Espiritualidade e Sociedade



Angélica Aparecida Silva de Almeida

>    Lutei o Bom Combate: O papel das mulhres espíritas na transformação da sociedade

Artigos, teses e publicações

Angélica Aparecida Silva de Almeida
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Lutei o Bom Combate: O papel das mulhres espíritas na transformação da sociedade

 

1- Pesquisa realizada com apoio da FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais


2- Doutora em História Cultural pela Unicamp. Professora de História do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG) - Campus Juiz de Fora. Pesquisadora do NUPES e do NUESHE. coordenadora do NECREJI.


 

 

INTRODUÇÃO

 

Apesar de, na segunda metade do século XIX, ainda ser recorrente a ideia de que as mulheres não deveriam realizar atividades externas, ficando restritas ao âmbito doméstico e à condução da família, muitas mudanças ocorreram essa época. Contando com algumas resistências e muitas idas e vindas, o papel que as mulheres desempenhavam na sociedade foi sofrendo profundas transformações nesse período. Elas começaram gradualmente a conquistar espaços, tais como: ingresso nas faculdades de medicina, no meio cientí?co, nas escolas normais e no magistério; escrita e edição de jornais e revistas; condução dos negócios da família, na ausência dos maridos ou na viuvez; luta pelo direito de voto, entre outros (Ribeiro, 1996; Biasoli-Alves, 2000; Rago, 2000; Mott, 2005; Pinheiro; Morais, 2008; Hahner, 2011; Campo, 2011; Sousa, 2011; Santos, 2014).

Em 1857, dentro desse contexto de mudanças, surgiu na França o Espiritismo, com a publicação de O Livro dos Espíritos por Allan Kardec. Desde seus primórdios, o movimento espírita incentivava o estudo, a aquisição de novos conhecimentos, o aprimoramento intelectual e moral, objetivando a transformação do próprio homem. Sob este ponto de vista, o movimento espírita assemelhava-se às propostas sociais não revolucionárias de transformação dos homens e da sociedade: o anticlericalismo, o anti-institucionalismo, o livre pensamento, o papel preponderante dado à instrução de homens e mulheres de qualquer classe social, a extinção das barreiras que separavam sexos, classes, raças e credos (Silva, 1993).

Historicamente, o Espiritismo, apresentou uma postura diferenciada com relação à mulher, que perdura até os dias de hoje. A ideia da igualdade de direitos assume um importante papel. Baseada no princípio da reencarnação (3), onde todos os “espíritos” podem reencarnar tanto no sexo feminino como masculino, durante o seu processo evolutivo, os preconceitos e discriminações em relação ao gênero não fariam sentido (Kardec, 1992/1868a; Silva, 1993, 2005; Colombo, 1998). Kardec publicou uma série de artigos na Revista Espírita analisando a situação da mulher na época: Estado social da mulher (Dezembro, 1865); As mulheres tem alma? (Janeiro, 1866); Emancipação da mulher nos Estados Unidos (Junho, 1867); Instrução da mulher (Abril, 1868b).

3- Segundo Allan Kardec: “A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas (...)” (Kardec, 1994/1857, p. 158)

As mulheres têm alma? (...) Pôr em dúvida hoje a alma da mulher seria ridículo, mas outra questão muito séria, sob outro aspecto, aqui se apresenta, e cuja solução só será estabelecida se a igualdade de posição social entre o homem e a mulher for definida como um direito natural ou como uma concessão feita pelo homem. Notemos, de passagem, que se esta igualdade não for senão uma concessão do homem por condescendência, aquilo que ele dá hoje pode retirar amanhã, e que tendo ele a força física, salvo algumas exceções individuais, no conjunto ele sempre levará vantagem, ao passo que se essa igualdade estiver na Natureza, seu reconhecimento será resultado do progresso e, uma vez reconhecida, será imprescritível. (...) Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; não é mais uma concessão da força à fraqueza, mas é um direito alicerçado nas próprias leis da Natureza. Dando a conhecer estas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, assim como abre a da igualdade e da fraternidade .
(Kardec, 1866. p. 5-8)
Temos dito e repetido muitas vezes, a emancipação da mulher será a consequência da difusão do Espiritismo, porque ele funda os seus direitos, não numa ideia filosófica generosa, mas na própria identidade da natureza do Espírito. Provando que não há Espíritos homens e Espíritos mulheres; que todos têm a mesma essência, a mesma origem e o mesmo destino, ele consagra a igualdade dos direitos. A grande lei da reencarnação vem, além disto, sancionar esse princípio. Considerando-se que os mesmos Espíritos podem encarnar-se tanto como homens quanto como mulheres, disso resulta que o homem que escraviza a mulher poderá ser escravizado por sua vez; As mulheres têm, pois, um interesse direto na propagação do Espiritismo, porque este fornece ao apoio de sua causa os mais poderosos argumentos que jamais foram invocados.
(Kardec, 1868b. p. 126-7)

Um fato que chama a atenção, foi a adesão e participação bastante significativa das mulheres ao movimento espírita nascente desde os seus primórdios, tanto na Europa como no Brasil (4). Neste capítulo, levantamos a hipótese que um fator pode ter contribuído fortemente para a busca desse grupo pelo Espiritismo: visão mais igualitarista e de valorização da participação da mulher na sociedade. Para Ann Braud (1989), o movimento espiritualista do século XIX caracterizou-se como uma forma de emancipação feminina, especialmente para aquelas mulheres que não tinham voz na sociedade e que passaram a tê-la através da mediunidade. Cumpre destacar, que dentre os médiuns que trabalharam com Kardec na elaboração do Espiritismo, a predominância era de mulheres.

4- O Espiritismo chegou ao Brasil ainda na segunda metade do século XIX. Os primeiros centros espíritas do Brasil foram fundados em Salvador e no Rio de Janeiro, respectivamente, o Grupo Familiar do Espiritismo fundado em 1865, sob a direção de Luís Olímpio Telles de Menezes e o Grupo Confúcio criado em 1873 (Aubrée & Laplantine, 1990).

Naturalmente, não estamos excluindo a existência de outros fatores motivadores para as mulheres procurarem o Espiritismo. Sem dúvida, o processo de inserção e atuação das mulheres no movimento espírita constitui-se num instigante campo de pesquisa e que merece ser melhor investigado.

Essa intensa participação das mulheres no movimento espírita era muitas vezes explicada e desqualificada como se devendo de que elas seriam psicologicamente mais frágeis e, por isso, mais propensas a sintomas histéricos (Zingrone, 1994; Le Malefan, 1999). Assim, as experiências mediúnicas seriam na realidade sintomas histéricos, o que explicaria o fato da maioria dos médiuns serem mulheres (pois a histeria é mais comum entre mulheres) (Janet, 1889; Lombroso, 1909; Braude, 1989). A conversão para as doutrinas espiritualistas (5), dentre elas o Espiritismo, ocorreria, segundo muitos médicos, quase sempre durante marcos do período reprodutivo feminino: puberdade, período após o nascimento dos filhos e menopausa (Marvin,1874).

5- Em meados do século XIX surgiu e teve grande repercussão na Europa e nas Américas o chamado movimento espiritualista. Suas características centrais eram a crença na sobrevivência após a morte e a possibilidade de comunicação com os espíritos desencarnados através da mediunidade. Suas duas principais correntes foram o Espiritualismo anglo-saxão que não aceitava a ideia da reencarnação e o Espiritismo, que incorporou este conceito.

Um motivo de preocupação era que, além de se envolverem com o Espiritismo/Espiritualismo Moderno, muitas mulheres também se envolveram em movimentos sociais contestadores: socialismo, sufragismo, reivindicações trabalhistas, entre outros. Passaram a representar uma ameaça ao status quo (Braude, 1989; Zingrone, 1994; Le Malefan, 1999; Silva, 2005). O médico americano Marvin, fez a seguinte análise dessas mulheres:

O ângulo em que o útero está suspenso na pélvis frequentemente resolve toda a questão da sanidade ou insanidade. Incline o órgão um pouco para frente – introverta-o e imediatamente o paciente abandona sua casa, abraça algum estranho e ultraísmo – Mormonismo, Mesmerismo, Fourierismo, Socialismo, mais frequentemente o Espiritualismo. Ela fica possuída pela ideia de que tem alguma missão surpreendente no mundo. Ela abandona seu lar, seus filhos eseu dever para subir à tribuna e proclamar o proclamar as virtudes peculiares do amor livre, da livre escolha das uniões afetivas ou a reencarnação das almas.
(Marvin, 1874. In: Alvarado; Zingrone, 2012. p. 237-8)

Mas, apesar de receberem constantes críticas pela adesão ao Espiritismo, isso não impediu que muitas tivessem uma participação ativa dentro do movimento espírita. Seja nas reuniões como palestrante, no exercício da mediunidade, na fundação e presidência dos centros espíritas, na liderança dos trabalhos assistenciais, entre outros, a presença feminina sempre foi marcante. Muitos grupos espíritas, da segunda metade do século XIX e primeira metade do XX, criaram centros espíritas, orfanatos, creches, escolas, albergues, farmácias homeopáticas, hospitais psiquiátricos, cursos profissionalizantes, espaços significativos para a atuação feminina. (Almeida, 2000)

O objetivo desse capítulo é apresentar e analisar casos concretos de mulheres espíritas que tiveram uma importante atuação em diversos aspectos da sociedade, seja econômico, espiritual, educacional ou da saúde. Atividades promotoras de mudanças socioculturais e de minimização as dificuldades enfrentadas por populações vulneráveis. Mulheres que enfrentaram dificuldades sociais e críticas, mas não deixaram de atuar de modo concreto e efetivo para colocar em prática os ideais defendidos pelo Espiritismo: progresso, igualdade, fraternidade, sem diferenciar qualquer pessoa em virtude do seu credo, raça ou gênero. Trabalhamos fundamentalmente com fontes primárias (entre elas, manuscritos originais inéditos disponibilizados no Portal do Projeto Allan Kardec da UFJF) (6), mas também fazendo uso das secundárias.

6- Projeto Allan Kardec, disponibiliza centenas de manuscritos de Kardec e seus correspondentes. Acesso público e gratuito em https://projetokardec.ufjf.br

 

PARIS (FRANÇA): AMÉLIE-GABRIELLE BOUDET (1795-1883)

Professora, casou-se com Hypolite Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) no ano de 1832 e atuou junto com o esposo na condução do Instituto Rivail (Liceu Polimático e Pensionato para meninos), destinado à educação de jovens, e da Escola de Comércio e Pensionato para meninas (Bastos, 2020; 2022). Em 1847, num discurso realizado no Pensionato para meninas, Amélie deixa transparecer as funções e o papel que desempenhava na escola:

Há um ano, uma solenidade semelhante nos reunia pela primeira vez, e esse intervalo fortaleceu ainda mais os laços de afeto que, já no ano passado, uniam-me a vocês; o tempo que me permitiu conhecê-las melhor, as numerosas marcas de afeto que recebi de vocês, o reconhecimento que manifestam pelos cuidados proporcionados à sua educação: são todos motivos que me fazem apreciar o título de mãe que me dão. Esse título, quero continuar a justi?cá-lo perante os seus olhos pelo meu carinho, pelo dos seus pais, pela minha constante diligência. Mas esse título, ainda que me dê direitos, também me impõe um dever, o de zelar pelo seu caráter, como faria uma verdadeira mãe, e reprimir os seus desvios. (...) Algumas de vocês, minhas crianças, vão nos deixar este ano; (...) Espero que (...) elas guardem uma memória de nossos cuidados. (...) se algum dia o meu apoio se tornar necessário, verão que o título de mãe que me deram não é uma palavra vazia, e que ser útil para elas, em todas as posições de sua vida, será sempre um doce prazer para mim.
(Boudet, 1847)

Após a publicação de O Livro dos Espíritos, Rivail, que assumiu o pseudônimo de Allan Kardec, se tornou bastante conhecido no meio espírita e fora dele. No entanto, o real papel que Amélie desempenhou ao lado do marido, ao longo dos quinze anos que ele se dedicou à elaboração e consolidação do Espiritismo, ainda era pouco conhecido. Com o acesso a novos documentos, disponibilizados no Portal do Projeto Allan Kardec, tendo sido possível redimensionar a sua importância, verificando o a colaboração e parceria do casal na condução dos trabalhos. Por exemplo, através das cartas que Amélie escrevia para Kardec, nos momentos em este se ausentava de Paris. Nelas, percebe-se que que ela assumia o controle de todos os negócios, seja da família ou relativos ao Espiritismo: recebia visitantes de vários locais; fazia a interlocução com os espíritas que a procuravam; cuidava da administração e preservação da propriedade do casal; vendia livros; realizava a leitura das cartas endereçadas a ele, comunicando-lhe os assuntos mais urgentes; enviava artigos para sua análise e futura publicação na Revista Espírita; cadastrava novos assinantes para a Revista, dentre outras atividades.

Recebi na segunda-feira tua boa carta, que me trouxe grande prazer. Espero que continues bem. Vejo muitas pessoas. A senhora Robyns parte daqui, te dá mil cumprimentos. Vi a senhora Gillis, da Antuérpia, o senhor Kouchnisko, de Nápoles, que está aqui com sua esposa. Também vi a senhora Auger Chedaux. Recebi vários novos espíritas, um senhor e uma senhora que moram em Batignolles, fizeram assinaturas e levaram coleções. Ontem, uma senhora veio comprar o Livro dos Médiuns. Também vi o senhor Porré. Enfim, desde a minha chegada, cinco assinaturas (da Revista Espírita. Eis mais ou menos os negócios espíritas. No sábado, fui dormir na Avenida de Ségur. Tudo está alugado, e os jardins estão em bom estado. Envio-te a cópia de um artigo encontrado no livro do senhor Love, que o senhor d’Ambel acha que será bom publicar.
(Boudet, 1863a).

Após a morte de Kardec, em 1869, Amélie assumiu os direitos legais sobre as obras publicadas, a Revista Espírita e a livraria espírita até a sua morte em 1883 (Bastos, 2022). Com base nesses documentos, percebe-se o protagonismo de Amélie nas atividades educacionais de Rivail e no processo de elaboração, divulgação e implementação do Espiritismo ao lado de Kardec (Boudet, 1847; 1861; 1862a; 1862b; 1863a; 1863b; 1863c; 1863d; 1864a; 1864b).

TRÊS RIOS (RJ): MARCELINA ALVES CHAVES (1856/1961),
RITA CERQUEIRA (1889/1951) E
HELENA CHAVES ARNEIRO (1903/1975)

Em 1895, foi fundado o primeiro grupo espírita de Três Rios (RJ) se formou, o Grupo Espírita Fé e Esperança (GEFE). No campo assistencial, o GEFE fundou uma farmácia homeopática, o albergue noturno, uma escola primária, um orfanato para meninas e uma maternidade (7). No processo de criação e condução desses trabalhos, três mulheres assumiram uma postura capital: Rita Cerqueira (Mãe Ritinha), Helena Chaves Arneiro e Marcelina Alves Chaves (GEFE, 1922-7; 1922-71).

7- A atuação do grupo, na área assistencial, foi fortemente influenciada pelas diretrizes do movimento nacional. Havia uma preocupação constante com a fundação de escolas primárias (devido à importância atribuída pelo Espiritismo ao estudo e ao aprimoramento intelectual do homem, como base para a transformação da sociedade), de escolas profissionalizantes para as mulheres e, consequentemente, a criação de creches que, além de favorecer o ingresso da mulher no mercado de trabalho (Almeida, 2000)

A primeira instituição assistencial criada pelo GEFE foi uma farmácia homeopática em 1922. A direção cabia à Marcelina Chaves, que expedia receitas homeopáticas dizendo-se sob inspiração espiritual. Marcelina tornou-se uma médium receitista procurada pelos vários setores da sociedade. A farmácia homeopática sempre obteve grande procura por parte dos habitantes da cidade, independentemente do seu credo religioso (GEFE, 1922-7; 1922-71; Bonifácio, 1956; Entre-Rios Jornal, 1961).

No ano de 1930, foi criado o Lar Manoel Pessoa de Campos. Esse orfanato, abrigou muitas crianças em caráter permanente dando-lhes, além de abrigo, instrução (escola primária Francisco Cerqueira, mantida pelo GEFE) ensino profissional e noções de moral evangélica. À frente dos trabalhos e cuidando das internas estavam Rita Cerqueira e Helena Chaves Arneiro.

Por volta de 1918, Rita foi acometida por uma enfermidade. Após consultar vários médicos e não obter a cura, tomou conhecimento de um médium espírita na cidade de Porto Novo da Cunha (MG). Pediu ao esposo que fosse consultá-lo. Na volta, trouxe-lhe remédios homeopáticos, ervas e a recomendação para que lhe fossem ministrados passes. Seguiu todas as instruções e, segundo seus relatos, em poucos dias restabeleceu a saúde. Após o ocorrido, ele começou a manifestar os primeiros fenômenos mediúnicos. Passou a frequentar o grupo espírita (GEFE), no qual exerceu a presidência entre os anos 1928-32 e praticou a mediunidade de cura. Mãe Ritinha, como era conhecida na cidade, dedicou-se integralmente às atividades do Lar Manoel Pessoas de Campos, vindo em 1940 a mudar-se definitivamente para lá a fim de atender melhor às crianças. Além disto, realizava partos na maternidade (8) mantida pelo grupo, além de ter colaborado no processo de emancipação do município. Em virtude de seu trabalho assistencial, era procurada por pessoas de qualquer credo religioso. Uma demonstração da consideração que os trirrienses tinham por ela ocorreu no seu falecimento, quando o prefeito de Três Rios decretou luto oficial por três dias (Lucena; Godoy, 1997; Pinto Filho, 1992).

8- A maternidade foi inaugurada em 1935. A assistência prestada era totalmente gratuita. Por quase três anos a maternidade foi a única instituição hospitalar da cidade. Somente no ano de 1938 foi inaugurado o primeiro hospital da cidade (Almeida, 2000).

Trabalhando ao lado de Rita Cerqueira, Helena Arneiro, que era filha de Marcelina Chaves realizava partos na maternidade e a domicílio e foi a primeira diretora do Lar Manoel Pessoa de Campos, cargo que exerceu, até o ano de 1967 (GEFE, 1922-7; 1922-71; Teixeira, s/d).

 

SÃO PAULO: ANÁLIA FRANCO (1853/1919)

Anália Franco iniciou suas atividades no magistério em 1868, atuando como professora auxiliar na província de São Paulo. No desempenho de suas funções, buscou dar atenção às mulheres trabalhadoras de baixa renda, nas crianças e nos órfãos, foi responsável pela criação de escolas maternais, creches, liceus, escolas noturnas, oficinas profissionalizantes e asilos na cidade de São Paulo, bem como em outras cidades do estado.

Um reflexo de sua postura pode ser sentido no ano de 1871, após a decretação da Lei do Ventre Livre, que concedia liberdade às crianças filhas de escravas, mas sem contar com nenhum tipo de auxílio governamental ou dos donos das fazendas. Como muitas dessas crianças ficaram abandonadas, ela começou a se dedicar à educação de crianças negras abandonadas e a defender a causa abolicionista. Anália mudou-se para Jacareí (SP), onde alugou uma casa onde passou a residir com seus alunos órfãos, fundando sua primeira Escola Maternal (Lodi-Corrêa, 2009; Peres, 2011; Memezes, 2024).

As atividades de Anália, no acolhimento de crianças negras e órfãs começou a chamar a atenção da cidade. Muitos chegaram a cogitar a sua expulsão da cidade, mas ela contou com o auxílio de um grupo abolicionista e republicano e conseguiu permanecer na cidade. Cumpre destacar que até o final do século XIX, consta que Anália Franco ainda era adepta do Catolicismo. Somente no início do século XX é que faz menção ao Espiritismo e a associação a essa nova religião fez com ela se tornasse mais conhecida no Brasil. Embora, o fato de ter se declarado publicamente espírita fez com que “(...) tenha passado por maiores dificuldades financeiras e perseguição da igreja”. (Lodi-Corrêa, 2009, p. VII). Um fato significativo que pode ser observado em muitas instituições criadas/dirigidas por espíritas é o seu caráter de atendimento a todas as pessoas independente do credo. Muitas pessoas de outras religiões buscavam os trabalhos assistências dessas instituições.

Após alguns anos de trabalho, ela retorna à capital paulista para a realização de novas obras. Em 1901, criou a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva de São Paulo. Visava a criação de liceus femininos para formar professoras das Escolas Maternais a serem criadas, escolas profissionalizantes para ambos os sexos, criação de bibliotecas, além de conferências sobre instrução e moral. Na parte filantrópica pretendia criar asilos e albergues diurnos para crianças e senhoras (Lodi-Corrêa, 2009).

O relatório de atividades do ano de 1912 mostra a amplitude de suas atividades: dez escolas na capital com 415 crianças; quatro escolas dentro dos asilos em São Paulo, com cursos maternal, primários, para adultos, para 109 mulheres de diversas idades; doze escolas no interior do estado, com 610 crianças; e oito escolas dentro da colônia regeneradora para mulheres Dom Romualdo de Seixas, que possuía os mais variados cursos com creche, escola maternal, ensino primário, ensino secundário, escola de agricultura e escola de música, com 167 alunos. Tinha também as oficinas de flores, de costura e a escola profissional tipográfica, escola noturna para analfabetas e uma biblioteca (Lodi-Corrêa, 2009). Além disso, publicou dois periódicos: O Álbum das Meninas (1898-1901) e A Voz Maternal (1903-1910) (Menezes, 2024). Anália faleceu em 1919, quando foi acometida pela gripe espanhola.

 

SÃO PAULO: BENEDITA FERNANDES (1883 – 1947)

Foi na juventude que Benedita começou a desenvolver os primeiros sinais de transtornos mentais. Aos vinte anos foi presa por andar pela rua com uma tesoura na mão, ao que tudo indica durante um episódio sonambúlico. Recebeu alta após quinze dias e começa a trabalhar como lavadeira. Foi nesse momento que tomou contato com o espiritismo pela primeira vez. Na década de 1930, deu início ao trabalho de cuidado aos necessitados, fornecendo alimentação e ministrando passes para crianças e pessoas consideradas obsidiadas (9) ou portadoras de doenças mentais. A fim de executar esse trabalho, conseguiu construir duas casas de madeira, feitas por ela própria e com o auxílio de outras lavadeiras.

9- Para o Espiritismo a obsessão seria a influência negativa que um suposto espírito desencarnado exerceria sobre uma pessoa e poderia ser causa de desequilíbrios mentais, inclusive de casos de “loucura” (Kardec, 1995/1859); Moreira-Almeida e Lotufo Neto, 2005)

Para garantir os recursos necessários para o funcionamento dos trabalhos, articulou-se com outras mulheres que frequentavam o Centro Espírita Paz, Amor e Caridade, criando uma associação filantrópica para arrecadar doações. Em 1932, foi fundada a Associação das Senhoras Cristãs, da qual Benedita se tornou (Carvalho, 1987; Camargo, 2017). Desde então, teve início uma grande campanha de arrecadação que se estendeu para as cidades vizinhas. Os recursos possibilitaram a transformação das casas de madeira em alvenaria. Em 1933, foram inaugurados a Casa da Criança e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira. Nesses locais, crianças, adolescentes, idosos e doentes mentais, eram acolhidos, tratados, alfabetizados e recebiam os cuidados religiosos através de passes (10). Pelas atividades que desenvolveu, Benedita Fernandes exerceu uma importante liderança no âmbito das associações filantrópicas e no movimento espírita local (Carvalho, 1987; Camargo, 2017). No ano de 2021 o SBT Interior (11) fez uma série com quatro episódios sobre ela, intitulada: Com Amor Benedita.

10- Kardec enfatizava a base biológica da loucura e a influência do ambiente cultural nesse processo. Ele não negava as causas sociais e biológicas dos transtornos mentais, entretanto, acrescentava outra origem: as obsessões. Para ajudar no tratamento completar era necessário realizar sessões de desobsessão e o passe (Kardec, 1863, 1864, 1865a, 1865b, 1866).

11- SBT Interior é uma emissora de televisão brasileira sediada em Araçatuba (SP). Opera no canal 7, e é
afiliada ao SBT (https://www.youtube.com/watch?v=ztYnv_x0lFk)

Segundo Aubrée e Laplantine (1990), a maior contribuição do Espiritismo brasileiro foi o desenvolvimento das implicações terapêuticas contidas nas obras de Allan Kardec. O movimento espírita no Brasil organizou uma ampla rede de terapias complementares, como não foi encontrado em nenhum outro lugar.

A inserção do Espiritismo nos domínios da saúde mental concretizou-se em dezenas de hospitais psiquiátricos espíritas no Brasil. Num levantamento realizado por Souza e Deitos (1980), naquele período haveria cerca de cem hospitais psiquiátricos de orientação espírita no país. Somente no Estado de São Paulo, segundo dados fornecidos no ano de 1994 pela Secretaria de Estado da Saúde, existiriam noventa e oito hospitais psiquiátricos. Destes, vinte e dois seriam espíritas e sem fins lucrativos (Figueiredo et al., 1998).

Estes estabelecimentos começaram a ser criados no final da década de 1910. O principal argumento utilizado pelos espíritas para justificar a criação destes hospitais era a necessidade de abrigar, tratar e acolher os doentes mentais. Muitos não possuíam moradia ou família que pudesse oferecer-lhes algum tipo de cuidado especializado. Outros eram abandonados pelos próprios familiares. O objetivo principal era retirá-los das ruas e das cadeias públicas, locais para onde a maioria era encaminhada pelo cometimento de algum pequeno delito ou por falta de locais para o tratamento (Almeida, 2021).

Após o falecimento de Benedita Fernandes, em 1947, a Associação das Senhoras Cristãs entrou no rol das instituições espíritas que criaram hospitais psiquiátricos. A casa da criança e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira foi transformada no Sanatório Benedita Fernandes que manteve suas atividades até o ano de 2015 (Carvalho, 1987; Camargo, 2017).

 

SÃO PAULO: ANNA GEMIGNANI MOTTA (1904/1978)

Anna Motta, ou D. Nina como era conhecida, era frequentadora do Grupo Espírita João Evangelista (GEJE) em São Paulo e numa das reuniões desse grupo surgiu a ideia de criação de uma entidade filantrópica, destinada ao tratamento de doentes mentais e toxicômanos.

D. Nina logo assumiu a liderança desse empreendimento. No ano de 1946, foi aprovada a 1º comissão da diretoria do hospital e ela assumiu o cargo de Provedora do hospital (Livro de Atas, 1939-1972).

No estatuto aprovado no mesmo ano, ficava clara a finalidade do hospital:

Art. 2. – A finalidade do “SANATÓRIO JOÃO EVANGELISTA” é internar e tratar gratuitamente, enfêrmos de moléstias mentais, nervosas e toxicomaniacas, sem distinção de côr, sexo, nacionalidade ou crença religiosa.
Art. 7. – Os membros da Comissão Diretora e o médico responsável não terão remuneração, nas funções de seus cargos.
Art. 17. – A Comissão Diretora e o médico responsavel esforçar-se-ão para que todo o pessoal componente do Sanatório paute seus atos e pensamentos pelos ensinos do cristo-Jesus, consubstanciados num só-: “AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO”.
Art. 22. – No limite do possivel será permitido aos doentes internados a assistência espiritual do credo a que pertencerem.
Art. 23. – Tendo o Espiritismo por base o puro Crsitianismo, e respeitando, portanto todas as convicções, não será sob qualquer forma permitido no Sanatório crítica as crenças alheias

No ano de 1947, tive início a campanha de arrecadação de doações para a construção. Diversas atividades foram realizadas nesse sentido, inclusive um festival pró-construção no Teatro Colombo e outro no Teatro Municipal. Também foram vinculadas notícias em jornais da época pedindo donativos e anunciando as festividades que seriam realizadas para a arrecadação de fundos.

Ela iniciou os contatos com engenheiros, firmas ou pessoas conhecidas que trabalhassem no ramo de construção para que pudesse obter auxílio para a construção. Em 1953, o Ambulatório do Sanatório e Hospital João Evangelista (HOJE) foi inaugurado. D. Nina passou a residir ao lado da instituição para manter-se por mais tempo vinculada aos trabalhos. Em 1956, foi inaugurado um gabinete dentário para tratar os pacientes. No ano de 1962 foi criada a Escola Profissional Dr. Augusto Silva com cursos de corte e costura, arte culinária, bordado, tricô, decoração geral, voltados para auxiliarem no processo de tratamento dos internos. (Livro de Atas, 1946-1968). Além desses cursos também foi criada uma escola de enfermagem, de mesmo nome, objetivando o ensino profissionalizante e a formação de mão-de-obra para auxiliar os trabalhos do hospital. D. Nina dedicou trinta e dois anos de trabalho ao HOJE.

RIO DE JANEIRO: YVONNE DO AMARAL PEREIRA (1900/1984)

Yvonne atuou por cerca de 58 anos no campo da mediunidade sendo considerada dentro do movimento espírita brasileiro como a segunda maior médium do Brasil, ficando atrás apenas de Chico Xavier. Segundo a médium (Pereira, 1972; 1978), aos cinco anos de idade ela já via e falava com os espíritos, começando a psicografar (12) aos doze anos de idade. Apesar de ter nascido numa família espírita, relatou que não tinha verdadeira noção do fenômeno. Ela começou a psicografar livros ainda na sua juventude, além de afirmar possuir outros dons mediúnicos, inclusive o de cura. “De tudo já realizei um pouco, como médium e como espírita” (Pereira, 1972, s/p). Publicou entre os anos de 1955 a 1979 treze livros pela Federação Espírita Brasileira (FEB), muitos deles traduzidos para o inglês, francês e espanhol. Entre os anos de 1994 a 2013 a FEB publicou quatro livros com coletâneas de textos inéditos da autora, produzidos entre os anos de 1964 e 1971.

12 - Transmissão do pensamento dos Espíritos por meio da escrita pela mão de um médium. No médium escrevente a mão é o instrumento, mas a sua alma ou Espírito nele encarnado é o intermediário ou intérprete do Espírito estranho que se comunica.

Já na década de 1970, Yvonne dizia ter finalizado a produção de livros, atuando apenas na psicografia (recebendo mensagens consoladoras para enlutados), na oratória, na colaboração na imprensa espírita, no Esperanto, na correspondência doutrinária e um pouco de assistência doutrinária e social nos meios espíritas. Ela também afirmava possuir a faculdade de efeitos físicos (materializações), mas não se interessava por esse gênero de trabalho espírita e por isso não a utilizava (Pereira, 1972). O trabalho mediúnico de Yvonne, assim como o de Chico Xavier, também foi um importante instrumento de divulgação e consolidação das ideias espíritas no Brasil.

 

CONCLUSÃO

Ao analisarmos a trajetória dessas diversas personagens do movimento espírita na Europa e no Brasil, foi possível perceber a sua dedicação ao trabalho nos mais diferentes ramos: assistencial, educacional, moral, intelectual. Cada uma a seu modo, pode contribuir para preencher lacunas e melhorar a vida em sociedade, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Fica evidente a ação ativa das mulheres em múltiplas atitudes de liderança: educacional, cura, direção de grupos espíritas, tratamento, fundação de hospitais, escolas, orfanatos e asilos para idosos e gestão.

Todas assumiriam um protagonismo num período que não era comum, ainda mais em contextos religiosos. Reafirmando os princípios defendidos pelo Espiritismo, tais como: igualdade entre os sexos (baseada na lei da reencarnação), não distinção das pessoas pela classe ou raça, a importância dada ao estudo para o aprimoramento da sociedade, o livre pensamento, a transformação moral do homem, entre outras, essas mulheres contribuíram para uma sociedade melhor. Muitas dedicaram a maior parte de suas vidas a esse trabalho, quase em tempo integral, por acreditarem que seria possível construir uma sociedade mais justa e igualitária. Esse padro consistente de atividades das mulheres espíritas, reafirma a hipótese de que essas posturas estariam embasadas na visão espírita de não discriminação da mulher.

Elencamos alguns exemplos, mas pode-se perceber que em várias cidades, no Brasil e no mundo, e ao longo de pelo menos um século, muitas outras mulheres se dedicaram a trabalhos semelhantes. A escritora e poetisa espanhola Amália Domingo Soler, as médiuns Suely Caldas Schubert e Isabel Salomão (Juiz de Fora/MG), Aparecida Conceição Ferreira do Hospital do Pênfigo, Maria Modesto Cravo do Sanatório Espírita de Uberaba, a médica Marlene Nobre (SP), a médium Zilda Gama (RJ), a educadora, teatróloga e escritora Amélia Rodrigues (BA). Sem dúvida, esse tema precisa ser melhor explorado na historiografia

 

 

> texto disponível em pdf - https://www.editorafi.org/ebook/c029-historia-religiosidade

 

 


Fonte:
História e religiosidade I: religiões mediúnicas e afro-brasileiras
Organizadores: Artur Cesar Isaia - Adriana Gomes - Cristiana de Azevedo Tramonte
https://www.editorafi.org/ebook/c029-historia-religiosidade

 

 


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