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Aloízio Monteiro
> O idioma dos Evangelhos
Os Evangelhos que chegaram ao conhecimento
do mundo foram escritos em grego coinê, que é uma versão
popular do grego clássico. Desde o início, eles se destinavam
ao mundo gentio -- e era em grego coinê que eles circulavam
secretamente na Judéia, Galiléia e Samaria; se eles
tivessem sido escritos em hebraico ou aramaico, com toda a certeza
os seus possuidores, sendo pegos, seriam execrados até a morte.
Até pelo fato de que os Evangelhos criticam o colaboracionismo
dos sacerdotes do Templo com os procuradores de Roma, não há
a mínima base lógica para se supor que eles foram originalmente
escritos em hebraico ou aramaico.
A divulgação dos Evangelhos, orbi et urbi,
abrangeu o maior número de pessoas (como é feito, hoje,
com o idioma inglês), uma vez que, no século 4 AEC, os
gregos conquistaram o mundo, difundindo a cultura e a crença
nos seus deuses, obrigando os dominados a falarem no idioma grego.
Dentre as principais obras do grego clássico e sua cultura,
estão os escritos de Aristóteles, que só chegaram
ao nosso conhecimento graças aos filósofos árabes
que ficaram conhecidos pelos nomes Avicena e Averrois.(1)
O coinê dos Evangelhos era escrito em letras maiúsculas
e suas frases são lidas da esquerda para a direita e de cima
para baixo. Segundo William D. Mounce, "o coinê era uma
forma simplificada do grego clássico, e, infelizmente, foram
perdidas muitas das sutilezas do grego clássico. Por exemplo,
no grego clássico, "allos" significava `outro', do
mesmo tipo, ao passo que a "eteros" significava `outro',
de um tipo diferente. Se você tivesse uma maçã
e pedisse "allos", receberia outra maçã. Mas,
se pedisse "eteros", receberia, talvez, uma laranja".(2)
Do mesmo modo, Robert H. Mounce informa: "Quando o Novo Testamento
foi originalmente escrito, não existiam sinais de pontuação.
Na realidade, as palavras eram escritas juntas, sem a mínima
separação entre elas. A pontuação e a
divisão em versículos foram introduzidas no texto dos
manuscritos num período posterior" (apud
William D. Mounce, op. cit., p. 17).
No século II, houve a transliteração para a escrita
minúscula, com espaçamento entre palavras e com pontuação
criada pelo léxico correspondente. Daí porque os originais
apresentam certa dificuldade de leitura, não se devendo confiar
nas expressões que os tradutores fizeram aparecer entre parêntesis
nos Evangelhos.
As palavras gregas possuem significados específicos e induvidosos
-- o que é muito diferente do hebraico bíblico, que
não tem vogais e, por isso mesmo, apresenta termos com significados
múltiplos e misteriosos, que nem mesmo os bons rabinos conseguem
explicá-los do mesmo modo. No aspecto gramatical, o léxico
do grego apresenta estrutura melhor do que a do idioma hebraico. As
transliterações das palavras em coinê influíram
na justa disposição do sentido das frases. Mas, nem
por isso as palavras isoladas perderam o significado exato que desfrutavam
no léxico do grego clássico. Os autores dos Evangelhos
(Canônicos e Apócrifos) sabiam ler o grego clássico,
mas, talvez para torná-lo popular e de divulgação
mais segura, optaram em escrevê-los no grego coinê, sem
deixar registros na "língua materna" do seu próprio
povo e nos termos de sua própria cultura. A escolha do coinê
não foi só porque a doutrina cristã deveria ser
propagada no mundo gentio, mas sim, porque o coinê era o idioma
que todos falavam no Mundo Ocidental, nos tempos de Jesus.
Hoje, existem várias traduções dos Evangelhos
e algumas contêm liberalidades que, na verdade, ao invés
de esclarecerem os significados dos versículos, só servem
para esconder o significado que as palavras originais continham. Isto
ocorreu porque os interesses dos tradutores nem sempre estiveram atrelados
à revelação da verdade. Na época em que
os Evangelhos foram divulgados, as traduções exatas
das frases podiam trazer graves incômodos para os tradutores.
Em relação à busca pela tradução
mais correta dos Evangelhos, o compromisso dos aplicadores da Lógica
é a revelação da verdade contida nas argumentações.
E isso nada tem a ver com a profissão da fé religiosa.
Assim, da leitura dos Evangelhos em coinê se depreende que Jesus
combatia todo tipo de opressão contra o povo judeu, sobretudo
a impingida pelos sacerdotes do Templo, em estreita colaboração
com os romanos, segundo deduziu John Dominic Croissan (in "A
Última Semana" e outros livros). Segundo A. N. Wilson
(in "Jesus, o maior homem do mundo"), "os judeus eram
obrigados a seguir 613 obrigações (dos quais 365 eram
proibições), em nome dos costumes". Jesus respeitava
o pagamento de impostos a César (Mc 12, 17; Mt 22, 21; Lc 20,
25), mas repelia os impostos cobrados pelo Templo (Mt 17, 24-27).(3)
Por isso, para se conhecer bem os detalhes do Evangelhos e entender
melhor o Jesus histórico, é de suma importante conhecer
o real significado que tinham as palavras dos Evangelhos, no grego
coinê.
NOTAS:
(1) Aristóteles -- pai da Lógica Filosófica e de
toda a Ciência -- foi posto por Felipe, rei da Macedônia,
como tutor do seu filho Alexandre, "o Grande".
(2) Fonte: William D. Mounce, "Fundamentos do Grego Bíblico",
Ed. Vida, 2009, p. 1-2. As palavras "allos" e "eteros"
que aparecem no texto acima não estão dessa forma no original;
elas estão em caracteres gregos não aceitos pelo software
de edição de texto desta Lista. É muito importante
conhecer as sutilezas do idioma grego. Foi através do estudo
do idioma grego e da leitura dos Evangelhos em coinê que eu descobri
o verdadeiro e maravilhoso sentido do episódio -- não
mágico -- da multiplicação dos pães e peixes.
(3) Fonte: Luiz Felipe Coimbra Ribeiro, "O Jesus histórico
não pagava o imposto do Templo", in "Jesus de Nazaré:
uma outra história", Ed. FAPESP,2006, pp. 341/353.
Fonte:
http://groups.yahoo.com/group/JesusHistorico/
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