A Umbanda se formou a partir de elementos
do espiritismo kardecista, do catolicismo popular, e das tradições
africanas e indígenas e, ao longo de sua historia, incorporou
elementos orientais, esotéricos, ocultistas, e da chamada Nova
Era. Embora o mito fundador faça remontar a origem da Umbanda
a Zélio de Moraes – que recebeu a missão de fundar
uma nova religião pelo Caboclo Sete Encruzilhadas, quando Zélio
teve uma manifestação mediúnica de incorporação
com esta entidade em um centro espírita em Niterói –
sua origem se dá de forma rizomática, sem direção
única e sem controle centralizado (Giumbelli, 2002; Nogueira,
2017), com a consequente falta de um corpo doutrinário único
e a variabilidade de rituais.
Nessa variabilidade, podemos encontrar características comuns
e definir a Umbanda mediante alguns traços distintivos: a crença
na vida após a morte, na existência dos espíritos
e na possibilidade de se comunicar com eles; a incorporação
ritual, ou seja, a manifestação dos espíritos,
chamados de entidades, no corpo dos médiuns, mediante o qual
agem e falam; a representação da sociedade brasileira,
mediante as entidades; a consulta com as entidades incorporadas, de
quem as pessoas recebem eventualmente conselhos e tratamentos para problemas
espirituais, de saúde, financeiros, emocionais e de relacionamento;
a crença na reencarnação e na possibilidade de
os humanos e os espíritos evoluírem mediante a prática
da caridade; os pontos cantados, que podem ser acompanhados pelos atabaques;
os pontos riscados (desenhos que identificam a entidade e constituem
pontos de força); as oferendas para as entidades.
No Japão, a Umbanda se espalhou com a imigração
dos brasileiros, na maioria descendentes de japoneses, e se mantêm
por processos transnacionais de circulação de pessoas,
espíritos, materialidades, visões de mundo, valores e
afetos. A formação e dissolução de grupos
religiosos e de terreiros se entrelaça com projetos migratórios
(temporários ou permanentes) e sua mudança ao longo do
tempo, deslocamentos internos, voltas ao Brasil (às vezes, seguidas
por retornos ao Japão), caminhos de vida que se cruzam e separam,
diálogos com o mundo espiritual, e a relação com
o território e a sociedade japonesa.
A concentração dos brasileiros nas cidades mais industrializadas
e o isolamento da sociedade japonesa – causado, sobretudo, pela
barreira linguística – favorecem uma intensa socialidade
entre brasileiros (Kataoka, 2021) e a busca de cuidado, de significado
e de uma rede de apoio na esfera religiosa. Isso se manifesta em uma
maior adesão às religiões (incluído aquelas
de origem japonesa) mais difundidas no Brasil, como as igrejas neopentecostais,
o protestantismo brasileiro, o catolicismo, o espiritismo, a Umbanda,
e os movimentos Soka Gakkai e Sekai Kyuseikyo (Quero; Shoji, 2014).
Este trabalho visa explorar os processos de expansão e desenvolvimento
da Umbanda no Japão, as imbricações com os processos
migratórios, a relação com a sociedade e o território
de acolhida, e a circulação, no Japão e entre o
Japão e o Brasil, de pessoas, espíritos, visões
de mundo, valores e materiais.
A pesquisa se baseia numa primeira exploração da imigração
dos brasileiros e da Umbanda no Japão, começada em outubro
de 2023, numa pesquisa etnográfica no CURO – Centro
de Umbanda Reino dos Orixás, com sedes nas províncias
de Toyama e de Shizuoka e dirigido por Mãe Mariliza de Morães
Nezen – e na análise das redes sociais, especialmente de
grupos e páginas de Facebook de brasileiros no Japão e
da Umbanda no Japão.
O artigo se estrutura em três seções. Na primeira
seção, apresento uma análise socioantropológica
da migração de brasileiros para o Japão; na segunda
seção exploro a difusão da Umbanda no Japão
e os processos de formação, desenvolvimento, ramificação
e dissolução dos terreiros; na terceira seção
analiso a criação de redes e relações mediante
a internet e a circulação de pessoas, objetos e ideias.
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Fonte: História
e religiosidade I: religiões mediúnicas e afro-brasileiras
> https://drive.google.com/file/d/1DB190KieDX5KCjuTT7mZ8Gut7pkT-wMC/view
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