementos imprescindíveis que geram motivação
e que ajudam a superar os desafios que se interpõem no caminho
de quem segue algo de bom. Aludi à necessidade de frear a empolgação
que nos faz ver a verdade em tudo, até mesmo na mentira, que
ilude os olhos e o espírito e desencaminha o pesquisador. É
preciso firmar os pés no chão enquanto a emoção
nos leva a voar mais alto.
Sir William Crookes, um grande pesquisador dos fenômenos psíquicos
e um dos maiores cientistas da sua época é um excelente
exemplo. Foi-lhe sugerida uma investigação dos fenômenos
espíritas a fim de desvendar de uma vez por todas o que havia
por trás daquilo que os espiritistas afirmavam ser a alma dos
mortos. Conta do livro “Katie King” de Wallace Leal V.
Rodrigues a afirmação de Crookes com as características
do verdadeiro sábio:
Não posso dizer que tenho
pontos de vista ou opiniões sobre um assunto que não
tenho a pretensão de entender.
Mais tarde voltou a declarar:
Prefiro entrar na questão sem nenhuma noção
preconcebida, quanto ao que pode ou ao que não pode ser,
mas com todos os meus sentidos alertados e prontos para transmitir
informações racionais, acreditando que não
temos de modo algum esgotado todo o conhecimento humano ou galgado
todos os degraus do conhecimento humano e das forças físicas.
Dir-se-ia que o tiro saiu pela culatra
quanto ao que os seus colegas cientistas esperavam como resultado
da pesquisa. Agora o renomado físico possuía não
uma opinião, mas uma certeza sobre os fenômenos e esta
era completamente favorável à tese espírita,
pois que se baseava em fatos.
Uma cura magnética pode não deixar dúvidas quanto
à sua realidade, no magnetizador e naquele que está
em tratamento, mas não servirá de elemento comprobatório,
se levarmos em conta os moldes atuais das pesquisas científicas.
Exige-se um rigor muito grande para que os resultados alcançados
não possam ser explicados em termos de coincidência,
acaso ou mesmo como consequência de outros fatores causais.
Uma pesquisa científica envolvendo tratamento por magnetismo
teria que excluir qualquer possibilidade de influência de outras
formas de tratamento, como medicamentos, sejam naturais ou químicos,
terapia psicológica, etc. O paciente teria que ser tratado
única e exclusivamente pela energia do magnetizador. Reconhecemos
que haveria grandes dificuldades nesse sentido, porém somente
assim teríamos certeza do que proporcionou a saúde ao
doente.

Miss Florence Cook.
Médium que aos 15 anos de idade submeteu-se às experiências
psíquicas com William Crookes.
Não para por aí, entretanto.
A quantidade também é importante. Os resultados positivos
alcançados com alguns poucos indivíduos é levado
à conta de coincidência. É preciso uma quantidade
razoável de participantes a fim de que a estatística
seja favorável. Além disso, seria interessante comparar
os resultados do magnetismo com os de outras formas de tratamento
ou mesmo com grupos-controle (grupos sem tratamento algum) ou fazendo
uso de placebo. (2)
O método científico requer precisão e
não dá espaço para improvisações
ou conclusões precipitadas. Mesmo assim, muitos não
se convencerão e procurarão falhas na pesquisa, levados
por um orgulho que não se dobra nem mesmo ante as evidências,
assim como aconteceu às cautelosas conclusões de William
Crookes. Haverá aqueles, todavia, que, seguidores da verdade,
a enxer-garão, lamentando não terem estado antes diante
dela.As dificuldades podem ser muitas, o caminho longo e pedregoso,
mas não devemos desistir. Da mesma forma que nos preparamos
para uma viagem, o objetivo do Magnetismo será alcançado
se nos prepararmos para ele. As provisões são os conhecimentos,
os estudos, aliados ao espírito crítico, à perseverança,
à fé e à humildade, mantendo como sustentáculo
a caridade que estabelece como regra o bem coletivo acima do individual.
1 Publicada no Jornal do Magnetismo, pág. 30
a 32, de 1860.
2 Placebo – Preparado sem nenhuma ação ou efeito,
usado em estudos para determinar a eficácia de substâncias
medicinais. (Dicionário Michaelis)