A parábola oriental conhecida como “Os
cegos e o elefante” narra o seguinte acontecimento: após
a chegada de um elefante a um vilarejo, alguns sábios cegos
que lá moravam se puseram a tatear o animal, do qual não
possuíam qualquer conhecimento prévio. O sábio
que apalpou a barriga do elefante afirmou que este era semelhante
a uma parede. O sábio que tocou a tromba do mamífero,
por sua vez, negando o que dissera seu colega, garantiu que o elefante
era similar a uma cobra. O sábio que sondou as pernas da besta,
não tendo dúvidas em contradizer os demais, assegurou
que o elefante parecia um grande tronco. Outro sábio, agarrado
ao rabo do paquiderme, jurou que este lembrava uma corda…

Dependendo da fonte em que nos baseamos, o número
de sábios engajados no conhecimento do elefante varia, assim
como variam alguns outros detalhes da história registrada,
pela primeira vez, no Udana, um dos mais antigos textos budistas.
Note-se que, originalmente, a parábola não pretendia
indicar que a verdade não existe ou que é relativa,
mas tão somente que, em geral, visamos a Verdade (com “v”
maiúsculo) a partir de uma certa perspectiva — por definição,
limitante, restringente. Trata-se, antes de mais nada, de um convite
à aceitação de uma visão mais abrangente
(como aquela apresentada pelos ensinamentos de Buda), e não
de um manifesto pós-moderno!
“A verdade não existe. Tudo o que existe
são interpretações”: eis, no entanto, uma
declaração que, já há algum tempo, vem
sendo tida por signo inequívoco da inteligência e da
tolerância daquele que a profere. Ora, mas será que isto
deveria ser assim? De saída, perceba o leitor que tal tese,
quando aplicada à parábola mencionada, exige que concluamos
que o elefante não existe, existindo apenas as intepretações
que dele fizeram os sábios: insanidade que muitos parecem abraçar
felizes e orgulhosos.
Urge denunciarmos que proposições tais
como “a verdade é relativa” não sobrevivem
ao menor exame. Afinal, se a verdade é relativa, a própria
frase “a verdade é relativa” é, também
ela, relativa — e, assim sendo, não preciso lhe dar ouvidos,
podendo permanecer, tranquilamente, na minha posição
não-relativista (ou, como alguns a chamam, absolutista). O
fato é que toda afirmação relativista sofre da
“síndrome do lenhador estúpido”, o que significa
dizer que toda afirmação relativista corta, incontinente,
o galho em que está sentada — ou que, na melhor das hipóteses,
lança seu propositor em situações embaraçosas.
Vejamos alguns exemplos deste curioso fenômeno.
Que se considere o relativismo histórico, teoria
segundo a qual cada época possui sua própria verdade.
Pois bem. Se os relativistas históricos estivessem certos,
seria necessário concluir (como eles o fazem) que o conhecimento
humano não progride — todas teses científicas
e filosóficas não passando de criações
datadas. Mas pense direito. Se nenhuma tese científica ou filosófica
constitui um real ganho para a civilização, possuindo
data de validade como um iogurte, o próprio relativismo histórico
não precisa mais ser levado a sério, já que ele
mesmo é uma tese datada — e que, a bem da verdade, começa
a cheirar mal.
Peguemos, agora, o caso do relativismo moral (ou cultural).
De fato, diferentemente dos grandes eruditos e pesquisadores responsáveis
pelo estabelecimento da Antropologia como ciência, inúmeros
antropólogos formados ao longo das últimas décadas
professam um relativismo moral sem limites. Infanticídio, estupro,
roubo: não há uma coisa sequer que estes profissionais
não considerem aceitável — e mesmo bela —
desde que possam exorcizá-la com a seguinte expressão
mágica: “isto faz parte dos costumes deles”. Ironicamente,
os mesmos antropólogos relativistas, que defendem que não
há um certo e um errado absolutos, repreendem missionários
cristãos quando estes se põem a divulgar sua religião
para os indígenas — mesmo que “pregar a boa nova”
seja um dos costumes mais arraigados do Ocidente. E aí? Os
costumes são ou não são o cânone supremo
da moral?
Por fim, considere-se aqueles que, à moda de
Michel Foucault, defendem que cada saber não é senão
uma forma de poder. Segundo esta visão, todo conhecimento (ou
pretenso conhecimento) não passa de um discurso que visa estabelecer
a dominação de um grupo social sobre outro. Neste contexto,
a pergunta pela Verdade se torna obsoleta, já que as “verdades”
(entre mil aspas) estão sempre — e só podem estar
— a serviço de alguém. Mas, se assim é,
que motivos teríamos para aderir ao saber desenvolvido por
Foucault e seus acólitos? Não seria também ele
apenas um instrumento de dominação? Ou será que
os foucaultianos se consideram a única exceção
a sua própria teoria? Decifra-me ou devoro-te.
Nestas breves linhas, não quis dar a entender
que a verdade é algo fácil de ser conhecido. Ao invés
disto, quis indicar que a inegável dificuldade de encontrar
a verdade não deve — e não pode — servir
de pretexto para negar sua existência: o relativismo, como demonstrado,
enfrenta sérias dificuldades para se sustentar quando levado
às últimas consequências. A título de conclusão
(e de gancho para reflexões posteriores), quero chamar a atenção
do leitor para a seguinte hipótese: quer parecer-me que se
nossa sociedade passa, atualmente, por uma grave crise de autoridade,
isto se deve, em grande medida, à massiva difusão da
tese segundo a qual a verdade não existe — ou que é
relativa, o que dá no mesmo. Por que deveriam os jovens obedecer
aos pais, aos professores e às leis se, no fundo, tudo é
relativo, uma construção histórico-cultural-opressiva?
Pois é. As ideias têm consequências: eis uma verdade
que nunca fica velha!
