A imposição
sexual - VARELLA, Drauzio
Desejos sexuais percorrem circuitos de neurônios
que fogem do controle consciente.
Nos anos 1960, época em que os
homossexuais ousaram emergir das sombras nos grandes centros urbanos,
os estudiosos, surpresos com tantos homens e mulheres que assumiam a
homossexualidade publicamente, imaginavam que a questão teria
caráter puramente comportamental. O termo "orientação
sexual" se tornou tão generalizado que se infiltrou nos
textos médicos, nos livros de psicologia e acabou aceito com
orgulho pela própria cultura gay.
Essa visão, no entanto, jamais
explicou a existência da homossexualidade em todas as culturas
conhecidas, nem a precocidade de sua instalação definitiva
em meninos e meninas muito antes do que costumamos chamar de idade da
razão, nem o fato de que a maioria da população
é heterossexual sem ter sequer cogitado a opção
contrária.
Insatisfeitos com essa interpretação comportamental e
entusiasmados com os avanços obtidos pelo Projeto Genoma a partir
dos anos 1990, os geneticistas têm procurado identificar a influência
dos genes envolvidos na orientação sexual.
Em 2005, o debate dos genes versus ambiente ganhou dimensões
inesperadas com a publicação na revista "Cell"
de uma pesquisa impecavelmente conduzida na Academia Austríaca
de Ciências, com drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam
bananas maduras, modelos de tantos estudos genéticos.
Há vários anos foi descrita
nas drosófilas a existência de um gene-mestre (fru), capaz
de orquestrar um grupo de genes encarregado de coordenar um circuito
de 60 neurônios, responsável pela condução
dos estímulos sexuais masculinos ou femininos. Basta lesar um
desses neurônios para que o inseto não consiga se acasalar
adequadamente.
O ato sexual nas drosófilas obedece
a um ritual bem conhecido: quando se aproxima da fêmea, o macho
encosta a perna na dela, toca uma música com as asas para enternecê-la,
lambe o sexo da fêmea quando a música termina e, somente
depois, copula com ela durante 20 minutos, rigorosamente.
No trabalho citado, os austríacos
transplantaram a versão masculina do gene fru das drosófilas
machos para um grupo de fêmeas. E, num experimento paralelo, a
versão feminina do mesmo gene para um grupo de machos.
Para espanto geral, as fêmeas que receberam a versão masculina
de fru, quando levadas à presença de outra fêmea,
adotavam o ritual masculino: tocavam a perna da outra, usavam as asas
para a música sedutora e tudo mais. Quando colocadas em ambientes
com moscas de ambos os sexos, elas perseguiam sexualmente outras fêmeas
sem dar a mínima para o sexo oposto.
Ao contrário, quando a versão
feminina de fru foi transplantada para os machos, eles se tornaram mais
passivos, desinteressados pelas fêmeas e atraídos por outros
machos.
No final os autores concluíram: "Os dados mostram que comportamentos
instintivos podem ser especificados por programas genéticos da
mesma forma que o desenvolvimento morfológico de um órgão
ou de um nariz".
Há muito sabemos que comportamentos
complexos em homens e outros animais costumam acontecer sob a influência
direta ou indireta de diversos genes. Geralmente são tantos que
nos referimos a eles como "constelações de genes".
Por isso, a pesquisa dos austríacos causou comoção
nos meios científicos e na imprensa leiga (foi matéria
de primeira página no jornal Folha de São Paulo e do "New
York Times", por exemplo).
Gero Miesenboeck, professor de biologia celular em Yale, comentou os
achados com as seguintes palavras: "Essa é uma demonstração
soberba. Pela primeira vez fica demonstrado que um único gene
é capaz de controlar um comportamento de alta complexidade. É
intrigante a possibilidade de que outras características comportamentais,
como reagir com violência às frustrações,
fugir quando assustado ou rir quando alegre, podem estar programadas
nos cérebros humanos como produtos da herança genética".
Embora não haja certeza de que
em mulheres e homens exista um gene equivalente ao gene fru da drosófila,
é preciso lembrar que a genética humana sempre se valeu
das drosófilas para elucidar nossos mecanismos básicos.
É muito provável que o comportamento sexual esteja sob
o comando do que chamamos de programa genético aberto.
Programas abertos são aqueles em que o catálogo de instruções
impresso no DNA admite, dentro de certos limites, a inclusão
de informações colhidas por aprendizado, condicionamento
ou outras experiências. Por exemplo, se vedarmos o olho esquerdo
de uma criança ao nascer, ao retirarmos a venda três meses
mais tarde ela terá perdido definitivamente a visão desse
olho, embora enxergue normalmente com o outro. O programa genético
responsável pela distribuição dos neurônios
da retina no cérebro precisa interagir com a luz para incorporar
as informações necessárias ao desenvolvimento pleno
da visão.
Na biologia moderna, o espaço
para o velho debate genes versus ambiente está cada vez mais
exíguo. O homem é resultado de uma interação
complexa entre o programa genético contido no óvulo fecundado
e o impacto que a experiência exerce sobre ele. Como disse o mestre
Ernst Mayr, um dos grandes biólogos do século passado:
"Não existe atividade, movimento ou comportamento que não
seja influenciado por um programa genético".
Considerar a orientação sexual mera questão de
escolha do indivíduo é desconhecer a natureza humana.
Fonte: http://www.drauziovarella.com.br/ExibirConteudo/501/a-imposicao-sexual