Com vistas a colaborar com essa
discussão, este capítulo tem a intenção
de oferecer um referencial teórico, metodologicamente distanciado
das paixões que envolvem aqueles que se dedicam à
discussão do aspecto religioso do Espiritismo, de forma a
fornecer reflexões a respeito do ambiente histórico
em que essa doutrina foi cunhada. Para tentar compreender a questão,
pretendemos, portanto, estabelecer um breve diálogo com os
pensamentos de Kardec acerca do conceito de religião. É
importante frisar, porém, que este diálogo será
estabelecido em relação à época e também
levando-se em consideração como a cultura influenciou
o seu pensamento e o de seus contemporâneos. Falamos aqui
de cultura, porque foi a partir de um modismo extremamente popular,
denominado “as mesas girantes”, que surgiu o Espiritismo.
(...)
“RELEGERE” OU “RELIGARE”?
Para compreender o conceito de religião ao qual abraçou
Kardec, temos que avaliar algumas questões de cultura e conceito.
O termo religio, antes de pertencer ao domínio específico
do religioso, esteve presente no cotidiano de Roma e foi empregado
tanto nos cultos romanos quanto nos cultos da religião cristã.
O termo em questão navegou entre duas etimologias possíveis,
uma de origem cristã e outra romana, e a pergunta é:
como podem dois princípios tão diferentes terem designado
coisas tão distintas? Dubuisson explica que a palavra religio
“só podia ser o sentido primeiro e muito especializado
de uma palavra latina antes ordinária e que permaneceu assim
até que os primeiros pensadores cristãos se apoderaram
dela e favoreceram seu excepcional destino.”
(...)
Augusto César Dias de Araújo,
doutor em Ciência da Religião pela UFJF, defende haver
no Espiritismo um caráter polissêmico, quando navega
entre a Filosofia, a Ciência e a Religião. Em seu artigo
datado de fevereiro de 2010, Araújo afirma que o Espiritismo
tratar-se-ia de um híbrido. Em seus estudos, ele afirma que
Kardec posiciona o Espiritismo numa posição de ponte
entre a Filosofia, a Ciência e a Religião