INTRODUÇÃO
O objetivo geral deste artigo é
apresentar e, conceitualmente, clarificar uma epistemologia, que
julgamos estar presente no pensamento de Allan Kardec.
(...)
EPISTEMOLOGIA
EM ALLAN KARDEC
A metodologia de pesquisa de Kardec é ampla e variada e,
ele mesmo, a descrevia detalhadamente, posto que ele queria que
os seus leitores acompanhassem seus passos e as deduções
de todo o processo. Segundo ele, a crença em espíritos
só aconteceu após o descarte rigoroso das hipóteses
da fraude, das ações involuntárias, do magnetismo
e do poder da mente. Ou seja: quando todas as opções
do paradigma vigente teriam se esgotado. A existência de um
pensamento epistemológico na Doutrina repousa no fato de
que ele também fez questão de, cuidadosamente, teorizar
sobre as suas descobertas e metodologias, fato que não é
nada óbvio. Ele poderia, simplesmente, ter descrito os fenômenos
e organizado as perguntas.
Kardec apresentou perspectivas muito abrangentes, tanto em termos
teóricos como metodológicos. A escrita de Kardec procurava
ser clara e precisa, ao mesmo tempo em que adotava rigor conceitual.
De fato, ele informava quando suas conclusões eram provisórias
ou, simplesmente, mudava de ideia em face de novas pesquisas. Quanto
aos médiuns, ele analisava a formação educacional,
o caráter ou alguma possível exploração
financeira dos fenômenos. Ele fazia cuidadosas pesquisas de
campo e, criticamente, coletava informações e depoimentos.
Por fim, Allan Kardec, enquanto criava a Doutrina, procurava utilizar
a melhor bibliografia e cotejar as informações, que
julgava serem dadas por desencarnados, com as melhores pesquisas
científicas disponíveis. Todavia, tudo isto ainda
faz parte daquilo que sustentamos, ser o que T. Kuhn chamaria de
“Ciência Normal”, ou seja, seriam metodologias
de pesquisa e escrita já consagradas nos labores acadêmicos.
Allan Kardec ainda vai elaborar teorias e métodos inéditos
em face de algo que, para ele, seria incontornável: a confirmação
de que existem espíritos. Isso seria, para nós, produzir
o que Kuhn chamaria de “ciência revolucionária”.
O melhor exemplo disso é provavelmente O Livro dos Médiuns,
que, em suma, não deixa de ser um manual detalhado de novas
teorias e métodos acerca de como bem estabelecer um diálogo
produtivo e seguro com os espíritos.
(...)
Em Kardec, era muito importante,
mas não absolutamente suficiente, que o Espiritismo tivesse
objetos de estudos determinados e métodos experimentais rigorosos,
caso almejasse se tornar uma Ciência. Com efeito, em vários
momentos cruciais, a Doutrina Espírita é apresentada
como algo que pertence ao futuro da humanidade. Um futuro no qual
o seu processo de cientificização se completaria com
uma triunfal e inevitável entrada nas Universidades.
(...)
Isso é tão epistemologicamente
relevante que, após se convencer da existência de seres
extracorpóreos, uma das metas prementes de Kardec seria estabelecer
novos protocolos, teorias e instrumentais que dariam segurança
e aperfeiçoariam a comunicação entre os dois
planos da existência. Ele escreve, então: O Livro
dos Médiuns e espera confiante — além de,
metodologicamente inovador — que a Doutrina Espírita
se torne, como diria Kuhn um século depois, paradigmática.
Talvez, neste ponto, ele quase tivesse utilizado a palavra “paradigma”.
(...)
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Para além dos milhões
de adeptos declarados da Doutrina, o legado epistemológico
do discípulo de Pestalozzi consiste em uma série de
grandes inovações teórico-metodológicas
as quais, inevitavelmente, apontam para a necessidade do fim do
atual materialismo.
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