“Ora, como todo efeito inteligente há
de por força derivar de uma causa inteligente, ficou evidenciado
que, mesmo admitindo-se em tais casos, a interveção da
eletricidade ou de qualquer outro fluido, outra causa a essa se achava
associada .”
Allan Kardec [1]
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1. Introdução
Quando falamos em materialismo, sempre nos lembramos das idéias
que somente reconhecem a matéria como a única base essencial
de constituição do universo. Tal como apreendemos com
nossos sentidos, a matéria é algo bem delimitado no espaço
e no tempo, algo que podemos sentir, apalpar, carregar, que impressiona
nossos sentidos. Hoje, contudo, mesmo os materialistas mais ferrenhos
são obrigados a aceitar que essa noção de matéria
está longe de ser o constituinte exclusivo do Universo. A física
demonstrou a importância de outros ingredientes dentre os quais
destacamos a energia. Mas a energia é apenas uma forma diferente
(dentro das teorias da física) de se caracterizar a matéria.
Pode-se encontrar facilmente o equivalente "energético"
de qualquer quantidade de matéria (definida por uma massa, densidade
etc). Nesse texto, chamamos a atenção para um tipo de
ingrediente que apenas recentemente (nos últimos 60 anos) foi
reconhecido como de importância fundamental na estruturação
do mundo: a informação. Mas a informação
é algo imaterial, portanto, já estamos longe das antigas
proposições materialistas de que o Universo é constituído
apenas do que podemos ver, ou ainda, daquilo que a ciência poderia
medir através de seus aparelhos. Esse reconhecimento é
um passo importante na direção da aceitação
do ingrediente espiritual como o terceiro grande constituinte do universo.
Aventuramo-nos aqui em imaginar que a informação é
um importante parâmetro capaz de distinguir univocamente o grau
de "vivificação" da matéria, isto é,
quanto distante do estado "inanimado" ela se encontra. Um
problema recente é a questão se é possível
haver criação de informação a partir de
sistemas puramente físicos (isto é, inanimados). Uma eventual
resposta a essa indagação pode nos levar bem longe de
onde estamos conceitualmente.
Antes, porém, de iniciar essa aventura, devemos
examinar um pouco mais detalhadamente o significado do conceito de informação
e de como ela se transmite de um sistema a outro. Os ingrediente básicos
de um sistema de comunicação completamente geral podem
ser representados como mostra a figura abaixo:
Fig. 1 Modelo simples de processo
de comunicação aplicável a uma ampla gama de sistemas
naturais ou artificiais.
O conteúdo da mensagem é algo
imaterial que existe em princípio, na mente (Espírito).
O transmissor é a unidade responsável pela transmissão
da mensagem. Ela faz isso "codificando", isto é, escrevendo
sob uma convenção pré estabelecida que pode ser
lida por outros sistemas semelhantes. O meio ou canal de transmissão
é o "medium" no sentido comum, isto é, o subsistema
responsável por transmitir aquilo em que foi codificada a mensagem.
O "Receptor" é uma unidade capaz de decodificar a mensagem
e transformá-la em algo compreensível pelo "destino
da mensagem". Esse modelo aplica-se a uma vasta quantidade de sistemas
materiais como telefones (celulares ou fixos), transmissão de
dados pela internet, comunicação falada etc. No caso de
duas pessoas conversando o "meio" é o ar pois os sinais
imateriais são transformados em ondas de pressão que emanam
do transmissor e se propagam livremente pelo ar. No caso de comunicações
feitas com sinais luminosos (p. ex. transmissão de sinais marítimos)
o meio é a própria luz.
Lembramos que esse modelo também aplica-se
às comunicações mediúnicas. Nele
identificamos o conteúdo da mensagem e seu impacto no destino
como idéias impressas na mente dos Espíritos que enviam
e dos que recebem as mensagens. O transmissor/receptor são
os Espíritos envolvidos na comunicação, enquanto
que o "meio" é o médium que serve de canal
(o conjunto de equipamentos físicos colocados a disposição).
A codificação da mensagem depende do tipo de mediunidade
envolvida. Se for de efeitos físicos, a codificação
obedece a simbologias convencionadas, a sistemas tiptográficos
etc. Nas mediunidades já desenvolvidas de efeitos inteligentes,
a codificação da mensagem se dá por mecanismos
desconhecidos entre as mentes do médium e do Espírito
comunicante.
Fig. 2 Influenciação do ruído
no processo de comunicação.
A Fig. 2 mostra exatamente como inserir ruído
no modelo. Ruído é qualquer perturbação
no processo de comunicação ou transporte de informação
que leva a degradação do conteúdo da mensagem.
O ruído atinge o canal de transmissão. Também
as comunicações mediúnicas sofrem com ação
do ruído (proveniente da própria mente do médium
ou da ação de outros Espíritos) que obliteram o
conteúdo da mensagem. Em sistemas artificiais (p. ex. comunicação
celular), o ruído pode tornar o processo de comunicação
inviável. Nesses casos pode-se falar em eficiência de transmissão
de informação como função da razão
entre a intensidade do ruído e a intensidade do sinal transmitido,
a famosa relação sinal-ruído.
2. Uma definição simples de informação
Todos nós temos noção primitiva de informação.
Quando alguém nos faz uma pergunta que só requer um "sim"
ou "não" estamos dispostos a passar um conteúdo
informativo em relação à resposta equivalente a
uma unidade primitiva de informação (conhecida como "bit").
Nessa forma muito simples, informação é um conceito
passível de quantificação. Se desejamos saber se
a luz do quarto está acesa ou não então são
necessários apenas 1 bit para se adquirir a informação
necessária. Semelhantemente, questões mais complexas requerem
quantidades maiores de informação. Importa-nos aqui lembrar
que a "informação" é algo invisível,
não palpável, que se pode transportar de um lugar para
outro independentemente do meio material (ou de qualquer meio imaginável).
O reconhecimento do "status" independente da informação
veio apenas recentemente. Informação é algo que
se transfere de um lugar para o outro, que se armazena (logo ocupa volume),
que se mede embora sempre relativamente. Podemos apenas falar em ganho
ou perda de informação, nunca em um valor absoluto para
o conhecimento informativo de acordo com essa definição
primitiva.
As modernas teorias sobre processamento de informação
(sinais) quantificam-na de tal forma que podemos falar de "pacotes"
de informação. Assim para o conjunto de 256 possibilidades
de informação é utilizado a designação
"bytes". Para quantidades maiores de informação
adiciona-se os prefixos latinos de quantificação Kilo,
Mega, Giga, etc para designiar respectivamente 1000, 1.000.000, 1.000.000.000
etc bytes de informação. Por que o número 256?
Para isso é necessário considerar que a maior parte da
quantificação da informação é feita
por meio de uma base que requer sua representação na forma
de respostas simples como "sim" e "não".
Como só existem 2 respostas possíveis, o número
256 vem do número de possibilidades de resposta quando coexistem
8 "canais" de informação possíveis. Por
exemplo, suponha que queiramos armazenar a quantidade necessária
de informação necessária para saber que a luz da
sala de uma casa está acesa e que a porta principal esta fechada.
Nesse caso temos 4 possibilidades conforme mostra a sequência
abaixo:
1) A luz da sala está acesa e a porta está aberta;
2) A luz da sala está acesa e a porta está fechada;
3) A luz da sala está apagada e a porta está aberta;
4) A luz da sala está apagada e a porta está fechada.
Essas possibilidades são armazenas na forma de 2 bits pois podemos
considerar cada uma das afirmação acima como tendo valor
"falso" ou "verdadeiro" ("sim" ou "não").
Ora 4 é o resultado de se elevar 2 ao número de "perguntas"
existentes (ou número de bits). Se fizessemos mais uma pergunta,
por exemplo, se o cachorro na casa foi alimentado às 8 horas
da manhã, teríamos 3 perguntas e, daí, o conteúdo
de informação necessário para responter satisfatóriamente
as 3 inquirições (3 bits) seria 3. Da mesma forma um gabarito
do tipo "falso"/"verdadeiro" com 8 perguntas exige
que tenhamos disponíveis 2^8 possibilidades = 256 ou 1 byte como
afirmado acima, e equivalente portanto a 8 bits de informação.
Bits e bytes tornaram-se unidades importantes na definição
e tratamento de informação por sistemas digitais justamente
porque computadores só trabalham fundamentalmente com a base
falso/verdadeiro em suas estruturas internas. Note que a quantidade
de informação diz respeito ao número de bits necessário
para armazenar todas as possibilidades uma vez que as sentenças
no caso acima tem respostas não dependentes. Se a resposta de
uma já definisse a solução de outra, então
o conteúdo seria obviamente menor.
Essas noções primitivas de informação (totalmente
dependentes do tipo de sinal utilizado para armazená-la) foram
formalizadas por Claude Shannon em 1940 através de um formalismo
conhecido como "Teoria da Informação" (também
chamada "Teoria clássica da Informação")
[2]. O nome “informação” aqui está
mal empregado pois a teoria de Shannon é, de fato, uma teoria
sobre sinais uma vez que o conteúdo informativo da “informação
de Shannon” não é importante. O objetivo principal
da teoria da informação era fornecer subsídios
teóricos para o desenvolvimento de uma teoria geral de comunicações
frente a agentes externos de atenuação de sinal e ruído.
Essa teoria finalmente acabou constituindo-se no arcabouço fundamental
dos modernos sistemas digitais e de comunicação "wireless"
ou com fio (telefonia celular, redes de computadores etc). A informação
definida segunda a equação (por Shannon) onde log²
é o logaritmo na base 2 e N é o número de possíveis
resultados ou símbolos. É um conceito puramente quantitativo
que se presta mais a determinação da quantidade de espaço
de memória necessário para se armazenar um determinada
quantidade de dados. No caso do questionário com 8 questões,
existem 256 possibilidades (N=256), logo I=8 bits.
Para o cômputo dessa quantidade de memória, é irrelevante
o tipo de informação, muito menos ainda a qualidade da
mesma. Dada duas sentenças:
1) AXGKP TOFFZAXXTAB OPPQ
2)BEATI PAUPERES SPIRITUS
Qual delas tem um significado mais familiar? Certamente a segunda que
é a versão latina de "Bem aventurado os pobres de
espírito". Para o conceito de quantidade de informação
de Shannon, as duas sentenças tem o mesmo status, pois correspondem
a mesma quantidade de informação. Assim não existe
conexão alguma entre esse conceito de informação
e a qualidade da mesma entendida como conhecimento. Mas a definição
de Shannon é útil pois correponde ao que poderíamos
chamar de primeira camada ou nível de descrição
da informação (nível estatístico). Nesse
nível, não existe sintaxe nem semântica. Fala-se
apenas na probabilidade de uma determinada letra do alfabeto ou símbolo
aparecer. Para simplificar, consideremos o alfabeto formado pelas seguintes
letras:
a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v x y w z " "
Onde " " representa o espaço em branco. Em uma primeira
análise, se quisermos enviar uma mensagem escrita em um idioma
que use esses símbolos, podemos falar que há probabilidade
1/26 de que a primeira letra da mensagem seja qualquer uma daquelas
acima relacionadas. Dessa forma precisamos de
I = - log2 (1/26) = 4.7 bits de informação/símbolo
para enviar uma mensagem com esse alfabeto. Isso é,
para cada letra. Para uma palavra com 5 letras seria necessário
5 x 4.7 = 23.5 bits de informação e assim sucessivamente.
Note que não interessa para essa idéia quantitativa de
"informação" se a mensagem formada pela seqüência
de 5 símbolos representa a palavra "logos" ou "xksiw",
o conteúdo informativo nos dois casos é o mesmo. O que
diferencia um idioma de outro (além do grupo de símbolos
que representa a mensagem) é algo imaterial, que não se
pode quantificar através da informação de Shannon.
O máximo de diferenciação mensurável por
I está embutido na distribuição de probabilidades
de ocorrência desses símbolos. (mas os idiomas se diferenciam
antes pelos símbolos que usam). Por exemplo, na lingua inglesa
a probabilidade de a letra "h" suceder a letra "t"
é muito grande, pois há várias palavras com o sequência
"th" (como no artigo "the" ou em "thanks")
. Do mesmo modo, no português, a probabilidade de a letra "a"
suceder "ç" é grande e, nessa ocorrência,
é grande também a chance de aparecer a letra "o"
(como em "ação"). Assim o cálculo exato
da quantidade de informação para suprir uma definciência
de memória no armazenamento de uma mensagem não é
simples de se fazer .As probabilidades funcionam como pesos estatísticos
e cada idioma tem sua distribuição própria. Na
ocorrência de dois idiomas que utilizem o mesmo conjunto de símbolos,
é possível reconhecer o idioma simplesmente calculando-se
a distribuição de ocorrência de letras, mas isso
é tudo que podemos extrair do conceito de informação
de Shannon que é largamente utilizado nas ciências da computação.
3. Examinando de perto o processo de
transmissão de informação. Computadores como manipuladores
de sinais.
A transmissão de informação de um sistema a outro
(utilizando o conceito de Shannon) pode ser descrita de maneira muito
simples, e é relevante para o que discutiremos posteriormente.
Nosso objetivo é compreender claramente a informação
genuína como um dos atributos de um sistema inteligente; algo
que é por ele gerado e manipulado, embora o conceito de informação
que utilizamos aqui não leve em consideração o
conteúdo da mensagem. Veremos que onde há informação
há inteligência, embora seja possível criar sistema
aparentemente inteligentes pelo fato de poderem manipular informação.
Consideremos inicialmente dois sistemas idênticos. O que os diferencia
além de suas características próprias? Usemos o
exemplo anterior, a casa com a sala e a porta. Duas casas idênticas
com a mesma sala e porta diferem entretanto pelo estado em que se encontra
a lâmpada da sala (se acesa ou apagada) e a porta (se aberta ou
fechada). Nessas duas casas idênticas aquela em que conhecemos
o estado da lâmpada e da porta é a casa com maior conteúdo
de informação simplesmente porque, para descrever qualquer
outro aspecto da casa, precisamos de menos informação
com essa casa do que com a outra sobre a qual nada sabemos. De outra
forma, podemos também dizer que no caso da primeira casa (que
sabemos a luz estar acesa e a porta fechada) nossa ignorância
é menor do que no caso da segunda casa. Note-se que o conteúdo
da informação está contido na sequência de
perguntas e suas respectivas respostas.
Examinemos agora detalhadamente o processo de comunicação.
A figura abaixo representa uma versão simplificada de um processo
desse tipo com os componentes da fig. 1.
Fig. 3 Comunicação
como acréscimo de conteúdo informativo.
Uma mensagem (constituída por uma seqüência
de símbolos) é enviada pelo transmissor para o receptor.
Não importa aqui qual o tipo de processo (se eletrônico,
sonoro, luminoso, mediúnico etc). Toda vez que um símbolo
é percebido pelo receptor seu conteúdo de informação
"aumenta" exatamente de I (usando o alfabeto anterior como
exemplo, esse ganho de informação é de aproximadamente
4.7 bits para cada símbolo). Uma outra medida é utilizada
pela teoria da informação para quantificar o conteúdo
informativo de uma mensagem. Essa medida é conhecida como Entropia
e é definida simplesmente como a média ponderada pelos
pesos estatísticos da quantidade de informacão:
Entropia de informação = <I>= -
( p1*log2 p1+p2*log2 p2+...+pN log2 pN )
onde p1, p2, .. , pN são os pesos de cada símbolo. A entropia
de informação definida dessa forma é uma quantidade
que cresce com o número de símbolos usados para codificar
a mensagem. Cresce também com o tamanho da mensagem e, como no
caso da informação de Shannon, não serve para mensurar
o conteúdo sintático de uma mensagem, muito menos seu
conteúdo tal como os seres humanos internamente o compreendem.
No processo de comunicação descrito pela Fig. 3, não
explicitamos a origem da informação. Consideremos inicialmente
que essa origem seja “inteligente”. Imaginemos que o processo
seja interceptado por um sistema mecânico (autômata) que
possa acrescentar ou modificar a seqüência de símbolos
original. A fig. 4 ilustra o processo modificado por esse agente externo.
Fig. 4 Processo de comunicação
interceptado por um autômata.
O autômata é capaz de acrescentar símbolos à
seqüência original de forma independente. Isso ele faz recorrendo
a um banco de símbolos que permite a reprodução
infinita de qualquer tipo de símbolo pertencente ao alfabeto
convencionado pelo processo de comunicação. Além
disso para uma dada seqüência de símbolos, a ordem
ou disposição pode ser artificialemente modificada por
uma seqüência de comandos lógicos chamados “algoritmos”.
Não importa para nós aqui a origem dos algoritmos (embora
sabemos que sua construção obedece a regras dos seres
humanos). Chamamos a atenção com o processo modificado
de comunicação da Fig. 3 que o autômata pode aumentar
arbitrariamente o conteúdo informativo da mensagem original somente
no sentido da teoria da informação de Shannon que não
leva em consideração o significado da mesma para o destino
último da mensagem. Afirmamos explicitamente: não importa
a complexidade, grau de manipulação dos “algoritmos”
previamente programados no autômata, qualquer que seja a natureza
e resultado do conjunto de instruções o conteúdo
verdadeiramente informativo da mensagem original não é
aumentado. Isso vale para qualquer tipo de autômata. De fato,
podemos representar o conjunto de operações sobre cada
bit original como a aplicação de uma função
genérica G(u) onde u é bit de entrada: Para a sequência
original: u1, u2, u3 de símbolos pertencentes ao alfabeto, o
resultado final é G(u1), G(u2), G(u3), ...até o último
bit enviado. Em particular o processo de “comunicação”
do receptor final com o autômata pode ser descrito para uma seqüência
de entradas nulas. Assim sendo, não existe comunicação
no sentido genuíno de troca de informação do autômato
para com o receptor final suposto inteligente (embora esse último
possa ter a impressão de que isso ocorra de fato).
Longe de gerar informação, computadores são sistemas
que apenas conseguem manipular ou gerar sinais baseados em algoritmos.
Todo o conteúdo aparentemente inteligente (cognitivo) das mensagens
ou da manipulação de informação por computadores
advém da inteligência (Espírito) dos seres humanos
que os programaram.
4. Informação e o princípio inteligente.
Nosso principal problema é a inexistência de uma definição
suficientemente abrangente para a idéia de informação.
Podemos entretanto definir alguns de seus atributos. Para isso baseamo-nos
em considerações do matemático Wernher Gitt [3].
Ele descreve esses atributos do processo de transmissão de informação
em cinco camadas:
1- Estatística: referente ao
número e probabilidades de ocorrência de símbolos
ou sinais com uma linguagem previamente estabelecida para realizar o
processo de comunicação. É o nível de descrição
de Shannon como vimos anteriormente;
2- Sintaxe: referente ao seqüenciamento
dos símbolos formando palavras e frases. Dependendo da ordem
com que são transmitidos, um conjunto de símbolos podem
formar palavras diferentes. Como vimos nem essa seqüência
é importante na teoria dos sinais de Shannon;
3- Semântica: que diz respeito
ao significado das palavras. Pelo fato de o nível semântico
ser de caracterização quantitativa inexistente, o preço
dos telegramas só depende da quantidade de símbolos (palavras)
que ele porta e não de seu conteúdo;
4- Pragmática: que diz respeito
à intenção do transmissor com o conteúdo
informativo da mensagem e seu impacto no receptor. A fim de que o receptor
tenha determinada reação, o transmissor reveste sua informação
de conteúdo pragmático
5- Abobética: nível último representado
pelo objetivo da mensagem. A abobética tem a haver com o objetivo
último do transmissor em enviar a informação no
processo de comunicação. Segundo Witt os dois últimos
níveis se confundem várias vezes. Abrimos um parêntese
aqui para salientar o valor abobético das mensagens dos Espíritos
superiores. Longe de representar simples estórias contadas com
o objetivo de entretetimento, as mensagens verdadeiramente instrutivas
são carregadas de conteúdo moral e tem o objetivo de educar
eticamente os receptores. Além do nível abobético
poderíamos acrescentar um outro nível superior quando
o conteúdo da mensagem comunicada não é suficiente
para representar completamente o objetivo do transmissor e impacto real
sobre o receptor. Falamos do conteúdo das mensagens criptografadas
que fazem parte desse nível. Essas são mensagens que devem
ser re-interpretadas por um código a fim de que seu conteúdo
seja compreendido. Outros exemplos podem ser encontrados na linguagem
poética e metafórica, onde a mensagem original só
é plenamente compreendida quando comparada pelo receptor a um
conjunto de culturas e conhecimentos (tácitos) não carregados
em princípio pela mensagem original.
Que Kardec utilizou essas propriedades na caracterização
das mensagens mediúnicas não resta dúvida. Examinemos,
por exemplo, o parágrafo 66 de “O Livro dos Médiuns”
no Capítulo III, “Das manifestações inteligentes”:
“Para uma manifestação ser inteligente, indispensável
não é que seja eloqüente, espirituosa, ou sábia,
basta que prove ser de um ato livre e voluntário, exprimindo
uma intenção, ou respondendo a um pensamento. Decerto,
quando uma ventoinha se move, toda gente sabe que apenas obedece a uma
impulsão mecânica: à do vento; mas, se se reconhecem
nos seus movimentos sinais de serem eles intencionais, se ela girasse
para a direita ou para a esquerda, depressa ou devagar, conforme se
lhe ordenasse, forçoso seria admitir-se, não que a ventoinha
era inteligente, porém, que obedecia a uma inteligência.
Isso o que se deu com a mesa.”
Muito além de seu tempo, Kardec soube caracterizar as propriedades
superiores das mensagens de conteúdo informativo inteligente
que hoje é largamente utilizada na pesquisa por sinais inteligentes
vindos do espaço ou na análise do processo de comunicação
dos animais. De acordo com esses cinco níveis (que levam em conta
a intenção do comunicante), podemos excluir a grande classe
de sistemas naturais mecânicos (físicos) como geradores
de informação. É o que Kardec diz quando utiliza
do exemplo da ventoinha. No máximo tais sistemas gerariam sinais
no nível estatístico sem significado. Por outro lado,
a Natureza está cheia de criaturas capazes de se comunicar nos
cinco níveis descritos acima. Sabemos que os animais se comunicam
(consideremos as linguagens químicas das formigas ou o canto
das baleias), logo trocam informação. O processo de comunicação
nesses seres se dá muito de acordo com o modelo da Fig. 1 e nos
cinco níveis descrito, onde podemos identificar cada um dos elementos
da cadeia comunicativa. Machos de várias espécies de pássaros
cantam para as fêmeas para chamar a atenção ou para
reinvidicar território (um exemplo de comunicação
até o nível pragmático). Mesmo com as plantas -
embora muito limitadamente - há comunicação (consideremos
os fenômenos de polinização com o esforço
das flores em se tornarem atraentes aos insetos). Visto pura e simplesmente
do ponto de vista do que temos discutido aqui, os seres humanos (Espíritos
encarnados) podem ser vistos como seres vivos capazes de transformar
energia química em informação. Essa definição
é amplamente aceita na comunidade acadêmica (embora haja
divergências quanto ao significado do termo informação)
pois corresponde exatamente aos fatos. O problema aqui é saber
onde está a origem da informação. Como vimos, depois
de eliminar os sistemas mecânicos (o que inclui sistemas químicos
ou bioquímicos reduzidos aos seus componentes atômicos),
o que nos sobra?
Informação como fonte no princípio inteligente:
somente o espírito, tendo como atributo o princípio inteligente,
é capaz de gerar, armazenar e manipular a informação
que só pode ser compreendida cognitivamente por outra entidade
que disponha desse mesmo atributo.
Em outros termos propomos que a origem de toda informação,
tal como descrita em seus atributos pelos níveis estatístico,
sintático, semântico e abobético, está no
espírito. Obvimente por “linguagem” não nos
restringimos exclusivamente às representações gráficas
e fonéticas de símbolos que nós, Espíritos
encarnados em evolução, inventamos para facilitar o processo
de comunicação. Seres considerados inferiores, mas que
dispõem de princípio inteligente, comunicam-se por linguagem
que podemos considerar primitiva (códigos químicos ou
bioquímicos), o que propomos como uma evidência de sua
natureza espiritual. A Natureza bruta não gera informação.
Como Kardec na sua análise das manifestações inteligentes,
hoje podemos dizer que forçoso é admitir-se, não
que a matéria nesses casos seja inteligente, mas que obedeçe
a uma inteligência. Essa inteligência é um atributo
do Espírito.
5. Algumas considerações
Exobiologia.
Há um debate recente sobre a possibilidade de se descobrir vida
inteligente em outros planetas para além de nosso sistema solar.
Sabemos que a Doutrina Espírita previou com grande antecedência
essa possibilidade. Atualmente, um programa de pesquisa bastante audacioso
[4] está em andamento visando detectar vida extraterrestre totalmente
baseados em sinais de rádio. A parte do problema de escolha de
canal de transmissão, para que sejam aceitos como prova da existência
dessas civilizações, esses sinais devem satisfazer um
conjunto de critérios que passam pela análise da verificação
dos atributos descritos na parte 4. A grande maioria dos sinais detectados
via rádio obedecem padrões meramente estatísticos,
isto é, não se caracterizam como sinais inteligentes pois
são geradas por fontes naturais (estrelas, nuvens interestelares
etc). Para que o sejam devem ter um objetivo contido na própria
mensagem. Reconhe-se assim o caráter não físico
das mensagem genuinamente inteligentes.
Biologia.
A biologia moderna descobriu que a chave para a estrutura dos seres
vivos está no código genético. O DNA ou RNA são
longas cadeias moledulares que descreveriam bioquimicamente os constituintes
últimos dos seres vivos. O código genético é
uma molécula com conteúdo altamente informativo (do ponto
de vista da informação de Shannon, o DNA humano contém
mais informação que todos os livros já editados
na Terra). Um debate recente tem acontecido na comunidade acadêmica
sobre a origem dessa cadeia. Já se calculou corretamente que
a probabilidade de os átomos do DNA humano apresentarem seu arranjo
característico por mera chance ser ínfimo. Isso deu origem
a clamores recentes por parte dos neocriacionistas [3] de que a estrutura
do DNA ter sido “dada por Deus”. Os opositores, baseados
em modelos computacionais, puderam mostrar que essa sequência
poderia ter sido gerada por chance se esta fosse assitida por algum
mecanismo externo. De uma maneira muito simplificada imagina-se que
a Natureza tenha uma função resposta que resulta em pesos
altos caso a chance vá na direção correta (embora
não se especifique quem seja o responsável por especificar
qual seja essa direção). De maneira geral acredita-se
que mecanismos de evolução das espécies, mutações
e seleção natural tenham sido os responsáveis ao
longo do tempo pela forma final da molécula.
De nossa parte acreditamos que o argumento de “dada por Deus”
é naturalmente válido pois Deus é a causa primária
de todas as coisas. Porém podemos imaginar que o DNA represente
hoje uma espécie de “documento material” que ateste
o processo de evolução conjunta (através dos milhares
de anos) do princípio espiritual com a matéria. Assim
a origem do conteúdo informativo da molécula DNA e de
outras proteínas importantes no metabolismos dos seres seria
o próprio princípio espiritual em sua viagem de evolução
ao longo de múltiplos renascimentos na matéria. Essa proposição
parece ser atestada por muitos autores espirituais [5].
A física desbancada?
O reconhecimento da importância da informação no
Universo (assim como a matéria e a energia) e sua origem no princípio
inteligente é um profundo golpe no reducionismo que previa ser
possível reduzir todo nosso conhecimento das ciências às
interações físicas entre seus constituintes. Mostra
também que a descrição da “matéria
viva” não pode ser feita baseando-se exclusivamente em
princípios mecânicos ou quanto-mecânicos. Sistemas
auto-organizáveis [6] têm sido propostos como modelos para
a matéria viva, entretanto, à luz do que estamos expondo,
esses sistemas são meros geradores de ordem (diminuição
da entropia por serem sistemas abertos longe do equilíbrio) e
não de informação. Essa conclusão pode ser
revista no futuro pois o problema da origem da informação
só muito recentemente recebeu atenção devida e
não faz parte do programa normal de pesquisa da física.
6. Nota conclusiva.
Isso posto concluímos que o princípio utilizado pelo codificador
da Doutrina Espírita, Allan Kardec, que viu uma causa inteligente
nas mensagens inteligentes [1] e com isso descobriu a origem não
material das inteligências por detrás das mensagens pode
ser expandido para toda a Natureza. Ousamos dizer que se a origem das
comunicações mediúnicas foi atestadamente demonstrada
como tendo origem em inteligências incorpóreas, então,
muito provavelmente, a origem de toda informação com conteúdo
verdadeiramente cognitivo não pode ser atribuída à
matéria. Isso se extende a todos os fenômenos existentes
que podemos classificar como tendo um objetivo ou inteligência.
Referências
[1] O Livro dos Médiums, Parágrafo
65, Capítulo III, Das manifestações inteligentes.
54ª Edição da Federação Espírita
Brasileira, Tradução de Guillon Ribeiro. Ver também
Ref. [7] “Prolegômenos”.
[2] C. E. Shannon, ``A mathematical theory of communication,'' Bell
System Technical Journal, 27, pp. 379-423 and 623-656,. Julho e Outubro
de 1948.
[3] Werner Gitt “Information, science and biology”. Publicado
em Technical Journal 10 (2): 181-187. Agosto de 1996.
[4] Ver www.seti.org (SETI - “Search for Extraterrestrial Inteligence”).
“The mission of the SETI Institute is to explore, understand and
explain the origin, nature and prevalence of life in the universe.”
A missão do intituto SETI é explorar, compreender e explicar
a origem, naturesa e prevalência de vida no Universo.
[5] André Luiz, Evolução em Dois Mundos, Cap. VII,
“Evolução da Hereditariedade”, 4ª edição.
Federação Espírita Brasileira (1977).
[6] Ver Press Release: The 1977 Nobel Prize of Chemistry (nobelprize.org).
Nota para a imprensa sobre o prêmio Nobel de 1977 concedido a
Ilya Prigogine por suas colaborações em termodinâmica
fora do equilíbrio e estruturas dissipativas.
[7] A Kardec, O Livro dos Espíritos, Tradução de
Guillon Ribeiro, 71ª edição. Federação
Espírita Brasileira (1991).
http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae485.html
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