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“Graças te rendo, meu Pai, Senhor
do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos
e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos.”
(Evangelho Segundo o Espiritismo cap. VII – itens 7 a 10)
De que coisas ou mistérios
Jesus falava? Estaria Jesus condenando a sabedoria? A ciência
e a filosofia? A busca pelo conhecimento? A prudência nas deliberações
da vida? Estaria Jesus aclamando a ignorância e falta de cautela
nas decisões pessoais?
- Não! Claro que não!
É impensável que o mestre, da altura de sua sabedoria,
plena de amor e misericórdia incondicionais, tivesse essa intenção.
Seria uma total incoerência. É preciso conhecer melhor
a figura de Jesus e seu contexto histórico. É preciso
compreender melhor a essência de sua mensagem. Uma mensagem singela,
desprendida, marcada pelo amor, pela caridade e pela ampla aceitação
de todas as imperfeições humanas. Uma mensagem, pode-se
dizer, investida da autoridade e grandeza de um imperador, encarnada
na figura de um humilde, simples e sincero amigo. Somente dentro desse
contexto podemos buscar compreender as falas, muitas vezes enigmáticas
de Jesus.
Jesus nunca condenou a verdadeira sabedoria, aquela sempre alinhada
com a humildade e sempre contida dentro de seus devidos limites. Ele
nunca condenou a busca sincera e desprendida pelo saber. Jesus condenava
a pretensão dos que se julgavam donos da verdade, doutores de
todas as leis. Aqueles que debochavam dos humildes, dos que sonhavam
com uma vida melhor, dos que almejavam justiça pelos abusos e
humilhações por que passavam. Gente humilde com ideais
que ultrapassavam a condição material do ser humano. Eram
ideais de libertação de um jugo religioso opressivo e
tendencioso, carregado de interesses mesquinhos, daqueles que se julgavam
donos da verdade. Na visão estreita e egoísta dos pretensos
doutores da lei, esses ideais representavam uma transgressão
à lei, e não passavam de mero consolo dos ingênuos
e ignorantes.
Sob um manto religioso hipócrita,
escondia-se um materialismo mercantilista que não se preocupava
em esconder o egoísmo e a ganância. O episódio de
Jesus com os mercadores do templo, relatado no cap. XXVI do evangelho
segundo o espiritismo, retrata bem esta situação. A ganância
pelo ter em lugar de ser não se incomoda com a pureza identitária.
Por outro lado, o materialismo filosófico ou científico
puro, é um paradigma, um princípio norteador de um método
de busca pela verdade, cuja principal razão de ser, é
justamente afastar-se dos dogmas e vícios religiosos. O alvo
da crítica de Kardec não era o materialismo científico
que ele compreendia e concordava, tanto que adotou os procedimentos
da ciência na codificação. Kardec criticava o materialismo
utilitarista, que radicaliza o discurso antimetafísico e negava
a diversidade ideológica. Alardeava a liberdade de pensamento
negando-a aos outros. A posição de Kardec em relação
ao materialismo fica evidente no cap. X da Gênese onde ele trata
do homem corpóreo no item 30:
O Espiritismo marcha ao
lado do materialismo, no campo da matéria; admite tudo o que
o segundo admite; mas avança para além do ponto onde
este último para. O Espiritismo e o materialismo são
como dois viajantes que caminham juntos, partindo de um mesmo ponto;
chegados a certa distância, diz um: “Não posso
ir mais longe.” O outro prossegue e descobre um novo mundo.
Todavia, não se pode deixar
de admitir que as duas formas de materialismo, apesar das motivações
e objetivos diferentes, guardam certa relação entre si,
dividem uma mesma base epistemológica ou princípio de
sustentação. É um fato que não pode ser
ignorado, mas é preciso cuidado para não se combater a
ciência em lugar de se combater uma chaga social.
É comum no meio espírita, a crítica à ciência
e aos cientistas por não admitirem o princípio espiritual,
recusarem-se a estudá-lo e não efetuarem pesquisas que
trariam muitos benefícios à sociedade. Acusa-se os cientistas
de materialistas, insensíveis e incrédulos perante tantas
provas e evidências existentes. Não raro, alguns preletores
ou palestrantes chegam a invocar “evidências” apresentadas
pela física quântica, como se a física quântica
fosse uma área a parte da ciência, e que acolhesse de forma
natural as questões do espírito. Não há
nada mais equivocado do que esta ideia, frequentemente, invocada. Apesar
de, na sua maioria, essas manifestações serem louváveis
quanto aos objetivos, são totalmente desastrosas quanto ao entendimento
da questão. Existe aqui a mistura de um certo viés farisaico,
oposto ao ensino de Jesus, e dissonante da proposta original de Kardec,
com falta de estudo e melhor compreensão da doutrina e seus aspectos
filosóficos e científicos.
Em primeiro lugar é preciso entender como funciona a ciência
material e porque esta adota o paradigma materialista. Em segundo lugar
é preciso entender que, no meio científico, existem espíritas,
judeus, católicos, protestantes, evangélicos, ateus, agnósticos
e mais uma lista com diferentes filosofias e concepções.
É por este motivo, dentre outros, que a ciência deve ser
neutra. O cientista nunca é neutro, mas ciência precisa
ser. Do mesmo modo, o espírita deve ser tolerante com outras
formas de pensamento e não querer se elevar à condição
de doutor da lei. O espírita precisa reconhecer sua presença
minoritária na sociedade e perceber que atacar o materialismo
científico não é a forma correta de divulgar a
doutrina e estimular a pesquisa dos fenômenos espíritas.
A metodologia de trabalho da ciência, o chamado método
científico, pressupõe a validação ou reprovação
de fatos, observações ou leis, por meio de testes e experimentos,
que devem ser exaustivamente efetuados e reproduzidos, por qualquer
cientista em qualquer laboratório do mundo. Acho que só
isso basta para evidenciar as enormes dificuldades para estudo dos eventos
ligados ao espírito. Devemos lembrar ainda, que o espírito
é um ser independente, dotado de livre arbítrio e não
uma cobaia de laboratório. Se ainda não se apresentou
para uma pesquisa sistemática dentro da metodologia científica
é porque não chegou a hora. Além disto, o problema
do materialismo não está na ciência, mas sim no
comportamento egoísta do homem dentro da sociedade.
Outro cuidado que o espírita precisa ter é de não
embarcar em teorias e especulações sensacionalistas que
tentam corroborar as questões do espírito com os conceitos
da física quântica, dentre outros. Isso reflete falta de
informação, expondo a doutrina espírita ao ridículo
perante a comunidade científica. Sem qualquer pretensão
de apresentar um curso de física quântica, inviável
no escopo deste artigo, vamos rabiscar algumas ideias simples, sem adentrar
em detalhes técnicos. Isso talvez ajude o confrade espírita
a se posicionar melhor diante dos divulgadores apressados das novas
teorias da ciência em permanente expansão.
A física quântica estuda a estrutura microscópica
da matéria. Objetiva compreender as propriedades físicas
dos materiais, tendo em vista, principalmente, suas aplicações
tecnológicas. Sugiro que o leitor assista os vídeos a
seguir. São curtos mas, bem-feitos, confiáveis e didáticos.
Depois continuaremos com nossas considerações.
1) - Física Quântica EXPLICADA
- https://www.youtube.com/watch?v=eA1E2HGdbKg
2) A Superposição Quântica
Explicada - https://www.youtube.com/watch?v=RmnPPXKDTL4
Não se preocupe se você não entender muito bem o
problema. Lembre-se do aviso no final do vídeo (1). Isso ocorre
porque a física quântica, ou mecânica quântica
como é preferível, lida com objetos muito pequenos e invisíveis
para nós. Por serem muito pequenos estão sujeitos a comportamentos
que nunca vimos no mundo macroscópico. Não é que
eles não ocorram no mundo macroscópico, apenas a ocorrência
é imperceptível. Imagine luz incidindo sobre um objeto
qualquer, uma caneta, por exemplo. Você só vê a caneta
porque a luz que atinge a caneta é refletida para seu olho. Como
os fótons de luz são muito pequenos comparados com a caneta,
esta não sofre nenhuma perturbação perceptível.
Mas suponha que em lugar da caneta seja um elétron. Agora, o
tamanho do elétron e do fóton de luz são parecidos,
desta forma, imaginando que você estivesse observando o elétron,
o que você veria seria o elétron depois de ter sido perturbado
pela colisão do fóton e não o elétron antes
da colisão. Se você não estiver olhando, os fótons
continuam perturbando o elétron, mas você não sabe
o resultado dessa perturbação. Por isso é que se
diz que o observador altera o estado do objeto observado.
É isso que atiça a imaginação de muita gente
que sai por ai alegando que a consciência do observador pode alterar
a realidade a sua volta, dando margem a todo tipo de mistificação,
puramente especulativa e sem qualquer respaldo científico verdadeiro.
Alguns vão mais longe, alegando que a mecânica quântica
prova a existência do espírito (consciência). Mas
isso não corresponde à verdade. Matematicamente, pode-se
representar as probabilidades de se encontrar uma determinada partícula
em uma determina situação, num determinado lugar, por
exemplo, por uma equação chamada de função
de onda. O nome vem do fato que as partículas podem se comportar
como matéria ou como onda.
Quando se faz a observação, a função de
onda que, antes da observação, representava um conjunto
de possibilidades, é colapsada no estado coincidente com o instante
da observação e passa agora a mostrar apenas uma das possíveis
situações que faziam parte do conjunto. Imagine uma moeda
atirada para cima sobre uma mesa. Antes dela cair mostrando cara, ou
coroa, as duas possibilidades eram possíveis. Mas ao tocar a
mesa, só poderá mostrar cara ou coroa. Não foi
o jogador que determinou a situação da moeda. Ela já
tinha as duas possibilidades atreladas a ela antes de ser jogada. O
observador (jogador) apenas provocou o colapso ou realização
de uma das possibilidades já existentes. E o resultado pode mudar
nas próximas jogadas. Não adianta você imaginar
que sua consciência vai determinar sua sorte com a moeda. Todos
os resultados possíveis já fazem parte da natureza da
moeda. Essa caraterística probabilística do mundo quântico,
não é nenhum pouco intuitiva, dai nosso estranhamento
com a realidade quântica. De qualquer modo, esse aspecto probabilístico
da física quântica, representando a natureza dual de objetos
microscópicos, acaba atiçando a imaginação
de muita gente. É preciso muito cuidado com tudo isso. Até
existem pessoas preparadas, com conhecimentos, que fazem especulações
interessantes sobre questões complexas, mas não representam
o consenso da comunidade científica. São opiniões
pessoais isoladas, geralmente divulgadas em forma de livros, e não
em periódicos científicos sujeito a exame crítico
de outros especialistas. Não devem ser tomadas como fatos comprovados.
Por outro lado, a ciência médica tem buscado estudar a
relação entre espiritualidade e saúde em diversos
grupos de pacientes. Existem trabalhos analisando o efeito de preces
na cura de certas moléstias. Mas são de caráter
espiritualista e não especificamente espírita. Isso mostra
que a ciência não está refratária ao estudo
das questões espirituais, mas tudo precisa ser feito dentro de
uma metodologia adequada, obedecendo protocolos científicos e
éticos apropriados. Existem também estudos de casos de
experiência de quase morte, EQM, nas quais pacientes vítimas
de parada cardiorrespiratória, sem atividade cerebral, dão
testemunho de presenciar procedimentos e acontecimentos que ocorreram
na UTI durante o tempo que estiveram “quase mortos”. Esse
estudo indica que a consciência, que para nós espíritas
representa o espírito, não é produto de uma reação
físico-química dentro do cérebro, mas sim algo
não pertencente ao cérebro, é algo que pode se
deslocar para fora do cérebro.
Por isso tudo, é falsa a alegação que a boa ciência
ignora as questões do espírito. Todavia adota procedimentos
controláveis e adequados aos paradigmas materialistas próprios
da ciência. Isso não significa que não haja correntes
contrárias a esse estudo. Sempre existem grupos, dentro da comunidade
científica e dentro da sociedade, contrários ao estudo
das questões do espírito. O que importa é nós
espíritas termos em mente a importância da serenidade,
da tolerância com outras formas de pensamento e com o contínuo
e atento estudo da doutrina espírita, lembrando a orientação
do espírito de verdade na dissertação IX do cap.
XXXI do livro dos médiuns: “Espiritas! Amai-vos, eis
o primeiro ensino; instrui-vos, eis o segundo”.
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Cesar Boschetti
Físico aposentado do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais de São José dos Campos, SP
- INPE. Editor consulente do GeaE (https://geae.net.br/) onde tenho
vários artigos publicados. Atuo no movimento espírita
há muitos anos como trabalhador da Fraternidade Paulo de
Tarso de São José dos Campos, SP.
Fonte: texto enviado pelo autor
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