| Paulo
César Fernandes
> O mito e sua superação
Objetivo (O que ?):
Realizar um estudo do mito, trazendo à
baila as suas mais diversas manifestações, visando colocar
aos espíritas e à sociedade em geral, a necessidade
da ruptura com a mentalidade mítica.
Tal mentalidade mítica, a meu juízo, não se coaduna
com a humanidade “no limiar do novo milênio”, como
gostava de afirmar Herculano Pires.
Esse trabalho surge, a partir de observações minhas
de diversas pessoas, sendo elas das mais diferentes classes sociais,
das mais diversas concepções de vida.
Todos carregamos nossos mitos, e, muitas vezes por eles lutamos, nos
digladiamos com nossos semelhantes. Somos irascíveis e até
violentos ante pessoas e posturas que nos ponham os mitos em cheque,
mitos estes carinhosamente acalentados ao longo de anos, décadas
e até por toda uma vida.
A proposta é que o trabalho venha a ser um alerta, no sentido
de cada um analisar os mitos presentes à sua volta, e, de posse
do conhecimento dos mesmos, a eles se contraponha, preparando-se dessa
forma para o século, ou o milênio que se avizinha.
Estrutura do trabalho
1) Introdução
Apresentação do tema justificando
sua necessidade como proposta espírita, mormente no momento
em que a humanidade tende a uma unificação, uma integração
mais profunda na área econômica, começando a balançar
os mourões de cerca estabelecidos nas fronteiras dos diversos
países, dando assim, os primeiros passos no sentido de sua
retirada.
No próximo milênio, mitos e fronteiras estarão
caindo, pela própria necessidade do estabelecimento de novas
relações entre as diversas nações. Caindo
inclusive, apesar das fortes dificuldades que encontrará, o
mito maior de pátria.
2) O mito e o tempo
Manifestamente parafraseando Herculano Pires
em “O espírito e o tempo”, minha proposta para
este capítulo é estabelecer uma introdução
histórica para a abordagem do mito, buscando com isso provar
a ancestralidade do mito como forma de explicação e
justificativa de diversos fenômenos apresentados ao homem na
sua vida quotidiana.
3) Definição de conceitos:
significante, significado, signo, língua, mito.
Neste capítulo estará sendo feita
a definição dos conceitos a serem trabalhados nos capítulos
posteriores, explicitando a relação existente entre
tais conceitos e a temática do trabalho.
4) Manifestações míticas
na modernidade
4.1) Mito no discurso marxista
A partir da análise de livros de Fundamentos de Marxismo-Leninismo
mostrar diversos momentos onde se mitifica o discurso na produção
cultural da antiga União Soviética.
4.2) O mito numa sociedade industrial
4.2.1) Produtos da cultura de massa
A partir das observações feitas por Humberto Eco quando
analisa o “Mito do Superman”, extrapolar tal análise
para outros produtos da cultura de massa.
4.2.1) Produtos das grandes corporações
Analisar como as grandes corporações trabalham através
da propaganda os conceitos de qualidade, atendimento, etc, o que acaba
agregando ao produto um conteúdo mítico.
Analisar ainda como o mito se estrutura na esfera do consumo.
4.3) O mito nas concepções religiosas
Identificar os mitos presentes, tanto na Igreja Católica como
nas diversas vertentes do pensamento protestante.
5) O mito no espiritismo
Neste capítulo estarão sendo trabalhados
tanto os mitos teóricos como as pessoas mitificadas e como
essa mitificação impactou o movimento espírita
em geral.
6) Propostas para superação
Levantar a necessidade do debate honesto entre
os participantes do movimento espírita no sentido de identificar
os mitos presentes no dia a dia das diversas casas espíritas.
Discutir ainda os mitos presentes no quotidiano
das pessoas.
A identificação dos mitos, seja
a nível pessoal como a nível de movimento espírita,
é o primeiro passo para o processo de superação.
É preciso deixar claro que, a superação total
apenas será possível no transcurso do tempo. Isto se
for havendo um acúmulo de discussões desnudando os mitos
em todas as suas instâncias.
CPDoc - Centro de Pesquisa e Documentação
Espírita
1997
Paulo César Fernandes
Introdução
Por que escrever e discutir o mito, essa
coisa lá das remotas eras?
Alguns hão de fazer-me tal pergunta, a
estes eu responderei haver um engano nesse aspecto, o mito foi, e
ainda é, um forte componente do dia a dia de todos nós.
Claro, o desenvolvimento cultural da humanidade, acabou trazendo e
estabelecendo novas formas de mito, como veremos ao tratar do assunto,
nos capítulos relativos ao mito na era moderna.
O ponto de união entre os mitos clássicos, digamos assim,
e os mitos modernos é justamente sua irracionalidade, em que
pese, muitas vezes, todas as explicações objetivando
colocar um mito determinado no patamar da racionalidade.
Assim que iniciei a pensar sobre o tema, encontro um texto de um professor
da Unicamp na qual ele afirma de maneira categórica da impossibilidade
do homem viver sem o mito. Esse “achado” acabou fazendo
com que eu deixasse minhas reflexões em “banho Maria”.
Numa das reuniões de trabalho do CPDoc - Centro de Pesquisa
e Documentação Espírita, acabei revendo minhas
posições e acreditando viável a possibilidade
de discutir a necessidade de superação da mentalidade
mítica, enraizada em cada um de nós. A isto veio se
somar a convocatória da Licesp para envio de temas para o V
SBPE - Seminário Brasileiro do Pensamento Espírita.
Acabou sendo o mel na sopa.
Minha idéia, inicialmente, é trabalhar historicamente
a questão do mito.
Tanto na Antigüidade como na era moderna,
chegando a discutir algo dos mitos das religiões, para depois
estabelecer uma análise do mesmo no movimento espírita.
Fazer breve discussão de alguns conceitos como mito, signo,
significado e significante, o que deverá ajudar na compreensão
da própria conformação do mito.
E, ao final estabelecer uma proposta para sua superação,
uma vez que, a mentalidade mítica não se coaduna com
uma humanidade “no limiar de uma nova era” como costumava
dizer José Herculano Pires.
É possível, que no aprofundamento da minha pesquisa,
venha a concluir da impossibilidade de tal superação
nos próximos séculos, ou, da impossibilidade total de
sua superação. Este é um risco calculado que
só me debruçando sobre o tema poderei chegar a alguma
conclusão.
Este trabalho, assim, se insere no momento atual, apenas como um promotor
de debates, um “cutucador” de consciências.
Logicamente, pessoas ligadas à história da humanidade,
em seu aspecto cultural, pessoas ligadas à antropologia cultural
mais especificamente, poderão trazer novas contribuições,
novos trabalhos contraditando minhas idéias, ou mesmo, elementos
que venham fortalecê-las e aclará-las.
Meu mérito, se existe, é trazer ao seio do movimento
espírita, um tema que vem se firmando no meio acadêmico,
mormente após a derrocada das certezas científicas para
dar lugar ao universo das probabilidades, das incertezas.
O autor
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Dedicatórias &
Agradecimentos
Este trabalho é dedicado ao Professor José Herculano
Pires, cuja inteligência brilhante, abriu fendas de
racionalidade no seio do Movimento Espírita, indicando a todos
nós o caminho de uma nova era.
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Conceito
De início, vale a pena estabelecermos uma idéia, um
conceito sobre o tema.
Mythos quer dizer palavra.
“No princípio era o verbo ...” segundo os relatos
bíblicos.
Se formos buscar porém no dicionário, no Aurélio
por exemplo, encontraremos:
> mito - fato, passagem dos tempos fabulosos;
> tradição que, sob forma de alegoria,
deixa entrever um fato natural histórico ou filosófico;
> coisa inacreditável, sem realidade;
> representação de fatos ou personagens
reais exagerados pelo imaginário popular ou pela tradição.
De todas estas conceituações, a que mais se coaduna
com meu projeto, pelo menos no presente momento é a última.
Conversando com uma professora em Santo André, quando disse
eu estar trabalhando sobre o tema mito, esta se apressou em afirmar:
- Os dogmas, os mitos são temas interessantes.
Isto me levou a refletir na necessidade de diferenciação
entre um dogma e um mito.
Enquanto o dogma, é algo estático, estabelecido por
alguém, por alguma entidade em determinado momento, cabendo-nos
apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo; o mito, por sua vez
se caracteriza pela dinâmica, e pela possibilidade que nos dá
para sua construção. No mito, somos também partícipes
do processo.
Outro aspecto a considerar sobre o mito, é sua temporalidade
presente e sua proximidade geográfica, sempre se trata de algo
vivido e presente no aqui e no agora.
O mito abrange uma totalidade que a consciência discursiva não
consegue apreender, e, recorrendo aos símbolos acaba sintetizando
as mais profundas aspirações do ser humano, tais como
sua sede de absoluto, de transcendência e sua busca de plenitude.[1]
Campbell nos diz não haver conflito
entre o misticismo e a ciência, mas haver distinção
entre a ciência de 2000 a C e de 2000 d C, segundo
ele “ ... o que nos perturba é o fato de termos um texto
sagrado que foi composto em outro lugar, por outro povo, há
muito tempo, e que não tem nada a ver com a experiência
de nossas vidas. Há, pois, um distanciamento fundamental. Quando
voltamos nosso olhar para esse texto, vemos que se trata de um texto
que se refere ao homem como algo superior à natureza, que fala
do domínio exercido pelo homem sobre a natureza como algo que
lhe foi concedido. Tal é a diferença entre a mitologia
considerada como algo petrificado, exaurido, morto, não mais
atuante, e a mitologia vista como algo atuante. Quando a mitologia
está viva, é desnecessário dizer o que ela significa”.[2]
Para o Campbell, o mito estaria ligado à pedagogia
do indivíduo, e forneceria a este uma pista que lhe
serviria de guia. Até o presente momento pode ter sido realmente
assim, mas a proposta é justamente acordarmos para um novo
momento onde o mágico e o mítico cedam lugar ao racional,
mas um racional que leve em consideração aspectos metafísicos.
Segundo Augusto Novaski “o mito não é ficção,
engano ou falsidade; é, isto sim, um modo de falar, ver e sentir
dimensões da realidade inatingíveis racionalmente, dando-lhes
significado e consistência.”
O autor nos diz ser o mito para os filósofos, um produto deformado
da atividade intelectual, uma forma primitiva de pensar, coisa de
pessoas de baixa cultura (p. 26). Na sua visão, “o pensamento
ou atitudes míticos são um instrumento de controle social.
Nessa lógica, a função do mito seria indispensável
a toda cultura, ...”
Tal observação é importante de ser analisada
também ao nível dos nossos mitos. Se os mitos socialmente
disseminados agem como elementos restritivos de uma determinada comunidade
ou sociedade, não estariam nossos mitos individuais cerceando
nossas possibilidades de ampliar concepções.
O emocional dos nossos mitos não estaria aniquilando a possibilidade
de novos horizontes racionais? Possibilidades mais amplas de compreensão
das Leis Naturais [3]?
O mito no tempo
Como os índios dos filmes de bang-bang, estaremos em cima de
um desfiladeiro, olhando embaixo a passagem de alguns flashes, alguns
momentos do mito na história.
Olhando bem atrás no tempo perceberemos os primitivos, quase
macacos, se colocando de pé e deixando livres as mãos
para utilizá-las na confecção de instrumentos.
Um desses instrumentos, encontrado faz 500000 aC às margens
do Rio Tâmisa, foi chamado pelo poeta californiano Robinson
Jeffers de “beleza divinamente supérflua”. Em suas
seis ou oito polegadas de nada servia praticamente, mas, ao mesmo
tempo muito representava na observação histórica
da humanidade.
Muito tempo passou até que surgisse sobre a face da terra o
Homo Sapiens, e foi com ele o surgimento dos primeiros traços
do pensamento mitológico, expresso nos sepultamentos onde foram
encontradas oferendas, mais exatamente por volta de 60000 aC no período
do Homem de Neanderthal.
Uma outra evidência do pensamento mitológico daquela
época era a adoração de crânios de ursos
nas cavernas. Vestígios de capelas para esse fim foram encontradas
na região alpina da Suíça e da Silésia,
nestas os crânios de ursos apareciam adornados de pequenos anéis
de pedra.
Convém lembrar que mais tarde, no horizonte cultural primitivo,
quando o homem se via ante o desafio de explicar um novo fenômeno,
se valia do mito como forma de expressão para dar conta desse
novo fenômeno. Dessa maneira o mito acabava dando conta da questão
do ordenamento social. Eliminava a instabilidade gerada por algo novo.
Temos assim que “a consciência filosófica nasceu
da consciência mítica.”[4]
O professor José Herculano Pires em seu livro “O Espírito
e o tempo”, quando trata do horizonte agrícola diz serem
a China e a Índia os dois países que mantém,
a mesma estrutura religiosa até os nossos dias. Segundo ele:
“Aquilo que chamamos de horizonte agrícola,
o mundo das grandes civilizações agrárias,
constitui uma espécie de subconsciente coletivo das civilizações
modernas. Os resíduos mágicos, anímicos e mitológicos
do horizonte tribal e do horizonte agrícola apresentam-se
bastante fortes no mundo contemporâneo. Nossas religiões
mostram-se poderosamente impregnadas desses resíduos”.
[5]
Estas pinceladas iniciais são uma breve introdução
do que estará compondo este capítulo no futuro, mostrando
a presença do mito nos mais diversos momentos da história
da humanidade.
Pois, segundo os diversos autores consultados para a elaboração
do presente trabalho, o mito é algo intrínseco do ser
humano, estando este impossibilitado da ruptura com o mesmo. Aí
se situa minha divergência dos mesmos e a razão de ser
deste trabalho.
Para seguir pensando no tema vale a pena tocarmos em algumas palavras,
alguns conceitos que compõe o tema.
Mito, signo, significante, significado
Segundo Roland Barthes o mito é uma fala, e tudo pode ser mito,
uma vez que seu universo é infinitamente sugestivo. Segundo
ele, “é a história que transforma o real em discurso,
é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem
mítica”. [6]
É importante tal observação pois nos alerta a
perceber que o mito só se constrói no passar do tempo,
e no contar e recontar um fato. Segundo a sabedoria popular “quem
conta um conto aumenta um ponto” e é nesse aumentar de
pontos que os elementos míticos vão se agregando.
Outro aspecto a se considerar, além da construção
do mito no tempo, é a necessidade de um patamar mínimo
de organização social, de existência de relações
interpessoais para a ocorrência do mito.
Segundo Bakhtin “Os signos só podem aparecer em um terreno
interindividual. Ainda assim, trata-se de um terreno que não
pode ser chamado de “natural” no sentido usual da palavra;
não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para
que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos
estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade
social): só assim um sistema de signos pode constituir-se.”[7]
Em todas as formas de mito a serem analisadas neste trabalho a questão
tempo estará sempre presente. Às vezes, para atender
seus interesses as empresas buscam, através da propaganda,
trazer para mais uma data mais cedo a consolidação de
um mito, o que nem sempre conseguem.
Mas esse não é o caso mais comum, em geral não
é possível a interferência na construção
de um mito, ele simplesmente se dá, dentro da dinâmica
própria do processo histórico.
Um mito é composto de diversos signos, e cada signo seria a
resultante de um significante e de um significado, onde o significado
é o conceito e o significante a imagem acústica (de
ordem psíquica).
Assim, uma pedra preta por exemplo, é um simples significante,
apenas uma idéia, diríamos. Porém, se a este
objeto agregarmos uma conjuração de morte, passamos
a ter então um signo: resultado do significante pedra preta,
mais o significado morte.
E assim, no decorrer do tempo, diversos objetos ganharam significações
diversas, como nos fala ainda Bakhtin, “Em si mesmo, um instrumento
não possui um sentido preciso, mas apenas uma função:
desempenhar este ou aquele papel na produção. E ele
desempenha esta função sem refletir ou representar outra
coisa. Todavia, um instrumento pode ser convertido em signo ideológico:
é o caso, por exemplo, da foice e do martelo como emblema da
União Soviética. A foice e o martelo possuem, aqui,
um sentido puramente ideológico.”[8]
A Palavra
É através das palavras que os mitos se transmitem e
garantem sua permanência num determinado período de tempo.
A palavra é um fenômeno ideológico, pois uma palavra,
em si mesma é neutra. Porém, na medida em que uma palavra
compõe uma frase, o contexto de uma idéia, ela acaba
se estabelecendo como um signo ideológico.
Se falarmos casa, por exemplo, temos de imediato a idéia de
um edifício com portas e janelas. Se dizemos no entanto “casa
da cidadania”, ou “casa da oração”,
de imediato emergem outras conotações, conotações
ideológicas a compor tais expressões.
A palavra, por ser neutra, pode se adequar a qualquer contexto ideológico,
seja ele político, cultural, religioso, etc..., vai daí
a sua importância na compreensão dos aspectos ideológicos,
estejam eles num jornal, filme ou peça de teatro.
Em todos os lugares encontramos mitos expressos através de
palavras (signos) compondo um contexto ideológico.
Mitos na sociedade industrial
Na nossa sociedade, voltada para o consumo, temos a necessidade de
criação de mitos, para que estes possam garantir a manutenção
da estrutura de produção/consumo da sociedade.
Se estrutura, a partir daí, uma ideologia de consumo que, atuando
a partir das carências emocionais do indivíduo, atribui
ao produto uma função e utilidade mais amplas que as
originalmente para ele pensadas.
- Paulo, Unisys, IBM, são todas máquinas, essa sua idéia
de achar a IBM melhor não passa de mito.
- Mas não, a IBM afinal ...
E segui arrolando idéias e justificativas para buscar impor
minha concepção no tocante ao tema. Novos assuntos vieram
à baila e a roda do café se desfez.
Caminhei para minha mesa “com uma pulga atrás da orelha”.
Por que motivo teria eu defendido a empresa, e sem nada receber por
isso. No momento em que me desvendaram o mito com relação
à antiga empresa fiquei surpreso; na roda, fiz de conta que
não havia sido tocado, mas a dúvida, o questionamento
se instalou em mim.
Teria eu uma postura mítica com relação a IBM
?
Teriam os quatro anos que atuei como funcionário da empresa
contribuído para a construção desse mito?
Era difícil pensar em tal assunto.
Lembrava meu início de vida profissional, os amigos na empresa,
o atendimento que vinha recebendo da IBM na Prefeitura Municipal de
Santo André. Essas lembranças tornavam a análise
racional impossível, só havia campo para o emocional.
Assim é, toda a análise que se faça do mito.
Pura emoção.
Para mim, o signo IBM teve forte conotação emocional,
me trouxera “Status” e outras tantas coisas que me foram
importantes em determinado momento. Fez parte, na verdade, de um contexto
ideológico que trabalhava a vaidade dos funcionários
e outras tantas questões as quais visavam obter dos funcionários
maior adesão aos projetos da empresa. Ainda hoje, quando um
funcionário da IBM apresenta algum ex-funcionário a
outro IBMista faz questão de frisar ser a pessoa em questão
Ex-IBM.
De uma certa forma tal postura é explicada por Bakhtin:
“Um signo não existe apenas como parte de uma realidade;
ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer
uma realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista
específico, etc. Todo signo está sujeito aos critérios
de avaliação ideológica (isto é: se é
verdadeiro, falso, correto, justificado, bom, etc.). O domínio
do ideológico coincide com o domínio dos signos: são
mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se
também o ideológico. Tudo que é ideológico
possui um valor semiótico.”[9]
Assim, dentro da realidade do universo IBM, havia o mito que os funcionários
IBM seriam profissionais de maior gabarito que os demais do mercado,
uma vez que o critério de seleção era ... e uma
série de justificativas que se conformaram num mito. E nesse
caso, o mito carregava em si uma série de inverdades, até
porque, encontrei em outras empresas profissionais melhores que diversos
funcionários da IBM.
Mitificados pelo tema
Nas diversas leituras feitas por mim para a elaboração
do presente trabalho, tive a impressão que os autores, todos
eles, eram presas da magia do mito; como uma teia, o mito os reteve
e, resignados, passaram a propalar a idéia do mito como algo
insuperável, algo assim como a respiração, sustentáculo
da vida.
Segundo Constança “a perda do sentido existencial implica,
para ser superada, na reconquista da dimensão mítica,
no abandono do falso logos do mito, na recusa do mito como verdade
imediata a fim de retomá-la, mediante o reconhecimento do poder
de revelação dos símbolos”.
Admito ser um tema envolvente, forte, capaz de nos arrebatar à
medida que lhe desvendemos as raízes, principalmente se nos
atemos aos mitos dos povos primitivos.
São, porém, construções e explicações
primitivas da realidade, já sem contraponto no horizonte atual,
e, a meu juízo, sem justificativa em civilizações
avançadas. E quando me refiro a civilizações
avançadas, penso nos mundos superiores proposto entre outras
obras na escala dos mundos do Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan
Kardec.
Estamos hoje, muito distantes da possibilidade de vislumbrar tais
mundos, e é neste nosso mundo que construímos nossas
idéias e temos possibilidade de crescimento. Assim é
aqui a nossa contribuição mais efetiva. Temos o passado
como exemplo de aprendizado e a colaboração dos espíritos
nos indicando caminhos para a construção do futuro.
Retomando a questão dos mitos.
Acredito, ser a irracionalidade a linha de união entre os mitos
clássicos e os da era industrial.
Quando trata do mito do Superman em seu livro “Apocalípticos
e Integrados”, Humberto Eco define mistificação
como “simbolização incônscia, identificação
do objeto com uma soma de finalidades, nem sempre racionalizáveis,
projeção na imagem de tendências, aspiração
e temores particularmente emergentes num indivíduo, numa comunidade,
em toda uma época histórica”.[10]
Segundo o autor, a mitificação existente à época
medieval era um ato institucional, de cima para baixo, codificado
e decidido pelos homens da igreja. Estes vulgarizavam seus mitos através
das grandes enciclopédias da época. É verdade
ainda que para elaborarem seus mitos, esses homens de comando do clero,
se apropriavam de elementos já correntes nas camadas populares,
colhendo aí, certas imagens arquetípicas.
A busca do Mito
O esforço hoje existente na arte, e eu diria, no próprio
processo de marketing das empresas, é tornar cada vez mais
subjetiva a simbologia dos mitos. Isto se contrapõe à
conformação dogmática medieval que era bastante
direta.
Dessa forma, o criador atual, nessa sua simbolização,
sempre mais subjetiva, restringe a ação de sua arte
a uma questão de identificação com a sua situação
interior por parte do público. Isto, não quer dizer
no entanto, a não universalidade da mensagem, pois esta pode
tocar em apenas um aspecto do psiquismo humano e atingir milhares
de pessoas. A questão reside na não objetividade da
mensagem, pois o mito se estabelece a partir da subjetividade.
Segundo Eco, “trata-se da identificação privada
e subjetiva na origem entre um objeto ou uma imagem, e uma soma de
finalidades, ora cônscias ora inconscias, de maneira a realizar-se
uma unidade entre imagens e aspirações”.[11]
Um exemplo bastante claro dessa subjetividade está presente
nas peças comerciais (propagandas) apresentadas na televisão.
Quando assistimos à propaganda de cigarros vemos um belo carro
esporte, diversos jovens sorridentes em pranchas de Windsurf, etc...,
agregando ao produto uma imagem de esportividade que não lhe
é inerente, mas, na verdade, um juízo de valor, um mito
estabelecido pela agência de propaganda.
Se o produto em questão, visa atingir uma camada de mais alta
renda, é de bom alvitre, a agência trabalhar mais fortemente
a questão do “status”, logo, imagens de castelos
do Pais de Gales, estradas litorâneas da Itália, Veneza,
etc..
Hoje, muito raras são as peças publicitárias
que apelam diretamente ao “valor de uso” do produto, trabalham
cada vez mais os mitos possíveis de serem ligados a ele.
Muitas vezes a publicidade é até desnecessária
para mitificação de determinado produto. Vejamos por
exemplo, quantas pessoas conhecemos cuja vida sem um celular seria
realmente insuportável? E quantas o tem sem uma justificativa
real? Claro, sempre estas pessoas acabam “explicando”
sua “necessidade”.
Na verdade, o que existe não é só o “valor
de uso”, chamar e receber telefonemas, mas, a função
mítica e subjacente de demonstração do “status”
auferido pelo objeto.
Eu não diria, serem todos os bens de consumo em nossa sociedade,
elementos plenos de carga mítica, mesmo porque, muitos deles
surgiram e existem, para facilitar o dia-a-dia de todos nós,
porém, uma série desses bens servem muito mais ao preenchimento
de carências em instâncias psíquicas, que verdadeiramente
atender às funções propaladas como seu “valor
de uso”. [12]
E o Marxismo-Leninismo?
Quando decidi trabalhar sobre os mitos existentes no marxismo-leninismo,
isto me pareceu estranho. Quem me conhece, sabe de minhas posições
políticas, e de minhas posturas, alguma vezes radicais, em
defesa do socialismo. Isto, desde os remotos tempos de atuação
no movimento de mocidades espíritas, estando ambos, socialismo
e mocidades, em desuso no momento atual, ao que me parece.
Mas, a análise a ser feita não visa o socialismo em
si, enquanto concepção de mundo. Pretendo me ater às
formas que sociedades como a soviética e a cubana, a partir
das premissas iniciais, geraram discursos mitificantes como base para
sua sustentação no poder. A essa elaboração
teórica chamarei de discurso comunista para uma necessária
distinção da proposta socialista.
Assim, há uma diferença entre o discurso comunista elaborado
intramuros nessas sociedades, e os preceitos teóricos promotores
da Revolução de 1917 na Rússia. É exatamente
o discurso elaborado intramuros, o objeto de minha atenção,
o quanto tal discurso tem de mitificante, na medida em que absolutiza
a verdade como propriedade exclusiva.
Lembro, nos embates eleitorais, quando integrantes do antigo PCB,
Partido Comunista Brasileiro, ao fazer sua “boca-de-urna”,
abordavam os eleitores dizendo “Vote consciente”. Como
se todos os votos, dados a candidatos outros fossem a expressão
da falta de consciência, ou como se a consciência fosse
atributo cativo das correntes de esquerda.
O pior é que essas pessoas acreditavam ser portadoras da Verdade.
Uma verdade absoluta, inquestionável.
Certa vez, encontrei um amigo de Mocidade em uma festa do PCB, ao
qual eu fui por participar de movimento de solidariedade aos povos
latinos. Assim que me viu Mário disse :
- Eu sabia, eu sabia que você um dia se iria aperceber do seu
erro.
Sorri. Ele acreditava piamente em sua verdade. Deveria ter lido todos
os teóricos e vivia pleno de certezas, a partir dos mitos por
eles fornecidos.
A minha análise se limitará a fragmentos de discurso
retirados do livro “Fundamentos do Marxismo-Leninismo”
de G. Chakhnazarov e Iv. Krássine, este último mais
conhecido das esquerdas.
Na introdução do livro citado, encontramos uma frase
que expressa algo de messiânico para a proposta comunista:
“Qualquer indivíduo precisa de maturidade política
e ideológica na sua vida pessoal. Essa maturidade ajuda a evitar
os erros e a encontrar o caminho certo.”[13]
Na seqüência estabelece o Marxismo-Leninismo como a alternativa
dos países socialistas. Faço ressalvas ao uso desse
termo para URSS e Cuba cujo desenvolvimento histórico suprimiu
ao cidadão sua livre manifestação.
Falando sobre o marxismo e seu teor materialista o livro coloca :
“A doutrina que considera o mundo como um todo material, que
tudo explica a partir da matéria, denomina-se materialista.
A forma superior de materialismo é a filosofia marxista.
A classe mais avançada e progressista da sociedade contemporânea
é a classe operária. Para lutar contra o capitalismo
e construir a sociedade comunista, essa classe tem necessidade duma
concepção clara e científica do mundo, razão
pela qual o materialismo dialético é o fundamento filosófico
da concepção de mundo da classe operária.”
Neste trecho também encontramos uma concepção
mitificada da “classe operária”.
Essa classe não foi, é, ou poderá ser, a classe
mais avançada e progressista.
O próprio teor do seu trabalho a impossibilita de uma reflexão
crítica da sociedade ao qual se insere. Após um dia
exaustivo de trabalho eu quero a TV, ou qualquer coisa mais leve,
que me faça ficar distante de tudo o que se possa chamar trabalho.[14]
Falando da necessidade de uma ideologia :
“A rigor, não há ninguém que não
tenha uma ou outra concepção de mundo. Todas as pessoas
tem uma idéia do mundo, do sentido da vida. Mas quando
essa concepção não é científica,
quando parte de conceitos falsos, então não
só não ajuda a ocupar a posição correta
na vida, mas, ao contrário, pode levar a cometer um erro, às
vezes fatal. A concepção marxista-leninista
do mundo permite ao homem orientar-se nas circunstâncias difíceis
da vida social e pessoal, penetrar a essência das coisas e não
julgar apenas pela aparência, que pode ser enganosa. Esta concepção
dá a justa orientação não
só para resolver os “eternos” problemas filosóficos,
mas também para a participação consciente
nos assuntos da sociedade e do Estado, na política.”
Meu grifo, nas expressões acima, salienta seu juízo
de valor. E, nos diversos textos, sua repetição, sua
reiteração ao longo do tempo, através de diversos
meios, acaba constituindo, e construído um mito, cuja função
é fazer crer às pessoas de sua participação
num “momento superior” do processo histórico da
humanidade. Isto reduz a possibilidade de questionamento, pois em
qualquer que seja a instância, o questionamento é a base
da mudança.
A superação do mito
Em vista das diversas instâncias míticas anteriormente
apresentadas, pudemos perceber a presença do mito em nosso
dia-a-dia.
Carregamos hoje, na sociedade tecnológica na qual vivemos,
uma herança forte das eras remotas. Tal fato nos é apontado
na citação feita por Tarcísio Moura em seu texto
“O mito, matriz da arte e da religião”. O autor
traz as seguintes palavras do livro “Arte e mito”, de
Ernesto Grassi :
“Os povos primitivos a que nos referimos, tão distantes
de nós e tão incompreensíveis nas suas reações
que já não podemos conceber o seu modo de acesso ã
natureza, estão, em verdade, muito mais próximos de
nós do que pensamos: em cada um de nós vive - como o
demonstrou a psicologia moderna - um homem primitivo, já destituído,
é certo, de sua integridade invulnerada e, portanto, despedaçado
e dividido.
Porém, nesta mesma divisão, ainda se conservam restos
e vestígios da unidade de outrora.”
Se carregamos hoje, elementos herdados do passado no que tange ao
sentimento mítico, isto nos leva a crer que não basta
a tecnologização da sociedade para promover a derrocada
do mito. É necessário algo mais profundo, que o explicite
claramente, de maneira a engendrar sua superação. É
necessária uma discussão desse mito persistente em nós.
Segundo Tarcísio Moura [15]
“é justamente por não ter um caráter explicativo,
que o mito revela toda a sua pujança de significados. Ele nos
relaciona com um nível de expressão mais fundamental
que qualquer explicação de ordem científica.
E a análise especulativa que se pretenda fazer sobre ele é
já, pode-se dizer, a sua destruição.”
Daí temos, como única perspectiva possível, na
superação de nossos mitos, o debruçarmo-nos sobre
eles, desvendando-os, analisando-os. Segundo o mesmo autor “um
mito é antes de tudo uma totalidade que não se pode
dividir sem destruir... ...qualquer análise que dele se fizer
é já, sua destruição. A análise,
para compreender, divide através de estruturas racionais, ora,
o mito, sendo essencialmente unidade de vida e pensamento, não
chegará a ser compreendido através de tais divisões.”
Para o autor, a análise do mito não basta, por ser tal
análise baseada em nossas estruturas racionas, e o mito se
calca em aspectos emocionais do ser humano.
Posso concordar ser o mito de ordem subjetiva, emocional, acredito
porém, na “elucidação da emoção”
através da prática de análise e crítica
das estruturas míticas; estejam elas no indivíduo, ou
socialmente disseminadas.
Tenho claro, as dificuldades advindas de tocarmos nas estruturas subjetivas,
nas resistências internas, nos componentes emocionais que envolvem
qualquer alteração. Não fosse assim, já
teríamos uma sociedade renovada.
Acredito, por outro lado, na possibilidade da razão, característica
forte do homem de nossa era, no transcurso do tempo, solapar as resistências
emocionais, ao ponto de estabelecer paulatinamente uma nova forma
de sentir.
Evidentemente, tal processo não se dará de forma rápida,
anos e anos passarão, talvez algumas encarnações,
para o homem se livrar dos horizontes tribais e enquadrar-se numa
nova ordem.
Segundo o autor acima citado, “ao querer conquistar todas as
funções do mito a razão rompe a unidade e o equilíbrio
que antes regulavam atividades do mundo mítico. O advento da
modernidade promovido pelo desenvolvimento da razão provocou
a emancipação de cada função especializada.
Cada uma delas escapando a todo o controle e se desenvolvendo por
sua conta com o risco de desequilibrar todo o conjunto”.
“Esta passagem do mito para uma razão progressivamente
mais estruturada constitui um dos grandes movimentos evolutivos da
história humana, desde seus primórdios até os
nossos dias. É a história do caminhar paulatino através
do qual a razão vai incorporando e aperfeiçoando todos
os tipos de funções. Criando técnicas cada vez
mais sofisticadas, ela busca atingir um triunfo completo. Cada época
representa para ela um passo a mais nessa direção. Se
podemos dizer que estamos hoje pela ciência moderna, no ápice
deste movimento, devemos reconhecer que amanhã uma nova estrutura
surgirá para que ele não permaneça estacionário.”
O Espiritismo, a partir de Kardec, estabelecendo a primazia da razão,
do bom senso, é um elemento importante na crítica ao
passado mítico. Através de seus preceitos básicos,
principalmente a Lei do Progresso (Princípio da Evolução
Infinita) nos coloca diante da necessidade de renovação
de nossas estruturas no sentido de perseguirmos nossa libertação.
Não somente, como propõe os místicos “das
nossas imperfeições”, mas de tudo aquilo que venha
significar prisão ao passado. Evidentemente, essa busca de
adequação ao tempo presente deve ter em seu âmago
a ânsia de progresso, evolução.
“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”
disse o apóstolo Paulo com muita propriedade, e nós,
de nossa parte, precisamos buscar saber também o que nos é
válido, o que nos convém: seguir adiante acalentando
nossos mitos, ou, numa atitude de coragem, romper com eles para crescer
na direção do futuro.
No movimento espírita
Para trabalhar o mito, ou os mitos, dentro do Movimento Espírita
optei por abordar os dois possíveis aspectos: os mitos conceituais
e os mitos pessoais.
Mitos conceituais
Pureza doutrinária
Houve um momento em que diversos setores do movimento espírita
estabeleceram a primazia do texto de Kardec sobre qualquer coisa.
Tal momento, sob determinados aspectos nos colocou lado a lado com
os seguidores da Bíblia, cuja letra morta, para eles, sobrepõe
qualquer apelo à racionalidade.
Numa determinada época era comum, em eventos do Movimento Espírita,
sairmos para as reuniões carregando o que era chamado o Pentateuco
Kardequiano, para se algum incauto atribuísse a Kardec algo
duvidoso pudéssemos de pronto “desmascará-lo”.
Atitude desnecessária nos tempos atuais, tempos mais elásticos
e complacentes, pela própria evolução das mentalidades.
Necessidade de atuação na área mediúnica
Este é um dos grandes mitos do Movimento Espírita. A
mediunidade, sempre tida como um “fenômeno sobrenatural”,
deu margem a toda sorte de conjecturas no imaginário popular.
Dentre todas as concepções formadas pelo Espiritismo
no Brasil situa-se a idéia do possuidor de mediunidade mais
ostensiva se ver obrigado a atuar mediunicamente para a sua vida “seguir
nos eixos”.
Idéia herdada das seitas afro-brasileiras, acabou se integrando
ao dia-a-dia das diversas casas do movimento espírita organizado
no Brasil.
Além de não corresponder à verdade dos fatos,
tal concepção acaba se estabelecendo como uma forte
coerção ao indivíduo médium.
Acredito que possamos catalogar a mediunidade como uma potencialidade
natural como outras tantas manifestadas pelo espírito ao longo
de sua encarnação.
Seria bastante ridículo alguém me afirmar que se eu
não escrevesse ao longo de algum tempo eu me veria sob a influência
de espíritos, que minha vida desandaria ou algo parecido.
Isto se afirma porém, no tocante à mediunidade. É
uma idéia mítica que compõe as certezas de diversas
casas espíritas no Brasil. Mormente naquelas onde o estudo
foi deixado de lado, ou nunca esteve em pauta.
- Meu irmão, se não trabalhar ...
E o interlocutor treme nas bases.
Nada mais falso que tal afirmativa. Mesmo porque as energias utilizadas
pelo indivíduo na atividade mediúnica pode muito bem
ser canalizada para outra forma de atividade. Ora é uma entidade
assistencial a lhe clamar atenção, ora o apoio a um
familiar em dificuldade, mais adiante um colega de trabalho ou de
escola pedindo um tempo para lhe ouvir os queixumes.
Mecanismos de atuação não nos faltam. Basta estarmos
atentos.
Nos sabendo portadores de mediunidade é necessário definirmos
se desejamos ou não atuar mediunicamente. Se decidirmos pela
negativa estarmos certos de estar agindo segundo os ditames do nosso
livre arbítrio.
Lei de Ação e Reação
“Quando eu era criança pensava como criança, agora
que sou adulto ...” essas palavras de Paulo nos dão a
perceber a necessidade de adequação do nosso pensar
à época em que vivemos.
Se a Academia de Ciência de hoje já questiona seus dogmas
antes intocáveis, põe que motivo nós, teoricamente
menos sectários e dogmáticos não deveríamos
colocar um ponto de interrogação em todas as verdades
a nós entregues prontas e sem possibilidades de discussão.
Em nossa infância determinadas explicações eram
cabíveis. Atendiam às necessidades de perquirição
daquele momento. Por certo, no caminho já ficaram várias
idéias à medida que novos conhecimentos, novos conceitos
se somaram ao nosso saber. Tivemos as idéias da infância,
as idéias da adolescência e, os mais idosos, as idéias
da maturidade.
A Lei de Ação e Reação é algo desse
tipo, teve sua função em determinado momento histórico
do Movimento Espírita, não do Espiritismo, era necessário
dar conta de todos os questionamentos colocados aos adeptos das novas
idéias.
Cumpriu seu papel.
Sem sombra de dúvida fez com que muitas pessoas vissem no Espiritismo
uma lógica ímpar, e a partir daí engrossassem
suas fileiras.
Porém os tempos são outros, onde os horizontes culturais
da humanidade são menos presos a raciocínios esquemáticos
e maniqueístas. Não há mais o “bem absoluto”
em contraposição ao “mal absoluto”. Foi-se
o tempo do “olho por olho e dente por dente”. A humanidade,
mesmo nas questões da justiça comum já não
se vale apenas das sentenças tradicionais, em certos casos
usa de criatividade na aplicação de suas penas.
Cito, a título de exemplo o caso das penas impostas a um jovem
pichador de paredes, na qual o juiz estabeleceu serviços à
comunidade como forma de pagamento pelos danos causados à sociedade.
Dessa forma nós, para estarmos coerentes com as questões
de nosso tempo, deixemos de lado a Lei de Ação e Reação
e nos ocupemos de conceitos mais úteis, dinâmicos e instigadores
de progresso. Que venham afirmar valores humanistas tão importantes
no atual momento histórico.
Expiações e Provas
Outro aspecto de necessária análise é a questão
da utilização freqüente da expressão acima.
Os mais afoitos dirão:
- Mas Kardec falou!
Sei das falas de Kardec, sei também, por outro lado; que o
tempo passou, a humanidade avançou, e precisa de novos conceitos,
novas proposições.
E quem me garante estarmos ainda hoje na mesma fase proposta por Kardec.
Creio e espero que não.
Mais grave é que esta expressão estabelece para a Terra
a qualidade de ser “um vale de lágrimas”, local
só de dor; tudo isto traz ao planeta uma conotação
negativa que este absolutamente não tem.
A Terra é apenas a Terra; planeta, nave vagando pelo espaço
e abrindo a todos nós, seus habitantes, amplas possibilidades
de aprendizado e crescimento.
Sofremos? Sofremos sim.
Porém a culpa de nosso sofrimento não pode ser debitada
ao planeta. É coisa nossa, algo representativo do estágio
de compreensão da vida em que nos encontramos.
Não aprendemos a viver. Ainda...
Temos o tempo por grande aliado, no entanto, não aprendemos
E mais!
Expiar significa pagar, idéia muito ligada à concepção
de pecado. Essas coisas todas que serviram e servem de contenção
à humanidade e, através do medo, sentimento de culpa,
geraram a infelicidade de muita gente.
Graças a Deus não sou religioso, o Espiritismo me cabe
assim como uma luva. Dinâmico, renovador em seus conceitos como
a Lei de Evolução, acaba sendo um instigador da busca
do novo. Uma busca sempre positiva na medida em que não permite
a estagnação do lodo no fundo da lagoa.
Dessa forma não estamos aqui para sofrer, mas, na própria
dinâmica da vida aprender. Aprender e apreender conceitos mais
amplos, partindo do estreito para o largo; do simples para o complexo;
do limitado para o infinito.
Tenho dito com freqüência da impossibilidade que tenho
de ver a Deus como um grande capataz a aplicar castigos a seus filhos.
Acho tal visão das pessoas uma visão ingênua do
Pai, pensar em Deus cobrando cada ato nosso.
Nossa jornada é por nossa conta e risco.
Se cuidarmos dela chegaremos mais cedo à felicidade; se formos
preguiçosos, recalcitrantes, vai levar mais tempo. E é
só.
De qualquer forma é bom acabarmos com essa idéia de
expiação uma vez que ela depõe contra o planeta,
trazendo-lhe uma aura de morbidez, depressão.
Nada disso!
Mitos pessoais
Se olharmos o Movimento Espírita, se conversarmos mais atentamente
com seus diversos componentes, tiraremos dessa conversa muito material
para análise, e, sem sombra de dúvida toparemos com
algum mito.
Dentre os mitos todos, os mais evidentes são os mitos pessoais.
Pessoas que acabamos mitificando por forca das circunstâncias
e pela ausência de uma análise crítica.
Um fato freqüente em nossas casas espíritas é o
repentino desaparecimento de um ou alguns dos colaboradores.
Em muitas vezes, se formos buscar a raiz de tal “sumiço”
será a desilusão com relação a determinada
pessoa.
Pois bem!
Eu chego ao Centro Espírita pela primeira vez. Venho pois a
dor, já me vergasta a alma de algum tempo, e, no cansaço
de sofrer a última alternativa que se me apresentou foi o Espiritismo.
Não é exatamente o que eu quero, mas as pessoas são
bondosas, me tratam bem, e tem o Seu Joaquim, quando ele fala parece
que conversa comigo. Fala sempre o que eu preciso ouvir.
O quadro acima, mostra um primeiro momento, um quadro psicológico
e afetivo pronto para o estabelecimento de um mito individual.
A pessoa em questão, não raro passa a ter certa reverência
pelo Seu Joaquim, e além disso percebe não ser a única
a lhe disputar as atenções, outras tantas pessoas na
casa agem de mesma forma. Sente-se assim “inserida no contexto”
como dizia o Pasquim na década de 60.
Do fato de “abelhar” o Seu Joaquim à Idéia
de ser ele pessoa sem defeitos é um pequeno passo, dado em
curto espaço de tempo. A emoção se encarrega
de eliminar toda possibilidade de análise crítica. Se
o racional começa a agir na pessoa levantando defeitos visíveis
esta pensa:
- Não, ele é tão bonzinho.
O senso crítico cai por terra. Ao mesmo tempo crescem as possibilidades
de crescimento do mito.
O aspecto caricatural do caso acima não pode impedir que façamos
uma análise voltada a nós mesmos.
Quantos de nós não carregamos nossos mitos no Movimento
Espírita?
Ora é aquela pessoa dinâmica coordenando as atividades
de uma casa, de uma entidade assistencial, Ora é um articulista
de jornal fantástico.
Enfim! A cada dia nos confrontamos com pessoas e situações
passíveis de se conformarem num mito.
É bom lembrar. O mito é dinâmico; diferentemente
do dogma, extático e exterior a nós, o mito por sua
dinâmica nos torna co-participes, construtores ou mesmo parte
dele.
Na casa espírita na qual participamos, na nossa cidade ou pais,
temos sempre a possibilidade de estar mitificando alguém, deslocando
uma pessoa do patamar do real para um pedestal de areia cujos ventos
da realidade facilmente trarão ao chão.
Dessa forma, convém nos acautelarmos. As desilusões
saem mais caro e causam maiores turbulências que a caminhada
nas sendas da racionalidade.
Mas então, como facear os mitos existentes no movimento espírita,
se esse movimento, pela própria ausência de discussão
mais aprofundada, deixa de lado a necessária auto-análise,
tornando-se por esse motivo incapaz de percebe-los?
Como olhar a forma que as pessoas se colocam ante determinados médiuns
como Chico Xavier, Arigó, Divaldo Pereira Franco, e mesmo em
relação a espíritos como Bezerra de Menezes,
Emannuel e André Luis, dando margem inclusive ao surgimento
do Emannuelismo, do André Luisismo, e tantos outros ismos mais,
que nada acrescentam à dinâmica da idéia espírita,
sendo-lhe, a bem da verdade um desserviço na medida em que
afasta do Centro Espírita e por conseguinte do Movimento Espírita
pessoas de senso crítico mais apurado.
Proposta final
Minha proposta para o movimento espírita, é que se criem
instâncias de discussão sobre o tema, instâncias
estas capazes de alertar aos diversos participantes das casas espíritas,
quão presente é o mito em nossa sociedade atual.
Mas isso, por si só, trará a superação
do mito? - me perguntará um leitor mais afoito.
Responderei com um sonoro NÃO. Porém, iniciará
um processo de discussão, processo inicial de aclaramento das
consciências para o estabelecimento da dúvida. Uma vez
estabelecida, a dúvida funciona como um elemento a corroer
as bases da certeza, sustentáculo do edifício mítico.
Certamente, tais discussões, não serão como fogo
a se alastrar em campo seco; serão focos, pequenos focos, a
deitar luz à região em sua proximidade.
O mais importante a meu ver, é o surgimento de tais focos,
é o nascer da discussão.
Estivemos falando e trabalhando, não para o movimento espírita
como um todo, porém visando setores, segmentos, grupos capazes
de estabelecer uma análise critica de suas práticas
quotidianas e a partir da mesma começar um processo dinâmico
de mudança.
Aos outros, que preferem o passe ao pensar, deixaremos o veredicto
do tempo.
Referências bibliográficas
Bakhtin, Mikhail “Marxismo e Filosofia
de Linguagem”, Hucitec, São Paulo, 1981
Barthes, Roland “Mitologias”, DIFEL, São Paulo, 1982
Campbell, Joseph “As transformações do mito através
dos tempos”, Cultrix, São Paulo-SP, 1991
Eco, Humberto “Apocalípticos e Integrados”, Perspectiva,
São Paulo, 1979
G.Chakhnazárov, Iú.Krássine “Fundamentos
do Marxismo-Leninismo” Edições Progresso, São
Paulo, 1981
Morais, Régis ( org. ) “As razões do mito”,
Papirus, Campinas SP, 1988
Notas
[1] Cesar, Constança Marcondes “Implicações
contemporânas do mito” in As razões do mito, p. 37-38.
[2] Campbell, Joseph “As transformações do mito
através do tempo”, p. 49
[3] As Leis Naturais, segundo Kardec abarca as leis físicas do
âmbito das ciências oficiais, e as leis morais do âmbito
das concepções filosófico-religiosas.
[4] Gusdorf, Georges “Mito e metafísica”
[5] Vale a pena, como referencial, a leitura dos dois primeiros capítulos
do livro “O Espírito e o tempo”de José Herculano
Pires onde este analisa a relação existente entre os fenômenos
mediúnicos e a análise levada a cabo pelos povos primitivos.
[6] Barthes, Roland “Ideologias”, p. 132
[7] Bakhtin, Mikhail “Marxismo e Filosofia de Linguagem”,
p. 34
[8] Bakhtin, Mikhail “Marxismo e Filosofia de Linguagem”,
p. 31-32
[9] idem, p. 32
[10] Eco, Humberto “Apocalípticos e Integrados” p.
239
[11] Eco, Humberto “Apocalípticos e Integrados” p.
242
[12] Valor de uso e Valor de troca são conceitos marxistas, onde
o valor de troca é o valor monetário de um bem. E o valor
de uso é o aspecto de funcionalidade intrínseca. Assim,
o valor de uso de uma geladeira é conservar alimentos, enquanto
seu valor de troca é R$xxx,xx nas Casas Bahia.
[13] G.Chakhnazárov, IúKrássine “Fundamentos
do Marxismo-Leninismo”, p. 6.
[14] Vale lembrar aqui o conceito espírita, que estabelece trabalho
como toda ocupação útil.
[15] Moura, Tarcísio in “As razões do Mito”,
p. 50
Fonte: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/estudo/o-mito.html
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