Resumo
Ainda que distantes em importância
na sociedade moderna, algumas extrapolações de pensamento
por detrás das modernas pesquisas genéticas e da velha
astrologia têm muito em comum. Fazemos aqui uma comparação
entre essas diferentes disciplinas e analisamos tais características
comuns segundo a visão espírita, apontando a causa dessa
situação[1].
1. Introdução
É muito comum encontrarmos hoje em dia discussões
sobre as questões da consciência, sobre como
a mente se estabelece e opera. Esse renovado debate (encontradas
em respeitadas revistas de divulgação científica)
reflete o grau crescente de interesse de alguns ramos do conhecimento
científico com relação às questões
do espírito. O ponto de vista subjacente que orienta as discussões
ainda é materialista, apoiado principalmente por um grande contingente
de biologistas (evolucionistas, fisiologistas, zoólogos, geneticistas
etc). A crença geral desses grupos sustenta que a mente humana
– e, como conseqüência toda individualidade humana
– é o resultado de interações e conexões
de entidades moleculares componentes da parte material, visível
ou mensurável pelas técnicas de diagnóstico moderno,
o cérebro. Não discutiremos aqui as difíceis propostas
de modificação dessa concepção materialista,
que têm sido levantadas mesmo dentro de círculos acadêmicos[2].
Tomemos apenas a idéia materialista descrita acima e analisemos
suas conseqüências para o homem, dentro do âmbito de
algumas especulações a partir de partes da biologia, em
particular a que trata dos mecanismos de perpetuação das
espécies.
Esse posicionamento adquire grande interesse popular
diante das aventadas extrapolações e implicações
da genética. Através de seus princípios,
a genética teve grande importância no esclarecimento dos
mecanismos de aparecimento e desenvolvimento das espécies, fatos
que não estavam tão claros na obra revolucionária
de Charles Darwin de 1859, “Sobre a origem
das espécies por meio da evolução natural”.
Na verdade a comunidade científica da época dobrou-se
às evidências práticas fornecidas por Darwin a favor
da seleção natural que ele conseguiu junto à paleontologia
e a biogeografia. Em contrapartida, o desenvolvimento posterior da teoria
de Darwin dinamizada pela genética deu origem a diversas especulações
em torno da natureza do homem (e das espécies humanas), de seu
mecanismo de desenvolvimento e até mesmo de suas conseqüências
éticas. Nasceu a idéia de que os genes (entidades no limite
entre o muito pequeno e o atômico) seriam responsáveis
não só pelos caracteres morfológicos de um ser
vivo – que é princípio na genética –
mas também de toda sua bagagem comportamental. Aplicada ao homem,
essa forma radical de interpretação genética adquiriu
enorme força na forma da “sociobiologia”
ou “darwinismo social”. Foram lançados
então os fundamentos para o desenvolvimento de um doutrina dentro
das disciplinas consideradas científicas, que seria capaz de
explicar completamente o indivíduo. A base de tal proposta seria
a lei de perpetuação de um determinado gene como determinante
de uma certa característica – seja morfológica ou
comportamental mas principalmente esta última quando trouxesse
vantagens claramente desejáveis a toda espécie. A perpetuação
do gene favoreceria diretamente a perpetuação da própria
espécie. Como corolário desse princípio (que é
válido para os caracteres morfológicos), seria possível
alterar o comportamento dos indivíduos pela manipulação
genética. Em seus fundamentos, a sociobiologia admite explicitamente
que os genes contêm todo o código que descreve o indivíduo,
mesmo em sua mais íntima psicologia, a saber: sobre como ele
se posiciona diante de determinadas circunstâncias, de suas tendências
inatas (inteligência, afetividade, relacionamento social), de
seus gostos pessoais etc. É bastante óbvio ao leitor que
tal doutrina está em franco desacordo com o Espiritismo. Reduzido
a sua última expressão, para os sociobiólogos,
o homem seria apenas um repositório para a sobrevivência
dos genes que carregariam para a eternidade nossos sentimentos e modos
de ser.
A sociobiologia está por detrás
de uma ampla gama de debates recentes em torno das questões éticas
relacionadas à genética. Tomemos também
como exemplo, o ápice de algumas extrapolações
que estão na raiz da sociobiologia tal como a doutrina da eugenia
fundada por Francis Galton. Segundo ela seria possível ao Estado
gerar uma elite genética pelo controle rigoroso da reprodução
humana favorecendo a perpetuação dos indivíduos
desejáveis (na verdade caracteres de comportamento desejáveis)
e eliminando os indesejáveis. Sabemos que alguns Estados totalitários
do século XX chegaram a flertar com a eugenia como programa de
desenvolvimento social com trágicas conseqüências.
Nosso objetivo aqui é chamar a atenção
para os fundamentos que diferenciam a posição
espírita das especulações advindas principalmente
da genética. O principal fundamento que colide diretamente com
essas recentes propostas é a noção de livre-arbítrio,
facilmente reconhecida mesmo entre outras doutrinas espiritualistas.
Não será difícil ao leitor nesse ponto reconhecer
de imediato que as duas disciplinas enunciadas no título desse
texto depõem contra essa noção. Além disso,
esses fundamentos se somam a observações mais acuradas
a partir de pesquisas biológicas recentes que atingem seriamente
o darwinismo social como uma ciência. Para conhecimento
dessas críticas, o leitor deve consultar “Os herdeiros
de Darwin” por Marcel Blanc (1).
2. Um paralelo
Chamamos mais uma vez a atenção ao fato de que não
estamos a criticar a genética como ciência bem estabelecida,
mas sim muitas interpretações nascidas de extrapolações
de estudos genéticos. Assim, a “genética”
do título deste texto refere-se propriamente a tais interpretações
que, como vimos, tomaram a forma seja da sociobiologia ou da eugenia.
Para motivar nosso estudo, vamos construir um paralelo que se apresenta
à mente moderna diante das propostas de descrição
da personalidade humana pelos estudos genéticos. Tal paralelo
é bastante motivador dentro do contexto da história e
filosofia da ciência, pois revela aspectos correlatos entre diferentes
doutrinas científicas aparentemente distantes entre si no tempo.
O que de fato pode haver em comum entre tais
propostas e as velhas proposições astrológicas?
No passado, o estudo da posição e movimento dos
corpos celestes, a seu turno, desempenhou um papel fundamental na predisposição
e destino de tudo o que ocorria na Terra. Em seus estudos, os astrólogos
descobriram fenômenos celestes de grande importância. Aprenderam
como antecipar em anos os eclipses solares a lunares e contribuíram
para o desenvolvimento dos calendários, aumentando assim a riqueza
de suas sociedades pela introdução de um rigoroso controle
de tempo na agricultura. Não se tem dúvida de que a astronomia
(considerada uma das mães da filosofia natural e, portanto, de
toda ciência moderna) nasceu a partir de antigos estudos de natureza
astrológica.
Vejamos agora o caso da genética
que se inicia com os estudos de Mendel no século
XIX. Constituindo um dos campos mais avançados de pesquisa na
atualidade (no que diz respeito à aplicação de
técnicas de pesquisa empírica e a julgar pelas enormes
fortunas que os governos têm gasto em seu desenvolvimento), a
genética tem sido responsável por uma enorme variedade
de contribuições práticas em biologia, medicina,
veterinária, agricultura etc. Em seus estudos os geneticistas
têm desvendado o mecanismo oculto dos genes, tornando possível
a cura de muitas doenças e a produção de substâncias
que melhoram consideravelmente o desempenho fisiológico de muitos
seres vivos. Ao mesmo tempo, a genética projeta sistemas biológicos
nunca imaginados anteriormente. Digamos que, de uma perspectiva histórica,
as modernas descobertas práticas da genética não
devem em nada àquelas derivadas da astrologia.
Entretanto, a astrologia não foi praticada apenas
de olho em possíveis aplicações práticas.
Seu objetivo primordial era a revelação de fatos desconhecidos,
o futuro das pessoas. Seu princípio básico[3] era o de
que uma pessoa nasce sob o signo de uma determinada “estrela”.
Especificamente, o futuro de um indivíduo estaria de certa forma
ligado à posição dos planetas no zodíaco[4].
Essa idéia assume de uma forma explícita que a individualidade
do ser humano (suas tendências, sentimentos etc) está fixado
pelos planetas no momento de seu nascimento. Implicitamente isso representa
uma limitação ao livre-arbítrio do homem, já
que este não está tão livre no momento da tomada
de decisões, ou seja, alguma coisa, além de si próprio
intervém tornando possível uma escolha em detrimento de
outra. Ainda que se possa dizer no contexto moderno que os astros não
influenciam diretamente uma determinada decisão particular, eles
certamente fazem parte da imagem final do ser humano por terem moldado
suas predisposições. Fundamentalmente isso contrasta
abertamente com a tese espiritualista do ser que tem todos seu comportamento
resultante de propriedades de sua essência última, o seu
Espírito.
Substituamos agora “posição
dos planetas” por “arranjos especiais dos genes” e
teremos quase que a mesma coisa nas modernas interpretações
do papel dos genes no comportamento humano. A predisposição
celeste foi apenas substituída pela molecular, possivelmente
quanto-mecânica em natureza[5], ainda que por meio de obscuras
interrelações. Assim, tanto de acordo com a velha astrologia
como por algumas interpretações da natureza humana nos
estudos da moderna genética, no que diz respeito à individualidade
humana e quanto ela pode ser fixada em seu destino, fomos inexoravelmente
pré-programados desde a hora de nosso nascimento. A comparação
se estende até no momento de se evitar este ou aquele comportamento:
enquanto a astrologia pode sugerir a programação baseada
na hora do nascimento – segundo a posição dos planetas
no céu – na impossibilidade de se alterar essa posição,
as extrapolações baseadas na genética sugerem a
modificação no conteúdo hereditário das
células mães em um esforço para alterar o comportamento.
Ambas doutrinas também conferem ao ambiente um papel modelador
importante, podendo alterar consideravelmente o script pré-programado.
Em um referencial histórico mais amplo
as semelhanças são igualmente compreensíveis.
No passado, a astrologia inseria-se no contexto de doutrinas religiosas
politeístas. Tendo a ciência tomado o lugar da religião
na sociedade moderna, é natural que as perspectivas genéticas
modernas do ser humano tomassem o lugar das velhas doutrinas astrológicas
que tinham igualmente algo a dizer sobre o destino e a razão
de agir dos indivíduos. Não se pode porém confundir
uma diferença: a de que, enquanto a astrologia tinha como objetivo
fundamental prever o futuro – tanto no que dizia respeito a acontecimentos
terrenos e seus principais atores, os seres humanos, a sociobiologia
que discutimos aqui é uma extrapolação de conclusões
específicas e restritas de um ramo da biologia, a genética,
cujo principal objetivo é compreender melhor o mecanismo temporais
de geração, perpetuação e morfologia dos
seres vivos. Um quadro geral comparando essas duas visões pode
ser visto abaixo.
| Origem histórica |
Extrapolações de estudos
em genética aplicada |
Tradições antigas. Crença
no destino traçado pelos deuses. |
| Fundamentos |
A personalidade é função de
sua bagagem genética. |
A personalidade é função do
signo astrológico. |
| Mecanismos |
Genes e herança. O ambiente tem papel importante.
|
Posição dos planetas no momento do
nascimento. O ambiente tem papel importante. |
| Prescrição corretiva |
A personalidade pode ser programada geneticamente
pela alteração nas células mães. |
A personalidade pode ser programada pelo instante
do nascimento. |
| Conseqüências |
O destino da criatura é moldado independentemente
dela. |
O destino da criatura é moldado independentemente
dela. |
3. A visão espírita
Não é consolador
e belo poder dizer: sou uma inteligência e uma vontade livre;
a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei
lentamente minha individualidade e liberdade, e agora conheço
a grandeza e a força que há em mim.
Leon Denis (Ref. 2, página 219)
Algumas idéias expostas acima como parte integrante do darwinismo
social aplicada à natureza humana parecem fortemente limitar
uma das mais misteriosas propriedades do ser humano: o livre-arbítrio.
Podemos descrever o livre-arbítrio como a capacidade do ser decidir
entre duas alternativas ou entre um conjunto de opções
por uma introspecção interna. O livre arbítrio
prende-se logicamente a razão de ser da personalidade humana,
diz-se que a criatura humana age de acordo com suas pendências
pessoais, e toma a decisão segundo seus interesses e inclinações
quando o livre-arbítrio tem papel preponderante. Para nós,
Espíritos encarnados, estamos absolutamente convencidos de que
nada externo a nós influencia tal escolha, não estamos
“pré-programados” ou somos controlados “remotamente”
para decidir entre isso e aquilo.
Do ponto de vista espírita, assim, as semelhanças
entre as extrapolações genéticas e a astrologia
também têm sua razão de ser. Elas provêm de
uma compreensão parcial da natureza humana.
Os Espíritos foram bastante claros quanto à inexistência
de scripts pré-programados determinando a personalidade humana.
Na Parte 2 do Capítulo 1 de “O Livro dos Espíritos”
(3), Kardec dirige-se aos Espíritos nos termos:
Por que é que alguns Espíritos
seguiram o caminho do bem e outros do mal?
“Não têm eles o livre-arbítrio?
Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é,
tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são
maus, assim se tornam por vontade própria.”
A resposta dada contém em si um princípio. Os Espíritos
são dotados de uma capacidade própria (como no caso da
inteligência), o de julgarem as coisas livremente. Compreende-se
que se não fosse assim, Deus certamente seria o responsável
pela escolha “errada” e portanto todo o mal que parece se
originar dessa escolha. Em outras palavras, sem o livre-arbítrio
os Espíritos não passariam de meros autômatas previamente
programados. A resposta, como de costume, parece não ter sido
suficiente a Kardec. Ele volta ao ponto da escolha entre as duas opções
possíveis com a questão 122.
Como podem os Espíritos, em sua origem,
quando ainda não têm consciência de si mesmos, gozar
da liberdade de escolha entre o bem e o mal? Há neles algum princípio,
qualquer tendência que os encaminhe para uma senda de preferência
a outra?
“O livre-arbítrio se desenvolve
à medida que o Espírito adquire a consciência de
si mesmo. Já não haveria liberdade, desde que a escolha
fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito.
A causa não está nele, está fora dele, nas influências
a que cede em virtude de sua livre vontade. É o que contém
a grande figura emblemática da queda do homem e do pecado original;
uns cederam à tentação, outros resistiram.”
“As influências a que cede em virtude de sua livre
vontade” constituem todas as influências externas
ao Espírito que atuam durante sua vida espiritual e que lhe são
impostas a fim de que consiga progredir. A decisão de qual caminho
tomar diante de tais influências pertence somente ao Espírito,
durante sua jornada evolutiva. Por tais fatores externos compreendemos
não somente os inumeráveis fatos que o Espírito
encontra na encarnação[6] (prazeres fictícios,
pessoas as quais ele tem afeto ou não, circunstâncias felizes
ou de desgraça), mas também todas as condições
especiais criadas pelo corpo físico no período da reencarnação.
Assim, o papel da hereditariedade não é definir o comportamento
humano (com exclusão do livre-arbítrio que seria função
dessa programação), mas sim libertar ou limitar as capacidades
já adquiridas pelo Espírito por meio de arranjos especiais
ou vínculos físicos no corpo material, entendido como
uma ferramenta de trabalho desse Espírito.
Considerações mais específicas
ao assunto que aqui tratamos são tecidas nas questões
845 e 846. Destacamos a primeira:
Não constituem obstáculos ao exercício
do livre-arbítrio as predisposições instintivas
que o homem já traz consigo ao nascer?
"As predisposições
instintivas são as do Espírito antes de reencarnar.Conforme
seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à
prática de atos repreensíveis, no que será secundado
pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições.
Não há, porém, arrastamento irresistível,
uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer
é poder. (361)”
No final da resposta, há uma referência direta à
questão 361 onde os Espíritos reafirmam que as qualidades
morais que caracterizam a índole ser humano têm origem
em seu Espírito. Poder-se-ia argumentar que as predisposições
instintivas fossem determinadas geneticamente ou, no caso da astrologia,
pela posição dos astros no firmamento. A Doutrina
Espírita abertamente faz a asserção de que as predisposições
instintivas são patrimônio do Espírito,
a bagagem ou herança espiritual criada e carregada por ele mesmo
através dos séculos. Isso porque a lei moral que regula
a distribuição eqüitativa da justiça só
é um conceito válido se o Espírito for o único
responsável por seu sucesso ou fracasso. Tal é o conteúdo
de perfectibilidade da lei assentando sobre um princípio que
se liga diretamente à origem do Espírito e a sua mais
íntima natureza. Essa conclusão magistralmente integrada
ao conteúdo de princípios da Doutrina Espírita
é a única capaz de explicar o ser humano ou de ao menos
trazer a sensação consoladora de que não somos
joguetes da sorte. Para os abusos de interpretação oriundos
da genética ou da astrologia, o ser humano é uma criatura
incompleta, inconsistente em si mesmo porque para vir a ser necessita
do jogo aleatório seja das disposições genéticas
ou da posição dos astros.
Entretanto, já comentamos sobre a influência
da matéria. Esta é naturalmente função
do grau de adiantamento do Espírito, tanto intelectual
como moral. Essa influência foi inúmeras vezes reafirmada
pelos Espíritos, podendo ser encontrada em diversas respostas
do “O Livro dos Espíritos”. Nos estágios iniciais
de evolução é natural que os Espíritos estejam
fortemente sujeitos aos ditames da matéria. A matéria
não determina a decisão do Espírito, mas atua vigorosamente
como vínculos que o incitam a uma ou outra direção.
À medida que o Espírito evolui, os laços materiais
tornam-se mais fracos, liberando-o cada vez mais para decisões
independentes ou para a manifestação de capacidades em
desacordo com os arranjos materiais ou leis naturais. Alguns
exemplos práticos dessa liberdade relativa da matéria
podem ser encontradas mesmo em nossa sociedade:
I – A liberdade de escolha de seres humanos em
ter ou não filhos. Como se sabe, a reprodução é
uma lei natural através da qual os genes são transmitidos
a futuras gerações de uma certa espécie por meio
de um processo que é o próprio núcleo da evolução
natural. Se não há reprodução dentro da
espécie, esta inexoravelmente morre, tanto fisicamente como para
a Natureza como um todo, já que seu conteúdo hereditário
deixa de existir. Os seres humanos, que são Espíritos
encarnados, podem surpreendentemente “refutar” essa lei
biológica e decidir por não se reproduzir. Se admitirmos
que os animais e os humanos guardam origem e natureza comuns (são
seres encarnados em diferentes graus da escala evolutiva), tal escolha
bizarra só pode ser compreendida dentro da relativa liberdade
espiritual adquirida pelo Espírito com essa evolução.
Naturalmente devemos diferenciar aqui a decisão de não
se reproduzir tomada como uma opção de vida onde o sexo
ainda é ingrediente corrente daquela inerente ao próprio
Espírito na abstinência sexual a que se dedica, as vezes
durante toda a vida, por ter atingido uma relativa independência
das necessidades sexuais. No caso desse seres, cuja quantidade em nossa
sociedade é muito maior do que se pensa, existe uma clara libertação
de uma lei que continua a valer para o imenso contingente de encarnados.
II – Os inumeráveis e não
ortodoxos comportamentos sexuais humanos. Entendemos que homossexualismo,
bisexualismo e transsexualismo são fenômenos que surgem
naturalmente, no sentido exposto acima, da liberdade adquirida pelo
Espírito dos laços e leis materiais ou da força
de seus instintos internos – originados em sua própria
natureza espiritual – que refutam a escolha biológica herdada.
Muitas teorias têm sido desenvolvidas para explicar tais comportamentos,
partindo-se de diferentes hipóteses. Algumas delas tendem a enfatizar
a “bagagem hereditária”, enquanto que outras o ambiente.
Nenhuma explicação adequada e convergente tem sido encontrada.
O ponto crucial parece ser a falta de uma imagem coerente do ser humano,
que pode ser plenamente encontrada através da aplicação
dos princípios espíritas. De fato, a reencarnação
é o ponto de partida para se compreender muitos desses fenômenos,
sendo o transsexualismo apenas um dos exemplos notáveis.
As aparentes similaridades entre a astrologia e a genética
(tanto quanto podemos inferir do conhecimento comum dessas disciplinas)
estão conclusivamente estabelecidas sobre uma visão parcial
da natureza humana. Embora sejam consideradas muito diferentemente pela
sociedade moderna, tanto uma como a outra limitam, de certa forma, o
livre-arbítrio humano, que sofre a interferência de fatores
externos no momento do nascimento. Os Espíritos, entretanto,
deixaram claro que não existe uma programação de
comportamento, antes, o Espírito é livre para tomar as
decisões que julgar conveniente. Para isso, o Espírito
utiliza os recursos materiais colocados a sua disposição,
sendo ele o responsável pela escolha correta ou errada, se caiu
sob esse ou aquele arrastamento. À medida que o Espírito
progride, torna-se menos vulnerável à influência
material, porque já demonstrou em si mesmo que está livre.
Há ainda a questão da escolha
dos fatores materiais, que são mais ou menos estabelecidos no
momento da reencarnação. Para a Doutrina Espírita,
mesmo nesse instante, não existe propriamente uma “imposição
externa”, mormente se o Espírito já desfruta de
um certo nível evolutivo. No início de sua jornada, é
razoável admitir que o Plano Maior se responsabilize pelo estabelecimento
dos recursos materiais apropriados ao ser ainda em estágio embrionário,
nascido “simples e ignorante”. Assim sendo, podemos dizer
que a origem de todas as disposições externas durante
a existência material do Espírito está fundamentalmente
estabelecida nele mesmo.
Acrescentamos além disso que, mesmo se
houver espaço para o livre-arbítrio dentro de certas doutrinas
não espíritas (como é o caso da astrologia e do
darwinismo social ou sociobiologia) este sofre injustamente com a ação
de fatores externos que não têm nenhuma relação,
ainda que indiretamente, com o próprio Espírito. De certa
forma, isso responde a possíveis questionamentos da astrologia
e da genética aplicada ao comportamento quanto a minhas colocações
anteriores sobre o livre-arbítrio nos seres e sua não
determinação absoluta (determinismo comportamental fraco)
pelos mecanismos externos propostos por essas disciplinas. Em resumo,
para o Espiritismo, o Espírito é o artífice
do seu destino – através da simbiose entre ação
e reação ligadas aos seus atos – enquanto que para
outras disciplinas o destino é alterado por mecanismos alheios
à vontade do ser. Para completar, lembramos que no caso das religiões
cristãs mais antigas – seja o Catolicismo ou Protestantismo
– a alma é criada por Deus no instante do nascimento. Como
ela não existe anteriormente a esse evento, todas as suas predisposições
naturais só podem ter origem naquele que as criou. Assim, Deus
é o grande responsável por seu destino. Nesse caso extremado
de determinismo comportamental, que valor pode ter o livre-arbítrio?
Notas do GEAE
[1] Este texto é uma versão estendida
em português do texto “What do astrology and genetics have
in common? ”, publicado no boletim eletrônico “The
Spiritist Messenger”, N 13 do GEAE.
[2] Considere o leitor o aparecimento de recentes especulações
envolvendo conceitos de mecânica quântica e física
estatística de sistemas fora do equilíbrio.
[3] Talvez fundamentado em antiqüíssimas tradições
religiosas.
[4] O zodíaco é a região da esfera celeste por
onde passa o sol em seu movimento relativo ao longo do ano. Contém
as chamadas 12 “constelações zodiacais”. Do
ponto de vista da astronomia moderna estas seriam na verdade 13, o “Ofíuco”
ou serpentário não é considerado na tradição
astrológica ocidental.
[5] Note ainda o leitor que, tanto quanto se pode compreender dos fundamentos
da genética, essa determinação obedece a leis “cegas”
sendo obras do acaso.
[6] Não podemos nos esquecer ainda das influências espirituais,
já que os Espíritos influenciam-se uns aos outros incessantemente.
A respeito disso ver as sub-questões complementares a 122.
Agradecimentos
Gostaria de agradecer ao Andrei Melnikov
por importantes discussões na conclusão deste texto.
Referências
(1) Marcel Blanc. “Os herdeiros de Darwin”. 1 Ed. pela Editora
Página Aberta (1994).
(2) Leon Denis. “O problema do ser, do destino e da dor”.
16a Ed. pela Federação Espírita Brasileira.
(3) Allan Kardec, “O Livro dos Espíritos”. Tradução
de Guillon Ribeiro, 71a Ed. pela Federação Espírita
Brasileira (Rio de Janeiro).
(Retirado do Boletim GEAE Número 448 de 28 de janeiro de 2003
)
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geae/o-que-a-genetica.html
Ademir L. Xavier Jr
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