Os fluidos espirituais representam
um importante papel em todos os fenômenos espíritas,
ou melhor, são o princípio mesmo desses fenômenos.
Até agora se estava limitado a dizer que tal efeito é
o resultado de uma ação fluídica, mas esse dado
geral, suficiente no início, não o é mais quando
se quer investigar os detalhes. Sabiamente os Espíritos limitaram
seu ensinamento no princípio. Mais tarde, chamaram a atenção
para a grave questão dos fluidos, e não foi num centro
único que a abordaram: foi mais ou menos em todos.
Mas os Espíritos não nos vem trazer esta ciência,
como nenhuma outra, já pronta: eles nos põem no caminho,
fornecem-nos os materiais e a nós cabe estudá-los, observá-los,
analisá-los, coordená-los e os pôr em obra. Foi
o que fizeram para a constituição da doutrina e agiram
assim em relação aos fluidos. Em milhares de lugares
diversos e do nosso conhecimento, esboçaram o seu estudo. Em
toda parte encontramos alguns fatos, algumas explicações,
uma teoria parcial, uma idéia, mas em parte alguma um completo
trabalho de conjunto. Por que isto? Impossibilidade da parte deles?
Certo que não, porque o que teriam podido fazer como homens,
com mais forte razão podê-lo-ão como Espíritos.
Mas, como dissemos, é que por coisa alguma eles vem libertar-nos
do trabalho da inteligência, sem o qual as nossas forças,
ficando inativas, estiolar-se-iam, porque acharíamos mais cômodo
que eles trabalhassem por nós.
Assim, o trabalho foi deixado ao homem, mas a sua inteligência,
a sua vida, o seu tempo sendo limitados, a nenhum é dado elaborar
tudo o que é necessário para a constituição
de uma ciência. Eis porque não há uma só
que, em todas as suas peças seja obra de um só homem;
nenhuma descoberta que o seu primeiro inventor tenha levado à
perfeição. A cada edifício intelectual vários
homens e diversas gerações trouxeram seu contingente
de pesquisas e de observações.
Assim também com a questão que nos ocupa, cujas diversas
partes foram tratadas separadamente, depois coligidas num corpo metódico,
quando puderam ser reunidos materiais suficientes. Esta parte da ciência
espírita mostra, desde já, que não é uma
concepção individual sistemática, de um homem
ou de um Espírito, mas o produto de observações
múltiplas, que tiram sua autoridade da concordância entre
elas existente.
Pelo motivo que acabamos de exprimir, não poderíamos
pretender que esta seja a última palavra. Como temos dito,
os Espíritos graduam os seus ensinos e os proporcionam à
soma e à maturidade das idéias adquiridas. Não
se poderia, pois, duvidar que, mais tarde, elas pusessem novas observações
sobre a via. Mas desde agora há elementos suficientes para
formar um corpo que, ulteriormente e gradualmente, será completado.
O encadeamento dos fatos nos
obriga a tomar nosso ponto de partida de mais alto, a fim de proceder
do conhecido para o desconhecido.
II
Tudo se liga na obra da criação.
Outrora consideravam-se os três reinos como inteiramente independentes
entre si e teriam rido de quem pretendesse encontrar uma correlação
entre o mineral e o vegetal, entre o vegetal e o animal. Urna observação
atenta fez desaparecer a solução de continuidade, e
provou que todos os corpos formam uma cadeia ininterrupta. De tal
sorte que os três reinos não subsistem, na realidade,
senão pelos caracteres gerais mais marcados. Mas nos seus limites
respectivos eles se confundem, a ponto de se hesitar em saber onde
um termina e o outro começa, e em qual certos seres devem ser
colocados. Tais são, por exemplo, os zoofitas, ou animais plantas,
assim chamados porque tem, ao mesmo tempo de animal e de planta.
O mesmo acontece no que concerne à composição
dos corpos. Durante muito tempo os quatro elementos serviram de base
às ciências naturais: caíram ante as descobertas
da química moderna, que reconheceu um número indeterminado
de corpos simples. A química nos mostra todos os corpos da
natureza formados desse elementos combinados em diversas proporções.
É da infinita variedade dessas proporções que
nascem as inumeráveis propriedades dos diferentes corpos. É
assim, por exemplo, que uma molécula de gás oxigênio
e duas de gás hidrogênio, combinadas, formam água.
Na sua transformação em água, o oxigênio
e o hidrogênio perdem suas qualidades próprias. A bem
dizer, não há mais oxigênio, nem hidrogênio,
mas água. Decompondo a água, encontram-se novamente
os dois gases, nas mesmas proporções. Se, em lugar de
uma molécula de oxigênio, houver duas, isto é,
duas de cada gás, não será mais água,
mas um líquido muito corrosivo. Bastou, pois, uma simples mudança
na proporção de um dos elementos para transformar uma
substância salutar em outra venenosa.
Por uma operação inversa, se os elementos de uma substância
deletéria, como, por exemplo, o arsênico, forem simplesmente
combinados em outras proporções, sem adição
ou subtração de nenhuma outra substância, ela
tornar-se-á inofensiva, ou mesmo salutar. Há mais: várias
moléculas reunidas de um mesmo elemento, gozarão de
propriedades diferentes, conforme o modo de agregação
e as condições do meio onde se encontram. A ozona,
recentemente descoberta no ar atmosférico, é um exemplo.
Reconheceu-se que essa substância não passa de oxigênio,
um dos principais constituintes do ar, num estado particular, que
lhe dá propriedades distintas das do oxigênio propriamente
dito. O ar não deixa de ser formado de oxigênio e de
azoto, mas suas qualidades variam conforme contenha maior ou menor
quantidade de oxigênio no estado de ozona.
Estas observações, que parecem estranhas ao nosso assunto,
não obstante a ele se ligam de maneira direta, como se verá
mais tarde. Elas são, além disso, essenciais como pontos
de comparação.
Essas composições e decomposições se obtêm
artificialmente e em pequenas doses nos laboratórios, mas se
operam em grande e espontaneamente no grande laboratório da
natureza. Sob a influência do calor, da luz, da eletricidade,
da humanidade, um corpo se decompõe, seus elementos se separam,
outras combinações se operam e novos corpos se formam.
Assim, a mesma molécula de oxigênio, por exemplo, que
faz parte do nosso corpo, após a destruição deste,
entra na composição de um mineral, de uma planta, ou
de um corpo animado. Em nosso corpo atual acham-se, pois, as mesmas
parcelas de matéria, que foram partes constituintes de uma
multidão de outros corpos.
Citemos um exemplo para tornar a coisa mais clara.
Um pequeno grão é
posto na terra, nasce, cresce e torna-se uma grande árvore
que, anualmente, dá folhas, flores e frutos. Quer dizer que
a árvore se achava inteirinha no grão? Certamente que
não, porque ela contém uma quantidade de matéria
muito mais considerável. Então de onde lhe veio essa
matéria? Dos líquidos, dos sais, dos gases que a planta
tirou da terra e do ar, que infiltraram em sua haste e, pouco a pouco,
alimentaram o volume. Mas nem na terra nem no ar encontram-se madeira,
folhas, flores e frutos. É que esses mesmos líquidos,
sais e gases, no ato de absorção, se decompuseram, seus
elementos sofreram novas combinações, que os transformaram
em seiva, lenho, casca, folhas, flores, frutos, essências voláteis,
etc. Estas mesmas partes, por sua vez, vão destruir-se, decompor-se,
seus elementos, misturar-se de novo na terra e no ar; recompor as
substâncias necessárias à frutificação,
ser reabsorvidos, decompostos e, mais uma vez, transformados em seiva,
lenho, casca, etc.
Numa palavra, a matéria não sofre aumento nem diminuição.
Transforma-se e, por força dessas transformações
sucessivas, a proporção das diversas substâncias
é sempre em quantidade suficiente para as necessidades da natureza.
Suponhamos, por exemplo, que uma dada quantidade de água seja
decomposta, no fenômeno da vegetação, para fornecer
o oxigênio e o hidrogênio necessários á
formação das diversas partes da planta; é uma
quantidade de água que existe a menos na massa; mas essas partes
da planta, quando de sua decomposição, vão tornar
livres o oxigênio e o hidrogênio que elas encerravam,
e esses gases, combinando-se entre si, vão formar uma nova
quantidade de água equivalente à que havia desaparecido.
Um fato que é oportuno assinalar aqui, é que o homem,
que pode operar artificialmente as composições e decomposições
que se operam espontaneamente na natureza, é impotente para
reconstituir o menor corpo organizado, ainda que fosse uma palha de
erva ou uma folha morta. Depois de ter decomposto um mineral, pode
recompô-lo em todas as suas peças, como era antes. Mas
quando separou os elementos de uma parcela de matéria vegetal
ou animal, não pode reconstituí-la e, com mais forte
razão, dar-lhe a vida. Seu poder pára na matéria
inerte: o princípio de vida está na mão de Deus.
A maioria dos corpos simples são chamados ponderáveis,
porque é possível achar o seu peso, e este está
na razão da soma de moléculas contidas num dado volume.
Outros são ditos imponderáveis, porque para nós
não tem peso e, seja qual for a quantidade em que se acumulem
num outro corpo, não aumentam o peso deste. Tais são:
o calórico, a luz, a eletricidade, o fluido magnético
ou do ímã. Este último não passa de uma
variedade da eletricidade. Posto que imponderáveis, nem por
isto esses fluidos deixam de ter um grande poder. O calórico
divide os corpos mais duros, os reduz a vapor, dá aos líquidos
evaporados uma irresistível força de expansão.
O choque elétrico quebra árvores e pedras, curva barras
de ferro, funde os metais, atira longe enormes massas. O magnetismo
dá ao ferro um poder de atração capaz de sustentar
pesos consideráveis. A luz não possui esse gênero
de força, mas exerce uma ação química
sobre a maioria dos corpos, e sob sua influência operam-se incessantemente
composições e decomposições. Sem a luz
os vegetais e os animais se estiolam, os frutos não têm
sabor nem colorido.
III
Todos os corpos da natureza, minerais, vegetais,
animais, animados ou inanimados, sólidos, líquidos ou
gasosos, são formados dos mesmos elementos, combinados de maneira
a produzir a infinita variedade dos diferentes corpos. Hoje a Ciência
vai mais longe. Suas investigações pouco a pouco a conduzem
à grande lei da unidade. Agora é geralmente admitido
que os corpos reputados simples não passam de modificações,
de transformações de um elemento único, princípio
universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico
ou fluido universal. De tal sorte que, segundo o modo de agregação
das moléculas desse fluido, e sob a influência de circunstâncias
particulares, adquire propriedades especiais, que constituem os corpos
simples.
Estes, combinados entre si em diversas proporções, formam,
como dissemos, a inumerável variedade de corpos compostos.
Segundo esta opinião, o calórico, a luz, a eletricidade
e o magnetismo não passariam de modificações
do fluido primitivo universal. Assim esse fluido que, segundo toda
probabilidade, é imponderável seria ao mesmo tempo o
princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis.
A química nos faz penetrar na constituição íntima
dos corpos, mas, experimentalmente, não vai além dos
corpos considerados simples. Seus meios de análise são
impotentes para isolar o elemento primitivo e determinar a sua essência.
Ora, entre esse elemento em sua pureza absoluta e o ponto onde pára
as investigações da Ciência, o intervalo é
imenso. Raciocinando por analogia, chega-se a esta conclusão
que entre esse dois pontos extremos, esse fluido deve sofrer modificações
que escapam aos nossos instrumentos e aos nossos sentidos materiais.
É nesse campo novo, até aqui fechado à exploração,
que vamos tentar penetrar.
IV
Até este dia, não se tinham senão idéias
muito incompletas sobre o mundo espiritual ou invisível; imaginavam-se
os Espíritos como seres fora da Humanidade; os anjos eram também
criaturas à parte, de uma natureza mais perfeita. Quanto ao
estado das almas depois da morte, os conhecimentos não eram
quase nada mais positivos. A opinião mais geral deles fazia
seres abstratos, dispersos na imensidão, e não tendo
mais relações com os vivos, a não ser que estivessem,
segundo a doutrina da Igreja, nas beatitudes do céu ou nas
trevas do inferno. Além disto, as observações
da ciência, detendo-se na matéria tangível, disto
resulta, entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual, um abismo
que parecia excluir toda aproximação. É este
abismo que as novas observações e o estudo de fenômenos
ainda pouco conhecidos vêm preencher, pelo menos em parte.
O Espiritismo nos ensina primeiro que os Espíritos são
as almas dos homens que viveram sobre a Terra; que eles progridem
sem cessar, e que os anjos são essas mesmas almas ou Espíritos
chegados a um estado de perfeição que os aproxima da
Divindade.
Em segundo lugar, nos ensina que as almas passam alternativamente
do estado de encarnação ao de erraticidade; que neste
último estado elas constituem a população invisível
do globo, ao qual permanecem ligadas até que tenham nele adquirido
o desenvolvi- mento intelectual e moral que comporte a natureza desse
globo, depois do que elas o deixam para passar a um mundo mais avançado.
Pela morte do corpo, a Humanidade corpórea fornece almas, ou
Espíritos, ao mundo espiritual; pelo nascimento, o mundo espiritual
alimenta o mundo corpóreo; há, pois, transmutação
ou derramamento incessante de um no outro. Esta relação
constante os torna solidários, porque são os mesmos
seres que entram em nosso mundo e que dele saem alternativamente.
Está aí um primeiro traço de união, um
ponto de contato que já diminui a distância que parecia
separar o mundo visível do mundo invisível.
A natureza íntima da alma, quer dizer, do princípio
inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas
investigações; mas sabe-se agora que a alma está
revestida de um envoltório, ou corpo fluídico, que dela
faz, depois da morte do corpo material, como antes, um ser distinto,
circunscrito e individual. A alma é o princípio inteligente
considerado isoladamente; é a força atuante e pensante
que não podemos conceber isolada da matéria senão
como uma abstração. Revestida de seu envoltório
fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado
Espírito, como quando ela está revestida do
envoltório corpóreo, constitui o homem; ora, se bem
que no estado de Espírito ela goze de propriedades e de faculdades
especiais, não deixa de pertencer à Humanidade. Os Espíritos
são, pois, seres semelhantes a nós, uma vez que cada
um de nós se torna Espírito depois da morte de seu corpo,
e que cada Espírito se torna de novo homem pelo nascimento.
(*)
Esse envoltório não é a alma, porque
ele não pensa; não é senão uma veste;
sem a alma, o perispírito, do mesmo modo que o corpo, é
uma matéria inerte privada de vida e de sensações.
Dizemos matéria, porque, com efeito, o perispírito,
embora de natureza etérea e sutil, por isto não é
menos a matéria tanto quanto os fluidos imponderáveis,
e, além disto, matéria da mesma natureza e da mesma
origem que a matéria tangível mais grosseira, assim
como o veremos dentro em pouco.
A alma não reveste unicamente o perispírito no estado
de Espírito; ela é inseparável desse envoltório,
que a segue na encarnação, como na erraticidade. Na
encarnação, é o laço que a une ao envoltório
corpóreo, um intermediário com a ajuda do qual ela atua
sobre os órgãos e percebe as sensações
das coisas exteriores. Durante a vida, o fluido perispiritual se identifica
com o corpo, do qual penetra todas as partes; na morte, dele se liberta;
o corpo privado de sua vida se dissolve, mas o perispírito,
sempre unido à alma, quer dizer, ao princípio vivificante,
não perece; unicamente a alma, em lugar de dois envoltórios,
não conserva deles senão um: o mais leve, aquele que
está mais em harmonia com o seu estado espiritual.
Embora esses princípios sejam elementares para os Espíritas,
é útil lembrá-los para a compreensão das
explicações subseqüentes e a conexão das
idéias.
V
Algumas pessoas contestaram a utilidade do envoltório perispiritual
da alma, e, conseqüentemente, a sua existência. A alma,
dizem elas, não tem necessidade de intermediário para
agir sobre o corpo; e, uma vez separada do corpo, é um acessório
supérfluo.
A isto respondemos primeiro que o perispírito não é
uma criação imaginária, uma hipótese inventada
para chegar a uma solução; sua existência é
um fato constatado pela observação. Quanto à
sua utilidade, seja durante a vida, seja depois da morte, é
preciso admitir que, uma vez que existe, é que serve para alguma
coisa. Aqueles que contestam a sua utilidade são como um indivíduo
que, não compreendendo as funções de certas engrenagens
de um mecanismo, disto concluem que não servem senão
para complicar a máquina sem necessidade. Não vê
que se a menor peça for suprimida, tudo será desorganizado.
Que as coisas, no grande mecanismo da Natureza, parecem inúteis
aos olhos do ignorante, e mesmo de certos sábios, que crêem
de boa fé que se tivessem sido en- carregados da construção
do Universo, o teriam feito muito melhor!
O perispírito é uma dessas engrenagens mais importantes
da economia; a ciência o observou em alguns de seus efeitos,
e, alternativamente, designou-o sob os nomes de fluido vital, fluido
ou influxo nervoso, fluido magnético, eletricidade animal,
sem se dar conta precisa de sua natureza e de suas propriedades, e
ainda menos de sua origem. Como envoltório do Espírito
depois da morte, foi suspeitado desde a mais alta antigüidade.
Todas as teogonias atribuem aos seres do mundo invisível um
corpo fluídico. São Paulo disse em termos precisos que
nós renascemos com um corpo espiritual (C\s ep. aos Corintos,
cap. XV, V, de 35 a 44 e 50).
Ocorre o mesmo com todas as grandes verdades fundadas sobre as leis
da Natureza, e das quais, em todas as épocas, os homens de
gênio tiveram intuição. É assim que, desde
antes de nossa era, os sábios filósofos supuseram a
redondeza da Terra e seu movimento de rotação, o que
nada tira ao mérito de Copérnico e de Galileu, supondo
mesmo que estes últimos tenham se aproveitado das idéias
precedentes. Graças aos seus trabalhos, o que não era
senão uma opinião individual, uma teoria incompleta
e sem prova, desconhecida das massas, tornou-se uma verdade
científica, prática e popular.
A doutrina do perispírito está no mesmo caso; o Espiritismo
não foi o primeiro a descobri-la; mas, do mesmo modo que Copérnico
para o movimento da Terra, ele a estudou, demonstrou, analisou, definiu,
e dela tirou fecundos resultados. Sem os estudos modernos mais completos,
essa grande verdade, como muitas outras, estaria ainda no estado de
letra morta.
VI
O perispírito é o traço de união que liga
o mundo espiritual ao mundo corpóreo. O Espiritismo no-los
mostra em relação tão íntima e tão
constante que de um a outro a transição é quase
insensível; ora, do mesmo modo que, na Natureza, o reino vegetal
se liga ao reino animal por seres semi-vegetais e semi-animais,
o estado corpóreo se liga ao estado espiritual não só
pelo princípio inteligente, que é o mesmo, mas ainda
pelo envoltório fluídico, ao mesmo tempo semi-material
e semi-espiritual, desse mesmo princípio. Durante a vida
terrestre, o ser corpóreo e o ser espiritual se confundem e
agem de acordo; a morte do corpo não faz senão separá-los.
A ligação desses dois estados é tal, e reagem
um sobre o outro com tanta força, que dia virá em que
se o reconhecerá que o estudo da história natural do
homem não poderia ser completo sem o estudo do envoltório
perispiritual, quer dizer, sem colocar um pé no domínio
do mundo invisível.
Esta aproximação é ainda maior quando se observa
a origem, a natureza, a formação e as propriedades do
perispírito, observação que decorre naturalmente
do estudo dos fluidos.
VII
É reconhecido que todas as matérias animais têm
por princípios constituintes o oxigênio, o hidrogênio,
o azoto e o carbono, combinados em diferentes proporções.
Ora, como dissemos, esses corpos simples têm, eles mesmos, um
princípio único, que é o fluido cósmico
universal; por suas diversas combinações formam todas
as variedades de substâncias que compõem o corpo humano,
o único do qual falamos aqui, embora o seja do mesmo modo com
respeito aos animais e às plantas. Disto resulta que o corpo
humano não é, na realidade, senão uma espécie
de concentração, de condensação ou, querendo-se,
de solidificação do fluido universal, como o diamante
é uma solidificação do gás carbônico.
Com efeito, suponhamos a desagregação completa de todas
as moléculas do corpo, reencontraremos o oxigênio, o
hidrogênio, o azoto e o carbono, em outros termos, o corpo será
volatizado. Estes quatro elementos levados ao seu estado primitivo
por uma nova e mais completa decomposição, se os nossos
meios de análise o permitissem, dariam o fluido cósmico.
Este fluido, sendo o princípio de toda matéria, é
matéria em si mesmo, se bem que num estado completo de eterização.
Um fenômeno análogo se passa na formação
do corpo fluídico, ou perispírito: é igualmente
uma condensação do fluido cósmico em redor do
foco de inteligência, ou alma. Mas aqui a transformação
molecular se opera diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade
e suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo
humano têm, pois, sua fonte no mesmo fluido; um e o outro são
da matéria, embora sob dois estados diferentes. Tivemos, pois,
razão em dizer que o perispírito é da mesma natureza
e da mesma origem da matéria mais grosseira. Não há,
como se vê, nada de sobrenatural, uma vez que se liga por seu
princípio às coisas da Natureza, da qual não
é senão uma variedade.
O fluido universal sendo o princípio de todos os corpos da
Natureza, animados e inanimados, e, conseqüentemente, da terra,
das pedras, estando Moisés na verdade quando disse: "Deus
forma o corpo do homem do limo da terra." O que não quer
dizer que Deus tome da terra, a modele e dela faça o corpo
do homem, como se faz uma estátua com a terra argilosa, assim
como acreditavam aqueles que tomaram as palavras bíblicas pela
letra, mas que o corpo era formado dos mesmos princípios ou
elementos que o limo da terra, ou que tinham servido para formar o
limo da terra.
Moisés acrescenta: "E lhe deu uma alma viva,
feita à sua semelhança." Ele fez as- sim
uma distinção entre a alma e o corpo; indica que ela
é de uma natureza diferente, que não é matéria,
mas espiritual e imaterial como Deus. Ele disse: uma alma viva,
para especificar que só ela é o princípio da
vida, ao passo que o corpo, formado de matéria, não
vive por si mesmo. Estas palavras: à sua semelhança,
implicam em uma similitude e não uma identidade.
Se Moisés tivesse considerado a alma como uma porção
da Divindade, teria dito: Deus o anima dando-lhe uma alma tirada de
sua própria substância, como disse que o corpo fora tirado
da terra.
Estas reflexões são uma resposta às pessoas que
acusam o Espiritismo de materializar a alma, porque lhe dá
um envoltório semi-material.
VIII
No estado normal, o perispírito é invisível para
nossos olhos, e impalpável para nosso toque, como
o são uma infinidade de fluidos e de gases. No entanto, a invisibilidade,
a impalpabilidade, e mesmo a imponderabilidade do fluido perispiritual
não são absolutas; foi porque dissemos no estado
normal. Ele sofre em certos casos, seja talvez uma condensação
maior, seja uma modificação molecular de natureza especial
que o torna momentaneamente visível ou tangível: é
assim que se produzem as aparições. Sem que haja aparição,
muitas pessoas sentem a impressão fluídica dos Espíritos
pela sensação do toque, o que é o indício
de uma natureza material.
De qualquer maneira que se opere a modificação atômica
do fluido, não há coesão como nos corpos materiais;
a aparência se forma instantaneamente e se dissipa do mesmo
modo, o que explica as aparições e os desaparecimentos
súbitos. Sendo as aparições o produto de um fluido
material invisível, torna-se invisível em conseqüência
de uma mu- dança momentânea em sua constituição
molecular, não são mais sobrenaturais do que os vapores
tornados alternativamente visíveis ou invisíveis pela
condensação ou pela rarefação. Citamos
o vapor como ponto de comparação sem pretender que haja
semelhança de causa e de efeito.
IX
Algumas pessoas criticaram a qualificação de semi-material,
dada ao perispírito, dizendo que uma coisa é ou não
é matéria. Admitindo que a expressão seja imprópria
seria preciso tomá-la na ausência de um termo especial
para exprimir este estado particular da matéria. Se dele existe
um mais apropriado à coisa, os críticos deveriam indicá-lo.
O perispírito é matéria, assim como acabamos
de ver, filosoficamente falando e por sua essência íntima;
ninguém poderia contestá-la; mas ela não tem
as propriedades da matéria tangível, tal como é
concebida vulgarmente; não pode ser submetida à análise
química; porque, se bem que tenha o mesmo princípio
que a carne e o mármore, e que possa deles tomar as aparências,
não é, em realidade nem da carne nem do mármore.
Por sua natureza etérea liga-se ao mesmo tempo à materialidade
por sua substância e à espiritualidade pela impalpabilidade,
e a palavra semi-material não é mais ridícula
do que aquela de semi-dupla, e tantas outras porque pode-se
dizer também que uma coisa é ou não é.
X
O fluido cósmico, enquanto princípio elementar universal,
oferece dois estados distintos: o de eterização ou de
imponderabilidade, que pode-se considerar como o estado normal primitivo,
e o de materialização ou de ponderabilidade, que dele
não é, de alguma sorte, senão consecutivo. O
ponto intermediário é o da transformação
do fluido em matéria tangível; mas aí, ainda,
não há transição brusca, porque pode-se
considerar nossos fluidos imponderáveis como termo médio
entre os dois estados.
Cada um desses dois estados, necessariamente, dá lugar a fenômenos
especiais; ao segundo pertencem aqueles do mundo visível, e
ao primeiro os do mundo invisível. Uns, chamados fenômenos
materiais, são da alçada da ciência propriamente
dita; os outros, qualificados de fenômenos espirituais,
porque se ligam à existência dos Espíritos, estão
nas atribuições do Espiritismo; mas têm entre
si tão numerosos pontos de contato, que servem para se esclarecer
mutuamente, e que, como dissemos, o estudo de uns não poderia
estar completo sem o estudo dos outros.
É a explicação destes últimos que conduz
o estudo dos fluidos dos quais faremos, ulteriormente, o assunto de
um trabalho especial.