Departamento de Psicologia, Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, MG, Brasil
Revista de Psiquiatria Clínica
Rev. psiquiatr. clín. vol.40 no.3 São Paulo 2013
SÉRIE MENTE - CÉREBRO
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RESUMO
Com o desenvolvimento, na segunda metade do século XX, das novas
tecnologias de neuroimagem para estudar o funcionamento do cérebro
humano, uma nova onda de entusiasmo com as explicações
materialistas dos fenômenos mentais invadiu os departamentos de
filosofia e psicologia em todo o mundo. O auge de tudo isso foi a assim
chamada "década do cérebro" nos anos 1990. Entretanto,
um exame mais detalhado dos argumentos apresentados por esses novos
materialistas revela padrões recorrentes de analogias e metáforas,
além de uma velha estratégia retórica de apelar
para um futuro distante, no qual todos os problemas serão resolvidos.
Este trabalho pretende mostrar que essas novas formas de materialismo
repetem estratégias discursivas de versões mais arcaicas
do pensamento materialista, sobretudo do materialismo francês
do século XVIII e do materialismo alemão do século
XIX. Finalmente, uma interpretação para o eterno retorno
do materialismo será oferecida.
_____________
(texto inicial)
Para uma parte significativa de nossa sociedade moderna, o materialismo
parece ser o resultado natural e inevitável do avanço
das investigações científicas. De fato, essa imagem
normalmente propagada e aparentemente irretocável de uma identidade
entre ciência e cosmovisão materialista não deixa
de ter certa legitimidade, na medida em que um número significativo
de cientistas faz questão de afirmar sua adesão ao materialismo,
além de dedicar parte de seu tempo à popularização
dessa ideia. Entretanto, essa imagem não corresponde exatamente
à realidade. Quando analisada mais de perto, ela se revela bastante
limitada, além de problemática, na medida em que há
também muitos cientistas que se posicionam claramente contra
a visão de mundo materialista, demonstrando, assim, a independência
entre ciência e materialismo.
O objetivo do presente trabalho é desmascarar essa falsa identidade
e mostrar como ela tem gerado visões míticas sobre a natureza
humana, tomando como exemplo as tentativas mais radicais na neurociência
contemporânea de eliminar a autonomia da experiência subjetiva
humana. Isso geralmente acontece em três estágios: inicialmente,
algumas capacidades, previamente atribuídas aos seres humanos,
são agora atribuídas ao cérebro ou a uma parte
dele; em seguida, proclama-se uma completa fisicalização
da natureza humana em geral, que é assim reduzida a um mero produto
da atividade cerebral; finalmente, essa visão materialista é
propagada como o resultado inevitável da ciência contemporânea.
Para atingir o objetivo anteriormente mencionado, o presente artigo
será dividido em quatro partes. A primeira seção
estabelece algumas definições conceituais, com o intuito
de facilitar tanto a compreensão da ideia central quanto a sua
discussão subsequente. A segunda seção mostra como
uma parte significativa da neurociência contemporânea está
comprometida com o materialismo e com a promessa de um novo futuro para
a humanidade. A terceira seção mostra a grande similaridade
entre alguns argumentos dos materialistas contemporâneos e as
metáforas empregadas pelos materialistas dos séculos XVIII
e XIX, caracterizando, pois, aquilo que eu chamo aqui de "o eterno
retorno do materialismo". Finalmente, a quarta seção
traz o argumento de que a assimilação e a reprodução
acrítica e ingênua da ciência contemporânea
favorecem a criação e a propagação de mitos
e ideologias, contra os quais devemos estar sempre atentos.
Definições preliminares
Em primeiro lugar, é preciso
esclarecer por que o materialismo não é uma teoria propriamente
científica. Embora esteja hoje intimamente associado à
imagem contemporânea de ciência, ele é, em seu sentido
mais geral, uma tese metafísica acerca da natureza última
da realidade, que unifica todo o campo da experiência humana,
reduzindo-o, em última instância, a algum princípio
explicativo derivado (válida ou invalidamente) do conceito de
matéria, fornecendo ao final uma visão de mundo. Em outras
palavras, o que identifica todo e qualquer defensor do materialismo
é sua adesão à tese de que tudo o que existe no
mundo é material (1). No entanto,
uma afirmação desse tipo é tão geral e abrangente
que jamais pode ser submetida a qualquer teste empírico particular,
ultrapassando, portanto, a esfera do conhecimento científico
possível. Ora, pelo menos desde a Crítica da Razão
Pura (1), não é mais possível
ignorar que a totalidade do mundo é apenas uma ideia racional,
mas não um objeto que possa ser dado na experiência. Da
mesma forma que a matéria, pensada como condição
última da experiência, também não pode ser
confundida com nenhum fenômeno empírico particular, pois,
nesse caso, ela teria que ser explicada por outra coisa diferente dela.
Ou seja, se a matéria é pensada como o fundamento absoluto
de toda experiência humana, ela mesma nunca pode aparecer como
objeto de nossa experiência, permanecendo, pois, além do
alcance do nosso conhecimento científico. Assim, uma vez que
a ciência deve sempre estar solidamente amparada em evidências
empíricas, nenhuma teoria científica, por mais bem estabelecida
que esteja, pode implicar o materialismo. E é exatamente por
isso que não podemos confundi-lo com uma teoria científica
nem tratá-lo como se fosse uma. Logo, a expressão 'materialismo
científico' pode servir no máximo para designar a posição
ideológica ou o status profissional de seus adeptos (cientistas),
mas de forma alguma ela significa que o que eles estão propondo
seja uma teoria científica. Desfeita essa confusão, deve
ficar claro que a legitimidade da ciência não depende da
adesão do cientista à visão de mundo materialista,
mas somente de seu compromisso com a lógica e a metodologia científica.
Assim, tudo o que a ciência pode fazer é descobrir a existência
de fenômenos e de suas relações, mas jamais a essência
e a natureza última da realidade, já que estas últimas
não podem ser dadas no nível empírico, requerendo,
portanto, um conhecimento de outro tipo. Além disso, embora a
prática científica possa estar atrelada a uma visão
de mundo – como demonstram os estudos de Fleck (2)
e Kuhn (3), a ciência é uma
atividade epistêmica em constante desenvolvimento, de forma que
sua cristalização em uma visão de mundo seria contrária
à sua própria natureza. Em suma, ciência e materialismo
são coisas distintas, que só por um deslize conceitual
podem ser tratadas como idênticas.
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Fonte:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832013000300007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
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