Ademir L. Xavier Jr.

>    O prisma de James: uma metáfora para entender a fonte verdadeira da consciência humana

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

Ademir L. Xavier Jr.
>    O prisma de James: uma metáfora para entender a fonte verdadeira da consciência humana

 



"Como disse, a consequência fatal não é coerciva, a conclusão do materialista se deve exclusivamente a sua maneira unilateral de compreender a palavra 'função'. E, sem se importar com a questão da imortalidade, temos a obrigação, como meros críticos investigando cuidadosamente as dúvidas da humanidade, de insistir em considerar como ilógica essa negação baseada na ignorância total de uma alternativa palpável. Tanto mais ainda devemos insistir, como amantes da verdade, quando tal negação é de importância vital para a humanidade!"
William James, ref. 1

 

William James (1842-1910) foi um dos pais fundadores da psicologia norte americana. Em uma palestra entitulada “Lecture on Human Immortality” (2), James chama a atenção para uma particularidade interessante entre os tipos de função e sua relação com objetos ou dispositivos que as geram. Ele explora essa particularidade na compreensão da gênese da consciência humana. Em particular, W. James nota que fisiologistas (ou neurocientistas mais recentemente) costumam considerar a consciência como ‘gerada pelo cérebro’ do mesmo modo que o movimento é gerado pelo trabalho do motor de um automóvel ou, para usar o exemplo dado por James, ‘como o vapor é gerado pela água fervente na chaleira’ ou como a música é produzida pelo instrumento musical. Dessa forma, a consciência seria gerada pelo cérebro da mesma forma como a digestão do alimento é feita pelo estômago ou o metabolismo de substâncias tóxicas é feito pelo fígado. “Conforme a função, assim é o órgão”, como se diz. Acho que poucos discordariam que essa é a ideia dominante entre especialistas no assunto, gozando inclusive de larga popularidade.

Porém, afirma James, essa não é a única maneira de se entender como uma função está aparentemente relacionada ao objeto que a produz. Há também as funções transmissivas que se contrapõem à ‘função produtiva’ como no caso do som e instrumento musical que o produz. O que seria isso? Alguns exemplos simples são suficientes para esclarecer: o teclado do órgão não produz o som, que é na verdade gerado no interior dos tubos por onde passa o ar sob pressão. Nesse caso, o teclado é apenas um veículo para transmissão da informação que irá produzir o som. Do mesmo modo, lentes ou sistemas ópticos não geram os padrões de luz, mas apenas transmitem e modificam a luz original que neles penetra. Seria errôneo acreditar que a luz é produzida no interior desses dispositivos. Mais recentemente poderíamos incluir a televisão e o telefone como exemplos de funções transmissivas: ninguém realmente acredita que os sons e imagens gerados por esses equipamentos sejam efetivamente gerados no interior deles.

No que isso pode ajudar a esclarecer o problema da consciência e imortalidade? Aqui fazemos uso de um exemplo que chamamos de ‘Prisma de James(Fig. 1). Todos sabemos que luz branca, ao passar por um prisma é refratada e se decompõe em diversas cores (um fenômeno chamado ‘espectro’).

Destacamos:

  • As cores não são geradas pelo prisma, mas são uma propriedade da luz. O prisma torna evidente esse as cores, mas não a fonte delas;
  • Se o prisma for feito de material cristalino e incolor, todas as cores estarão presentes no espectro.
  • Se o prisma for feito de material cristalino, mas colorido (por exemplo, vermelho), todas as cores desaparecerão exceto aquela semelhante à cor do prisma (vermelho);
  • Se uma luz originalmente colorida incide sobre o prisma, ele não poderá gerar cores diferentes;
  • A largura do espectro “produzido” pelo prisma é função de uma propriedade do material e da geometria do prisma. Essa influência forte da geometria e material é enganadora para aqueles que não sabem que o prisma não é a causa das cores, que já estão presentes na luz branca original.


    Fig. 1 O prisma de James como metáfora do modelo transmissivo para a consciência. O cérebro tem a mesma função do prisma que não gera as cores (personalidade). Essas estão sempre presentes na luz branca (Espírito). A figura é meramente uma ilustração de um prisma e não reproduz o comportamente geométrico exato.


Fazendo uso dessa analogia simples afirmamos nossa comparação
(Fig. 1):

“A personalidade humana (espectro) é uma manifestação da consciência (luz branca), ou seja, o prisma (cérebro) não gera as cores (personalidade humana, comportamentos, psicologia etc) que preexiste na luz branca (consciência). Ou, de outro modo: o prisma (cérebro) tem função transmissiva, permitindo que a luz branca (consciência) se manifeste de várias cores (personalidade), conforme a disposição geométrica e material do prisma (cérebro)."

Essa analogia é muito interessante pois, tanto no caso do prisma como no caso do cérebro é muito difícil separar as duas coisas, o instrumento, órgão ou dispositivo, da fonte original que é independente e inacessível. É impossível separar as cores sem usar um prisma (ou uma rede de difração), da mesma forma como não é possível acessar o Espírito ou a consciência sem o cérebro. Repetimos: as cores são propriedades da luz e não do prisma, assim como a personalidade é gerada pelo Espírito e não pelo cérebro (com todas as considerações de 'carga genética' junto...).

Assim, materialistas que consideram a consciência um produto da atividade cerebral estão erroneamente tomando o instrumento como causa. É como se acreditassem que o prisma gera as cores.

E, também, qualquer modificação aparente no espectro visível (aquilo que é tangível) pode ser explicada como um processo de modulação da fonte original por alguma mudança intrínseca no dispositivo: colorindo-se o cristal do prisma faz-se o espectro desaparecer exceto pela cor escolhida. A atuação de substâncias neuroquímicas não produz, de fato, a alteração da consciência, mas apenas igualmente modula sua fonte original produzindo um comportamento diferente. A luz não desaparece no interior do prisma pela coloração desse, da mesma forma como a consciência ou Espírito não desaparece no cérebro, mas antes sua manifestação é suprimida ou amplificada pela atuação dessas substâncias ou por outros motivos.


Conclusão

Será que o cérebro é o único órgão que tem função transmissiva? A resposta é não. Os nervos, por exemplo, transferem impulsos elétricos – que têm claramente origem no cérebro – e não são primariamente responsáveis pelos movimentos dos músculos. O sistema nervoso periférico tem assim uma função gradativamente transmissiva, passando pelo sistema nervoso central até a fonte original de tudo que é a consciência ou Espírito. Esse, por sua vez, permanece e sobrevive à desintegração do cérebro tal como a luz branca continua a existir ainda que suas cores não sejam plenamente visíveis por causa da destruição do prisma.

O cérebro tem papel nos processos mentais como o de um filtro óptico ou sistema de transmissão. Em que pese todos os esforços no sentido do mapeamento de funções mentais em compartimentos bem definidos no cérebro, isso nada significa realmente no sentido de estarmos acessando a fonte original dessas funções (3). Portanto, até o momento, a ideia ou noção de que o cérebro é a fonte original da consciência somente pode ser defendida como uma hipótese que depende da validade da teoria produtiva aplicada ao cérebro. Para torná-la completamente válida, seria necessário explicar ou ‘reduzir’ os processos mentais a operações elementares no cérebro, um passo que não para na bioquímica, talvez envolva a física e está muito longe de ser feito.

O prisma de James é uma metáfora para entender a origem da consciência. Ela torna compreensível uma via para entender o dualismo, mas é limitada. Discutiremos no futuro outras considerações e detalhes pertinentes em direção a uma explicação mais completa e abrangente para o problema.

Referências

(1) Original em inglês (ver ref. 2):

"As I said, then, the fatal consequence is not coercive, the conclusion which materialism draws being due solely to its onesided way of taking the word 'function'. And, whether we care or not for immortality in itself, we ought, as mere critics doing police duty among the vagaries of mankind, to insist on the illogicality of a denial based on the flat ignoring of a palpable alternative. How much more ought we to insist, as lovers of truth, when the denial is that of such a vital hope of mankind!"

(2) Agradeço a Jime Sayaka (blog http://subversivethinking.blogspot.com.br/) por ter me passado a referência original do trabalho de William James 'Human Immortality' que está reproduzida nesta página (em inglês): http://godconsciousness.com/humanimmortality.php.

(3) William James' prism analogy and Corliss Lamont's objection to it. Does Lamont's objection work?

 


Fonte: http://eradoespirito.blogspot.com.br/2012/10/o-prisma-de-james-uma-metafora-para.html

 


topo

 

 

Visitem o blog do autor:  Era do Espírito
- http://eradoespirito.blogspot.com.br


Leiam também de Ademir Xavier:

>   Algumas Considerações Oportunas Sobre a Relação Espiritismo-Ciência

>   Anomalias possíveis na psicologia de pacientes transplantados
>   Cartas Psicografadas - Pragmática e intenção em psicografias de Chico Xavier
>   O Cérebro e a Mente (uma conexão espiritual)
>   A colaboração Schubert-Rosemary Brown
>   Como se deve entender a relação entre o Espiritismo e a Ciência - Fundamentos
>   Considerações sobre a ideias de verdade e controvérsias em torno dos ensinos dos espíritos
>   Considerações sobre as ideias de verdade e controvérsias em torno dos ensinos dos Espíritos
     - versão revisada

>   O conspiracionismo chega ao movimento espírita: a escalada de grupos dogmáticos
>   Crenças Céticas I - Introdução
>   Crenças Céticas II - Fundamentos do Ceticismo
>   Crenças Céticas III - Ceticismo dogmático
>   Crenças Céticas IV Onde está fundamentada a autoridade da Ciência?
>   Crenças Céticas V - O caso Galileu e a fraude do movimento da Terra
>   Crenças Céticas VI - Noções populares de Ciência
>   Crenças Céticas VII - A vida além da vida e a necessidade de uma nova Ciência
>   Crenças Céticas VIII - Alfred Wegener e a fraude dos continentes flutuantes
>   Crenças Céticas IX - Como refutar qualquer coisa que você não gostar
>   Crenças Céticas X - Positivismo lógico e indutivismo: as duas bases do ceticismo dogmático
>   Crenças Céticas XI - A avestruz cética e o peru indutivista
>   Crenças Céticas XII - Tomando carona no ceticismo: Críticas ao 'Espiritismo' em Ateus.net
>   Crenças Céticas XIII: 'O Porvir e o Nada'
>   Crenças Céticas XIV - "Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias."
>   Crenças Céticas XV - Máquinas que pensam ?
>   Crenças Céticas XVI - O ceticismo dogmático como charlatanismo intelectual
>   Crenças Céticas XVII - Teoria das evidências fotográficas e de outros tipos
>   Crenças Céticas XVIII - O que o ceticismo dogmático produz de útil?
>   Crenças Céticas XIX - Como refutar qualquer coisa
>   Crenças Céticas XX - Como refutar qualquer coisa
>   Crenças Céticas XXI: Será que o homem pousou na Lua?
>   Crenças Céticas XXII - Pequeno manual de falácias não formais com exemplos do ceticismo (1)
>   Crenças Céticas XXIII - Pequeno manual de falácias não formais com exemplos do ceticismo (2)
>   Crenças Céticas XXIV - Pequeno manual de falácias não formais com exemplos do ceticismo (3)
>   Crenças Céticas XXV - Comentários à argumentação cética de um grande estudo em NDE
>   Crenças Céticas XXVI - Pequeno manual de falácias não formais com exemplos do ceticismo (4)  
>   Crenças Céticas XXVII - A Navalha de Ockham (e comentários sobre super-psi)
>   Descrição da morte (por A. Jackson Davis)
>   Descrição de um acidente aéreo por um espírito
>   A Doutrina Espírita e as chamadas Ciências Ordinárias
>   As duas opções (por Michael Prescott)
>   Fenomenologia das Visões do Leito de Morte: em direção a um consenso sobre a sobrevivência da alma
>   Fogo Selvagem, Alma Domada
>   Gêmeos que se lembram de vidas anteriores
>   A informação na Estruturação Inteligente do Universo
>   Os vivos e os mortos na sociedade medieval
>   Mais sobre super-psi
>   A mediunidade de Eugênia von der Leyen
>   A mediunidade de Fernando Ben
>   Mediumship and art: Psychic Painting
>   Mediumship and art: Florêncio Anton psychic paintings
>   Mudança de personalidades em transplantados cardíacos
>   A natureza do argumento espírita
>   On possible changes in the air state during TK: a theoretical framework for future investigations
>   Paisagem de Marte (sobre a visita a Marte em "Cartas de uma Morta")
>   Paradigmas e Ciência Espírita
>   O prisma de James: uma metáfora para entender a fonte verdadeira da consciência humana
>   O problema da interpretação das mensagens espíritas: as paisagens de Marte por M. J. de Deus na psicografia de F. C. Xavier
>   Problemas metodológicos na pesquisa da reencarnação: o caso Ruprecht Schulz
>   O Que a Genética e a Astrologia tem em Comum?
>   A questão da encarnação em diferentes mundos: um novo tipo de matéria?
>   Reflexões sobre o contexto de experiências de quase-morte: artigo de Michael Nahm (2011)
>   Ritos e Doutrina Espírita
>   S. José de Cupertino e a mediunidade de efeitos físicos
>   Sobre a existência dos Espíritos: diferença entre percepção e observação
>   Sobre a faculdade de cura (mediunidade curadora)
>   Sobre a faculdade de cura - II - Modelo simplificado para a relação espírito-corpo
>   Sobre a mente inconsciente e sua perspectiva espírita
>   Sobre a política na gerência e a gerência na política
>   Sobre teorias fenomenológicas e construtivas
>   SRT - Tese do Dr. Palmer sobre desobsessão baseado no trabalho de Frederic William Henry Myers
>   Uma interpretação espírita para o inconsciente
>   Uma tradução comentada de "Como a Parapsicologia poderia se tornar uma ciência" de P. Churchland
>   Vendo o invisível
>   William Bengston e a pesquisa de curas por imposição das mãos (passes de cura)

Ademir Xavier & Alexandre Fontes da Fonseca - Carlos Iglesia - moderador
>   Um diálogo fraterno sobre Ciência & Espiritismo


topo