Nas proximidades do ano 1000 corria o boato de que mundo estava prestes
a acabar. Num mosteiro, os monges consultavam ansiosamente
as Escrituras. Como se trata de vida comunitária, havia o monge
bibliotecário, o monge cozinheiro, o monge jardineiro e assim
por diante. O monge jardineiro, mais velho, era tido por todos como
santo. Um belo dia, enquanto cuidava do jardim, eclodiu uma correria
geral dos monges para a capela.
- O que está acontecendo?, perguntou ele a um jovem monge que
participava da correria.
- O senhor não está sabendo? O Frei Fulano (autoridade
máxima em Escrituras) chegou à conclusão que o
mundo vai acabar dentro de meia hora. O senhor não vem rezar
na capela?
O velho monge ficou em silêncio por alguns instantes e respondeu:
- Não, vou esperar o fim do mundo aqui mesmo cuidando das minhas
rosas!
Não se pode falar de um fim sem ter em mente um início.
Tudo que começa, acaba; e tudo que acaba é porque teve
um começo. Assim, de acordo com o velho paradigma, se no passado
Deus criou esse mundo, então ele acabará um dia no futuro.
No entanto, o termo hebraico bereschit para criação, usado
no Gênesis, tem um duplo significado: na Septuaginta, que foi
mais utilizada pelos cristãos, o in principio tomou o sentido
de “um começo no tempo”, o instante zero da história;
mas em hebraico significa “fundamento”, “base”,
um princípio atemporal. Na medida em que a primeira interpretação
começou a prevalecer entre os cristãos, surgiram as preocupações
apocalípticas. Afinal de contas, tudo que tem um começo
tem também um fim. Com a idéia de um universo criado por
Deus no tempo não haveria de ser diferente.
Vale a pena comparar essa imagem de Deus com a visão hinduísta
da Trindade. De acordo com os hindus, são três os aspectos
do Supremo: Brahma, o Criador; Vishnu, o Preservador; e Shiva, o Destruidor/Reconstrutor.
Os cristãos sempre tiveram a maior dificuldade em aceitar um
aspecto destruidor de Deus, ligado ao pecado, à decadência
e à morte. Preferem delegá-lo a um “agente do mal”,
esquecendo-se de que ele também é criatura de Deus e,
como tal, tem o importante papel de “promotor da corte celeste”.
Para os hindus, trata-se de um aspecto fundamental para o equilíbrio
da vida no mundo. Shiva destrui para renovar.
A partir do sentido de atemporalidade de beréschit, poderíamos
concluir que:
(1) não existe um começo (e nem um fim) para o universo;
(2) o mundo surge de uma “autocontenção” do
Absoluto (auto-sacrifício cósmico);
(3) o universo é recriado a cada instante e segue leis que lhe
são intrínsecas (nenhuma necessidade de um Deus antropomórfico
ficar intervindo em sua própria obra);
(4) existe um processo de complexificação / conscientização
crescente da vida no universo (ver Teilhard de Chardin);
(5) com o aparecimento do homem, torna-se possível a eclosão
da autoconsciência no mundo (o universo transformando-se no grande
espelho em que Deus se vê, o objetivo mesmo da Criação).
Nessa visão, nada impede que tenha havido um “big-bang”
há bilhões de anos e que haverá o seu reverso,
um “big-crunch”, daqui a outros tantos bilhões de
anos. Um universo pulsante, com “big-bangs” e “big-crunches”
se sucedendo uns aos outros, de acordo com a ciência e a cosmologia
hindu. Um caleidoscópio cósmico! À cada volta,
uma nova configuração. A própria dança de
Shiva Nataraj, o deus-dançarino cósmico.
Portanto, o melhor é ver o universo como uma criação
contínua, começando e terminando a cada instante, sem
preocupações com um “fim do mundo” ou “juízo
final”. O presente é o único tempo real em que Deus
se manifesta. Quando Jesus, em resposta aos judeus, afirmou: Em verdade,
em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu Sou (Jo.8,58),
não estava fazendo autopromoção e sim formulando
algo muito sutil. Ao contrário do que se imagina, os judeus não
entenderam sua sutileza (e parece que os cristãos ainda hoje
também não). Apenas soou-lhes como algo herético.
A frase gramaticalmente correta seria: “Antes que Abraão
fosse, eu era”, mas como está no Evangelho não faz
sentido ao senso comum. Na verdade, Jesus estava formulando o que o
Zen chama de koan, visando quebrar o raciocínio lógico
e linear de seus interlocutores. Os judeus na narrativa estavam se referindo
orgulhosamente ao seu glorioso passado de povo eleito. Com sua resposta,
Jesus jogou-os de cara no presente, único tempo em que Deus pode
realmente se manifestar.
Cristo fez-se homem para nos tornarmos o que, no fundo, sempre fomos
– Cristos: Mas, eu já não vivo: é Cristo
que vive em mim (…) Meus filhinhos, sofro de novo por vós
como dores de parto, até que o Cristo seja formado em vós
(Gal.2,20; 4,19). Isto não se dará num futuro remoto,
mas no presente. A anunciada segunda vinda de Cristo não será
exterior e ostensiva, mas interior e íntima. Não depende
de um “final dos tempos”. É agora ou nunca!
Fonte:
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/fguedes/o-mundo-sem-fim.html
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