Docente do Programa
de Pós-Graduação em Educadores da Saúde
pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte,
MG, Brasil
Graduação em Enfermagem
e Obstetrícia pela Pontifícia Universidade Católica
de MG (1998) . Especialização em Pedagogia para
o Ensino em Saúde - Escola de Enfermagem da Universidade
Federal de Minas Gerais (2009). Mestre na área de Ciências
da Saúde / Saúde Coletiva e Comunicação
Humana / Ciências Fonoaudiológicas - Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (2016).
Experiência Profissional na Coordenação,
Supervisão, Docência, Tutoria e Orientação
na área de Saúde e Educação. Pesquisadora
do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental,
Álcool e Outras Drogas: Luto e Espiritualidade / Escola
de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - Saúde
Auditiva, Educação em Saúde, Covid-19 e
SARS-Cov-2. Escritora, consultora, avaliadora e revisora de
obras
A ‘Perturbação de Luto Complexo
Persistente’, sugerida no apêndice do ‘Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais’
(DSM5), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria,
em 2014, e referência mundial para as questões relacionadas
à saúde mental, indica a necessidade de estudos consistentes
sobre o estado de enlutamento complicado e tem causado polêmicas
conceituais, dividindo opiniões. Mas há o consenso
de que esse infortúnio pode atingir qualquer pessoa, em diversos
momentos, pois todos já passaram, estão passando ou
irão passar pelo luto, complexo ou não.
Há defensores do enlutamento como quadro patológico
quando a tônica sintomatológica dos sentimentos de
perda e a temporalidade largamente estendida dificultam o balizamento
da dor, podendo levar a sérias consequências na saúde
física e emocional da pessoa nessa condição,
inclusive induzindo o portador ao último passo (o suicídio),
requerendo, assim, diagnóstico e intervenções
precoces. Por outro lado, há profissionais e pesquisadores
da psique que considerem o luto como um sentimento normal, de determinação
exclusivamente individual e que cada qual manifesta em seu tempo,
sem necessidade de intervenções. Simples assim.
No entanto, ‘Luto: Trato & Retrato’ (link),
obra lançada em abril de 2020, contempla, para além
do percurso individual da escritora no contexto do processo de morte
e morrer, diversas e adversas situações de enlutados
e estratégias para o enfrentamento da dor, com foco na saúde
mental alicerçada pela espiritualidade. O discurso é
realista, emocionalmente contundente, desprovido de máscaras
que encobrem, inibem e/ou censuram aqueles que por vezes se sentem
acuados e sem direcionamento congruente para a resolutividade da
questão. Portanto, para muitos afetados pelo enlutamento,
não é tão simples assim.
O que chama a atenção na produção literária
é o discurso da autora, que, mesmo se envolvendo com pesquisas
acadêmicas sobre o luto, viu-se profundamente atingida por
ele, reforçando a hipótese do despreparo, ainda que
se acredite estar instrumentalizado para o enfrentamento do fato.
Para além, o transtorno proveniente do enlutamento complicado
é abordado não somente como problema pessoal, mas,
também, como uma questão familiar e social, ao deparar
com a incompreensão da atribulação, tanto para
quem se encontra enlutado quanto diante da inabilidade da comunidade
para lidar com quem se enluta.
O capítulo inicial do livro
vai diretamente ao ponto, trazendo a conclusão nas primeiras
páginas, que reforçam a teoria de históricos
pesquisadores do luto: os seres humanos, apesar de terem como única
certeza a inevitabilidade da morte, não estão preparados
para compreender a naturalidade do único fenômeno que
sabidamente é universal e, na maioria das vezes, de instante
imprevisível. O medo da finitude está arraigado às
questões culturais ocidentais e especialmente à brasileira,
visto que ignorar, permear de hesitação ou negar o
porvir faz parte do senso comum desta população. Não
obstante, o instinto de preservação e sobrevivência
é natural em todo ser vivo.
Contudo, os capítulos sequentes
abordam e retomam os pensamentos de negatividade que afligem o enlutado,
os intermináveis inquéritos sobre a morte e revela
uma questão fundamental para que se tente entender o turbilhão
de emoções que envolve as mais íntimas carências
de solução: o desvencilhar da culpa, mesmo que ela
não seja evidenciada pelo evento em si, ou conscientemente
cogitada. O pensar em ter feito mais e melhor pelo ente querido
que atingiu sua finitude biológica talvez seja uma das principais
chaves para abrir as portas que aprisionam as pessoas no problema.
Outra questão relevante é
a interrupção do ciclo vital, quando o ideário
do processo de nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer
é interrompido por óbitos de infantes ou adolescentes.
Mas não se atém somente a isso, pois tanto quanto
nas fases da adultez ou senescência, por meio de patologias
potencialmente fatais, acidentes, homicídios e autoextermínio,
o enlutamento patológico também se constrói.
Ao afirmar que ‘dor é dor’, os fatores que conduziram
ao desfecho final, apesar de darem significado ao enredo, perdem
potencialidade ao considerar o tipo de vínculo (ou a falta
dele) como o principal marcador do desarranjo do luto. A questão
sempre será inusitada, ainda que seja recorrente, pois a
qualidade do laço (des)construído é o verdadeiro
fator de risco, traduzindo a particularidade das relações
humanas.
Em contrapartida, a alegação
dá veemência na positividade para a busca do triunfo
sobre a dor por meio da espiritualidade e a tentativa, embora às
vezes frustrada, de desvendar os mistérios que envolvem a
morte, não obstante a imperativa necessidade – em muitos
casos – do auxílio médico e/ou psicológico
para se desvencilhar do transtorno. A Organização
Mundial da Saúde, ao definir ‘saúde’,
prevê a inserção da espiritualidade nos cuidados
às pessoas em sofrimento, não apenas físico,
mas também psíquico, ao afirmar que estar saudável
não é apenas se eximir da doença, mas, sim,
deter o bem-estar físico, social e emocional (espiritual).
Nesses termos, o encontro com a
crença e a fé, independentemente da religiosidade
– embora a ênfase seja dada ao espiritismo e aos seus
pilares: ciência, filosofia e religião, bem como às
suas vertentes: imortalidade da alma e comunicabilidade dos espíritos,
registrada através da mediunidade –, demonstra o potencial
consolador da adesão ou da descoberta da possibilidade de
conexão com o divino, entretanto, livre de proselitismo.
Assim, a espiritualidade se torna elemento essencial para vencer
as fragilidades emocionais. O desenhar do inicial panorama obscuro
do luto complicado e, no decorrer, a sinalização gradativa
das medidas de elucidação do óbice, ademais,
agregam no compartilhamento de experiências com os pares,
outro potente recurso de alívio. O ‘compreender e o
ser compreendido’ notabiliza o valor e a magnitude da empatia,
que, mesmo não sendo curativa, funciona eficazmente como
medida paliativa.
Claramente, a argumentação
chama a atenção dos enlutados e daqueles que lidam
com o luto, para o entendimento de que estes não estão
e não precisam estar sozinhos nessa trajetória árdua.
Com o auxílio adequado, mediante o suporte de profissionais
da saúde (competentes e humanizados), o fortalecimento das
relações interpessoais e o estreitamento de afinidade
com a espiritualidade que melhor aprouver, é possível
retomar a vida, possivelmente com a mesma qualidade de antes ou
similar, combatendo e superando os obstáculos que antes eram
vistos como instransponíveis.