Patricia Fachin entrevistaram Eliane Cristina
Deckmann Fleck
De acordo com a historiadora Eliane Fleck,
conscientes dos efeitos que as curas exerciam sobre os indígenas,
os jesuítas adotaram estratégias de apropriação
de saberes para garantir a devoção e piedade cristãs
por eles almejadas
Quando tiveram conhecimento das práticas
terapêuticas xamanísticas, os missionários jesuítas
as condenaram, “ressaltando sua inadequação,
em decorrência do caráter demoníaco e mágico-supersticioso
implícito nos rituais de cura”, explica a historiadora
Eliane Cristina Deckmann Fleck, à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela esclarece que
a perseguição que os missionários empreenderam
aos xamãs “devem ser compreendidas como uma disputa
de saberes e poderes, pelo controle do universo místico-simbólico,
bem como da capacidade de manipulação das curas e
não-curas”.
Eliane Cristina Deckmann Fleck ressalta também
que a negociação e aproximação “entre
‘modos de percepção e intelecção’
cristãos-ocidentais e indígenas (...) garantiu o êxito
da experiência missioneira junto aos guarani”. Segundo
ela, foi em razão deste modo de proceder jesuítico
que “os guarani conseguiram salvaguardar – no espaço
reducional – as manifestações tradicionais de
sua espiritualidade”.
Eliane Cristina Deckmann Fleck é graduada
e mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos
Sinos – Unisinos. Cursou doutorado em História pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul – PUCRS, com a tese Sentir, adoecer e morrer –
sensibilidade e devoção no discurso missionário
jesuítico do século XVII. Ex-coordenadora do curso
de História da Unisinos, é docente na mesma universidade.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual a reação dos jesuítas
diante das crenças e práticas curativas empregadas pelos
guarani no período das reduções jesuíticas?
Eliane Cristina Deckmann Fleck - A
reação inicial dos missionários foi de condenação
das práticas terapêuticas xamanísticas, ressaltando
sua inadequação, em decorrência do caráter
demoníaco e mágico supersticioso implícito nos
rituais de cura. Os registros jesuíticos, contudo, nos revelam
que práticas terapêuticas que previam presságios,
o uso de relíquias, rezas, ervas, sopros e sucções,
condenáveis quando executadas pelos xamãs, foram largamente
aplicadas pelos missionários nas reduções com
uma justificativa igualmente mágico-religiosa. Estes, assim
como os xamãs, valiam-se da imaginação e do misticismo
dos indígenas para que, em situações de epidemias,
os sintomas fossem amenizados e houvesse a predisposição
para a cura. Considerando que alguns dos procedimentos terapêuticos
e, em especial, as plantas medicinais, não sofreram a contestação
dos missionários, constata-se que, ao longo do século
XVII e da primeira metade do século XVIII, ocorreu uma apropriação
cada vez maior da farmacopeia nativa (ervas, resinas e folhas) e das
terapêuticas curativas empregadas pelos indígenas, como
nos casos dos ferimentos expostos, das otites e conjuntivites decorrentes
da varíola. O crescente emprego da farmacopeia indígena
na cura de determinadas doenças não só ampliou
as possibilidades de manipulação das curas pelos missionários,
como reduziu, significativamente, o caráter depreciativo e
condenatório inicialmente atribuído a ela. Além
disso, revela que, conscientes dos efeitos que as curas e a condução
da “boa morte” – em face da não-cura –
exerciam sobre os indígenas, os jesuítas não
hesitaram em adotar estratégias de apropriação
de saberes que garantissem a devoção e a piedade cristãs
por eles almejadas.
IHU On-Line - E como os guarani
reagiram diante do processo de inculturação religiosa
proposto pelos jesuítas?
Eliane Cristina Deckmann Fleck - As referências
feitas aos xamãs – líderes espirituais dos guaranis
– na documentação jesuítica setecentista
se caracterizam pela sua caracterização como sacerdotes
do Diabo, ministros do Demônio. Em razão disso, a contestação
e perseguição que os missionários empreenderam
aos xamãs (hombres–dioses) que profieren amenazas apocalípticas,
como escreveu Haubert, devem ser compreendidas como uma disputa de
saberes e poderes, pelo controle do universo místico-simbólico,
bem como da capacidade de manipulação das curas e não-curas.
Desacreditada e afastada esta ‘ameaça’ –
materializada nos movimentos xamanísticos de resistência
– ao projeto de civilização-conversão,
os missionários dedicaram-se a estratégias de negociação
e à aproximação entre “modos de percepção
e intelecção” cristãos-ocidentais e indígenas,
o que garantiu o êxito da experiência missioneira junto
aos guarani. Foi, também, em razão desta aplicação
efetiva do “modo de proceder” jesuítico que os
guarani conseguiram salvaguardar – no espaço reducional
– as manifestações tradicionais de sua espiritualidade,
como fica demonstrado na ressignificação do chorar copioso
e dos lamentos fúnebres que conformaram, de maneira peculiar,
a sensibilidade religiosa própria das reduções
jesuítico-guaranis.
IHU On-Line - Em que medida o medo da não-cura,
da morte e dos mortos foram essenciais no processo de conversão
dos guarani ao cristianismo?
Eliane Cristina Deckmann Fleck - A introdução
e a propagação de doenças desconhecidas afetaram
intensamente a dinâmica populacional guarani, provocando a desestruturação
e a desterritorialização tribal que levou à desnutrição,
às mudanças de dieta que, por sua vez, produziram novos
distúrbios de saúde devidos à fome ou à
introdução de novos alimentos. Enquanto resultantes
do contato, as epidemias colocaram, portanto, os guarani frente a
uma necessária reformulação de atitudes diante
da doença e da morte. As doenças trazidas pelos espanhóis
colocaram, portanto, estes indígenas frente a uma necessária
reformulação, não somente de percepções,
mas também de práticas, o que pode ser observado tanto
no Tesoro de la Lengua Guarani, quanto no Bocabulário de la
Lengua Guarani, organizados pelo Pe. Antônio Ruiz de Montoya
, e que registram, entre outras, as expressões ligadas às
doenças, às epidemias e às reações
dos guarani frente às suas desastrosas consequências.
As epidemias, definidas como peste ou enfermedad pelos jesuítas,
foram denominadas pelos guarani como mbaba, taçi ai, maraa,
mbae açi. Entre as doenças epidêmicas, destacam-se:
tepotí ugui ou tepoti pyta = camaras de sangre/desinteria;
mbirua = ampollas/sarampo; acanundu yrundi ara – naboguara =
quartãns/malária. Como expressões reveladoras
da percepção e dos efeitos das epidemias destacamos:
nache mo amongueri taci = “a enfermidade levou minha gente”;
chembotiabo mbar raci = “a enfermidade acabou com a minha gente”;
y pichibi tabaa oupa hacipabamo = “está a aldeia espantada
com tantos enfermos”; mbae aci oqui rucu ore rehe = “chove
a enfermidade sobre nós”.
Cabe observar que em alguns registros os padres admitem que as doenças
não decorriam, exclusivamente, da divina justicia, mas que
“a consecuencia de la transmigración y el cambio de clima
aparecieron frecuentes dolencias en el pueblo”, oportunidade
para “experimentalismos”, como na referência a que
“aplicaron las medicinas del campo de aquella región,
pero sin ningún resultado”, e ainda para recrutar enfermeiros
entre os índios sãos, “para investigar si los
había [enfermos] en las casas, campos y selvas” e vigiar
“contra la antigua superstición de los hechiceros”
(Maeder , 1984, p. 88). Várias são as passagens das
Cartas Ânuas que ilustram o senso de observação
prática dos missionários e a relação que
eles estabeleceram entre as doenças e as condições
de assentamento das populações indígenas. A cura
das epidemias e a oferta de alimentos e segurança diante da
expansão das frentes de conquista são, em razão
disso, apresentadas como determinantes para a permanência dos
guarani nas reduções e para o abandono das antigas práticas.
IHU On-Line - Quais as diferenças entre os
guarani pré-cristãos e os cristãos?
Eliane Cristina Deckmann Fleck - Alguns registros
jesuíticos do século XVII, referentes à Província
Jesuítica do Paraguai, permitem dimensionar as alterações
introduzidas pelos missionários, em relação,
especialmente, aos rituais funerários, evidenciadas na referência
aos andores, ao cortejo, à mortalha e às louvações.
Através desses relatos, percebe-se a normatização
que passou a orientar os rituais fúnebres, destinada a introduzir
procedimentos sucedâneos de práticas rituais anteriores,
como na clara referência à substituição
das “lamentações fúnebres” no cortejo
em direção à igreja, pela louvação
a Deus. Nas reduções – de acordo com estes mesmos
registros –, as expressões da sensibilidade guarani diante
da morte assumiram uma uniformidade e publicidade bastante distantes
das espontâneas manifestações originais. Algumas
das descrições, no entanto, apontam para a sobrevivência
de determinadas práticas rituais tradicionais guaranis, pois,
apesar de os enterros nas reduções ocorrerem ao final
da tarde – como recomendado pelos missionários –,
o cortejo fúnebre era acompanhado de “rezos y cantos
de los músicos, pero también ‘desentonados’
lamentos de indias viejas – antigua costumbre que muchos años
de misión no han podido desarraigar – y en los que lloran
y elogian al difunto por lo que ha sido ya hecho o al menos por lo
que hubiera podido hacer y hubiera podido ser, de haber seguido viviendo.”
(Melià, 1986, p. 207). Vale ressaltar, ainda, que o uso recorrente
nas Ânuas de expressões como “con que se van aficcionando
a las cosas de nra. santa fé”, “q. Dios le havia
sanado por medio del sto. baptismo” e “con mucha fe i
devoción”, mais do que revelar a estreita relação
entre cura e conversão, refletem a aceitação
dos novos saberes e terapêuticas curativas pelos indígenas,
sem, no entanto, promover a descaracterização do componente
mágico tradicional próprio da terapêutica guarani.