Amigos,
Uma constatação a que não deixa
de chegar o observador mais atento é que dentro do movimento
espírita existe uma variação de idéias a
respeito de pontos acessórios (1)
da doutrina. Nada de se estranhar, pois o número de espíritas
e simpatizantes é muito grande e a unanimidade total de idéias
dentro da comunidade espírita é praticamente impossível.
A Doutrina Espírita, e nisto todos concordam,
prima pela defesa da fé raciocinada, ou seja, por incentivar
o estudo e o raciocínio próprio em torno do conjunto de
conhecimentos que a compõe. Não há a adesão
a uma forma imposta de pensar, muito menos a sujeição
a uma autoridade doutrinária que diga o que é
certo ou o que é errado.
O que chamamos de Espiritismo é o ensinamento
transmitido pelos Espíritos, ou derivado dos estudos sobre a
comunicação mediunica, organizado por Allan Kardec e complementado
gradualmente nos cento e poucos anos que se seguiram a sua desencarnação.
A complementação foi resultado de novas comunicações
e do aprofundamento dos estudos. Este desenvolvimento seu deu principalmente
em questões acessórias, que não
modificaram o núcleo da Doutrina (2)
:
- A existência de Deus, inteligência
suprema, causa primária de todas as coisas;
- A existência de um princípio inteligente
no homem, o Espírito, que sobrevive ao corpo e conserva sua individualidade;
- O Espírito evolui através de múltiplas
existências (reencarnações) em um processo que o
leva à perfeição;
- Todos os Espíritos são criados
iguais e evoluem sujeitos à mesma lei de causa e efeito;
- A comunicação entre os Espíritos
desencarnados e os Espíritos encarnados (os seres humanos) é
possível e natural;
- A moral Espírita fundamentada na moral
Cristã (Fora da Caridade não há salvação);
Entre as questões acessórias tratadas
após a desencarnação de Kardec (3)
podemos citar:
- Aprofundamento das informações
sobre o mundo espiritual onde permanecem os Espíritos no intervalo
de suas encarnações;
- Aprofundamento dos estudos sobre a mediunidade;
- Aprofundamento dos estudos sobre os aspectos
morais/religiosos do Espiritismo;
- A afinidade entre o movimento espírita
e o esperantista;
- A afinidade entre o movimento espírita
e a homeopatia;
- A atuação social espírita;
- A questão da identidade própria
com relação a outras filosofias e religiões espiritualistas
(por exemplo: as religiões afro-brasileiras);
A bibliografia Espírita contemporânea
é imensa, refletindo a extensão do campo de assuntos tratados.
Neste campo se encontram temas tão distantes quanto o estudo
da evolução do princípio inteligente nos reinos
animal e vegetal até a discussão sobre as formas de existência
em outros planos e mundos, passando pelos testemunhos sobre as condições
do mundo espiritual e das leis que o regem.
É justamente nas áreas periféricas
deste campo de conhecimentos que surgem as discussões e são
nas idéias muito novas ou nas que não encontraram apoio
na maioria dos grupos espíritas, que se concentram as divergências.
O exemplo mais clássico é o da
polêmica sobre o corpo fluídico de Jesus, que sem entrarmos
no seu mérito, reflete justamente uma questão deste tipo.
Ela é acessória porque nada interfere no núcleo
da Doutrina e é praticamente insolúvel porque as únicas
provas que a encerrariam definitivamente seriam a descoberta do túmulo
com os restos mortais de Jesus (bastante improvável já
que os testemunhos documentais existentes - os Evangelhos - falam de
seu desaparecimento na ressureição e, mesmo que os testemunhos
não sejam precisos, já se passaram quase 2.000 anos do
fato) ou o testemunho do próprio Jesus através de médiuns
de credibilidade aceita por todas as partes.
Argumentações baseadas em fatos
e conhecimentos doutrinários, mais ou menos sólidas, não
têm como resolver a discussão porque há outros aspectos
envolvidos além dos racionais. As pessoas têm perfis diferentes,
correspondem a tipos psicológicos diferentes (4).
As mesmas situações apresentadas à pessoas de tipos
psicológicos diferentes as levam a conclusões e respostas
diferentes.
Além da questão do tipo psicológico
há o histórico pessoal. O país onde a pessoa vive,
a classe social a que pertence, a organização em que trabalha
e os grupos sociais a que se liga nas suas horas livres, todos contribuem
para formar a visão de mundo do indivíduo. Visão
de mundo que servirá de filtro para o modo como recebe as informações
do mundo externo e as interpreta (5).
Acrescente-se a estes pontos discutidos o fato de que
nosso vocabulário é adaptado às necessidades das
sociedades terrenas atuais, as palavras têm múltiplos sentidos
e nem sempre são adequadas para expressar idéias que fogem
ao modo de vida material. Assim informações sobre o mundo
espiritual ou sobre realidades que transcendem a matéria geralmente
são trazidas pelos espíritos na forma de analogias ou
de aproximações. A interpretação das analogias
e das aproximações é fortemente dependente do receptor
da informação (6).
Como a única forma de não termos divergências
de idéias no movimento espírita seria termos todos os
espíritas com o mesmo tipo psicológico, e com o mesmo
histórico pessoal, não há outra alternativa
viável senão vivermos com as diferenças.
Naturalmente existiram no passado grupos religiosos que tentaram a uniformidade
absoluta e a única forma de obtê-la é pela imposição.
Historicamente isto gerou perseguições, intolerância
e guerras religiosas. Não são bons exemplos a se seguir,
pois ao impor a uniformidade precisaram justamente deixar para trás
- ou encobrir através de sofismas - o que é mais importante
no seu núcleo: o amor ao próximo.
Vivermos com as diferenças significa
sabermos trocar idéias e compartilhar espaços
com pessoas que defendem posições diferentes das nossas
nos pontos acessórios da Doutrina. Significa compreender
que nós e elas somos Espíritas. Significa principalmente
sempre ter em mente que:
- Os pontos acessórios não estão
completamente resolvidos e podem mudar com novos desenvolvimentos;
- Tanto nós como elas temos limitações
e preferências, o que afeta nosso modo de perceber a realidade;
- Talvez nem nós, nem elas, estejamos de
posse da verdade definitiva, possivelmente ambos estejamos errados;
- O mesmo se dá em qualquer outro campo
de atuação da vida humana. A uniformidade não é
a regra.
A solução é a "tolerância".
Tolerância no sentido mais amplo de que aceitamos que o outro
pense de forma diferente porque ele tem tanto direito quanto nós
de ter sua interpretação da fé raciocinada que
compartilhamos. Interpretação tão válida
quanto a nossa. Se ele está certo e nós errados, ou vice-versa,
apenas o tempo dirá.
Claro que a tolerância também
vale para as pessoas que divergem de nós até mesmo nos pontos
básicos da Doutrina, nos que consensualmente são
os que identificam uma pessoa como Espírita, mas nesse caso se
trata mais da tolerância com a crença legitima de nossos
irmãos de outras religiões e com circunstâncias que
fogem ao escopo deste pequeno comentário. É natural neste
caso esclarecer a pessoa do que é o Espiritismo e mostrar-lhe,
sempre dentro do máximo respeito para suas crenças pessoais,
que ela defende idéias diferentes deste.
Kardec disse que a fé verdadeira não teme
o uso da razão. Ele poderia ter acrescentado que a fé
verdadeira também não teme conviver com diferenças
de opinião. A fé verdadeira não teme a
troca de idéias e o debate, muito menos teme estudar as opiniões
alheias. É a fé vacilante que busca a uniformidade, para
não se questionar a si própria.
Muita Paz,
Carlos Iglesia
Editor GEAE
Notas:
1 - Estamos chamando de "pontos
acessórios" ou "questões acessórias"
os temas que são estudados pelos espíritas, mas que não
modificam os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.
Os parágrafos seguintes do editorial apresentam maiores detalhes
a respeito.
2 - Os princípios fundamentais da filosofia espírita,
conforme descritos por Allan Kardec em um discurso que apresentou por
ocasião do dia de finados e que está publicado na Revue
Spirite de dezembro de 1868 (vide Boletim GEAE 277), são:
"Crer num Deus todo-poderoso, soberanamente justo e bom; crer na
alma e na sua imortalidade; na preexistência da alma como única
justificativa da presente existência; na pluralidade das existências
como meio de expiação, reparação e adiantamento
intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos;
na felicidade crescente com a perfeição; na remuneração
equitativa do bem e do mal, segundo o principio: a cada um segundo as
suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções,
favores nem privilégios para criatura alguma; na duração
da expiação limitada à da imperfeição;
no livre-arbítrio do homem, deixando-lhe a escolha entre o bem
e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo
visível e o mundo invisível; na solidariedade que liga
todos os entes passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados;
considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases
da vida do Espírito, que é eterna; aceitar corajosamente
as provas, visto ser o futuro mais desejável que o presente;
praticar a caridade por pensamentos, palavras e obras, na mais ampla
acepção do vocábulo; esforçar-se cada dia
para ser melhor do que na véspera, extirpando da alma alguma
imperfeição; submeter todas as suas crenças ao
controle do livre exame e da razão e nada aceitar por uma fé
cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais
que nos pareçam e não violentar a consciência de
ninguém; ver enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação
das leis da Natureza, que são as leis de Deus".
3 - Allan Kardec no texto "Rivalidades entre Sociedades"
(O Livro dos Médiuns) já tratava a possibilidade das divergências
provocadas por questões acessórias:
"(...) Como dissemos no capítulo sobre Contradições,
essas divergências têm por motivo, na maioria das vêzes,
questões acessórias ou até mesmo simples palavras.
Seria pueril, portanto, cindirem o grupo, formando outro à parte
por não pensarem exatamente da mesma forma. Haveria ainda coisa
pior se os diversos grupos ou sociedades de uma mesma cidade se olhassem
recìprocamente com inveja. Compreende-se a inveja entre pessoas
que disputam entre si e podem causar-se prejuízos materiais.
Mas quando não há especulação a inveja ou
o cíume nada mais são do que mesquinha rivalidade provocada
pelo amor próprio. Como não pode haver, de maneira alguma,
uma sociedade que possa reunir todos os adeptos, as que realmente desejam
propagar a verdade, que têm um objetivo exclusivamente moral,
devem ver com prazer o aparecimento de novos grupos e, se houver concorrência
entre eles deve ser apenas uma emulação no campo do bem.
Aquelas que pretendessem estar na posse exclusiva da verdade deveriam
prová-lo tomando por divisa: Amor e Caridade, porque essa é
a divisa de todo verdadeiro espírita. (...)"
"Se o Espiritismo deve, como foi anunciado, realizar
a transformação da humanidade, só poderá
fazê-lo pelo melhoramento das massas, o qual só se dará
gradualmente, pouco a pouco, pelo melhoramento dos indivíduos.
Que importa crer na existência dos Espíritos, se essa crença
não tornar melhor, mais bondoso e mais indulgente para os seus
semelhantes, mais humilde e mais paciente na adversidade aquêle
que a adotou ? (...)"
"Essa é a via pela qual nos temos esforçado
para levar o Espiritismo. A bandeira que arvoramos bem alto é
a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno da qual
somos felizes de ver desde já tantos homens se juntarem em todos
os pontos da Terra, porque compreendem que está nela a âncora
de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o
signo de uma nova era para a humanidade. (...)". Capítulo
XXIX - Reuniões e Sociedades, O Livro dos Médiuns, tradução
de J. Herculano Pires, coleção das obras completas de
Allan Kardec da EDICEL.
4 - Uma leitura interessante a respeito é o livro
"Tipos Psicológicos" de C. G. Jung. que estuda a questão
dos tipos psicológicos com grande profundidade.
5 - A diferença cultural e suas implicações
na comunicação humana são objeto de importantes
estudos, como os do Prof. Geert Hofsted (http://www.geert-hofstede.com/).
Em uma pesquisa que desenvolveu com pessoas de 50 filiais da IBM em
países diferentes, do mesmo nível dentro da organização,
ele identificou algumas características marcantes (chamadas por
ele de "dimensões da cultura") que permitiam entender
porque elas chegavam a soluções diferentes para os mesmos
problemas. Recomendo a leitura do livro "Culture's Consequences
: Comparing Values, Behaviors, Institutions, and Organizations Across
Nations" do Prof. Geert, ele traz uma excelente visão do
que como a "cultura" interfere no modo como vemos e reagimos
ao mundo.
6 - "Ninguém pode ultrapassar
de improviso os recursos da própria mente, muito além
do círculo de trabalho em que estagia; contudo, assinalamos,
todos nós, os reflexos uns dos outros, dentro da nossa relativa
capacidade de assimilação". Emmanuel, trecho do capítulo
"O Espelho da Vida" do livro "Pensamento e Vida",
médium Francisco Cândido Xavier, FEB.
http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae498.html#lidar
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