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Salomão Jacob Benchaya
> Jargão Espírita e Comportamento Confessional
A palavra "jargão"
aplica-se, mais apropriadamente, à gíria profissional,
ou seja, a linguagem carregada de expressões usuais no âmbito
de cada profissão ou atividade, geralmente ininteligível
para os não-integrantes desses grupamentos. Assim, diz-se "jargão
médico", "jargão econômico" para
designar o linguajar específico dos profissionais dessas áreas.
Para os propósitos deste comentário, forçando
um pouco a semântica, falarei do "jargão espírita"
ou, mais especificamente, do jargão espírita e do comportamento
confessional, notadamente quando dirigentes e expositores espíritas
se apresentam em ambientes não-espíritas.
O jargão espírita ou jargão dos espíritas
é observado quando um interlocutor espírita emprega
a terminologia espírita ao dirigir-se a pessoas não-espíritas
ou neófitas, sem explicar o significado de expressões,
tais como "perispírito", "ectoplasma",
"palingenesia", "mediunidade", "umbral",
"mesas girantes", "obsessão", etc. Torna-se
imperativo que, nas conversações ou nas exposições
doutrinárias, haja o cuidado de se traduzir, conceituar ou
tornar significativas tais expressões, sem o que não
haverá comunicação satisfatória.
O comportamento confessional é caracterizado pelo uso de expressões
típicas e manifestação de hábitos e atitudes
específicas de ambientes religiosos. Em muitos centros espíritas,
as pessoas costumam tratar-se por "irmãos", não
são bem aceitas manifestações de alegria e descontração,
no auditório não são permitidas conversas ou
só se fala sussurrando, há placas dizendo "O silêncio
é uma prece", certas vestimentas são desaprovadas,
alguns chegam a conduzir "religiosamente" o "Evangelho
Segundo o Espiritismo" debaixo do braço,
assim como um protestante carrega a Bíblia.
Já tive oportunidade de participar de diversos eventos promovidos
por organizações espíritas e destinados ao público
em geral. São cursos e seminários em dependências
de universidades, fóruns e mesas-redondas em agremiações
de profissionais e, mesmo, as tão comuns conferências
públicas de médiuns famosos. É sabido que, em
sua maioria, o público que acorre a esses eventos é
o público espírita. Mas, uma parcela não o é.
Acontece que esta parcela, justamente a que é formada por pessoas
interessadas em conhecer o Espiritismo, acaba sendo "agredida"
ou submetida a constrangimentos pelo uso do "jargão espírita"
ou pelo "comportamento confessional". No mínimo,
tais pessoas se sentem excluídas no ambiente por não
entenderem o linguajar e os hábitos religiosos. É como
eu me sinto quando, tendo de comparecer a um culto em igreja católica,
por exemplo, eventualmente acompanho, maquinalmente, os movimentos
de "senta/levanta" dos fiéis para não ser
olhado como um "estranho no ninho".
A propósito, quando, recentemente, estive em Belém do
Pará, em visita à minha família de origem e acompanhei
meu pai à sinagoga, senti-me como um peixe fora d'água,
tendo que simular a entoação das orações
já há muito esquecidas e os gestos rituais do judaísmo
para não sofrer a reprimenda expressa nos olhares furtivos
dos que me viam como um renegado que havia abandonado a religião
dos meus antepassados.
Lembro-me de como achei estranho, há 42 anos atrás,
quando ingressei no movimento espírita jovem, que todos se
tratavam de "irmão". Era "maninho" pra
cá, "maninha" pra lá. Expressões de
santidade no rosto, leveza no andar, falava-se baixinho para não
perturbar o ambiente espiritual.
Então, não faz sentido que os freqüentadores de
instituições espíritas tenham que assumir, nesses
ambientes, atitudes e comportamentos estereotipados e, o que é
pior, que esses procedimentos sejam transpostos para ambientes não-espíritas.
Isso cheira a hipocrisia.
Salomão Jacob Benchaya -
Economista, 74,
ex-presidente da FERGS e
do CCEPA, Secretário Geral
da CEPA, presidiu a Comissão
Organizadora do XVIII
Congresso da CEPA.
Fonte: http://www.espiritnet.com.br/Abertura/Ano2005/maio.htm
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