21/12/2011
Religiosidade e medicina: pesquisa investiga práticas
de cura na zona portuária
por Danielle Kiffer
O website da FAPERJ - Fundação Carlos
Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
publicou interessante pesquisa do pesquisador Fernando Sergio Dumas
dos Santos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizada
com moradores de comunidades da zona portuária da cidade do Rio
de Janeiro e da Baixada Fluminense, onde ele investiga questões
referentes à relação entre a medicina e os costumes
populares de cura e práticas religiosas. Com o projeto “Práticas
terapêuticas da comunidade portuária no século XX:
memórias e identidades”, ele descobriu que há, arraigada
na cultura carioca, a compreensão de que a espiritualidade ajuda
na cura.

Uso de plantas para curar doenças é
investigado no estudo
por Mariana Leal
Até que ponto a cura de uma doença pode ser baseada
na fé?
Num vasto universo, em que predominam banhos, garrafadas ou mesmo
rituais de oferendas a orixás, certas práticas terapêuticas,
baseadas na tradição afrodescendente, tiveram continuidade
no século XX. Em entrevistas com moradores de comunidades da
zona portuária da cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense,
o pesquisador Fernando Sergio Dumas dos Santos, da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz), investiga questões referentes à
relação entre a medicina e os costumes populares de cura
e práticas religiosas. Com o projeto “Práticas terapêuticas
da comunidade portuária no século XX: memórias
e identidades”, ele descobriu que há, arraigada na cultura
carioca, a compreensão de que a espiritualidade ajuda na cura.
“Resolvi estudar o século XX porque não há
historiografia disponível para este assunto a partir deste
período. Constatei como a medicina popular tem sido empregada
para complementar a tradicional. Mesmo quando não pertence
à umbanda ou ao candomblé, muita gente alia as duas
formas de tratamento. É um apoio terapêutico”,
afirma Fernando.
O ponto de partida escolhido para o início do projeto foi a
zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, localizada nas imediações
da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, um local com fortes
raízes afro, que abrigou, nos séculos XVIII e XIX, um
conhecido mercado de escravos: o Valongo. Foi neste território
rico em tradições culturais que o pesquisador começou
a desenvolver seu estudo, que teve apoio da FAPERJ por meio do programa
de Auxílio à Pesquisa (APQ 1).
“Os livros indicam que a região foi um dos berços
da cultura negra no Rio de Janeiro. Por isso, achei interessante investigar
como andava, no século XX, a questão dessas práticas
de cura, transmitidas de pais para seus filhos”, conta.
Para isso, o pesquisador procurou contatar os terreiros de candomblé
e de umbanda que ainda existissem na região, mas descobriu que
as reformas urbanas na cidade, com a construção do porto
e das avenidas em seu entorno, como a Rodrigues Alves, a Francisco Bicalho
e a Presidente Vargas, assim como a especulação imobiliária,
transformaram o espaço e seus vínculos com a cultura negra.
Em sua busca, Fernando só encontrou um terreiro de candomblé
no morro da Pedra Lisa, ao lado do morro da Providência.
“Hoje, a maioria dos moradores daquela região é
branca e os cultos são feitos nas residências. Acho que
isso se deve a todas essas mudanças.” Isso fez com que
o pesquisador partisse para a Baixada Fluminense, para entrevistar
praticantes, babalorixás e ialorixás da umbanda e do
candomblé sobre práticas de cura.
O projeto rendeu 30 entrevistas, cada uma delas de cerca de quatro
horas, além de um filme curta-metragem, intitulado Ancestralidade
e cura no Rio de Janeiro, e realizado por meio da parceria entre a Fiocruz
e o Laboratório de História Oral e Imagem (Labhoi) da
Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a ótica das práticas
populares, com o radialista e estudioso das questões dos afrobrasileiros
Rubem Confete, que viveu grande parte de sua vida na Zona Portuária.
“Os depoimentos são muito importantes para a compreensão
da pesquisa; as pessoas envolvidas participaram de rituais de curas
de diversas correntes do candomblé e da umbanda.”
Segundo o pesquisador, na crença dos praticantes das religiões
afrodescendentes, as doenças em geral têm um fundo espiritual,
que precisa ser tratado de forma completamente diferente da medicina
tradicional.
“Isso, no entanto, não significa conflito; há,
na verdade, uma complementação de procedimentos de cura.”
Como constatou Fernando, esses procedimentos também são
diferentes para tratar males atribuídos a feitiços, como
o mau-olhado, e doenças vinculadas à medicina formal,
como dores e doenças diversas.
Segundo Fernando, há depoimentos bem interessantes.
“Uma senhora garante, por exemplo, que a filha paralítica
depois de um acidente, foi curada a partir dos rituais das religiões
afrodescendentes. Outra entrevistada relata que a filha bebê
tinha uma doença de pele. Ao consultar uma rezadeira, foi prescrito
um unguento à base de enxofre, banha de ori (espécie
de gordura vegetal) e ervas, como sete sangrias e vassourinha do mato,
para ser usado durante o banho e antes de dormir. Ela revela que,
em questões de dias, o problema começou gradativamente
a sumir. Ela acabou se convertendo ao candomblé e terminou
mãe de santo”, conta.
O pesquisador também observa como costumes de crenças
distintas foram incorporados e consolidados em práticas sincréticas.
“Um senhor me disse que costumava fazer um chá com
ervas compradas no Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde”.
Segundo Fernando, certas práticas de chá vêm da
tradição portuguesa, mas no candomblé e na umbanda,
estão vinculadas ao culto dos orixás e têm um caráter
ritualístico.
"No cotidiano da população, principalmente no
senso comum dos não-iniciados, isso se traduz em sincretismo.
A interculturalidade está consolidada”, analisa o pesquisador.
As entrevistas, editadas no Laboratório de História Oral
e Imagem (Labhoi), da UFF, fazem parte da construção de
uma escrita acadêmica em vídeo.
“Em vez de transcrever os vídeos e transformá-los
em tese, preferi usar a linguagem audiovisual; o vídeo permite
maior divulgação e tem a capacidade de atingir um número
maior de pessoas”, explica.
A pesquisa também inspirou Fernando a realizar a exposição
“Um século de vivências num porto moderno: Rio de
Janeiro, 1910-1920”, da qual é curador.
A mostra, que reúne cerca de 100 fotografias, além de
cenários interativos, vídeos, e a maquete do projeto “Porto
Maravilha”, conta também com seminários e oficina
pedagógica para retratar a comunidade e as experiências
sociais cotidianas da região portuária e sua rica história
ao longo do século XX. A exposição acontece no
Centro Cultural dos Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20, no
Centro do Rio), até o dia 8 de janeiro.
Fonte: http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=7753