"Quando eu precisar, eu
me mudo para um residencial geriátrico. Não quero
dar trabalho para meus filhos, não quero morar com nenhum
deles."
Esta frase, dita por alguns idosos,
já reflete uma mudança no processo de envelhecimento
da população gaúcha.
Normalmente, o idoso espera demais para pensar sobre opções
de moradia e fazer escolhas, até ser derrubado por uma situação
traumática (viuvez, doença grave, acidente). Nestas
circunstâncias, o poder de decisão acaba sendo delegado
aos familiares. E crescem as dúvidas sobre o que fazer depois.
Quanto maior a crise, maior a angústia para decidir se o idoso
permanecerá em sua casa ou se irá para uma casa geriátrica.
O peso da culpa por abandonar um ente querido, associado à
imagem dos "depósitos de velhos", pode determinar
a escolha apressada de mantê-lo em casa. Mas a análise
desta situação é mais complexa e merece um outro
olhar.
Nossa tradição, de origem latina, ensina que cuidar
dos anciãos é tarefa exclusiva da família, ou
melhor, das mulheres da família. Porém, o mundo se transformou,
especialmente nos últimos 50 anos. Muitas das soluções
que funcionavam em 1957 são inviáveis em 2007.
O sentimento de obrigação em preservar modelos antigos
pode sobrecarregar filhos e netos, prejudicando inclusive a relação
com o familiar idoso. A expectativa de maior longevidade, o papel
feminino na sociedade, a maneira flexível de criar e manter
casamentos, a competitividade no mercado de trabalho e as exigências
do dia-a-dia demandam uma busca de soluções em sintonia
com a vida moderna.
Também precisa ser revisto o conceito de que abandono é
um produto criado pelas instituições geriátricas.
Muito pouco se fala a respeito dos idosos abandonados dentro de suas
próprias casas. Esses, que moram sozinhos ou com familiares
displicentes, acabam passando os dias ligados à TV, isolados,
sem ter com quem conversar, sem cuidados adequados com a alimentação
e os medicamentos. Além disso, ficam mais expostos a riscos
de acidentes e violência. Inúmeras vezes os vizinhos
ou porteiros são chamados para ajudar.
Situações assim fazem parte do cotidiano, principalmente
nas grandes cidades. Mas ainda é muito forte, no Brasil, a
tendência de identificar isolamento e desleixo somente nas casas
geriátricas.
Lamentavelmente, os chamados "depósitos de velhos"
contribuem para isto.
Porém, como em qualquer atividade, há os bons e os maus
prestadores de serviço. Cabe aos clientes separar o joio do
trigo e rejeitar o que não presta.
Os locais ruins continuam a existir porque ainda há famílias
que aceitam deixar o seu idoso em condições inadequadas,
onde vigora a regra básica do "faz de conta que eu
cuido e você faz de conta que acredita".
Em contrapartida, existem as clínicas e os residenciais geriátricos
realmente comprometidos com o bem-estar dos seus pacientes e moradores,
onde filhos, netos, sobrinhos e amigos permanecem presentes, interagindo
com amor e atenção.
E aqui se chega a um ponto muito importante, comprovado pela experiência
de vários anos. Se existe distância emocional ou omissão
de familiares e amigos em relação a um idoso, não
é porque ele envelheceu, está senil, exige cuidados,
ou mora numa casa geriátrica. Independentemente da classe social
e dos recursos financeiros, o abandono é construído
ao longo da vida, dentro de cada um, dentro das famílias e
dos relacionamentos. E o resultado aparece, sem disfarces, na velhice.
Portanto, acredito que colhemos o que plantamos.
Bons vínculos, cuidado e afeto, se tiverem sido bem cultivados,
estarão presentes no final da jornada, quaisquer que sejam
os endereços de residência do idoso.