O artigo original está disponível em:
The Journal of Nervous and Mental Disease
Vol. 183, No. 7 Printed in U.S.A.
Copyright © 1995 by Williams & Wilkins
Em várias partes do mundo, particularmente
na Ásia, podem ser encontradas crianças que alegam se
lembrar de eventos de uma vida anterior de quando nasceram. Estas crianças
costumam começar a falar sobre suas memórias logo após
iniciarem a falar sentenças curtas, ou por volta de 2 a 3 anos
de idade. Elas falam sobre e persistentemente acerca de suas vidas prévias
até em torno dos 5 anos, quando as memórias aparentemente
começam a declinar e parecem, na maioria dos casos, serem esquecidas
em seguida.
Estas memórias mostram alguns traços recorrentes.
Por exemplo, as crianças frequentemente alegam ter sofrido uma
morte violenta (tal como por acidente), ou ter morrido subitamente;
geralmente mostram fobias ou filias as quais elas relatam modos de vida
ou eventos que alegam ter feito numa vida passada e, em alguns casos,
elas têm deformações ou marcas de nascença,
as quais as crianças ou seus pais costumeiramente relacionam
à forma da morte na vida anterior. A maioria das crianças
descreve suas alegadas memórias de maneira razoável e
consistentemente e são persistentes em suas afirmações.
Elas pedem para visitar o local ou a família onde dizem ter vivido
antes e, na maioria dos casos, mencionam o local, que frequentemente
distam de poucas a dúzias de milhas de seus lares. Em quase todos
os casos, a vida que elas descrevem parece ter terminado num período
relativamente curto de tempo antes delas nascerem, tipicamente não
mais que poucos anos.
O Dr. Ian Stevenson tem investigado meticulosamente
um grande número desses casos, que ele se refere como Casos do
tipo Reencarnação (CORTs). Suas investigações
têm se centrado na questão da veracidade das afirmações
feitas pelas crianças. As repetidas e às vezes clamorosas
afirmações que os sujeitos fazem acerca das alegadas vidas
prévias frequentemente embaraçam-lhes de formas indesejáveis
com outros membros de suas famílias. Por exemplo, algumas crianças
negam que seus pais sejam seus pais e exigem serem levadas aos seus
"verdadeiros pais", que, elas podem dizer, amaram-lhes mais.
Um pequeno número de sujeitos realmente tenta deixar o lar para
encontrar a família prévia por si próprio. Algumas
crianças podem irritar-se com as circunstâncias humildes
de suas famílias e gabarem-se de ter tido a melhor comida, vestuário,
servos, etc. na vida anterior. Pais em culturas com crença na
reencarnação não se surpreendem frequentemente
com as afirmações das crianças, pois acham que
ele ou ela está fantasiando, mas num número substancial
de casos, eles ficam aborrecidos com as crianças em razão
do conteúdo dito pela criança e pelo comportamento incomum
dela relacionado.
Nos últimos 6 anos, Haraldosson tem feito uma
detalhada investigação de 27 novos casos que encontrou
no Sri Lanka, um dos países onde alguns casos podem ser encontrados
a cada ano. Uma pequena parte dos casos tem mostrado um impacto semelhante
entre as afirmações da criança e fatos da vida
de alguma pessoa que foi identificada e que vivera antes do nascimento
da criança, às vezes numa distante comunidade. Em outros
casos - e eles são muito mais freqüentes no Sri-Lanka -
ninguém correspondendo às afirmações da
criança foi encontrado em relação à vida
prévia. A questão de se estas alegadas memórias
referem-se, de fato, a eventos reais na vida de pessoas que viveram
antes da criança nascer não será discutida agora.
Interpretações postas em esforços
para explicar os elementos verídicos dos casos mais impressionantes
têm incluído coincidência entre as afirmações
da criança e fatos da vida de algum falecido, paramnésia,
percepção extra-sensorial pela criança de eventos
da vida de algum falecido, e a teoria da Reencarnação,
que é a interpretação mais comumente aceita nos
países onde estes casos são encontrados. Não é
fácil apresentar teorias psicológicas adequadas para explicar
o surgimento dessas alegadas memórias das que crianças
falam como tendo outra memória. Por outro lado, os seguintes
fatores psicológicos e sócio-psicológicos podem
ser esperados para dispor uma criança a alegar memórias
de uma vida anterior: uma fantasiosa vida rica, uma necessidade de compensar
o isolamento social, alta sugestibilidade (em culturas onde a crença
na reencarnação constitui um papel maior), tendências
dissociativas, busca por atenção e relações
perturbadas com os pais (causando a criança o clamor de que pertence
a qualquer outro lugar).
A Dra. Antonia Mills tem, juntamente com Patrick Fowler,
exposto a teoria de identidades alternadas (AIs) em crianças.
Esta assume que crianças, em todas as culturas, atravessam um
período sensitivo dos 30 aos 90 meses para o desenvolvimento
de identidades alternativas. Durante este período sensitivo,
AIs devem ter um lugar vívido na vida da criança. Em torno
do fim desse período e após, AIs declinam da consciência
da criança. Em países onde a crença na reencarnação
não é parte da religião dominante, a AI pode tomar
forma de amigos imaginários, ao passo que em países com
uma forte crença na reencarnação, crianças
criam imagens e memórias de uma personalidade prévia.
Nos últimos, AIs não são consideradas fantasias,
mas memórias. Identidades alternadas são mais comumente
associadas em crianças com características de personalidade
que dispõem a criança desfrutar fantasia. Além
disso, a ocorrência de uma AI pode depender da necessidade de
escapar para a fantasia de circunstâncias abusivas ou assustadoras.
O principal interesse desse estudo é o desenvolvimento
cognitivo e peculiaridades dessas crianças e o que pode dispô-las
a fazer alegações sobre vidas anteriores. As habilidades
e personalidades das crianças que reportam memórias de
vidas anteriores diferem em algum modo importante daquelas de crianças
em geral? Elas mostram uma maior tendência a confabular que outras
crianças? São mais sugestíveis? São indicações
de uma maior tendência para processos dissociativos do que em
outras crianças? Estas são algumas questões que
alguém gostaria de ver respondidas, algumas das quais de fato
têm sido perguntadas em um review de um dos livros de Setevenson.
Crianças com memórias ativas do tipo vida
anterior têm, na maioria dos casos, de 3 a 5 anos de idade. E
poucos testes psicológicos objetivos existem para avaliar os
fatores acima mencionados em crianças jovens. Uma complicação
adicional é que estas crianças são em pequeno número
e difíceis de encontrar, sendo que uma comparação
significativa com outras crianças necessita de uma amostragem
de tamanho adequado. No intuito de conseguir uma amostra suficientemente
grande para este estudo (o qual continua relativamente pequena), todos
os sujeitos disponíveis acima dos 13 anos tiveram que ser incluídos.
Desde que alguns dos testes não poderiam ser usados em crianças
abaixo dos 7 anos, as crianças de nossa amostragem variaram dos
7 aos 13 anos, Nesta idade, a maioria das crianças tem parado
de falar a respeito das memórias de suas vidas prévias,
mas todas haviam falado antes muito consistentemente durante um período
de tempo.
Sujeitos
Os sujeitos foram 23 crianças do Sri Lanka que
haviam relatado memórias de uma vida prévia (8 garotos
e 15 garotas variando de 7 anos e um mês até 13 anos e
um mês). Um grupo de comparação consistiu de um
número igual de crianças da mesma idade, do mesmo sexo
e da mesma vizinhança, mas que não havia falado de uma
vida passada. A idade média por crianças com memórias
foi de 9 anos e 9,5 meses e para o grupo de controle 9 anos e 8,7 meses.
As crianças estavam espalhadas numa grande área do sul
e do centro do Sri Lanka e igualmente moravam em cidades e zonas rurais.
Dos 23 casos envolvendo alegadas memórias de vida prévia,
15 haviam sido investigados previamente pelo autor e relatos detalhados
têm sido publicados sobre 5 deles Oito casos haviam sido investigados
por Stevenson e seus associados, mas nenhum relato havia ainda sido
publicado sobre estes.
Testes Psicológicos
As Matrizes Coloridas Progressivas, forma das Matrizes
Progessivas de Raven, foram escolhidas para este estudo porque foram
projetadas para uso com crianças jovens, pessoas idosas e estudos
antropológicos com pessoas que não entendem a língua
inglesa. A escala foi descrita como "um teste de pensamento claro
e observação" e testa a capacidade para a razão
por analogia. O Teste de Quadro Vocabulário de Peabody consiste
numa lista de 175 palavras arranjadas em ordem de dificuldade crescente.
Como cada item é lido para a criança, à mesma é
mostrada quatro ilustrações preto-e-brancas numa página
e pede-se para escolher o quadro que melhor ilustra o significado da
palavra-estímulo oralmente apresentada. O teste foi traduzido
para o Sinhalês por P. Vimala e foi administrado sem ser padronizado
para crianças Sinhalesas. Em vez disso, um grupo de controle
foi usado para comparação.
A Escala de Sugestibilidade de Gudjonsson foi desenvolvida "para
avaliar as respostas individuais a questões dirigidas e instruções
retorno (feedback) negativo quando solicitadas para relatar um evento
factual de uma recordação". No início do teste,
uma pequena história fictícia é lida ao sujeito,
após a qual é pedido ao sujeito que relate o que é
lembrado da história. Então 20 questões são
perguntadas sobre o conteúdo da história, 15 das quais
são sugestivas de alguma forma. Finalmente o sujeito é
firmemente dito que ele ou ela havia feito um número de erros
e que é, consequentemente, necessário passar pelas questões
mais uma vez.
A GSS mede (1) a livre recordação (número de itens
lembrados da história); (2) confabulações (número
de itens oferecidos sobre a livre memória que não são
achados na história); (3) sugestibilidade cedida sob pressão
(números de itens dados antes do feedback negativo ser fornecido);
(4) mudança de sugestibilidade (uma mudança distinta na
natureza da réplica às 15 sugestíveis e 5 não-sugestíveis
questões) e (5) sugestibilidade total ( a soma dos dados e das
mudanças). Há duas formas de GSS; a história da
forma 2 é mais apropriada para crianças. O teste foi traduzido
pra o Sinhalês por Shanez Fernando e adaptado para crianças
do Sri Lanka.
O questionário Checklist de Comportamento Infantil - Modelo do
Professor - foi administrado para um dos professores da criança.
O Modelo do Professor é desenhado para obter relatos dos professores
sobre os problemas de seus pupilos, funcionamento adaptativo e performance
escolar. A maioria dos itens no Modelo do Professor do Checklist de
Comportamento Infantil são idênticos aos do Modelo dos
Pais.
Método Estatístico
Os dados para esta amostra combinada de sujeitos e crianças-controle
foram analisados pelo teste Wilcoxon de nível de assinatura par-combinado
para análise de uma variável. A análise multivariada
da variação foi conduzida nas maiores variáveis,
das quais o coeficiente de correlação canônica é
usado como um indicador do tamanho do efeito total (Johnson e Wichern,
1992). O programa SYSTAT foi usado para conduzir os cálculos
(SYSTAT, 1992).
Procedimento
O autor, um intérprete, um psicólogo nativo e o motorista
de uma van alugada visitaram cada sujeito sem aviso prévio na
casa ou escola dele. Na maioria dos casos, alguns membros da nossa equipe
já haviam entrevistado a criança e seus pais sobre o caso.
Nas escolas, professores ajudaram-nos a encontrar uma criança-controle
na mesma classe do sujeito a qual a data de nascimento estivesse mais
próxima da do sujeito. Se o sujeito estivesse em casa, nós
procuraríamos uma criança controle na mesma vizinhança
que fosse a mais próxima em idade possível. Nós
expressamos nossa gratidão com presentes de doces e canetas esferográficas
a essas crianças e a outras da casa, geralmente quando a sessão
terminava. Todas as famílias foram cooperativas e prestativas.
O Modelo do Professor do CCI foi administrado quase um ano e meio depois
dos outros testes/questionários.
Resultados
A inspeção dos principais resultados
(veja tabela 1) revela que as crianças que alegam memórias
de uma vida prévia parecem, geralmente, mais maduras que as outras
crianças. Seus conhecimentos sobre palavras e o entendimento
da linguagem (PPVT) é muito maior (z = 3.50, p < .001) e elas
têm uma memória melhor para eventos recentes (GSS; z= 2.56,
p < . 05). Os resultados das Matrizes Progressivas de Raven não
são significativamente maiores para crianças com alegadas
memórias de vida prévia (z = 1.85, NS), um resultado sugestivo
de que as diferenças vistas não são devidas as
a diferenças na capacidade de raciocinar por analogia. Crianças
alegando vidas prévias não são mais sugestivas
do que outras crianças (z = -1.43, N = 46, NS). Não há
indicações de que CORTs confabulam mais do que seus pares
(z= -.67, NS). A performance escolar das crianças alegando vidas
prévias é muito melhor que as do grupo de controle de
acordo com a avaliação de seus pais, como indicado pelo
Checklist de Comportamento Infantil (Wilcoxon z= 3.14, N=44, p< .02,
todos os testes foram bi-caudais). Mais importante, os professores relataram
um desempenho escolar muito maior (graus) para CORTs do que para seus
pares (z = 3.02, N= 38, p< .01). De acordo com seus parentes, CORTs
são maiores não escala de Atividade Social do CCBL do
que outras crianças (z = 2.64, N = 38, p< .01); elas aprendem
mais, comportam-se melhor na escola e trabalham mais duro. Análises
multivariadas das maiores variáveis, a saber, memória,
confabulações, sugestibilidade total, PPVT, Raven, performance
escolar e escore de problemas do CBCL- Modelo dos Pais - resultam em
uma diferença total significativa entre controles e sujeitos
(F7, 10 = 5.60, p< .01) com um tamanho de efeito, ou correlação
canônica, de r*=.89. De acordo com os parentes, CORTs aparentam
consideráveis problemas comportamentais. O CBCL - Modelo dos
Pais - revela um maior escore de problema (z = 3.48, p < .001) para
o grupo alvo. É interessante notar que o número de problemas
relatados varia particular e amplamente entre os CORTs (veja tabela
1). Na visão dos professores que observam as crianças
apenas na escola, os CORTs não tem mais problemas comportamentais
do que outras crianças (z=-.10, NS). Itens individuais da CBCL
nos quais os CORTs são significativamente maiores ou menores
que as crianças-controles são listados na tabela 2. De
acordo com seus parentes, CORTs são mais argumentativos, gostam
mais de estar a sós, são teimosas, faladoras, tendem a
se machucar, são muito preocupadas com meticulosidades ou limpeza,
exibem-se ou são menos "palhaças" e se envolvem
menos com outras crianças. Mais ainda, elas são nervosas,
tensas e sentem-se que têm de serem perfeitas e, às vezes,
são confusas. Algumas dessas crianças se excitam, tendem
a chorar mais e têm alguns medos, os quais parecem ser relacionados,
em muitos casos, às suas alegadas memórias de vidas prévias.
Os CORTs femininos diferiram significativamente em três itens
que não foram relatados por nenhum CORT masculino. Muitas das
garotas CORT estavam expressando um desejo de ser um membro do sexo
oposto e foram relatadas se comportar como o sexo oposto e guardando
coisas desnecessárias. De acordo com os professores, CORTs diferem
significativamente de outras crianças em sete itens na CBCL:
mais significativamente, elas "sentem que têm que ser perfeitas".
Outros itens que os pais indicaram significativamente altos não
são significativos no Modelo do Professor. É interessante
notar que os professores relataram que CORTs se dão melhor com
outras crianças, faltam à escola bem menos frequentemente,
são menos desobedientes, são mais altamente motivadas
e são menos explosivas e imprevisíveis em comportamento
do que seus pares.
Discussão
Os dados mostram que crianças que alegam memórias de vidas
prévias, quando comparadas com a amostra de controle, têm
maiores habilidades verbais, melhor memória e estão indo
muito melhor na escola que seus pares. Elas exigem mais de si, da mesma
forma que sentem que têm de serem perfeitas, um sentimento que
também deve contribuir para sua melhor performance escolar. Elas
são mais sérias como indicando por "brincar"
menos do que o grupo de controle. Neste estudo, não há
medida satisfatoriamente completa da inclinação para fantasia,
mas o número de itens adicionados na memória livre à
GSS foi usada como um indicador de confabulação. Crianças
alegando memórias de vidas passadas obtiveram menor escore nesta
medida, mas não significativamente menor. Isso não dá
suporta a hipótese de que tal inclinação faz com
que as crianças mais comumente aleguem memórias de vidas
passadas, embora crianças com uma rica vida de fantasia não
necessariamente acrescentem "fatos" ao teste de memória
verbal. As crianças que alegam memórias de vida passada
são socialmente isoladas? Elas obtêm um maior escore para
atividade social e são relatadas pelos professores como se entrosando
bem com as outras crianças, o que deve argumentar contra qualquer
alegação de isolamento. Elas são, entretanto, argumentativas,
são consideradas teimosas e falam demais. Essas características,
em balanço, não indicam isolamento social. Por outro lado,
elas também são frequentemente reservadas e gostam de
ficar sozinhas. Na época da primeira investigação
destas crianças, apenas três estavam sem um irmão
ou irmã e em média elas têm de dois a três
irmãos. Assim, não há sinal claro de isolamento
social nos dados e não é suportada a hipótese de
isolamento social dispondo as crianças a alegarem memórias
de vida prévia. Os resultados da GSS mostram que o grupo alvo
não tem maior sugestibilidade que seus pares. A hipótese
de que alta sugestibilidade predispõe as crianças a memórias
de vida prévia em culturas onde a crença na reencarnação
desempenha um papel maior não é suportada. Seus escores
modestos a normais de sugestibilidade, aliados a baixos escores para
confabulações, parecem indicar que memórias de
vida prévia podem ser internamente geradas, pelo menos inicialmente,
e não podem ser influenciadas por outras pessoas. Esta é
a linha de observação do autor sobre essas crianças,
as quais às vezes veementemente resistem aos esforços
de seus pais em suprimir que falem de suas memórias, como no
caso de Dilupa Nanayakkara, a qual a família Católica
Romana tentou suprimir seus discursos sobre uma vida prévia.
Também têm sido observado que estas crianças resistem
à considerável pressão de seus pais para pararem
de falar sobre as memórias. Deve, entretanto, ser acrescentado
que a maioria dos casos de alegações dessas crianças
aparenta encontrar suporte dos pais, especialmente se e após
alguma pessoa ter sido identificada com a vida, que os pais vêm
a acreditar, encaixar com as afirmações feitas pela sua
criança. O alto escore de problemas do nosso grupo alvo, como
demonstrado pelo Checklist de Comportamento Infantil, traz questionamentos
sobre as causas para seus problemas comportamentais, particularmente
desde que elas parecem mais maduras que as outras crianças. Mais
que qualquer coisa, elas são argumentativas, apreciam estar a
sós, falam demais, são teimosas e se ferem com facilidade.
Nesses aspectos, então, elas têm algumas características
"oposicionais" claramente definidas. Alguém pode especular
se estas características são causadas por sua persistência
na alegação em suas alegadas memórias e, assim,
causando dificuldades a parentes e outros, para os quais tais clamores
são embaraçosos. Também, seus desejos por solidão
poderiam inicialmente se ajustar a um desejo de estarem apenas com suas
memórias ou seria porque elas sentem-se diferentes de outras
crianças e pessoas como um resultado de suas alegações
singulares? Tais questões permanecem para serem respondidas em
estudos posteriores. A Cautela deve ser observada na interpretação
destas diferenças, porque não está claro se elas
são a causa ou o resultado das alegadas memórias, especialmente
visto que a maioria das crianças foi testada após terem
parado de falar de suas vidas prévias. Várias diferentes
abordagens podem ser feitas para a questão da realidade destas
alegadas memórias. São elas confabulações,
memórias reais ou subjetivamente genuínas, mas falsas
impressões de fatos da memória ou reconhecimentos? Elas
são, talvez, relacionadas à experiências de déjà
vu, que têm sido definidas como "ilusões de percepção
falsa de uma nova cena ou experiência familiar" (Wilkening,
1973, p. 56) e são relatadas por uma larga parcela da população
geral (59% nos EUA, veja Greeley, 1975). Subjetivamente, experiências
de déjà vu envolvem memórias e reconhecimentos,
como fazem alegações de memórias de uma vida prévia.
O autor não encontrou estudos da estrutura da personalidade de
pessoas que relatam experiências de déjà vu. Tais
dados poderiam servir para uma interessante comparação
com os dados obtidos aqui, embora experiências de déjà
vu não sejam específicas para um grupo etário particular,
tal como as memórias de vida prévia são, as quais
são predominantemente alegadas por crianças dos 3 aos
5 anos. Nós não temos um meio objetivo ainda para averiguar
o que realmente se passa nas mentes dessas jovens crianças, mas
é a impressão do autor de que elas estão sinceramente
convencidas, pelo menos na maioria dos casos, da realidade de suas alegadas
memórias, tão certamente do que a maioria das pessoas
alegando déjà vu. Esta pesquisa mostrou que CORTs se distinguem
claramente de outras crianças em vários aspectos; seus
vocabulários e suas performance escolar são apreciavelmente
maiores. De qualquer forma, as hipóteses apresentadas no início
deste artigo não foram confirmadas, assim como confabulação,
isolamento social e sugestibilidade foram consideradas. O alto escore
de problemas no Modelo dos Pais do CBCL poderia indicar um relacionamento
perturbado com os pais. Crianças argumentadoras, faladoras e
perfeccionistas são certamente mais exigentes para seus pais
que outras crianças. Contudo, isso não necessariamente
leva a um relacionamento perturbador entre filhos e pais e alguns dos
problemas experimentados pelos CORTs devem emergir devido à suas
alegações de lembrar de uma vida prévia. Estes
pontos precisam ser explorados posteriormente.
É necessário lembrar que, em seu estudo, Haraldsson não
levou em conta fatores que aumentam a força e a solidez dos casos,
como a precisão das informações fornecidas pelas
crianças e marcas de nascimento. O autor se limitou apenas à
investigação de aspectos psicológicos, cognitivos
e comportamentais das crianças.
Fonte: http://parapsi.blogspot.com/2008/10/estariam-as-crianas-que-alegam-memrias.html
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