Os estudos sobre a escravidão no Brasil
vêm, nos últimos anos, se dedicado a temas muito variados.
Diversos aspectos do cotidiano daqueles homens e mulheres escravizados
têm sido pesquisados. São novas abordagens que demonstram
como aqueles indivíduos, apesar das dificuldades impostas pela
escravidão, conseguiram se organizar em busca de “ganhos”
políticos, econômicos e sociais.
Essa “nova” perspectiva tem levado os pesquisadores a
encontrar um sistema escravista diferente daquele que até então
se imaginava. Não se trata mais da “velha” dicotomia
“pai João (o escravo submisso)” versus “Zumbi”
(o escravo violento). A visão de um escravismo estático,
baseado numa dicotomia entre senhores e escravos, no qual apenas aos
primeiros caberia a condução do escravismo, não
mais se sustenta. Está claro que os senhores eram a parte mais
forte da contenda; entretanto, para os cativos havia a possibilidade
de se mover dentro de certos espaços. O escravo, visto como
sujeito dentro do sistema no qual se inseriu, estabeleceu uma relação
ora de dependência, ora de autonomia.
Nesse sentido, os estudos sobre a família escrava, derrubaram
várias teorias a respeito da promiscuidade dos cativos, da
fragilidade de suas vidas familiares e de seus laços afetivos,
sua suposta anomia e a instabilidade do convívio entre pais
e filhos, etc. Apesar do impacto devastador do cativeiro não
se pode mais dizer que a família escrava não existia
ou a vida íntima dos escravizados era desorganizada.
A família foi importante para a vida e os projetos daqueles
indivíduos inclusive aqueles ligados a liberdade. Liberdade
era o desejo que rondava os corações daqueles homens
e mulheres escravizados. A família teve papel importante nas
estratégias empreendidas pelos cativos na sua luta pela alforria.
A passagem da condição de cativo para a de forro/liberto
foi motivo de variados estratagemas, ora solitárias ora familiares,
que os escravos elaboravam, utilizando-se de suas experiências,
conhecimentos e astúcia no embate cotidiano pela obtenção
do sonho de liberdade. Comprando, ganhando, negociando, brigando.
À medida que as oportunidades surgiam, a despeito das relações
desiguais entre senhores e escravos, os cativos e seus familiares
as aproveitavam com o intuito de retirar-se do cativeiro.
Na luta pela liberdade, as famílias escravas constituíram
papel fundamental. A liberdade para os cativos ancorava-se na perspectiva
de uma vida melhor para eles e seus familiares em sua nova condição
jurídica; projeto em que muitos participaram. Para tanto, os
escravos não se furtaram a cada vez mais lutar para retirar
da escravidão suas mães, pais, filhos, avós,
primos,…. Aqueles com quem iriam reconstruir suas vidas no mundo
da liberdade.
A família escrava foi ainda muito importante para a vida cotidiana
dos cativos, por meio dela, eles tiveram a oportunidade de manter
e redefinir suas raízes africanas. Puderam também contar
com uma instituição forte que lhes constitui espaços
de sociabilidade e solidariedade.
Um diálogo ocorrido, em 1816, entre Saint-Hilaire e um escravo,
quando ele passou por Minas Gerais, pode nos dar uma visão
interessante da questão. Chegando a uma plantação
de milho, o viajante avistou uma fumaça que “anunciava
uma choça qualquer de negro”. Dirigindo-se para aquele
lado encontrou uma barraca, que os pretos da Província de Minas
tinham o costume de levantar quando eram obrigados a dormir no campo.
Ao se aproximar da choça, Saint-Hilaire se deparou comum negro
sentado no chão. A partir daí, travou um diálogo
com o escravo em que, segundo ele, não modificou uma única
palavra:
Saint-Hilaire
– Você naturalmente se aborrece vivendo muito só
no meio do mato?
Escravo – Nossa casa não
é muito afastada daqui; além disso, eu trabalho.
Saint-Hilaire – Você
é da costa da África; não sente algumas vezes
saudade de sua terra?
Escravo – Não: isto
aqui é melhor; não tinha ainda barba quando vim para
cá; habituei-me com a vida que passo.
Saint-Hilaire – Mas aqui
você é escravo; não pode jamais fazer o que
quer.
Escravo – Isso é
desagradável, é verdade; mas o meu senhor é
bom, me dá bastante de comer: ainda não me bateu seis
vezes desde que me comprou, e me deixa tratar da minha roça.
Trabalho para mim aos domingos; planto milho e mandubis (Arachis),
e com isso, arranjo algum dinheiro.
Logo a seguir, o naturalista francês fez declarações
pouco convincentes a respeito da escravidão e da cultura africana.
Afirmando que eles não eram tão infelizes e que se acostumavam
com a escravidão preocupando-se pouco com o futuro. Parece
que ele levou ao pé da letra o que o escravo lhe diz, sem se
perguntar se o mesmo estava dizendo (a um branco, “amigo”
dos senhores) o que realmente pensava. Ao dialogar com o viajante,
o escravo pode ter feito uma representação daquilo que
ele queria que fosse absorvida pelo estrangeiro. Neste sentido, é
interessante se pensar em que medida os relatos de viajantes foram
moldados pelos não europeus (como os escravizados).
O parentesco espiritual foi outro aspecto bastante importante para
a família, e para os escravizados não foi diferente.
O batismo cristão se mostrou uma instituição
forte e almejada por todos os estratos da população,
significava a entrada do pagão no seio da Igreja Católica.
Aqueles indivíduos buscaram esse sacramento e estabeleceram
a partir daquele momento relações de solidariedade e
reciprocidade por meio do compadrio (parentesco espiritual). Para
além de seu significado católico, os laços estabelecidos
pelos cativos e seus padrinhos perante a Igreja Católica extrapolaram
o espaço da Igreja e mostraram-se presentes em toda a sociedade.
Tais laços podiam ser usados, para reforçar laços
de parentesco já existentes, solidificar relações
com pessoas de classe social semelhante ou estabelecer laços
verticais entre indivíduos socialmente desiguais.
Mas a família para além do afeto, dos cuidados, das
relações engendradas tanto com a comunidade cativa tanto
com seus senhores, foi esteio, arrimo para a conquista da liberdade.
Aproveitando-se de todas as “brechas” na relação
senhor-escravo sempre com muita astúcia, estratégia,
e utilizando-se das experiências conformadas em suas vidas na
sociedade escravista de outrora aqueles escravizados buscaram a liberdade.
A liberdade para eles era um projeto coletivo. Negociando, adquirindo
pecúlio, revoltando-se, recorrendo à justiça,
os cativos e suas famílias conseguiram resgatar do jugo do
cativeiro, seus pais, mães, filhos, …

Johann Moritz Rugendas