A educação sempre estará
relacionada com a área profissional, seja ela qual for, afinal
a formação continuada é hoje uma realidade. Praticamente
todo profissional tem obrigação de buscar aprimoramento,
não existe mais aquela perspectiva de achar que já se
estudou tudo que precisava. Aquele que pensar diferente será
castigado pelo mercado de trabalho tornando-se assim obsoleto.
Em minha juventude eu era adepto da intenção de estudar
apenas o necessário, nunca imaginei sequer fazer uma faculdade,
uma vez que na época pensava não ser necessário
para realizar meus sonhos. Desde que me lembro por gente eu sonhava
em ser um militar do Exercito, e do auge de minha ignorância
eu acreditava que não era necessário estudar muito para
isso.
A vida me presenteou com uma infância maravilhosa no interior
do estado. Eu estudava em um colégio católico dirigido
por Freiras Carmelitas, meu pai homem de família tradicional
conhecida na cidade, sempre me incentivou a estudar porém sem
saber me explicar a seriedade em que isso implicava e o que a falta
de interesse nessa área me acarretaria. O maior presente que
a vida me deu neste momento de minha existência foi um irmão
quatro anos mais velho e cem anos luz mais evoluído. Meu irmão
Leandro me dava conselhos que ate hoje repercutem em minha vida, mais
do que conselhos e dicas ele dava exemplo, disparado melhor aluno,
admirado por todos seu professores, respeitado por todos familiares
e conhecidos. Nem preciso dizer que eu não ouvia seus conselhos
e que enorme era a decepção dos professores que acreditavam
que eu iria seguir os mesmo passos que ele, quando viam nosso sobrenome
igual na lista de chamada. Dando sequencia a meus pensamentos limitados,
continuei estudando apenas as matérias que me davam prazer,
por exemplo, História, principalmente as de guerras do século
XIX, as outras matérias eu tirava a média para passar
de ano e estava ótimo.
Meu primeiro contato com o ensino profissionalizante foi no ensino
médio, quando fiz o curso de Técnico em Contabilidade,
fiz apenas por que tinha que escolher algum, pois todos os cursos
da cidade eram profissionalizantes. Eu continuava o menino sonhador,
não há nada de errado em sonhar desde que não
seja de forma tão displicente e equívoca, eu continuava
a ignorar todos os conselhos e exemplos que meu irmão me dava,
pensava só em jogar futebol de salão e contava nos dias
a hora de entrar para o Exercito.
Então o belo dia chegou e com ele o choque, a vida me ensinou
que a realidade é bem diferente do que se imagina, principalmente
para os displicentes e despreparados.
Consegui entrar para o Exercito, em 1996 fui para Brasília
DF fazer parte da Guarda Presidencial, 5° Cia de Choque, e obviamente
que aquele jovem que havia negligenciado seus estudos, não
tinha espaço nenhum de destaque no Exército, passava-se
tempo todo em exercícios pesados de puro esforço físico,
onde reinavam pura violência ou o preparo para ela, ainda que
em tempo de paz, vi o que a ignorância é capaz de fazer,
pessoas sem preparo psicológico nenhum, verdadeiros meninos,
pois a maioria tinha apenas dezoito anos, longe das rédeas
de seus pais se entregavam a todo tipo de balburdia, ações
coléricas, brigas nas ruas da cidade, noites de pura farra
e embriagues. Mesmo ciente de que foi um erro pensar que essa era
a maneira certa de entrar para o Exército, totalmente despreparado
do ponto de vista acadêmico, pois muito diferente é a
realidade daquele que entra com uma formação, aprendi
coisas boas, companheirismo entre esses jovens que igualmente viveram
todo aquele ápice de ignorância e amor a essa pátria
tão maltratada e esquecida. Compreendendo que usara a porta
de entrada errada é que resolvi sair, porém ainda não
havia entendido tudo e a vida me reservava choques maiores do que
havia presenciado.
Voltei para minha cidade, Jacarezinho no interior do Paraná,
meu irmão já era um oficial de justiça federal
em Curitiba, e continuava sua saga de esclarecer a ignorância
de seu irmão mais novo.
Eu mudei apenas um pouco o foco, passei a querer entrar para Policia
Militar e ignorando os pedidos de meu irmão para entrar em
uma faculdade, focava meus estudos no concurso para PM. Os anos se
passaram e os concursos minguaram na administração do
governador Jaime Lerner, passei anos em uma vida de boêmio,
estudava só para concurso e me esbaldava em festas e bares
das cidades da região, muitas foram as vezes que meu irmão
tentou intervir, pagando cursinhos preparatórios para vestibulares
e concursos, inscrições para concursos, viagens para
os mesmos, sempre enfatizando o dever que eu deveria ter para comigo
mesmo em buscar conhecimento nos estudos. Por muito tempo me mantive
nessa mesma conduta, estudava, porém sem maiores pretensões
seja para adquirir conhecimento ou o que fosse.
Como os anos passavam e o concurso que eu esperava não saia,
então resolvi fazer outro curso profissionalizante, e gostei
do curso, me dediquei muito, fiz o curso com ótimo aproveitamento,
busquei conhecimento nas aulas e fora dela, consegui dois ótimos
estágios, um na Ducke Energi uma empresa americana de geração
de energia elétrica, e outro na Usina de açúcar
de Jacarezinho, onde aprendi sobre caldeiras. Durante esse tempo em
que eu fazia dois estágios ficava a semana toda na cidade de
Ourinhos, em SP, e o fim de semana em Jacarezinho, nessa época
eu pude ver meu irmão ter um pingo de satisfação,
via que ele gostava de me ver caminhando daquela forma.
Passei a realizar concursos para Técnico em Segurança
do Trabalho, minha nova profissão, tinha um ótimo conhecimento
teórico, assim passei em vários concursos, fiquei em
21° para COPEL, e em 1° para Petrobras, podia notar satisfação
de meu irmão. Assumi então a vaga na Petrobras e fui
para um curso na cidade do Rio de Janeiro. Nessa cidade em visita
a uma livraria Saraiva, peguei paixão pelos livros, essa livraria
no Rio tinha um espaço espetacular, um lugar muito agradável,
onde você podia ler e tomar café de graça. Foi
lá que li meu primeiro livro de Leon Denis. Comecei a tomar
um gosto por aprender e assim resolvi fazer a faculdade de Contábeis,
pois eu já tinha um curso técnico na área, minha
antiga paixão era história, mas eu não tinha
ainda vontade de dar aulas.
Veio então à maior provação de minha vida,
em meio a toda essa transformação e despertar para o
que realmente importava, meu irmão descobriu que tinha leucemia.
Eu estive com ele no hospital em Curitiba e pude ver o seu alivio
em saber que eu estava no caminho dos estudos, ele dizia que sabia
que tudo ia acabar bem, estava feliz de ver minha conduta. Eu tinha
dentro de mim uma verdadeira batalha, pensava o que adiantou tanta
luta por parte dele para vencer a miséria que muitas vezes
conhecemos de perto e agora estar ali prestes a ser destruído
por uma doença.
Essa luta teve fim no ano de 2007, meu irmão com 33 anos partiu,
deixando em mim a impressão de que sua missão era me
salvar da ignorância, ao ver meu despertar ele se foi.
E eu fiquei aqui completamente desolado, sem compreensão e
sem capacidade para entender o que tudo aquilo significava, conheci
de perto a palavra tristeza e me entreguei ao desanimo, trabalhar
e estudar para que, para no melhor momento de sua carreira encontrar
a morte.
Mas a semente do conhecimento e o prazer da literatura já haviam
sido plantados em minha vida, o que eu queria era com certeza seguir
os passos de meu herói, que dedicara sua vida totalmente aos
estudos, eu queria fazer a diferença na vida das pessoas assim
como ele fez na minha.
Para superar tal perda e acalmar meu coração me entreguei
à literatura da filosofia de Kardec
Amai-vos, eis o primeiro ensinamento;
instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram
no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem
humana; e eis que, de além túmulo, que acreditáveis
vazios, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo
é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!
(Allan Kardec, 1857)
Para recuperar o tempo perdido em uma vida vazia, antes mesmo de terminar
a faculdade de Contábeis comecei a de História, minha
paixão, dando treinamento de Segurança do Trabalho peguei
gosto pela sala de aula. Coordenei estagiários nessa área
de segmento, já como servidor da prefeitura de Curitiba. A
literatura de História me apresentou homens como Dom Pedro
II, apaixonado pela ciências e filosofia, General Osório,
Napoleão revolucionário e transformador de seu tempo,
o que dizer de homens como Benjamim Franklin, Voltaire, Hobbes, Salomão.
Tomei gosto pelos estudos, e comecei a ter sede de sabedoria, claro
sem esquecer o quanto primórdio ainda sou, e que não
sou nem um grão de areia nesse mundo, não tenho pretensão
nenhuma de sequer chegar aos pés de meu irmão, que dedicou
aos estudos toda sua vida. Meu pensamento é somente poder levar
a pessoas equivocadas como eu a informação de que podes
muito mais do que simplesmente viver momentos banais. E para isso
busco estudos e aprimoramento nas oportunidades que me aparecem as
quais tento abraçar.
A vida é feita de tristezas e felicidades, há sempre
a hora de sorrir depois de muito chorar, assim que apaziguei meu coração,
eu encontrei aquele que é hoje o maior prazer de minha vida,
no ano de 2013 nasceu meu filho Miguel, peço a Deus que eu
consiga passar para ele o gosto pela sabedoria.
Essa é minha história com a educação profissional,
passei por dois cursos profissionalizantes antes de me dedicar às
faculdades e demais cursos que hoje possuo; a educação
profissional esta longe de ser apenas instrumento para tirar meninos
do desemprego, como muitos intelectuais dizem. Para mim ela abriu
portas e ajudou a despertar interesse pelos estudos. Minha relação
com a educação profissional é antiga, eu aproveitei
o que ela me proporcionou, e com esses frutos procuro hoje galgar
outros voos, não pretendo me afastar dos estudos mais, já
estou para iniciar outra graduação em Filosofia e esta
experiência no IFPR tem me ajudado a crescer com certeza. Rogo
que todo membro de nossa sociedade desperte para o bem que o aprimoramento
não só intelectual quanto moral diante dos estudos das
ciências e da filosofia como todo, pode trazer a nosso país,
pois com esse avanço o Brasil vai conseguir sair do momento
de violência que vive hoje, vítima de seus próprios
filhos, a pátria mãe agoniza. Que venha à nossa
terra mais homens como Pedro de Alcântara, Rui Barbosa, Joaquim
Nabuco, Benjamin Constant e Leandro Malaghini.
Como nos ensina o mestre Leon Denis “Instruamos a juventude,
esclareçamos sua inteligência, mas, antes de tudo, falemos
ao seu coração, ensinemos-lhe a despojar-se das suas
imperfeições. Lembremo-nos de que a sabedoria por excelência
consiste em nos tornarmos melhores” (Léon
Denis -1927).