Irmãs Fox - Kate (1836 1892),
Leah (1814 1890) e Margaret (1833 1893)
Em dezembro de 1847 uma família metodista de nome Fox alugou
uma casa em vilarejo típico de New York chamado Hydesville. Nessa
família havia duas filhas de nome Margaret de 14 anos e Kate,
de 11 anos. Em 1848 surgiram na casa ruídos, arranhões,
batidas, sons semelhantes ao arrastar de móveis que não
deixava as meninas dormir, a não ser no quarto de seus pais.
Tão vibrantes eram esses sons que as camas tremiam e moviam-se.
As irmãs Fox iniciaram o diálogo com o espírito
batedor, fato este que passou a história do Espiritismo como
o episódio de Hydesville.
Passado esse acontecimento no qual as meninas ficaram conhecidas, estas
iniciaram sessões em New York e em outros lugares, triunfando
em cada ensaio a que eram submetidas. Durante esses atos de mediunidade
pública, em que provocavem indignação as moças
entre pessoas que não tinham a menor idéia do significado
religioso dessa nova revelação, entre aqueles cujo interesse
estava na esperança de vantagens materiais, as irmãs estiveram
expostas ás enervantes influências das sessões promíscuas
de tal maneira que nenhum espírita conhcedor da problemática
ousaria assim proceder. Na quela ocasião os perigos de tais práticas
não eram tão notados quanto agora, nem ao povo ocorria
que não era possível que espíritos elevados baixassem
à terra para dar conselhos acerca das ações das
estradas de ferro ou soluções para os casos amorosos.
Contra a sua formação moral das quais jamais houve qualquer
suspeita, mas elas tinham enveredado por um caminho que conduz a degeneração
da mente e do caráter, embora só muitos anos mais tarde
tivessem manifestado os mais sérios efeitos.
Em 1852, o Dr. Elisha Kane, de origem puritana pois considerava a Bíblia
como a última e definitiva palavra de inspiração
divina, encontra Margaret e com ela veio a casar-se. Kane estava convencido
de que a jovem estava envolvida em fraude e nas cartas que lhe enviava
a acusava continuamente de viver em erro e hipocrisia. Kane estava convencido
de que a irmã mais velha de Margaret, Leah, visando fins lucrativos
estava explorando a fraude.
O casamento durou até 1857, ocasião em que a viúva,
então se assinando Mrs. Fox-Kane, abjurou os fenômenos
por algum tempo e foi recebida na Igreja Católica Romana. Em
1871, depois de mais de 2O anos de trabalho exaustivo, ainda as encontramos
recebendo entusiástico apoio e admiração de muitos
homens e senhoras importantes da época. Só depois de 4O
anos de trabalhos públicos é que se manifestaram condições
adversas em suas vidas. Foi em 1871 que, graças a generosidade
de Mr. Charles Livermore, eminente banqueiro de New York, Kate Fox visitou
a Inglaterra. Era um sinal de gratidão do banqueiro pela consolação
que havia recebido de sua força maravilhosa e um apoio para o
progresso do Espiritismo. Ele proveu todas as suas necessidades e assim
evitou que ela tivesse de recorrer ao trabalho remunerado.
A visita de Fox à Inglaterra evidentemente foi considerada como
uma missão. A recém-chegada iniciou suas sessões
logo depois do seu desembarque. Numas das primeiras, um representante
de "The Times" esteve presente e publicou um relato da sessão,
realizada em conjunto com D. D. Home, grande amigo da médium.
Isto se lê num artigo sob o título "Espiritismo e
Ciência" que ocupou 3 colunas e meia em tipo saliente. O
representante de The Time diz que Miss Fox o levou até a porta
da sala, convidou-o a ficar de pé a seu lado e segurou-lhe as
mãos, o que ele fez, "quando foram ouvidos fortes golpes,
que pareciam ser das paredes e como se fossem dadas com os punhos. Os
golpes eram repetidos a pedido nosso, qualquer número de vezes".
A 14 de dezembro de 1872 Miss Fox casou-se com Mr. H. D. Jencken, um
advogado londrino, autor de um "Compêndio de Direito Romano
Moderno", e secretário geral honorário da Associação
para a Reforma e Codificação do Direito Internacional.
Foi ele um dos primeiros espíritas da Inglaterra. Assim relata
Crookes, um encontro com Miss Fox, quando as únicas pessoas presentes
era ele, sua senhora, uma parenta e a médium. "Eu segurava
ambas as mãos da médium numa das minhas mãos, enquanto
seus pés estavam sobre os meus. Havia papel sobre a mesa em nossa
frente e eu tinha um lápis na mão livre. Uma luminosa
mão desceu do alto da sala e, depois de oscilar perto de mim
durante alguns segundos, tomou o lápis de minha mão e
escreveu rapidamente numa folha de papel, largou o lápis e ergueu-se
sobre nossas cabeças, dissolvendo-se gradativamente na escurid±o".
Muitos outros observadores descrevem fenômenos similares com a
mesma médium em várias ocasiões. Os detalhes das
sessões poderiam encher um volume.
É opinião do Prof. Butlerof da Universidade de São
Petersburgo que, depois de investigar os poderes da médium em
Londres, escreveu em The Spiritualist em 1876: "De tudo quanto
me foi possível observar em presença de Mrs. Fox, sou
levado a conclusão de que os fenômenos peculiares a esse
médium são de natureza fortemente objetiva e convincente
e que, penso, seriam suficientes para levar o mais pronunciado cíptico,
desde que honesto, a rejeitar a ventriloquia, a ação muscular
e semelhantes explicações dos fenômenos".
Mr. Jencken morreu em 1881 deixando a viúva com duas filhas.
Margaret tinha se juntado a irmã Kate em 1876 e permanceram juntas
por alguns anos, até que ocorreu o lamentável incidente
envolvendo a família. Parece que houve uma discussão amarga
entre a irmã mais velha, Leah e as duas moças. É
provável que Leah tivesse sabido que havia então uma tendência
para o alcoolismo e tivesse feito uma intervenção com
mais força do que tato... Alguns espíritas também
interferiram e deixaram as 2 irmãs meio furiosas, pois tinha
sido sugerido que os 2 filhos de Kate fossem separados dela. Procurando
uma arma - uma arma qualquer - com a qual pudessem ferir aqueles a quem
tanto odiavam, parece que lhes ocorreu - ou, de acordo com o seu depoimento
posterior, que lhes foi sugerido sob promessa de vantagens pecuniárias
- que se elas injuriassem todo o culto, confessando que fraudavam, iriam
ferir a Leah e a todos os confrades no que tinham de mais sensível.
Ao paroxismo da excitação alcoólica e da raiva
juntou-se o fanatismo religioso, pois Margaret tinha sido instruída
por alguns dos principais espíritos da Igreja de Roma, e convencida
- como também ocorreu com Home durante algum tempo - que suas
próprias forças eram maléficas, no que ficou reduzida
a um estado vizinho da loucura. Antes de deixar Londres, escreveu ao
New York Herald denunciando o culto, mas sustentando numa frase que
as batidas "eram a única parte dos fenômenos digna
de registro". Chegando a New York, onde, conforme sua subsequente
informação, deveria receber certa quantia pela sensacional
declaração prometida ao jornal, teve uma verdadeira explosão
de ódio contra sua irmã mais velha.
Posteriormente, um ano após o escândalo de Margaret, esta
fez extensa entrevista à imprensa de New York denunciando a tentação
do dinheiro e admitindo haver dito falsidades contra os Espíritos
pelos mais baixos motivos. "Praza Deus" - disse ela com voz
trêmula de intensa excitação - "que eu possa
desfazer a injustiça que fiz à causa do Espiritismo quando,
sob intensa influência psicológica de pessoas inimigas
dele, fiz declarações que não se baseiam nos fatos".
Mais adiante pergunta o entrevistador. "Havia alguma verdade nas
acusações que a senhora fez ao Espiritismo?" - "Aquelas
acusações eram falsas em todas as minúncias. Não
hesito em dizê-lo... Não. Minha crença no Espiritismo
não sofreu mudanças. Quando fiz aquelas terríveis
declarações não era responsável por minhas
palavras".
Tanto Kate quanto Margaret morreram no começo do último
decênio do século e seu fim foi triste e obscuro. Todavia,
as idéias espíritas dissiminadas através de seus
feitos, ora através do cansativo alfabeto das batidas, ora por
eventos espetaculares cuja causa era a mediunidade de ambas, prepararam
o terreno para a codificação, que se seguiria sob a diretriz
do Espírito da Verdade e a coordenação segura de
Allan Kardec.