| Angélica
Aparecida Silva de Almeida
> Lutei o Bom Combate: O papel das mulhres espíritas
na transformação da sociedade
1- Pesquisa
realizada com apoio da FAPEMIG - Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
2- Doutora em História Cultural pela Unicamp. Professora
de História do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais
(IF Sudeste MG) - Campus Juiz de Fora. Pesquisadora do NUPES e
do NUESHE. coordenadora do NECREJI.
INTRODUÇÃO
Apesar de, na segunda metade do século XIX, ainda ser recorrente
a ideia de que as mulheres não deveriam realizar atividades
externas, ficando restritas ao âmbito doméstico e à
condução da família, muitas mudanças
ocorreram essa época. Contando com algumas resistências
e muitas idas e vindas, o papel que as mulheres desempenhavam na
sociedade foi sofrendo profundas transformações nesse
período. Elas começaram gradualmente a conquistar
espaços, tais como: ingresso nas faculdades de medicina,
no meio cientí?co, nas escolas normais e no magistério;
escrita e edição de jornais e revistas; condução
dos negócios da família, na ausência dos maridos
ou na viuvez; luta pelo direito de voto, entre outros (Ribeiro,
1996; Biasoli-Alves, 2000; Rago, 2000; Mott, 2005; Pinheiro; Morais,
2008; Hahner, 2011; Campo, 2011; Sousa, 2011; Santos, 2014).
Em 1857, dentro desse contexto de mudanças, surgiu na França
o Espiritismo, com a publicação de O Livro dos
Espíritos por Allan Kardec. Desde seus primórdios,
o movimento espírita incentivava o estudo, a aquisição
de novos conhecimentos, o aprimoramento intelectual e moral, objetivando
a transformação do próprio homem. Sob este
ponto de vista, o movimento espírita assemelhava-se às
propostas sociais não revolucionárias de transformação
dos homens e da sociedade: o anticlericalismo, o anti-institucionalismo,
o livre pensamento, o papel preponderante dado à instrução
de homens e mulheres de qualquer classe social, a extinção
das barreiras que separavam sexos, classes, raças e credos
(Silva, 1993).
Historicamente, o Espiritismo, apresentou uma postura diferenciada
com relação à mulher, que perdura até
os dias de hoje. A ideia da igualdade de direitos assume um importante
papel. Baseada no princípio da reencarnação
(3), onde todos os “espíritos”
podem reencarnar tanto no sexo feminino como masculino, durante
o seu processo evolutivo, os preconceitos e discriminações
em relação ao gênero não fariam sentido
(Kardec, 1992/1868a; Silva, 1993, 2005; Colombo, 1998). Kardec publicou
uma série de artigos na Revista Espírita analisando
a situação da mulher na época: Estado social
da mulher (Dezembro, 1865); As mulheres tem alma?
(Janeiro, 1866); Emancipação da mulher nos Estados
Unidos (Junho, 1867); Instrução da mulher
(Abril, 1868b).
3- Segundo Allan Kardec: “A doutrina
da reencarnação, isto é, a que consiste em
admitir para o Espírito muitas existências sucessivas
(...)” (Kardec, 1994/1857, p. 158)
As mulheres têm alma? (...) Pôr
em dúvida hoje a alma da mulher seria ridículo,
mas outra questão muito séria, sob outro aspecto,
aqui se apresenta, e cuja solução só será
estabelecida se a igualdade de posição social entre
o homem e a mulher for definida como um direito natural ou como
uma concessão feita pelo homem. Notemos, de passagem, que
se esta igualdade não for senão uma concessão
do homem por condescendência, aquilo que ele dá hoje
pode retirar amanhã, e que tendo ele a força física,
salvo algumas exceções individuais, no conjunto
ele sempre levará vantagem, ao passo que se essa igualdade
estiver na Natureza, seu reconhecimento será resultado
do progresso e, uma vez reconhecida, será imprescritível.
(...) Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não
é mais uma simples teoria especulativa; não é
mais uma concessão da força à fraqueza, mas
é um direito alicerçado nas próprias leis
da Natureza. Dando a conhecer estas leis, o Espiritismo abre a
era da emancipação legal da mulher, assim como abre
a da igualdade e da fraternidade .
(Kardec, 1866. p. 5-8)
Temos dito e repetido muitas vezes, a emancipação
da mulher será a consequência da difusão do
Espiritismo, porque ele funda os seus direitos, não numa
ideia filosófica generosa, mas na própria identidade
da natureza do Espírito. Provando que não há
Espíritos homens e Espíritos mulheres; que todos
têm a mesma essência, a mesma origem e o mesmo destino,
ele consagra a igualdade dos direitos. A grande lei da reencarnação
vem, além disto, sancionar esse princípio. Considerando-se
que os mesmos Espíritos podem encarnar-se tanto como homens
quanto como mulheres, disso resulta que o homem que escraviza
a mulher poderá ser escravizado por sua vez; As mulheres
têm, pois, um interesse direto na propagação
do Espiritismo, porque este fornece ao apoio de sua causa os mais
poderosos argumentos que jamais foram invocados.
(Kardec, 1868b. p. 126-7)
Um fato que chama a atenção, foi a adesão
e participação bastante significativa das mulheres
ao movimento espírita nascente desde os seus primórdios,
tanto na Europa como no Brasil (4).
Neste capítulo, levantamos a hipótese que um fator
pode ter contribuído fortemente para a busca desse grupo
pelo Espiritismo: visão mais igualitarista e de valorização
da participação da mulher na sociedade. Para Ann Braud
(1989), o movimento espiritualista do século XIX caracterizou-se
como uma forma de emancipação feminina, especialmente
para aquelas mulheres que não tinham voz na sociedade e que
passaram a tê-la através da mediunidade. Cumpre destacar,
que dentre os médiuns que trabalharam com Kardec na elaboração
do Espiritismo, a predominância era de mulheres.
4- O Espiritismo
chegou ao Brasil ainda na segunda metade do século XIX. Os
primeiros centros espíritas do Brasil foram fundados em Salvador
e no Rio de Janeiro, respectivamente, o Grupo Familiar do Espiritismo
fundado em 1865, sob a direção de Luís Olímpio
Telles de Menezes e o Grupo Confúcio criado em 1873 (Aubrée
& Laplantine, 1990).
Naturalmente, não estamos excluindo a existência
de outros fatores motivadores para as mulheres procurarem o Espiritismo.
Sem dúvida, o processo de inserção e atuação
das mulheres no movimento espírita constitui-se num instigante
campo de pesquisa e que merece ser melhor investigado.
Essa intensa participação das mulheres no movimento
espírita era muitas vezes explicada e desqualificada como
se devendo de que elas seriam psicologicamente mais frágeis
e, por isso, mais propensas a sintomas histéricos (Zingrone,
1994; Le Malefan, 1999). Assim, as experiências mediúnicas
seriam na realidade sintomas histéricos, o que explicaria
o fato da maioria dos médiuns serem mulheres (pois a histeria
é mais comum entre mulheres) (Janet, 1889; Lombroso, 1909;
Braude, 1989). A conversão para as doutrinas espiritualistas
(5), dentre elas o Espiritismo, ocorreria,
segundo muitos médicos, quase sempre durante marcos do período
reprodutivo feminino: puberdade, período após o nascimento
dos filhos e menopausa (Marvin,1874).
5- Em meados
do século XIX surgiu e teve grande repercussão na
Europa e nas Américas o chamado movimento espiritualista.
Suas características centrais eram a crença na sobrevivência
após a morte e a possibilidade de comunicação
com os espíritos desencarnados através da mediunidade.
Suas duas principais correntes foram o Espiritualismo anglo-saxão
que não aceitava a ideia da reencarnação e
o Espiritismo, que incorporou este conceito.
Um motivo de preocupação era que, além de
se envolverem com o Espiritismo/Espiritualismo Moderno, muitas mulheres
também se envolveram em movimentos sociais contestadores:
socialismo, sufragismo, reivindicações trabalhistas,
entre outros. Passaram a representar uma ameaça ao status
quo (Braude, 1989; Zingrone, 1994; Le Malefan, 1999; Silva, 2005).
O médico americano Marvin, fez a seguinte análise
dessas mulheres:
O ângulo em que o
útero está suspenso na pélvis frequentemente
resolve toda a questão da sanidade ou insanidade. Incline
o órgão um pouco para frente – introverta-o
e imediatamente o paciente abandona sua casa, abraça algum
estranho e ultraísmo – Mormonismo, Mesmerismo, Fourierismo,
Socialismo, mais frequentemente o Espiritualismo. Ela fica possuída
pela ideia de que tem alguma missão surpreendente no mundo.
Ela abandona seu lar, seus filhos eseu dever para subir à
tribuna e proclamar o proclamar as virtudes peculiares do amor livre,
da livre escolha das uniões afetivas ou a reencarnação
das almas.
(Marvin, 1874. In: Alvarado; Zingrone, 2012.
p. 237-8)
Mas, apesar de receberem constantes críticas pela adesão
ao Espiritismo, isso não impediu que muitas tivessem uma
participação ativa dentro do movimento espírita.
Seja nas reuniões como palestrante, no exercício da
mediunidade, na fundação e presidência dos centros
espíritas, na liderança dos trabalhos assistenciais,
entre outros, a presença feminina sempre foi marcante. Muitos
grupos espíritas, da segunda metade do século XIX
e primeira metade do XX, criaram centros espíritas, orfanatos,
creches, escolas, albergues, farmácias homeopáticas,
hospitais psiquiátricos, cursos profissionalizantes, espaços
significativos para a atuação feminina.
(Almeida, 2000)
O objetivo desse capítulo é apresentar e analisar
casos concretos de mulheres espíritas que tiveram uma importante
atuação em diversos aspectos da sociedade, seja econômico,
espiritual, educacional ou da saúde. Atividades promotoras
de mudanças socioculturais e de minimização
as dificuldades enfrentadas por populações vulneráveis.
Mulheres que enfrentaram dificuldades sociais e críticas,
mas não deixaram de atuar de modo concreto e efetivo para
colocar em prática os ideais defendidos pelo Espiritismo:
progresso, igualdade, fraternidade, sem diferenciar qualquer pessoa
em virtude do seu credo, raça ou gênero. Trabalhamos
fundamentalmente com fontes primárias (entre elas, manuscritos
originais inéditos disponibilizados no Portal do Projeto
Allan Kardec da UFJF) (6), mas também
fazendo uso das secundárias.
6- Projeto Allan
Kardec, disponibiliza centenas de manuscritos de Kardec e seus correspondentes.
Acesso público e gratuito em https://projetokardec.ufjf.br
PARIS (FRANÇA): AMÉLIE-GABRIELLE
BOUDET (1795-1883)
Professora, casou-se com Hypolite Léon Denizard Rivail (Allan
Kardec) no ano de 1832 e atuou junto com o esposo na condução
do Instituto Rivail (Liceu Polimático e Pensionato para meninos),
destinado à educação de jovens, e da Escola
de Comércio e Pensionato para meninas (Bastos, 2020; 2022).
Em 1847, num discurso realizado no Pensionato para meninas, Amélie
deixa transparecer as funções e o papel que desempenhava
na escola:
Há um ano, uma solenidade semelhante nos reunia pela primeira
vez, e esse intervalo fortaleceu ainda mais os laços de
afeto que, já no ano passado, uniam-me a vocês; o
tempo que me permitiu conhecê-las melhor, as numerosas marcas
de afeto que recebi de vocês, o reconhecimento que manifestam
pelos cuidados proporcionados à sua educação:
são todos motivos que me fazem apreciar o título
de mãe que me dão. Esse título, quero continuar
a justi?cá-lo perante os seus olhos pelo meu carinho, pelo
dos seus pais, pela minha constante diligência. Mas esse
título, ainda que me dê direitos, também me
impõe um dever, o de zelar pelo seu caráter, como
faria uma verdadeira mãe, e reprimir os seus desvios. (...)
Algumas de vocês, minhas crianças, vão nos
deixar este ano; (...) Espero que (...) elas guardem uma memória
de nossos cuidados. (...) se algum dia o meu apoio se tornar necessário,
verão que o título de mãe que me deram não
é uma palavra vazia, e que ser útil para elas, em
todas as posições de sua vida, será sempre
um doce prazer para mim.
(Boudet, 1847)
Após a publicação de O Livro dos Espíritos,
Rivail, que assumiu o pseudônimo de Allan Kardec, se tornou
bastante conhecido no meio espírita e fora dele. No entanto,
o real papel que Amélie desempenhou ao lado do marido, ao
longo dos quinze anos que ele se dedicou à elaboração
e consolidação do Espiritismo, ainda era pouco conhecido.
Com o acesso a novos documentos, disponibilizados no Portal do Projeto
Allan Kardec, tendo sido possível redimensionar a sua importância,
verificando o a colaboração e parceria do casal na
condução dos trabalhos. Por exemplo, através
das cartas que Amélie escrevia para Kardec, nos momentos
em este se ausentava de Paris. Nelas, percebe-se que que ela assumia
o controle de todos os negócios, seja da família ou
relativos ao Espiritismo: recebia visitantes de vários locais;
fazia a interlocução com os espíritas que a
procuravam; cuidava da administração e preservação
da propriedade do casal; vendia livros; realizava a leitura das
cartas endereçadas a ele, comunicando-lhe os assuntos mais
urgentes; enviava artigos para sua análise e futura publicação
na Revista Espírita; cadastrava novos assinantes para a Revista,
dentre outras atividades.
Recebi na segunda-feira tua boa carta,
que me trouxe grande prazer. Espero que continues bem. Vejo muitas
pessoas. A senhora Robyns parte daqui, te dá mil cumprimentos.
Vi a senhora Gillis, da Antuérpia, o senhor Kouchnisko,
de Nápoles, que está aqui com sua esposa. Também
vi a senhora Auger Chedaux. Recebi vários novos espíritas,
um senhor e uma senhora que moram em Batignolles, fizeram assinaturas
e levaram coleções. Ontem, uma senhora veio comprar
o Livro dos Médiuns. Também vi o senhor Porré.
Enfim, desde a minha chegada, cinco assinaturas (da Revista Espírita.
Eis mais ou menos os negócios espíritas. No sábado,
fui dormir na Avenida de Ségur. Tudo está alugado,
e os jardins estão em bom estado. Envio-te a cópia
de um artigo encontrado no livro do senhor Love, que o senhor
d’Ambel acha que será bom publicar.
(Boudet, 1863a).
Após a morte de Kardec, em 1869, Amélie
assumiu os direitos legais sobre as obras publicadas, a Revista
Espírita e a livraria espírita até a sua morte
em 1883 (Bastos, 2022). Com base nesses documentos, percebe-se o
protagonismo de Amélie nas atividades educacionais de Rivail
e no processo de elaboração, divulgação
e implementação do Espiritismo ao lado de Kardec (Boudet,
1847; 1861; 1862a; 1862b; 1863a; 1863b; 1863c; 1863d; 1864a; 1864b).
TRÊS RIOS (RJ): MARCELINA ALVES CHAVES
(1856/1961),
RITA CERQUEIRA (1889/1951) E
HELENA CHAVES ARNEIRO (1903/1975)
Em 1895, foi fundado o primeiro grupo espírita de Três
Rios (RJ) se formou, o Grupo Espírita Fé e Esperança
(GEFE). No campo assistencial, o GEFE fundou uma farmácia
homeopática, o albergue noturno, uma escola primária,
um orfanato para meninas e uma maternidade (7).
No processo de criação e condução desses
trabalhos, três mulheres assumiram uma postura capital: Rita
Cerqueira (Mãe Ritinha), Helena Chaves Arneiro e Marcelina
Alves Chaves (GEFE, 1922-7; 1922-71).
7- A atuação do grupo, na área
assistencial, foi fortemente influenciada pelas diretrizes do movimento
nacional. Havia uma preocupação constante com a fundação
de escolas primárias (devido à importância atribuída
pelo Espiritismo ao estudo e ao aprimoramento intelectual do homem,
como base para a transformação da sociedade), de escolas
profissionalizantes para as mulheres e, consequentemente, a criação
de creches que, além de favorecer o ingresso da mulher no
mercado de trabalho (Almeida, 2000)
A primeira instituição assistencial criada pelo
GEFE foi uma farmácia homeopática em 1922. A direção
cabia à Marcelina Chaves, que expedia receitas homeopáticas
dizendo-se sob inspiração espiritual. Marcelina tornou-se
uma médium receitista procurada pelos vários setores
da sociedade. A farmácia homeopática sempre obteve
grande procura por parte dos habitantes da cidade, independentemente
do seu credo religioso (GEFE, 1922-7; 1922-71; Bonifácio,
1956; Entre-Rios Jornal, 1961).
No ano de 1930, foi criado o Lar Manoel Pessoa de Campos. Esse orfanato,
abrigou muitas crianças em caráter permanente dando-lhes,
além de abrigo, instrução (escola primária
Francisco Cerqueira, mantida pelo GEFE) ensino profissional e noções
de moral evangélica. À frente dos trabalhos e cuidando
das internas estavam Rita Cerqueira e Helena Chaves Arneiro.
Por volta de 1918, Rita foi acometida por uma enfermidade. Após
consultar vários médicos e não obter a cura,
tomou conhecimento de um médium espírita na cidade
de Porto Novo da Cunha (MG). Pediu ao esposo que fosse consultá-lo.
Na volta, trouxe-lhe remédios homeopáticos, ervas
e a recomendação para que lhe fossem ministrados passes.
Seguiu todas as instruções e, segundo seus relatos,
em poucos dias restabeleceu a saúde. Após o ocorrido,
ele começou a manifestar os primeiros fenômenos mediúnicos.
Passou a frequentar o grupo espírita (GEFE), no qual exerceu
a presidência entre os anos 1928-32 e praticou a mediunidade
de cura. Mãe Ritinha, como era conhecida na cidade, dedicou-se
integralmente às atividades do Lar Manoel Pessoas de Campos,
vindo em 1940 a mudar-se definitivamente para lá a fim de
atender melhor às crianças. Além disto, realizava
partos na maternidade (8) mantida pelo
grupo, além de ter colaborado no processo de emancipação
do município. Em virtude de seu trabalho assistencial, era
procurada por pessoas de qualquer credo religioso. Uma demonstração
da consideração que os trirrienses tinham por ela
ocorreu no seu falecimento, quando o prefeito de Três Rios
decretou luto oficial por três dias (Lucena;
Godoy, 1997; Pinto Filho, 1992).
8- A maternidade foi inaugurada em 1935.
A assistência prestada era totalmente gratuita. Por quase
três anos a maternidade foi a única instituição
hospitalar da cidade. Somente no ano de 1938 foi inaugurado o primeiro
hospital da cidade (Almeida, 2000).
Trabalhando ao lado de Rita Cerqueira, Helena Arneiro, que era filha
de Marcelina Chaves realizava partos na maternidade e a domicílio
e foi a primeira diretora do Lar Manoel Pessoa de Campos, cargo
que exerceu, até o ano de 1967 (GEFE, 1922-7; 1922-71; Teixeira,
s/d).
SÃO PAULO: ANÁLIA FRANCO (1853/1919)
Anália Franco iniciou suas atividades no magistério
em 1868, atuando como professora auxiliar na província de
São Paulo. No desempenho de suas funções, buscou
dar atenção às mulheres trabalhadoras de baixa
renda, nas crianças e nos órfãos, foi responsável
pela criação de escolas maternais, creches, liceus,
escolas noturnas, oficinas profissionalizantes e asilos na cidade
de São Paulo, bem como em outras cidades do estado.
Um reflexo de sua postura pode ser sentido no ano de 1871, após
a decretação da Lei do Ventre Livre, que concedia
liberdade às crianças filhas de escravas, mas sem
contar com nenhum tipo de auxílio governamental ou dos donos
das fazendas. Como muitas dessas crianças ficaram abandonadas,
ela começou a se dedicar à educação
de crianças negras abandonadas e a defender a causa abolicionista.
Anália mudou-se para Jacareí (SP), onde alugou uma
casa onde passou a residir com seus alunos órfãos,
fundando sua primeira Escola Maternal (Lodi-Corrêa,
2009; Peres, 2011; Memezes, 2024).
As atividades de Anália, no acolhimento de crianças
negras e órfãs começou a chamar a atenção
da cidade. Muitos chegaram a cogitar a sua expulsão da cidade,
mas ela contou com o auxílio de um grupo abolicionista e
republicano e conseguiu permanecer na cidade. Cumpre destacar que
até o final do século XIX, consta que Anália
Franco ainda era adepta do Catolicismo. Somente no início
do século XX é que faz menção ao Espiritismo
e a associação a essa nova religião fez com
ela se tornasse mais conhecida no Brasil. Embora, o fato de ter
se declarado publicamente espírita fez com que “(...)
tenha passado por maiores dificuldades financeiras e perseguição
da igreja”. (Lodi-Corrêa, 2009,
p. VII). Um fato significativo que pode ser observado em
muitas instituições criadas/dirigidas por espíritas
é o seu caráter de atendimento a todas as pessoas
independente do credo. Muitas pessoas de outras religiões
buscavam os trabalhos assistências dessas instituições.
Após alguns anos de trabalho, ela retorna à capital
paulista para a realização de novas obras. Em 1901,
criou a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva
de São Paulo. Visava a criação de liceus femininos
para formar professoras das Escolas Maternais a serem criadas, escolas
profissionalizantes para ambos os sexos, criação de
bibliotecas, além de conferências sobre instrução
e moral. Na parte filantrópica pretendia criar asilos e albergues
diurnos para crianças e senhoras (Lodi-Corrêa,
2009).
O relatório de atividades do ano de 1912 mostra a amplitude
de suas atividades: dez escolas na capital com 415 crianças;
quatro escolas dentro dos asilos em São Paulo, com cursos
maternal, primários, para adultos, para 109 mulheres de diversas
idades; doze escolas no interior do estado, com 610 crianças;
e oito escolas dentro da colônia regeneradora para mulheres
Dom Romualdo de Seixas, que possuía os mais variados cursos
com creche, escola maternal, ensino primário, ensino secundário,
escola de agricultura e escola de música, com 167 alunos.
Tinha também as oficinas de flores, de costura e a escola
profissional tipográfica, escola noturna para analfabetas
e uma biblioteca (Lodi-Corrêa, 2009). Além disso, publicou
dois periódicos: O Álbum das Meninas (1898-1901)
e A Voz Maternal (1903-1910) (Menezes, 2024). Anália
faleceu em 1919, quando foi acometida pela gripe espanhola.
SÃO PAULO: BENEDITA FERNANDES (1883
– 1947)
Foi na juventude que Benedita começou a desenvolver os primeiros
sinais de transtornos mentais. Aos vinte anos foi presa por andar
pela rua com uma tesoura na mão, ao que tudo indica durante
um episódio sonambúlico. Recebeu alta após
quinze dias e começa a trabalhar como lavadeira. Foi nesse
momento que tomou contato com o espiritismo pela primeira vez. Na
década de 1930, deu início ao trabalho de cuidado
aos necessitados, fornecendo alimentação e ministrando
passes para crianças e pessoas consideradas obsidiadas (9)
ou portadoras de doenças mentais. A fim de executar esse
trabalho, conseguiu construir duas casas de madeira, feitas por
ela própria e com o auxílio de outras lavadeiras.
9- Para o Espiritismo a obsessão seria
a influência negativa que um suposto espírito desencarnado
exerceria sobre uma pessoa e poderia ser causa de desequilíbrios
mentais, inclusive de casos de “loucura” (Kardec, 1995/1859);
Moreira-Almeida e Lotufo Neto, 2005)
Para garantir os recursos necessários para o funcionamento
dos trabalhos, articulou-se com outras mulheres que frequentavam
o Centro Espírita Paz, Amor e Caridade, criando uma associação
filantrópica para arrecadar doações. Em 1932,
foi fundada a Associação das Senhoras Cristãs,
da qual Benedita se tornou (Carvalho, 1987;
Camargo, 2017). Desde então, teve início uma
grande campanha de arrecadação que se estendeu para
as cidades vizinhas. Os recursos possibilitaram a transformação
das casas de madeira em alvenaria. Em 1933, foram inaugurados a
Casa da Criança e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira. Nesses locais,
crianças, adolescentes, idosos e doentes mentais, eram acolhidos,
tratados, alfabetizados e recebiam os cuidados religiosos através
de passes (10). Pelas atividades que
desenvolveu, Benedita Fernandes exerceu uma importante liderança
no âmbito das associações filantrópicas
e no movimento espírita local (Carvalho, 1987; Camargo, 2017).
No ano de 2021 o SBT Interior (11)
fez uma série com quatro episódios sobre ela, intitulada:
Com Amor Benedita.
10- Kardec enfatizava a base biológica da
loucura e a influência do ambiente cultural nesse processo.
Ele não negava as causas sociais e biológicas dos
transtornos mentais, entretanto, acrescentava outra origem: as obsessões.
Para ajudar no tratamento completar era necessário realizar
sessões de desobsessão e o passe (Kardec, 1863, 1864,
1865a, 1865b, 1866).
11- SBT Interior é uma emissora de televisão brasileira
sediada em Araçatuba (SP). Opera no canal 7, e é
afiliada ao SBT (https://www.youtube.com/watch?v=ztYnv_x0lFk)
Segundo Aubrée e Laplantine (1990), a maior
contribuição do Espiritismo brasileiro foi o desenvolvimento
das implicações terapêuticas contidas nas obras
de Allan Kardec. O movimento espírita no Brasil organizou
uma ampla rede de terapias complementares, como não foi encontrado
em nenhum outro lugar.
A inserção do Espiritismo nos domínios da saúde
mental concretizou-se em dezenas de hospitais psiquiátricos
espíritas no Brasil. Num levantamento realizado por Souza
e Deitos (1980), naquele período haveria cerca de cem hospitais
psiquiátricos de orientação espírita
no país. Somente no Estado de São Paulo, segundo dados
fornecidos no ano de 1994 pela Secretaria de Estado da Saúde,
existiriam noventa e oito hospitais psiquiátricos. Destes,
vinte e dois seriam espíritas e sem fins lucrativos
(Figueiredo et al., 1998).
Estes estabelecimentos começaram a ser criados no final da
década de 1910. O principal argumento utilizado pelos espíritas
para justificar a criação destes hospitais era a necessidade
de abrigar, tratar e acolher os doentes mentais. Muitos não
possuíam moradia ou família que pudesse oferecer-lhes
algum tipo de cuidado especializado. Outros eram abandonados pelos
próprios familiares. O objetivo principal era retirá-los
das ruas e das cadeias públicas, locais para onde a maioria
era encaminhada pelo cometimento de algum pequeno delito ou por
falta de locais para o tratamento (Almeida,
2021).
Após o falecimento de Benedita Fernandes, em 1947, a Associação
das Senhoras Cristãs entrou no rol das instituições
espíritas que criaram hospitais psiquiátricos. A casa
da criança e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira foi transformada
no Sanatório Benedita Fernandes que manteve suas atividades
até o ano de 2015 (Carvalho, 1987;
Camargo, 2017).
SÃO PAULO: ANNA
GEMIGNANI MOTTA (1904/1978)
Anna Motta, ou D. Nina como era conhecida, era frequentadora do
Grupo Espírita João Evangelista (GEJE) em São
Paulo e numa das reuniões desse grupo surgiu a ideia de criação
de uma entidade filantrópica, destinada ao tratamento de
doentes mentais e toxicômanos.
D. Nina logo assumiu a liderança desse empreendimento. No
ano de 1946, foi aprovada a 1º comissão da diretoria
do hospital e ela assumiu o cargo de Provedora do hospital (Livro
de Atas, 1939-1972).
No estatuto aprovado no mesmo ano, ficava clara a finalidade do
hospital:
Art. 2. – A finalidade
do “SANATÓRIO JOÃO EVANGELISTA” é
internar e tratar gratuitamente, enfêrmos de moléstias
mentais, nervosas e toxicomaniacas, sem distinção
de côr, sexo, nacionalidade ou crença religiosa.
Art. 7. – Os membros da Comissão Diretora e o médico
responsável não terão remuneração,
nas funções de seus cargos.
Art. 17. – A Comissão Diretora e o médico responsavel
esforçar-se-ão para que todo o pessoal componente
do Sanatório paute seus atos e pensamentos pelos ensinos
do cristo-Jesus, consubstanciados num só-: “AMAR AO
PRÓXIMO COMO A SI MESMO”.
Art. 22. – No limite do possivel será permitido aos
doentes internados a assistência espiritual do credo a que
pertencerem.
Art. 23. – Tendo o Espiritismo por base o puro Crsitianismo,
e respeitando, portanto todas as convicções, não
será sob qualquer forma permitido no Sanatório crítica
as crenças alheias
No ano de 1947, tive início a campanha de
arrecadação de doações para a construção.
Diversas atividades foram realizadas nesse sentido, inclusive um
festival pró-construção no Teatro Colombo e
outro no Teatro Municipal. Também foram vinculadas notícias
em jornais da época pedindo donativos e anunciando as festividades
que seriam realizadas para a arrecadação de fundos.
Ela iniciou os contatos com engenheiros, firmas ou pessoas conhecidas
que trabalhassem no ramo de construção para que pudesse
obter auxílio para a construção. Em 1953, o
Ambulatório do Sanatório e Hospital João Evangelista
(HOJE) foi inaugurado. D. Nina passou a residir ao lado da instituição
para manter-se por mais tempo vinculada aos trabalhos. Em 1956,
foi inaugurado um gabinete dentário para tratar os pacientes.
No ano de 1962 foi criada a Escola Profissional Dr. Augusto Silva
com cursos de corte e costura, arte culinária, bordado, tricô,
decoração geral, voltados para auxiliarem no processo
de tratamento dos internos. (Livro de Atas, 1946-1968). Além
desses cursos também foi criada uma escola de enfermagem,
de mesmo nome, objetivando o ensino profissionalizante e a formação
de mão-de-obra para auxiliar os trabalhos do hospital. D.
Nina dedicou trinta e dois anos de trabalho ao HOJE.
RIO DE JANEIRO: YVONNE DO AMARAL PEREIRA (1900/1984)
Yvonne atuou por cerca de 58 anos no campo da mediunidade
sendo considerada dentro do movimento espírita brasileiro
como a segunda maior médium do Brasil, ficando atrás
apenas de Chico Xavier. Segundo a médium (Pereira, 1972;
1978), aos cinco anos de idade ela já via e falava com os
espíritos, começando a psicografar (12)
aos doze anos de idade. Apesar de ter nascido numa família
espírita, relatou que não tinha verdadeira noção
do fenômeno. Ela começou a psicografar livros ainda
na sua juventude, além de afirmar possuir outros dons mediúnicos,
inclusive o de cura. “De tudo já realizei um pouco,
como médium e como espírita” (Pereira, 1972,
s/p). Publicou entre os anos de 1955 a 1979 treze livros pela Federação
Espírita Brasileira (FEB), muitos deles traduzidos para o
inglês, francês e espanhol. Entre os anos de 1994 a
2013 a FEB publicou quatro livros com coletâneas de textos
inéditos da autora, produzidos entre os anos de 1964 e 1971.
12 - Transmissão do pensamento dos Espíritos
por meio da escrita pela mão de um médium. No médium
escrevente a mão é o instrumento, mas a sua alma ou
Espírito nele encarnado é o intermediário ou
intérprete do Espírito estranho que se comunica.
Já na década de 1970, Yvonne dizia
ter finalizado a produção de livros, atuando apenas
na psicografia (recebendo mensagens consoladoras para enlutados),
na oratória, na colaboração na imprensa espírita,
no Esperanto, na correspondência doutrinária e um pouco
de assistência doutrinária e social nos meios espíritas.
Ela também afirmava possuir a faculdade de efeitos físicos
(materializações), mas não se interessava por
esse gênero de trabalho espírita e por isso não
a utilizava (Pereira, 1972). O trabalho mediúnico de Yvonne,
assim como o de Chico Xavier, também foi um importante instrumento
de divulgação e consolidação das ideias
espíritas no Brasil.
CONCLUSÃO
Ao analisarmos a trajetória dessas diversas
personagens do movimento espírita na Europa e no Brasil,
foi possível perceber a sua dedicação ao trabalho
nos mais diferentes ramos: assistencial, educacional, moral, intelectual.
Cada uma a seu modo, pode contribuir para preencher lacunas e melhorar
a vida em sociedade, especialmente para as pessoas mais vulneráveis.
Fica evidente a ação ativa das mulheres em múltiplas
atitudes de liderança: educacional, cura, direção
de grupos espíritas, tratamento, fundação de
hospitais, escolas, orfanatos e asilos para idosos e gestão.
Todas assumiriam um protagonismo num período que não
era comum, ainda mais em contextos religiosos. Reafirmando os princípios
defendidos pelo Espiritismo, tais como: igualdade entre os sexos
(baseada na lei da reencarnação), não distinção
das pessoas pela classe ou raça, a importância dada
ao estudo para o aprimoramento da sociedade, o livre pensamento,
a transformação moral do homem, entre outras, essas
mulheres contribuíram para uma sociedade melhor. Muitas dedicaram
a maior parte de suas vidas a esse trabalho, quase em tempo integral,
por acreditarem que seria possível construir uma sociedade
mais justa e igualitária. Esse padro consistente de atividades
das mulheres espíritas, reafirma a hipótese de que
essas posturas estariam embasadas na visão espírita
de não discriminação da mulher.
Elencamos alguns exemplos, mas pode-se perceber que em várias
cidades, no Brasil e no mundo, e ao longo de pelo menos um século,
muitas outras mulheres se dedicaram a trabalhos semelhantes. A escritora
e poetisa espanhola Amália Domingo Soler, as médiuns
Suely Caldas Schubert e Isabel Salomão (Juiz de Fora/MG),
Aparecida Conceição Ferreira do Hospital do Pênfigo,
Maria Modesto Cravo do Sanatório Espírita de Uberaba,
a médica Marlene Nobre (SP), a médium Zilda Gama (RJ),
a educadora, teatróloga e escritora Amélia Rodrigues
(BA). Sem dúvida, esse tema precisa ser melhor explorado
na historiografia
> texto disponível
em pdf - https://www.editorafi.org/ebook/c029-historia-religiosidade
Fonte: História e religiosidade I: religiões
mediúnicas e afro-brasileiras
Organizadores: Artur Cesar Isaia - Adriana Gomes - Cristiana de Azevedo
Tramonte
https://www.editorafi.org/ebook/c029-historia-religiosidade
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