A pertinência dos conceitos darwinianos para as ciências
sociais continua a ser uma questão bem controversa. Apesar de
o biólogo Ernest Mayr (1904-2005) ter alertado,
desde 1964, que a estrutura conceitual do darwinismo é
um sistema filosófico, foram necessárias três
décadas para que se começasse a nela reconhecer uma teoria
geral dos sistemas evolutivos como categoria específica dos sistemas
adaptativos complexos. E, mesmo entre os que passaram a pensar tecnologia,
economia, sociedade e cultura em termos evolucionários, permanece
o debate sobre a pertinência parcial ou universal do trinômio
variação/seleção/replicação.
A dificuldade em reconhecer a aplicação
dessa teoria na análise do desenvolvimento das sociedades humanas
talvez se deva a três diferenças fundamentais entre
a evolução biológica e a mudança cultural.
A mais óbvia está na enorme capacidade que tem a cultura
— e que falta à natureza — para a rapidez exponencial.
No que pode ser comparado a um piscar de olhos do ponto de vista da
história geológica, a mudança cultural transformou
a superfície do planeta como nenhum acontecimento da evolução
natural jamais poderia ter conseguido na escala darwiniana de miríades
de gerações, mesmo que se considere que o período
Cambriano possa ser comparável à revolução
científica iniciada em 1750.
Em segundo lugar, a evolução darwiniana
é essencialmente uma história de proliferação
contínua. Quando uma espécie se separa de sua linha ancestral,
isso é irreversível. As espécies não se
amalgamam ou se juntam com outras. Elas interagem em imensa variedade
de ecossistemas, mas não podem se juntar fisicamente em uma única
unidade reprodutiva. Ou seja, a evolução natural é
essencialmente um processo de constante separação e distinção,
ainda que a hibridação de espécies (cruzamento
de indivíduos com genótipos diferentes) possa ser um mecanismo
de especiação. Por outro lado, a mudança cultural
pode receber poderoso reforço do amálgama de diferentes
tradições ou da troca de informações entre
elas. O impacto explosivamente útil (ou destrutivo) de tradições
compartilhadas fornece à mudança cultural humana algo
inteiramente desconhecido no lento e imprevisível mundo da evolução
darwiniana
Em terceiro lugar, os organismos não calculam
o que seria melhor para eles, nem desenvolvem características
adaptativas durante suas vidas, que seriam transmitidas aos descendentes
sob a forma de uma hereditariedade alterada. Essa foi uma das principais
suposições de Lamarck. Entretanto, como logo depois demonstrou
Mendel, a herança natural nada tem dessa suposição
lamarckiana. Nas sociedades humanas, porém, qualquer conhecimento
adquirido em uma geração pode passar diretamente para
a seguinte por "mero" aprendizado. E foi exatamente por isso
que se adotou a fórmula didática de dizer que a mudança
cultural é "lamarckiana". A herança dá
às inovações humanas um caráter direcional
e cumulativo que é absolutamente estranho à teoria darwiniana
da evolução. Como gostava de enfatizar o paleontólogo
Stephen Jay Gould, a evolução natural não abrange
nenhum princípio de progresso previsível, ou de movimento
no sentido de uma maior complexidade. A mudança cultural, ao
contrário, é potencialmente progressiva ou autocomplexificadora,
pois permite o acúmulo de inovações favoráveis
mediante transmissão direta e amálgama de tradições.
Isso possibilita que qualquer cultura escolha e junte as invenções
mais úteis de diversas sociedades separadas.
Pois bem, aí está um bom exemplo da controvérsia.
Os economistas Geoffrey M. Hodgson e Thorbjørn Knudsen(1) contestam
a pertinência dessa fórmula largamente aceita de analogia
entre mudança cultural e lamarckismo. Segundo a dupla, só
se poderia qualificar alguma herança como lamarckiana se caracteres
adquiridos no nível fenotípico fossem codificados no genótipo
que passa para a geração seguinte. Por isso, estaria errada
a alusão à doutrina de Lamarck para o que chamam de "evolução
socioeconômica", mesmo que alguns genótipos sociais
— como hábitos e rotinas — possam se adaptar em um
fenótipo qualquer, como uma organização, por exemplo.
Em contraste, nenhum problema desse tipo existiria, segundo eles, para
uma descrição propriamente darwiniana da "evolução
socioeconômica".
Esse é um dos principais motivos de discórdia
entre os que consideram pertinente o uso de conceitos darwinianos
nas ciências sociais, como mostram, por exemplo, as questões
básicas selecionadas para o workshop interdisciplinar "Evolutionary
Concepts in Economics and Biology", organizado em dezembro de 2004
pelo Instituto Max Planck de Economia.(2) Quatro dos trabalhos ali apresentados,
que estão no número de outubro de 2006 do "Journal
of Evolutionary Economics", dedicam-se à questão
da universalidade do darwinismo. Como diz a própria expressão,
trata-se de uma pretensão de validade geral para a já
mencionada trinca: variação, seleção e retenção
(ou replicação). Além disso, a própria questão
das "unidades de seleção" continua muito polêmica.
Para Richard Dawkins, por exemplo, elas são os "memes",
enquanto para Richard Nelson são as "rotinas", e para
Robert Boyd, as "variantes culturais".(3)
E não se trata apenas de uma "invasão"
da biologia em domínios sociais e culturais. Está em curso,
na verdade, um processo bem mais amplo, como mostra a apresentação
sistemática de Ricardo Waizbort(4) de duas fortes tendências:
a psicologia evolutiva, herdeira da controvertida sociobiologia,
e o programa de pesquisa dos memes, uma investigação
ainda incipiente que pretende tratar a informação cultural
e as próprias tradições como complexos de idéias
que se reproduzem via cérebros humanos. Para se compreender o
comportamento humano de forma mais integrada e em mais dimensões,
enfatiza Waizbort, são fundamentais os estudos da interação
entre constituição genética e ambiente, instinto
e aprendizagem, genes e memes, natureza e cultura.
Enfim, não é necessário ir mais
longe para justificar a necessidade de um esforço concentrado
de esclarecimento das questões envolvidas nesses debates. Foi
com esse objetivo que o Núcleo de Economia Socioambiental da
Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA)
da USP e o IEA firmaram parceria para realizar ao longo de 2007 o Ciclo
Temático Evolução Darwiniana e Ciências Sociais.
O ciclo terá debates mensais, sempre com mesas
híbridas (um pesquisador das ciências naturais ao lado
de outro das sociais). A intenção é que o conjunto
de debates permita estabelecer uma espécie de "estado da
arte" no âmbito das implicações do darwinismo
para as ciências sociais (e não apenas para a economia).
O primeiro evento será no dia 22 de março, às 15h,
no IEA, com a participação do biólogo Ricardo Waizbort
(Fiocruz) e do sociólogo Carlos Alberto Dória (Unicamp).
Notas
1. Geoffrey M. Hodgson & Thorbørn Knudsen,
"Dismantling Lamarckism: Why Descriptions of Socio-Economic Evolution
as Lamarckian Are Misleading", in Jornal of Evolutionary Economics,
nº 4, vol. 16, outubro de 2006, pp. 343-66.
2. Três questões básicas orientaram
esse workshop: "What precisely may be the relevant insights from
evolutionary biology for evolution in the cultural sphere, particularly
in the domain of economics? What role do cultural forms of adaptation
play? What general, unifying insights and principles, if any, can be
gained from interdisciplinary dialogue?".
3. Cf. Eric D. Beinhocker, The Origin of Wealth. Evolution,
Complexity, and the Radical Remaking of Economics, Boston, Harvard Business
School Press, 2006, p. 284.
4. Ricardo Waizbort, Notas para uma Aproximação
entre o Neodarwinismo e as Ciências Sociais, in História,
Ciência, Saúde — Manguinhos, nº 2, vol. 12,
maio-agosto de 2005, pp. 293-318.
* José Eli da Veiga é professor titular
do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade (FEA) da USP e coordenador do Núcleo de Economia
Socioambiental (Nesa) do mesmo departamento.
http://www.iea.usp.br/iea/evoluciensociais.html
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