Espiritualidade e Sociedade





Marcelo Caetano Monteiro

>  A Revista Espírita no Brasil:
A grande ponte entre entre Allan Kardec e a formação doutrinária do movimento espírita brasileiro

Artigos, teses e publicações

Marcelo Caetano Monteiro
>  A Revista Espírita no Brasil: A grande ponte entre entre Allan Kardec e a formação doutrinária do movimento espírita brasileiro

 

 

 

A história do Espiritismo no Brasil não pode ser compreendida sem o estudo atento da Revista Espírita (Revue Spirite), periódico fundado por Allan Kardec em janeiro de 1858. Embora as cinco obras fundamentais da Codificação Espírita constituam o núcleo doutrinário do Espiritismo, foi justamente na Revista Espírita que Kardec registrou, mês após mês, o desenvolvimento vivo da doutrina, suas investigações, suas respostas aos críticos, seus estudos de casos, suas observações experimentais e a constante aplicação do método racional ao fenômeno espírita.

Mais do que um periódico, a Revista Espírita representa um verdadeiro laboratório científico, filosófico e moral da Doutrina Espírita. Nela observa-se o pensamento kardeciano em movimento, amadurecendo conceitos, confrontando hipóteses, corrigindo interpretações precipitadas e submetendo continuamente as comunicações espirituais ao crivo da razão e da universalidade dos ensinos dos Espíritos.

Sua chegada ao Brasil, por meio de traduções criteriosas realizadas ao longo do século XX, constituiu um dos acontecimentos intelectuais mais importantes da história do Espiritismo brasileiro, permitindo que estudiosos lusófonos tivessem acesso direto às fontes primárias da Codificação.

A Revista Espírita como continuação natural da Codificação

Após publicar O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, Allan Kardec compreendeu que o avanço da nova ciência espiritual exigia um veículo permanente de divulgação e investigação.

As manifestações espirituais multiplicavam-se por toda a Europa, novas experiências eram constantemente comunicadas à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e inúmeros questionamentos surgiam diariamente. Tornava-se indispensável um periódico que registrasse essas pesquisas e permitisse acompanhar o desenvolvimento do pensamento espírita.

Assim nasceu, em janeiro de 1858, a Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos.

Durante aproximadamente doze anos, até sua desencarnação em março de 1869, Kardec redigiu praticamente todos os números da revista, produzindo milhares de páginas que documentam o nascimento, a consolidação e o amadurecimento do Espiritismo.

Foi nela que apareceram inúmeros estudos posteriormente incorporados às obras da Codificação.

Não por acaso, em O Livro dos Médiuns (Capítulo III), Kardec recomenda expressamente a leitura da Revista Espírita, reconhecendo-a como complemento indispensável para quem deseja compreender profundamente a doutrina.

Os Anais vivos do Espiritismo

Em Obras Póstumas, no capítulo "Constituição do Espiritismo", Kardec define a própria Revista Espírita como os "Anais do Espiritismo".

A expressão possui profundo significado histórico.

Enquanto os livros da Codificação apresentam os princípios gerais da doutrina, a revista registra sua aplicação prática diante dos acontecimentos cotidianos.

Ali encontram-se:

  • análises de fenômenos mediúnicos;
  • estudos sobre obsessão;
  • pesquisas relativas às curas espirituais;
  • debates filosóficos;
  • respostas às críticas dirigidas ao Espiritismo;
  • relatos experimentais;
  • correspondências internacionais;
  • comunicações mediúnicas submetidas ao controle racional;
  • reflexões morais;
  • estudos sobre reencarnação;
  • discussões acerca da pluralidade dos mundos habitados;
  • investigações psicológicas e antropológicas.


Trata-se, portanto, de um extraordinário acervo documental que permite acompanhar o método científico empregado por Kardec, muito distante tanto da credulidade ingênua quanto do ceticismo sistemático.

A monumental tradução brasileira

Durante décadas, o acesso dos brasileiros à Revista Espírita permaneceu extremamente limitado.

Traduzir milhares de páginas escritas no francês da metade do século XIX exigia não apenas domínio linguístico, mas profundo conhecimento doutrinário.

Foi nesse contexto que surgiu a figura admirável de Júlio Abreu Filho.

Movido por extraordinária dedicação, iniciou, em 1949, a tradução integral da coleção.

A tarefa revelou-se gigantesca.

Não bastava converter palavras.

Era necessário preservar o pensamento original de Kardec, respeitando o contexto histórico, filosófico e científico em que cada artigo havia sido produzido.

Anos de trabalho silencioso culminariam numa das maiores contribuições intelectuais já realizadas ao Espiritismo brasileiro.

Herculano Pires: o filósofo da revisão doutrinária

Se Júlio Abreu Filho traduziu a obra, coube a José Herculano Pires realizar um criterioso trabalho de revisão.

Professor, jornalista, filósofo formado pela Universidade de São Paulo e considerado por muitos estudiosos como um dos maiores intérpretes de Allan Kardec no século XX, Herculano compreendia perfeitamente a responsabilidade envolvida naquela missão.

Ele próprio registrou, em seus escritos pessoais, a enorme dificuldade da tarefa.

Seu objetivo não era simplesmente revisar uma tradução.

Pretendia devolver ao leitor brasileiro o verdadeiro pensamento kardeciano, frequentemente comprometido por versões anteriores excessivamente literais ou pouco cuidadosas.

Além da revisão técnica, Herculano traduziu as poesias presentes na revista, redigiu importantes prefácios explicativos e acrescentou observações históricas que facilitaram a compreensão dos leitores brasileiros.

Seu trabalho transformou-se numa verdadeira interpretação filosófica da obra de Kardec.

Frederico Giannini Júnior e o pioneirismo editorial

Nenhum grande trabalho intelectual alcança a sociedade sem o esforço daqueles que acreditam na importância da publicação.

Nesse aspecto destaca-se a figura de Frederico Giannini Júnior, fundador da EDICEL (Editora Cultural Espírita).

Num período em que o mercado editorial espírita era extremamente restrito e financeiramente incerto, Giannini assumiu os elevados custos da publicação integral da coleção.

Foi uma iniciativa ousada.

A impressão de milhares de páginas exigia recursos significativos, sem qualquer garantia de retorno econômico.

Sua decisão demonstra compreensão histórica da relevância cultural da obra.

Graças ao esforço conjunto entre tradutores, revisores e editor, o Brasil passou a possuir uma das primeiras coleções completas da Revista Espírita em língua portuguesa.

Novas traduções e continuidade do legado

O pioneirismo da EDICEL abriu caminho para outras iniciativas editoriais.

Posteriormente, o Instituto de Difusão Espírita (IDE) publicou nova tradução realizada por Salvador Gentile.

Em 2004, a Federação Espírita Brasileira (FEB) lançou uma tradução inteiramente nova, preparada por Evandro Noleto Bezerra, enquanto as poesias foram vertidas por Inaldo Lacerda Lima.

Essas diferentes traduções não representam concorrência entre si.

Ao contrário, enriquecem os estudos comparativos, permitindo ao pesquisador observar nuances linguísticas do texto original francês e aprofundar sua compreensão do pensamento kardeciano.

A importância metodológica da Revista Espírita


Talvez o maior equívoco presente em parte do movimento espírita contemporâneo seja considerar suficiente o estudo exclusivo das cinco obras básicas.

Embora fundamentais, essas obras mostram o resultado consolidado do pensamento kardeciano.

Já a Revista Espírita revela o processo.

É nela que se observa Kardec investigando, questionando, testando hipóteses e reformulando entendimentos diante de novos fatos.

A revista ensina não apenas o conteúdo da Doutrina Espírita, mas também seu método de construção.

Ela demonstra que o Espiritismo jamais foi concebido como sistema fechado, mas como conhecimento progressivo submetido continuamente à observação, à razão e ao controle universal dos ensinos dos Espíritos.

Essa perspectiva preserva a doutrina contra o dogmatismo, o personalismo e o misticismo acrítico.

Uma fonte indispensável para pesquisadores

Para historiadores, filósofos, psicólogos, antropólogos, teólogos e estudiosos da religião, a Revista Espírita constitui documento histórico de valor excepcional.

Além do aspecto doutrinário, oferece um retrato preciso da cultura intelectual da França do Segundo Império, das discussões científicas do século XIX, da recepção pública do Espiritismo e das relações entre ciência, filosofia e religião naquele período.

Sua leitura evidencia a formação humanista de Allan Kardec, sua metodologia investigativa e seu constante compromisso com a coerência lógica.

É impossível compreender integralmente a evolução da Codificação sem recorrer às páginas da revista.

Conclusão

A tradução da Revista Espírita para o português representa um dos maiores serviços prestados ao Espiritismo brasileiro.

Graças ao trabalho perseverante de Júlio Abreu Filho, ao rigor filosófico de José Herculano Pires e ao pioneirismo editorial de Frederico Giannini Júnior, tornou-se possível aos estudiosos brasileiros acessar diretamente uma das mais importantes fontes da literatura espírita.

Mais que um periódico histórico, a Revista Espírita permanece como testemunho vivo do método kardeciano: observar, comparar, raciocinar, experimentar e somente então concluir.

Seu estudo continua sendo indispensável para aqueles que desejam compreender não apenas as conclusões da Doutrina Espírita, mas também o caminho racional percorrido por Allan Kardec na elaboração da Terceira Revelação.

Fontes:

O Livro dos Médiuns, Capítulo III.

Obras Póstumas, "Constituição do Espiritismo".

Revista Espírita (1858–1869).

J. Herculano Pires. Apresentação da Revista Espírita (EDICEL).

Jorge Rizzini. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec.

Marcus De Mario. "A Revista Espírita no Brasil".

Portal O Consolador. "A Revista Espírita de Allan Kardec".

 

 

Fonte: https://www.reddit.com/r/Espiritismo/comments/1uvllqq/a_revista_esp%C3%ADrita_no_brasil_a_grande_ponte_entre/

 

 

* * *

 

 



topo

 

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
|  B  |   C  |   D   |  F   |  G  |   H  |   I   |  J     K   |   L    M  |   N   |   O   |   P  
-  Q  |   R  |  S  |   T   |   U   |   V    |   W   |   X    |   Y    |    Z  
Allan Kardec      -   Special Page - Translated Titles
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual :