Espiritualidade e Sociedade




Izabel Vitusso e Eliana Haddad

>    Modernização da Imprensa Espírita

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Izabel Vitusso e Eliana Haddad
>   Modernização da Imprensa Espírita

 

A evolução tecnológica eleva a importância do papel social da comunicação e finca um marco na história da Humanidade

Especificamente neste ano, o espiritismo invade a mídia, provocando uma divulgação em massa das temáticas espíritas. Curiosos e estudiosos, amigos ou inimigos do espiritismo, em um caldeirão de termos e opiniões, passaram a conviver com um cotidiano aparentemente cheio de novidades sobre mediunidade, reencarnação, vida após a morte, espíritos. Elas estão em evidência nos jornais, revistas, programas de TV, internet, livros, filmes, peças de teatro. Tudo é muito rápido, passageiro, repetitivo às vezes, e nem sempre nos damos conta de que ainda há muito por fazer na comunicação social espírita, mesmo porque é preciso diferenciar informação de formação.

Tal fenômeno acontece não só para os assuntos de espiritualidade, mas em todos os campos da atividade humana. O específico deixou de ser privilégio de poucos. A dificuldade não está mais na busca da informação, mas na compreensão do seu conteúdo. E aí é que entra a responsabilidade da comunicação social espírita, que tem nas mãos o desafio de não se perder das raízes plantadas pelos espíritos através da terceira revelação e ao mesmo tempo permitir, sem medo, a chegada da modernidade.

Há poucos dias, o sociólogo italiano Massimo di Felice, professor da USP, doutor em ciências da comunicação, afirmava em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (“Cidadãos 365 dias por ano”, 24/04/2010) que o momento em que vivemos é tão impactante quanto o que ocorreu no século 15, com o advento da prensa de Gutemberg, destacando o papel da comunicação pela mídia digital, com a internet e redes sociais online, que elimina a hierarquia no processo e cria uma nova realidade em torno dos debates e da formação de opinião. Fala inclusive, sobre os impactos na vida política de uma nação, tendo como consequência um marco de uma nova Era.

Na verdade, a importância do papel da comunicação e seu impacto sociocultural não é de agora. Assim que lançou O livro dos espíritos, Allan Kardec também pensou em utilizar a mídia como um dos recursos para auxiliar na divulgação da nova filosofia que chegava à área do conhecimento humano. Foi então que lançou a Revista Espírita, tendo-a como um laboratório que divulgasse as impressões coletadas, os comentários sobre entendimentos, dúvidas, o impacto das idéias na sociedade, casos diversos de manifestações que ilustrassem a literatura recém-lançada.

Quem já leu Viagem espírita em 1862 (FEB), viu descrita a vontade do codificador em ver in loco as repercussões da divulgação do espiritismo, apertar a mão dos simpatizantes da doutrina, retribuir as manifestações de amizade, em uma das viagens que fez, por cerca de dois meses, pelo interior da França, entendendo que o processo de comunicação sobre tudo aquilo que era novo em matéria de conhecimento humano não se resumia apenas em publicar os livros, mas trocar com o público, ir além, para posteriormente levar a um fórum maior de entendimento, através da Revista. Uma postura extremamente pedagógica e arrojada do educador Allan Kardec, que tinha a construção do conhecimento como algo em movimento.

Contemporaneidade de Kardec

Além de um bocado de talento, escrever jornalisticamente é uma ciência e Kardec tinha orientação para isso. Toda a coleção da Revista Espírita e também textos de Obras póstumas revelam sua preocupação e preparo como editor. Uma das orientações que recebeu da espiritualidade, após a publicação de O livro dos espíritos, em 1857, na casa da médium Dufaux, dizia:

“De começo, deves cuidar de satisfazer à curiosidade; reunir o sério ao agradável: o sério para atrair os homens de Ciência, o agradável para deleitar o vulgo (…). É preciso evitar a monotonia por meio da variedade, congregar a instrução sólida”.

Kardec não só segue as instruções, totalmente atuais, como deixa um verdadeiro roteiro que, se aplicado, eleva o patamar de qualquer meio de comunicação e os resultados que almeja.

Vale lembrar que não havia no século 19 tanta possibilidade de interação, globalização da mídia, nem a rapidez quase instantânea para respostas sobre os mais diversos questionamentos, imagine-se sobre a origem e a destinação do homem. Hoje, somos bombardeados com tantas informações, muitos já começamos a sofrer o impacto do excesso delas, como a falta de tempo invariável dos chats, da síndrome dos e-mails inúteis e de uma papelada sem fim de conteúdos diversos. Mas a pergunta que se deve fazer é: essas informações têm possibilitado que as pessoas se tornem melhores, mais equilibradas e felizes? Aliás, que felicidade é essa que se tem buscado? E – também – quais as “receitas” que a mídia tem oferecido?

Ora, se desejarmos efetivamente fazer parte, contribuir para a melhoria do cenário social do planeta, precisamos estar bem atentos para não colocarmos as mãos em massa errada. Lembrar, primeiramente, que antes de se instruir é preciso aprender a amar, como tão bem nos ditou o Espírito da Verdade, no Evangelho.

A questão da responsabilidade social da comunicação espírita é mesmo muito séria e exige discernimento. Como iremos pautar nossos veículos? Vamos oferecer o que o público quer ou o que ele precisa?

Pensando assim, no amor, sem deixarmos de lado a técnica e o conhecimento, é claro, teremos a segurança necessária para elaborarmos uma comunicação realmente útil, eficiente e agradável, tão sonhada por Kardec, orientada pela Espiritualidade, e não apenas para agradar o nosso orgulho, a nossa vaidade.

A sociedade precisa e espera por isso. Há excesso de comunicação, mas também fome espiritual no ar.

O que pode melhorar

  •  adequação da linguagem: eruditismo, palavras arcaicas, termos específicos, discurso excludente, conotação pregatória já não têm espaço no mundo atual.
  •  identidade visual atual: o amadorismo emperra a excelência da comunicação e o avanço da difusão do espiritismo além das fronteiras. É preciso atentar para os padrões do leitor globalizado.
  •  ética jornalística: em reproduções de trechos de obras, artigos de jornal, dentre outros, é preciso fazer valer o que recomenda a ética jornalística: citar a autoria, a fonte primária e não se render à tentação de alterar o texto original.


    “Reconheci que fora uma felicidade não ter tido quem me fornecesse fundos, pois assim eu me conservara mais livre, ao passo que outro interessado houvera talvez impor-me suas idéias e sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém, embora, pelo que respeitava ao trabalho, me fosse pesada a tarefa.”
    Allan Kardec, Obras póstumas.

 

  •  Ter conexão com a realidade: O espiritismo interfaceia com todas as áreas do conhecimento que instigam a Humanidade, o que só por essa razão, já não seria difícil arregimentar leitores.

 

“A história da doutrina espírita, de alguma forma, é a do espírito humano”. Ela “nos oferece, enfim, a única solução possível e racional de uma multidão de fenômenos morais e antropológicos, dos quais, diariamente, somos testemunhas, e para os quais se procuraria, inutilmente, a explicação em todas as doutrinas conhecidas”.
– Allan Kardec, RE, 1858.

  •  Respeitar a crença do outro: embora o espiritismo não seja adepto à prática proselitista, existe um comportamento generalizado, quase sempre negado, de se colocar o espiritismo como o único caminho para o progresso espiritual, reflexo da indiferença e preconceito em relação às crenças e religiões.

 

“O estudo de uma doutrina, qual a doutrina espírita, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. Abstenham-se, portanto, os que entendem não serem os fatos dignos de sua atenção. Ninguém pensa em lhes violentar a crença; concordem, pois, em respeitar a dos outros”.

 

  • Dar voz ao interlocutor: grande parte do que é publicado hoje na imprensa espírita não inclui a experiência do desconhecido que experimenta o espiritismo em sua vida, como fazia Kardec no tempo da Revista Espírita, que convidava a todos para escrever sobre as manifestações que ocorriam, sobre pressentimentos, lendas e crenças populares; aparições e outros.
  • Proporcionar a instrução e a reflexão: a coerência dos fundamentos espíritas deve despertar os sentimentos e fazer emergir a fé pela razão. Porém ninguém convence verdadeiramente ninguém a nada. O papel da imprensa espírita é muito maior que o de agente de conversão ou de pregação religiosa.
  • Ter em vista o objetivo da divulgação: A melhor forma de reconhecer o valor do trabalho daqueles que nos antecederam na tarefa da comunicação é nos empenharmos para que as idéias espíritas transitem pela contemporaneidade, de maneira livre e integrada, acompanhada de nossas ações coerentes, servindo de apoio para que as pessoas reflitam sobre si, caminhem de forma mais plena consigo mesmas, entendendo sua relação com a Criação e com o próximo.

 

"O espiritismo parte do Alto, e não chegará às massas senão liberto das idéias falsas, inseparáveis das coisas novas.”
– Allan Kardec, RE, 1858.

 

Fonte:
Texto publicado originalmente no jornal Correio Fraterno Maio/Junho de 2010

 

Izabel Vitusso é editora do jornal Correio Fraterno. Co-autora do livro Atos de Amor (Minas Editora) e autora de Terra Fértil, semente lançada na história do espiritismo em Uberlândia (AME – Uberlândia-MG). Vice-presidente do Lar da Criança Emmanuel – São Bernardo do Campo-SP. Expositora e articulista espírita.

Eliana Ferrer Haddad é jornalista responsável do jornal Correio Fraterno. Formada em Comunicação Social, atua na imprensa espírita há vários anos. Participa do programa Vida Além da Vida, é palestrante e expositora do IEEF- Instituto Espírita de Estudos Filosóficos.

 


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