“Com
uma palavra para cada coisa, todos se entediariam”.
Allan Kardec, O Livro dos
Espíritos, introdução, item I
A frase que encabeça este artigo foi escrita por Kardec praticamente
na abertura da obra máxima da doutrina. Refere-se o codificador
às dificuldades da linguagem para a expressão de pensamentos
e idéias não conhecidas. Essa dificuldade foi sendo apresentada
ao longo do trabalho entre os Espíritos e os Médiuns para
a produção do texto da nova doutrina. O exemplo apresentado
foi da palavra alma em que “a divergência de opiniões
sobre a natureza da alma provém da aplicação particular
que cada um dá a esse termo”.
No entendimento e na aplicação que se dá às
palavras, portanto, criam-se ideias distintas, diferentes e esse fato
é fácil de ser verificado no processo de comunicação.
Kardec expõe sua idéia sobre essa questão, solicitando
que “o mal está em a língua dispor somente uma
palavra para exprimir três idéias (no caso da alma)”.
A presente preliminar tem por objetivo chamar a atenção
para as primeiras preocupações do codificador do espiritismo,
quanto ao processo de comunicação de suas bases e de seu
conteúdo. Principalmente, tendo em vista as idéias novas
que seriam apresentadas pela doutrina que estava nascendo. Com efeito,
a expressão dessas novas idéias estaria na razão
direta do entendimento geral, o que imporia a criação
de vocábulos especiais para a tradução fiel do
pensamento.
O espiritismo, portanto, inaugurou um novo processo na adoção
de símbolos da comunicação, através
da palavra escrita e falada com vistas à sua compreensão.
Allan Kardec, nesse período, esteve entre os comunicadores invisíveis,
os espíritos, e os intermediários visíveis: os
médiuns. A mensagem, numa síntese, referia-se à
origem, natureza e o futuro dos espíritos, os agentes inteligentes
do universo. O resumo dessa mensagem, entre os emissores e receptoras,
pode ser conhecida através da leitura oportuna do item VI da
já citada introdução ao estudo da Doutrina
Espírita de O Livro dos Espíritos.
Tratava-se, portanto, de uma comunicação nova, com o frescor
das idéias renovadoras, em meio a uma fermentação
de idéias filosóficas e científicas antigas e preconceituosas.
Paris era o centro de toda essa fermentação do pensamento.
Diversas correntes fomentavam o choque natural dos conceitos e interpretações
sobre o homem, a vida e o futuro da humanidade. E o espiritismo, como
fenômeno no processo da Comunicação Social, somente
pode ser entendido, se examinado dentro de um panorama cultural, situado
em sua determinada época, as correntes filosóficas, científicas,
religiosas, políticas, econômicas, sociais a que estamos
nos referindo encontravam-se envolvidas pelas idéias do Positivismo,
Evolucionismo, Ecletismo, Ceticismo, Catolicismo, Materialismo. A força
do pensamento de Emmanuel Kant, René Descartes, e outros pensadores,
e as três linhas de pensamento estavam já deliberadas:
humanismo, racionalismo e universalismo.
Como mensagem doutrinária, o Espiritismo surgia em um
meio em que a Comunicação Social refletia muito
mais a tendência das elites intelectuais na discussão acadêmica.
Deolindo Amorim, vigoroso pensador espírita, assim se expressa
sobre esse assunto: “A doutrina vinha com sua mensagem, essa
mensagem teria que ser comunicada a todos, através de linguagem
simples e clara: mensagem que fala á inteligência pela
luz da razão, mas também fala ao coração
pela pureza do sentimento, pela força da fé sem medo e
sem dogmas”, Deolindo Amorim, livro Allan Kardec, O Homem,
a Época e o Meio, Edição do Instituto de Cultura
Espírita de Juiz de Fora-MG.
O que lemos nas linhas acima possibilita uma reflexão mais profunda
sobre o conteúdo da doutrina e os meios pelos quais deverá
ele ser levado ao conhecimento geral. Diz Deolindo Amorim: “a
doutrina vinha com sua mensagem, e essa mensagem teria que ser comunicada
a todos”.
Tal pensamento havia anteriormente já sido exposto pelo próprio
codificador: “Dois elementos devem contribuir para o progresso
do Espiritismo: o estabelecimento teórico da doutrina e os meios
de popularizá-lo. O desenvolvimento que ela toma todos os dias
multiplica as nossas relações, que mais e mais avultarão
pelo impulso da nova edição do O Livro dos Espíritos
e conseqüentes publicidades da doutrina”.
Considerando-se o fato de que a doutrina espírita toca em todas
áreas do conhecimento humano, compreende-se que, por
conseqüência, envolve também a comunicação
social, pois esta área refere-se a todos os processos de
relacionamento. Mais especificamente, a comunicação
social, permite o intercambio essencialmente social das experiências
humanas.
Ao desenvolver as séries diferentes de comunicação,
o homem tornou possível a vida social. A origem, como se sabe,
parte do pensamento, palavra oral, a escrita e assim sucessivamente.
Ao colocar nas prateleiras de algumas livrarias públicas de Paris,
exemplares de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec introduzia
o espiritismo no processo de comunicação social.
Pensamentos, idéias, a palavra escrita e o livro como meio, faziam
refletir o conhecimento humano dentro da comunicação
social.
Como a comunicação significa a ação
ou ato de comunicar, disso decorre, por fenômeno natural,
que qualquer informação, mensagem, notícias que
expressem o pensamento e que seja passada de qualquer forma, pertence
à comunicação.
Em termos de objetivos, a comunicação social,
sendo utilizada pelo Espiritismo, amplia o conhecimento sobre as teses
espíritas a respeito dos problemas humanos e se estende como
contribuição à reflexão do homem.
Assim, podemos estabelecer dois tipos de públicos que são
objetos da comunicação social espírita: o publico
interno das instituições e o público externo (inclusive
o público não espírita). O conhecimento espírita
de transforma em cultura espírita na medida que as propostas
da doutrina são vivenciadas. O resultado do conhecimento teórico
e das experiências práticas resulta num caldeamento cultural.
As propostas do espiritismo para as mudanças sociais, penetrando
em todas as camadas da sociedade, permitem o enraizamento da doutrina
na cultura do mundo.
Todos os meios, processos, recursos e instrumentos utilizados para essa
finalidade pertencem à comunicação Social.
A informação verbal, a divulgação, a propaganda,
a publicidade, fazem parte da comunicação.
O objetivo do espiritismo é o homem, o espírito encarnado,
a humanidade. A doutrina se destina ao corpo social do planeta: a grande
coletividade humana. Por esse fato, torna-se imperioso que os espíritas
esclarecidos, convictos e responsáveis destinem o seu trabalho
ao meio social em que vivem.
A doutrina não deve ficar enclausurada entre as paredes das instituições
espíritas. Ela precisa penetrar os meios sociais e lançar
aí a luz do conhecimento. Deve, entretanto, ficar bem claro,
que a atuação ou a utilização dos meios
de comunicação social pelo espiritismo não
possui o caráter doutrinal, tornando ou pretendendo tornar hegemônica
a doutrina em relação a outras correntes filosóficas
e religiosas.
A comunicação social espírita visará, em
todos os campos em que atuar, proposta de uma reflexão sobre
a interpretação do espiritismo a respeito da vida e dos
acontecimentos que encerram as experiências e os problemas do
homem e da sociedade.
Compreendida na acepção correta, como sendo a maneira
certa de agir a fim de obter o que se deseja, a palavra política
da comunicação social espírita, cabe bem no
caso em que estamos examinando. Entre a doutrina e a sociedade encontra-se
o meio pelo qual esta última tomará conhecimento
daquela, e também em que o meio espírita conhecerá
o resultado da comunicação empreendida.
Bibliografia
1. O Livro dos Espíritos, Allan Kardec
2. Obras Póstumas, Allan kardec
3. O Homem, a Época e o Meio, Deolindo Amorim
4. A Filosofia de uma Política de Comunicação para
o Espiritismo, Luiz Sgnates, tese apresentada no Fórum Nacional
de Espiritismo, Brasília-DF novembro de 1998.
5. A Interatividade na Comunicação, Éder Favaro,
trabalho de análise e comentário.