
Quando pensamos em educação
e valores, educação e cidadania, educação
moral, ou em outras diversas formas de nomear a interrelação
entre educação e ética, é muito comum
que as escolas e instituições religiosas afirmem que
trabalham valores e solidariedade através de visitas a abrigos,
asilos e instituições de reclusão (menos frequente
nesse último caso).
Minha experiência com esse tipo de visita tem se revelado
um caso exemplar, não por ser excelente, longe disso, mas
por exemplificar o que acontece em diversos casos desse tipo. Eu
fazia parte de dois grupos de estudo de espiritismo para jovens
quando começamos a fazer visitas para crianças e adolescentes
vivendo em um abrigo de nosso bairro, enquanto o Poder Judiciário
decidia se eles podiam voltar a conviver com
alguém da família de que tinham sido afastados, ou
se deveriam ser adotados por outra.
A primeira experiência que
tive deu-se durante um ano em que fui aluna de um desses cursos
de espiritismo para jovens. Nessa época, fazíamos
visitas uma vez por mês, geralmente sem nenhuma proposta de
brincadeira ou atividade educativa para realizar com as crianças.
Em pouco tempo, comecei a sentir que o ambiente ficava um tanto
caótico com nossas visitas. A impressão era de que
acelerávamos bastante as crianças com diversas brincadeiras,
e depois de um tempo, aquela agitação toda culminava
em brigas e em alguns pequenos isolados das atividades principais.
Já os jovens alunos que visitavam o abrigo… Alguns
pegavam as crianças no colo, jogavam bola, etc, mas outros
ficavam à margem, sem conseguir extravasar uma ideia criativa
ou uma tentativa de interação com os meninos e meninas.
Ao voltarmos para nossas casas espíritas,
sobrava em mim uma sensação de insatisfação,
de incompletude com o que tínhamos feito. Especialmente porque
era mais fácil interagirmos com as crianças pequenas,
mais ingênuas e dóceis, do que com garotas entrando
na adolescência, que já revelavam muito menor disposição
para estar conosco; e o problema é que justamente a adolescência
é um período mais delicado da vida de uma pessoa,
e seria muito importante, por isso, conseguir estabelecer um diálogo
com as jovens. Tentando nos aproximar dessas últimas, em
uma visita, convidamo-las, assim, de improviso, a pintar as unhas.
Após presenciar essa cena, um amigo comentou:
Não me senti bem ao
estar naquela visita. É como se estivéssemos “brincando
de casinha”, passando um tempo de ilusão, sem ajudá-las
a enfrentar melhor a realidade que vivem.
Aquelas palavras me calaram fundo.
Porque expressavam a realidade, ou, ao menos, uma parte dela.
No ano seguinte, tive a oportunidade de dirigir os dois grupos de
estudo dos quais participava. Decidida a fazer algo de melhor pelas
crianças e adolescentes do abrigo, também buscava
que os grupos de jovens se envolvessem nesse trabalho. O problema
era que tínhamos poucos voluntários. Então,
preparar atividades de estudo para os grupos nas casas espíritas
junto com atividades e propostas para o abrigo não estava
nada fácil. Isso acontece nas escolas também. Geralmente
os professores, ocupados com as matérias que precisam dar,
organizam uma simples visita a um asilo ou abrigo, com lanchinho,
um violão e uma conversa com os idosos. E as visitas ocorrem…
Duas vezes por ano. Como criar um vínculo de amizade com
uma frequência de visitas tão baixa?
No caso de uma das casas espíritas, tínhamos autonomia
para usar o tempo de estudo com os jovens como quiséssemos,
então apresentei a eles informações de uma
pesquisa do IPEA sobre a questão das crianças e jovens
vivendo em abrigos no Brasil e montamos uma peça de teatro
sobre a história de Jesus para apresentar para as crianças
menores. No dia da visita ao abrigo, após as apresentações
de teatro, convidamos as crianças para participar da peça
como personagens (algumas delas gostaram bastante de se envolver
na história). No fim da visita, cada participante fez um
cartão de presente dedicado a uma criança específica
do Abrigo.
Em outra visita, fizemos um caça-tesouro
(que as crianças finalizaram em menos de 10 minutos!). E,
no final das contas, fizemos… Duas visitas no ano.
Em uma reunião com a diretora
e o psicólogo do abrigo, na época contratado há
pouco tempo, este sublinhou que as meninas adolescentes já
não tinham mais vontade de participar do encontro conosco;
e que uma delas ficou tremendamente envergonhada ao perceber que
um dos visitantes do abrigo era um menino de sua sala de aula! A
garota não queria que seu colega soubesse onde ela vivia,
e simplesmente isolou-se em seu quarto durante toda a tarde que
passamos lá.
Essa experiência me levou
a refletir sobre diversas questões: A primeira delas era
quão precário era nosso trabalho. Os pais de alunos
e dirigentes de casas espíritas ficavam muito felizes ao
saber que fazíamos tais visitas, mas talvez eles não
conseguissem vislumbrar que pouco estávamos agregando, de
fato, para aquelas crianças e jovens: O abrigo continuava
com sérios problemas financeiros; as crianças continuavam
indo mal na escola, com poucas oportunidades de lazer e trocas afetivas;
as trabalhadoras do local estavam sem registro em carteira, pois
o abrigo não tinha condições de bancar isso,
e, consequentemente, insatisfeitas, irritadas, contrariadas quando
pegávamos os bebês no colo, já que eles iriam
pedir mais colo quando fôssemos embora; e as crianças,
conforme cresciam, ficavam cada vez mais desanimadas de interagir
com visitantes, com os quais não tinham nenhum vínculo
mais duradouro.
Alguém poderia dizer: “Mas vocês
fizeram a parte de vocês; uma tarde de brincadeiras já
é uma caridade!” Mas não seria pouco caridoso
dar alguma coisa e não nos importarmos com os problemas reais
que as pessoas enfrentam? Com esse raciocínio não
acabaríamos caindo num fatalismo individualista de entender
que “cada um deve enfrentar seus problemas, seus carmas”,
e nós só podemos dar “uma palavra de conforto”,
um ombro amigo, uma doação de 1 litro de leite? Devem
a diretoria do abrigo e os voluntários desgastar-se todo
mês com campanhas e pedidos de alimentos e materiais de limpeza
urgentes para a manutenção da instituição?
Percebi claramente que era difícil,
mas inevitavelmente necessário, compreender a verdadeira
caridade como muito mais do que ajudarmos com aquilo que nos sobra
de nossa vida corrida – um pouco de tempo de um sábado,
um pouco de dinheiro para um lanche da tarde, um pouco de afeto
doado em orações e abraços – vivida em
busca de sobrevivência e compensações. Meu desejo,
como trabalhadora espírita, hoje, é agir através
de modelos mais consistentes de atuação – seja
junto ao Poder Público, ou através de um trabalho
voluntário melhor estruturado – que tragam soluções
mais efetivas para os problemas de falta de dinheiro, de segurança
afetiva, de uma escolarização precária e frustrante
(para todos, e, especialmente, para os próprios alunos),
que atingem as crianças vivendo em abrigos.
Mesmo colocando à parte os
problemas materiais e financeiros, do ponto de vista pedagógico,
visando a uma educação que auxilie na construção
da moralidade, da afetividade e da inteligência dos educandos,
a atuação em um abrigo precisaria ser muito melhor
do que a que oferecemos. O próprio psicólogo da instituição
nos pediu para que alguém pudesse vir semanalmente visitar
a casa, criar um vínculo com as crianças. Alguém
que tivesse disponibilidade de contar histórias, ouvir insatisfações,
acolher, mediar conflitos, cuidar psiquicamente das crianças,
e, assim, ensiná-las a cuidar de si mesmas e de seus pares.
Pelo contrário, o que ocorre
na maioria das vezes é o ciclo vicioso da pobreza: O abrigo
não tem apoio institucional porque os funcionários
não são registrados; sem apoio financeiro, não
registra os funcionários; sem registro em carteira, os colaboradores
são poucos, não tem disponibilidade de tempo e de
afeto suficiente para as crianças, que ficam solitárias,
raivosas, frustradas, vão mal na escola…E perpetuam
o ciclo.
Quando, em uma das visitas, contamos
a história romanceada de Jesus, por exemplo, um dos garotinhos
do abrigo pegou as asas de anjo e assumiu esse papel; nós
sugerimos que ele fosse abençoar as pessoas e cuidar delas
em sua encenação. O anjo é a representação
da Proteção, e não seria importante para a
criança saber que pode contar com alguém que a ampare,
em um momento em que ninguém mais faça isso? Mas como
ensiná-la sobre o amor e a proteção de Deus,
de Oxalá ou dos anjos da guarda, se o menino não vivencia
fortemente, ou ao menos suficientemente, a realidade do amor e da
proteção dos adultos?
A insatisfação com
os problemas era dupla: Por um lado, a expectativa de alunos e dirigentes
de que fizéssemos as visitas ao abrigo. Por outro lado, a
consciência de que nossas visitas desestruturadas, pouco frequentes,
pouco integrativas, junto com todos os outros problemas dos abrigos,
eram uma negação dos direitos daquelas crianças.
Mas qual seria o sentido da ansiedade em “fazer caridade”,
mesmo que ela não seja tão efetiva para quem a recebe?
O sentido de “amarmos uns aos outros” seria uma simples
contabilização de atos generosos que nos dariam “pontos”
ou “bônus-hora” perante as Leis Divinas?
O sentido da caridade não seria entendermos os problemas
dos outros como nossos também, e buscarmos resolvê-los
efetivamente, colaborando com nosso amor e nossa inteligência?
A verdadeira caridade seria oferecer algo que nos sobra, ou tudo
o que temos, nossos ideais, nossa vida, nossa luta? Não é
“fazer aos outros o que gostaríeis que vos fizessem”,
criar meios para que o outro receba tudo o que gostaríamos
de receber em termos de educação, amor e segurança?
No livrinho mediúnico O Educador, Comenius relembra
que “deve-se afastar o conceito paternalista da caridade”,
e “ter disponibilidade incansável e permanente para
acolher o educando (…). Estar ao lado de, pôr-se a caminho
com, fazer-se e sentir-se sinceramente igual ao outro”. E
Pestalozzi finaliza em Meditações: “O
espírito generoso não restringe seus ideais aos limites
comuns do bom senso terreno”.
Mas alguém pode perguntar “Como simples voluntários,
com seus trabalhos e problemas, podem oferecer soluções
para problemas tão complexos”? Hoje penso que os voluntários
precisam atuar como coadjuvantes de um trabalho profissional e consistente.
E precisamos de educadores voluntários mais maduros, que
empreendam o trabalho principal, para que os jovens alunos –
de escolas ou de instituições religiosas – possam
ter modelos de inspiração sobre como interagir com
crianças e adolescentes em situação de abrigamento.
Os jovens estudantes precisam de ajuda para desenvolver sua criatividade,
a simpatia, a empatia e o olhar educativo, que são características
que um voluntário precisa utilizar na visita a um abrigo,
e, além disso, são habilidades que facilitam a qualquer
pessoa construir amizades, em qualquer lugar ou situação.
Buscando unir o espírito científico e rigoroso
do profissionalismo, e os sentimentos morais que caracterizam todo
trabalho engajado no bem, a Associação Brasileira
de Pedagogia Espírita busca alavancar uma proposta pedagógica
universal, que influencie, impregne e aprimore práticas profissionais
em escolas, abrigos, hospitais, grupos terapêuticos, empresas
e cooperativas. Porque para fazer um trabalho de qualidade em termos
de educação para a evolução, é
necessário fazer um trabalho profundo, extenso e intenso.
Ao contrário do que dizem por aí, na Educação,
seja onde for, não se obtém qualidade sem quantidade:
quantidade de tempo dedicado à formação do
educador, quantidade de tempo envolvido com o educando, quantidade
de variáveis de um problema sobre as quais se atua.
A ABPE procura endossar a perspectiva de espíritos –
encarnados e desencarnados – que conseguem vislumbrar, como
afirma Pestalozzi, que:
“Não se dá
que a mudança isolada de cada um produzirá uma sociedade
mais fraternalmente articulada. É preciso uma ação
coletiva, na interação de pessoas e instituições,
para as melhorias estruturais da sociedade, para que as relações
se renovem.”
O Educador também
profetiza que:
“logo florescerão
na sociedade terrena, as famílias e as escolas, as cooperativas
e as instituições, que se modelarão pela
ética da bondade e da paz, do desinteresse e da busca da
verdade.”
Há algum tempo, voltei a
uma reunião no abrigo citado e vimos uma proposta de pintura
em tecido sendo feita semanalmente por uma voluntária com
as meninas. Pensamos que poderíamos apoiar com recursos materiais
o projeto, mas… Teremos que fazer eventos, coletas, pedidos
sem fim, para obter cinquenta, cem reais por mês para comprar
tintas, tecidos e pincéis? E se o abrigo precisar de mistura
para o almoço, no lugar das tintas? Além das meninas,
os meninos não gostariam também de pintar no tecido?
E qual seria a eficácia da pintura de panos de prato para
a emancipação econômica dos adolescentes? E
assim, compreendendo que precisamos de soluções complexas
para problemas complexos, vamos planejando os caminhos que precisamos
seguir para progredir, valorizando sempre a prática reflexiva,
encarando as contradições que vivemos e as superações
buscamos ao colocar a mão na massa.